Uma voz se ergue em meio à multidão.
Depois outra.
Depois milhares.
E, quando milhares de vozes se encontram no mesmo espaço público e passam a expressar uma mesma esperança, o que se forma já não é apenas um ato político. Forma-se um acontecimento social. Um daqueles momentos em que a rua deixa de ser apenas caminho e passa a ser testemunho da História.
Neste domingo (11/10/2026), a Avenida Paulista, em São Paulo, transformou-se novamente em palco da democracia brasileira.
Entre bandeiras, palavras de ordem, abraços, gritos e orações, uma multidão ocupou uma das avenidas mais simbólicas do país para expressar uma escolha política e, sobretudo, uma expectativa de futuro.
No centro daquela massa humana, um grito se repetia:
“Lula presidente.”
Mas compreender aquele momento exige olhar para além da palavra de ordem.
Porque, antes do nome de qualquer candidato, existe uma sociedade.
Antes do palanque, existe o trabalhador.
Antes da campanha, existe o cidadão.
Antes da urna, existe a vida concreta de milhões de brasileiros que acordam cedo, trabalham, produzem, educam seus filhos, pagam impostos, enfrentam dificuldades e continuam esperando que a democracia seja capaz de produzir não apenas liberdade formal, mas também dignidade material.
É dessa realidade que nasce a política.
Liberdade pelo trabalho
A liberdade não pode existir apenas como princípio abstrato escrito em Constituições e discursos.
Ela precisa existir na vida cotidiana.
Para quem depende do próprio esforço para sobreviver, liberdade significa poder trabalhar, alimentar a família, educar os filhos, ter acesso à saúde, morar com dignidade e envelhecer sem abandono.
Por isso, a liberdade encontra no trabalho uma de suas expressões mais profundas.
Foi pelo trabalho que o Brasil foi construído.
Pelas mãos do agricultor, do operário, do comerciário, do professor, do enfermeiro, do motorista, do pequeno empreendedor, do servidor público, do profissional liberal e de milhões de homens e mulheres anônimos que sustentam diariamente a economia e a vida social do país.
A política que despreza o trabalho perde sua razão histórica.
O Estado que abandona quem trabalha rompe o pacto elementar que sustenta uma sociedade democrática.
E uma economia que cresce sem distribuir oportunidades produz riqueza, mas não necessariamente produz justiça.
Trabalho pela justiça
O trabalho precisa conduzir à justiça.
Não apenas à justiça dos tribunais, indispensável ao Estado de Direito, mas à justiça compreendida em seu sentido social mais amplo: igualdade perante a lei, proteção dos direitos, reconhecimento do esforço, acesso às oportunidades e respeito à dignidade humana.
O Brasil conhece profundamente a desigualdade.
Conhece a concentração de renda.
Conhece a pobreza transmitida entre gerações.
Conhece as dificuldades enfrentadas por quem nasce distante dos centros de decisão econômica e política.
Conhece, também, a capacidade extraordinária de seu povo de resistir.
Por isso, cada eleição brasileira carrega algo maior do que a escolha de governantes. Carrega a disputa sobre que tipo de sociedade se pretende construir.
Uma sociedade pode escolher a exclusão ou a inclusão.
Pode considerar a pobreza um destino inevitável ou enfrentá-la como problema político.
Pode concentrar oportunidades ou democratizá-las.
Pode tratar o cidadão como número estatístico ou reconhecê-lo como sujeito de direitos.
Essas escolhas definem governos.
Mas, sobretudo, definem épocas.
Justiça pela fraternidade
A justiça, quando se transforma apenas em norma e perde sua dimensão humana, torna-se insuficiente.
Uma sociedade verdadeiramente democrática necessita também de fraternidade.
Fraternidade não significa ausência de divergência.
A democracia é feita precisamente de divergências.
Significa reconhecer que o adversário político continua sendo cidadão. Que a diferença de opinião não elimina a humanidade do outro. Que nenhuma eleição autoriza a destruição das instituições e nenhuma vitória concede poder absoluto.
O Brasil precisa reaprender essa lição.
Nos últimos anos, o debate público brasileiro foi marcado por antagonismos profundos, conflitos institucionais, radicalização política e crescente dificuldade de diálogo.
Há uma fronteira que nenhuma democracia deveria ultrapassar: a transformação do adversário em inimigo.
Quando isso acontece, desaparece o espaço da política e surge o terreno da intolerância.
A República somente permanece de pé quando seus cidadãos compreendem que podem disputar duramente o poder sem destruir as regras que permitem a própria disputa.
Fraternidade pelo amor ao próximo
Existe ainda uma dimensão anterior à política.
É a dimensão humana.
Nenhuma sociedade se sustenta apenas pela economia, pela legislação ou pelas instituições.
Sociedades também são sustentadas por valores.
Entre eles está um dos princípios mais antigos da civilização: o amor ao próximo.
Pode parecer uma expressão distante do vocabulário político contemporâneo. Não deveria ser.
Amar o próximo, na vida pública, significa reconhecer sua dignidade.
Significa não aceitar que alguém passe fome quando existem recursos para alimentá-lo.
