Neste domingo (11/10/2026), a Avenida Paulista, em São Paulo, recebeu a Marcha pela Democracia, manifestação que reuniu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, integrantes do governo, lideranças partidárias, estudantes, apoiadores e artistas em uma mobilização que incorporou à disputa eleitoral a defesa do fim da escala de trabalho 6×1. Com concentração diante do Museu de Arte de São Paulo (Masp) a partir das 11 horas e trajeto previsto até a Praça Roosevelt, o ato ocorreu três dias antes da sessão do Senado marcada para dar continuidade à tramitação da PEC 221/2019, que reduz de 44 para 40 horas a jornada máxima semanal, estabelece dois dias de repouso remunerado e preserva os salários.
Ato reúne núcleo político do governo e artistas
A manifestação contou com a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), de Fernando Haddad (PT), do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos (PSOL), das ex-ministras Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede) e do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT).
Também participaram parlamentares e candidatos ligados à base governista, entre eles Carlos Zarattini (PT) e Luna Zarattini (PT). A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), que teve papel destacado na mobilização política em torno da redução da jornada de trabalho, também foi registrada entre as lideranças presentes.
No campo artístico, a cobertura disponível confirmou as presenças do ator Humberto Carrão e do cantor Baco Exu do Blues, incorporando representantes da cultura à mobilização.
A marcha integra uma sequência de manifestações relacionadas à campanha presidencial no segundo turno das Eleições 2026. Segundo a CNN Brasil, o evento deste domingo representou o quinto dia de atos voltados à mobilização pela reeleição de Lula.
Até o fechamento desta reportagem, as fontes consultadas não apresentavam uma estimativa independente e metodologicamente verificável do número de participantes. Por essa razão, não é possível afirmar com precisão o tamanho do público apenas a partir de fotografias, vídeos ou avaliações de organizadores e apoiadores.
Fim da escala 6×1 ganha centralidade no ato
Embora a manifestação tenha dimensão eleitoral mais ampla, o fim da escala 6×1 tornou-se uma de suas pautas de maior repercussão porque coincide com uma fase decisiva da tramitação da proposta no Senado.
Antes e durante o ato, Lula voltou a defender a mudança da jornada de trabalho. Na Avenida Paulista, afirmou esperar que o Senado vote a matéria na próxima quarta-feira (14/10/2026). A pauta oficial da Casa confirma para essa data a quinta e última sessão de discussão e a votação em primeiro turno da PEC 221/2019, salvo eventual alteração regimental ou de agenda.
O texto estabelece jornada máxima de 40 horas semanais, distribuída em cinco dias, com dois dias de repouso semanal remunerado, sem redução salarial. Trata-se de uma mudança constitucional em relação ao limite geral atualmente previsto de até 44 horas semanais.
A proposta chegou ao Senado depois de ser aprovada em 27/05/2026 pela Câmara dos Deputados. No primeiro turno, recebeu 472 votos favoráveis e 22 contrários. No segundo, foram 461 votos a favor e 19 contra.
O texto aprovado pela Câmara resultou de um substitutivo apresentado pelo deputado Leo Prates (Republicanos-BA) à PEC 221/2019, originalmente apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), e à PEC 8/2025, apresentada pela deputada Erika Hilton. As proposições originais trabalhavam com modelos distintos de redução da jornada, inclusive para 36 horas semanais.
Proposta prevê transição de 44 para 40 horas
O desenho que avançou no Congresso não estabelece uma redução imediata de quatro horas na jornada semanal.
Pelo texto aprovado, a mudança ocorrerá durante um período de 14 meses, preservando os salários. A transição prevê inicialmente a redução da jornada para 42 horas e, posteriormente, para 40 horas semanais. A proposta também determina dois dias de repouso remunerado por semana, sendo um deles preferencialmente aos domingos.
Em maio, depois de negociações envolvendo a presidência da Câmara, governo e lideranças parlamentares, consolidou-se um acordo político em torno da jornada de 40 horas, dois dias de descanso, ausência de redução salarial e fortalecimento das convenções coletivas.
A solução representou uma composição entre propostas que defendiam uma redução mais intensa — para 36 horas semanais — e setores que manifestavam preocupação com os impactos econômicos e organizacionais sobre empresas, atividades contínuas, comércio, serviços e setores intensivos em mão de obra.
Senado realiza sequência regimental antes da votação
Depois da aprovação na Câmara, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, decidiu que a PEC não seria encaminhada diretamente ao Plenário e precisaria passar pelas instâncias internas da Casa.
Em 21/08/2026, Alcolumbre enviou a proposta à Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ). O senador Omar Aziz (PSD-AM) assumiu a relatoria
Concluída a fase de comissão, a matéria chegou ao Plenário. A primeira sessão de discussão em primeiro turno ocorreu em 06/10/2026; a segunda, no dia seguinte; e a terceira foi realizada em 08/10/2026, conforme o acompanhamento legislativo do Senado.