Significa não considerar normal que crianças abandonem a escola.
Significa não aceitar que idosos sejam deixados sem proteção.
Significa compreender que desenvolvimento econômico e responsabilidade social não são inimigos.
São partes de um mesmo projeto civilizatório.
A avenida e o país
A Avenida Paulista possui força simbólica justamente porque nela diferentes Brasis se encontram.
Ali estão bancos e trabalhadores.
Grandes empresas e vendedores ambulantes.
Executivos e estudantes.
Turistas e moradores.
Riqueza e desigualdade dividem o mesmo espaço urbano.
Quando uma multidão ocupa aquela avenida, portanto, ocupa também um dos símbolos das contradições brasileiras.
Neste domingo, muitos corações bateram naquele espaço.
Havia muitos gritos.
Havia muitas orações.
Havia famílias, militantes, trabalhadores, jovens e idosos.
Cada pessoa trazia consigo suas próprias razões.
Mas havia uma mensagem coletiva evidente: parcelas expressivas da sociedade brasileira continuam dispostas a ocupar o espaço público, defender suas convicções e participar diretamente da vida política do país.
Isso precisa ser respeitado.
Independentemente da preferência eleitoral.
Lula e a permanência de um fenômeno político
Poucos personagens da história republicana brasileira atravessaram tantas décadas ocupando posição central na vida política nacional quanto Luiz Inácio Lula da Silva.
Sua trajetória está profundamente associada ao movimento sindical, à redemocratização, à fundação do Partido dos Trabalhadores, às eleições presidenciais desde o final do século XX e aos debates sobre desenvolvimento econômico, inclusão social e papel do Estado.
É possível apoiar Lula.
É possível criticá-lo.
É possível rejeitar integralmente seu projeto político.
Tudo isso pertence ao campo legítimo da democracia.
O que dificilmente pode ser negado é a dimensão histórica de sua presença na política brasileira e sua capacidade persistente de mobilização popular.
O grito de “Lula presidente” ouvido neste domingo na Avenida Paulista precisa ser compreendido dentro dessa longa trajetória.
Não como unanimidade nacional — porque a democracia jamais exige unanimidade —, mas como manifestação política concreta de cidadãos que fizeram uma escolha.
Democracia não pertence aos governantes
Existe um princípio que precisa ser repetido sempre que a disputa pelo poder se intensifica:
A democracia não pertence aos presidentes.
Não pertence ao Congresso.
Não pertence ao Supremo Tribunal Federal.
Não pertence aos partidos políticos.
Não pertence às Forças Armadas.
Não pertence à imprensa.
Todas essas instituições exercem funções essenciais.
Mas a soberania democrática pertence ao povo.
É do cidadão que deriva a legitimidade do poder político.
Por isso, nenhum governante deve considerar-se maior do que a República e nenhuma instituição deve considerar-se superior à Constituição.
A força de uma democracia está precisamente na existência de limites.
Limites para governantes.
Limites para parlamentares.
Limites para juízes.
Limites para empresas.
Limites para todos aqueles que exercem poder.
Sem limites, a democracia degenera.
O direito de escolher
O Brasil se aproxima de mais um momento decisivo de sua história política.
As urnas novamente falarão.
Até lá, discursos serão feitos, alianças serão construídas, promessas serão apresentadas, críticas serão lançadas e projetos distintos de país disputarão a confiança do eleitor.
Assim deve ser.
Porque democracia é conflito regulado pela lei.
É disputa submetida ao voto.
É divergência resolvida pelas instituições.
É poder temporário.
Quem vence governa.
Quem perde fiscaliza.
E todos permanecem subordinados à Constituição.
Esse princípio simples foi conquistado ao longo de uma história marcada por golpes, autoritarismos, rupturas e períodos em que o brasileiro não pôde escolher livremente seus governantes.
Não é uma conquista pequena.
Precisa ser preservada.
A voz que veio da multidão
Neste domingo, porém, antes das análises eleitorais, das pesquisas, das estratégias partidárias e dos cálculos políticos, havia uma imagem poderosa.
Uma multidão.
Uma avenida.
Muitas vozes.
Muitos corações.
Muitos gritos.
Muitas orações.
E uma sociedade exercendo o direito de ocupar o espaço público e dizer o que pensa.
É assim que a democracia respira.
Às vezes pelas instituições.
Às vezes pelas urnas.
E, em determinados momentos da História, pelas ruas.
Na Avenida Paulista, uma voz se ergueu em meio à multidão.
Era a voz da liberdade.
A liberdade pelo trabalho.
O trabalho pela justiça.
A justiça pela fraternidade.
A fraternidade pelo amor ao próximo.
E, naquele domingo, entre milhares de brasileiros, essa voz encontrou uma palavra de ordem:
Lula presidente.
O futuro será decidido pelo voto.
Mas a democracia começa muito antes da urna.
Começa quando o cidadão compreende que sua voz importa.
E quando uma multidão descobre que muitas vozes, reunidas, podem fazer pulsar o coração político de uma nação.
*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.








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