O regimento prevê cinco sessões de discussão antes da votação em primeiro turno e mais três antes da votação em segundo turno, salvo aprovação de procedimento que permita encurtar os intervalos regimentais. Para aprovar uma emenda constitucional, são necessários três quintos dos senadores, equivalentes a pelo menos 49 votos, em cada turno.
Em 07/10/2026, Alcolumbre declarou que uma aceleração dependeria de iniciativa dos próprios senadores e que qualquer requerimento para alterar o calendário seria submetido ao Plenário.
A agenda oficial atualmente publicada pelo Senado registra para 14/10/2026, às 14 horas, sessão deliberativa com a PEC 221/2019 como primeiro item, definida como a quinta e última sessão de discussão e votação em primeiro turno.
Mobilização ocorre em meio à disputa eleitoral
A Marcha pela Democracia não se limitou à discussão trabalhista. O evento integra a mobilização política relacionada ao segundo turno presidencial e reuniu diferentes segmentos alinhados à candidatura de Lula.
A pauta trabalhista, entretanto, ganhou importância particular na estratégia política da campanha. Nos meses anteriores, o presidente já havia defendido publicamente uma negociação envolvendo trabalhadores, empresários e governo para construir uma mudança na jornada.
Em 03/03/2026, durante a Segunda Conferência Nacional do Trabalho, Lula propôs que a discussão fosse construída entre as três partes antes de uma definição legislativa. O tema ganhou força nos meses seguintes e avançou no Congresso.
Na Avenida Paulista, neste domingo, o presidente vinculou diretamente a questão ao calendário do Senado e afirmou confiar na votação prevista para quarta-feira.
A oposição, por sua vez, mantém divergências sobre a forma como a legislação trabalhista deve ser alterada. O debate eleitoral envolve também propostas de maior flexibilidade contratual e negociação entre empregados e empregadores, demonstrando que a questão não se resume à existência ou não de descanso semanal adicional, mas envolve diferentes concepções sobre jornada, remuneração e organização das relações de trabalho.
Debate ultrapassa divisão entre governo e oposição
A discussão sobre a redução da jornada ganhou projeção nacional desde 2024 e 2025 com a mobilização do movimento Vida Além do Trabalho (VAT) e a apresentação de propostas legislativas destinadas a alterar a organização tradicional do tempo de trabalho.
O debate reúne argumentos sociais e econômicos distintos.
Trabalhadores, sindicatos e defensores da mudança sustentam que jornadas menores podem ampliar o tempo destinado à convivência familiar, estudo, descanso e lazer, além de reduzir desgaste físico e mental.
Representantes empresariais e setores produtivos têm apontado, em contrapartida, a necessidade de avaliar custos, produtividade, disponibilidade de mão de obra e peculiaridades de atividades que funcionam durante todos os dias da semana.
Em Feira de Santana, por exemplo, entidades empresariais e institucionais divulgaram, em fevereiro de 2026, documento defendendo cautela diante de uma eventual redução compulsória da jornada, argumentando que alterações estruturais precisam considerar efeitos sobre custos do trabalho, emprego formal e organização das cadeias produtivas.
As posições demonstram que o fim da escala 6×1 envolve uma disputa mais ampla sobre como distribuir entre empresas, trabalhadores e consumidores os custos e eventuais ganhos decorrentes da reorganização das jornadas.
Participação cultural amplia alcance da manifestação
A presença de artistas como Humberto Carrão e Baco Exu do Blues também evidencia uma característica da mobilização política deste segundo turno: a participação de atores culturais e comunidades digitais.
Grupos de fãs de artistas — os chamados fandoms — mobilizaram páginas e redes sociais em torno da Marcha pela Democracia. A movimentação extrapolou estruturas partidárias tradicionais e incorporou redes digitais formadas originalmente para acompanhar música, televisão e entretenimento.
A DiaTV anunciou cobertura ao vivo da mobilização com quatro câmeras nas ruas e estúdio na Paulista, ampliando a circulação digital do evento.
Esse modelo de organização revela uma mudança importante nas campanhas contemporâneas: partidos, movimentos estudantis e sindicatos passam a compartilhar espaço com influenciadores, comunidades digitais, artistas e redes informais de mobilização.
UNE participa da organização do ato
A União Nacional dos Estudantes (UNE) aparece entre as organizações responsáveis pela mobilização deste domingo. A concentração começou por volta das 11 horas diante do Masp, com caminhada prevista até a Praça Roosevelt.
A participação estudantil conecta a manifestação a pautas que ultrapassam a legislação trabalhista, incluindo educação, políticas sociais e defesa da democracia.
Atos relacionados ao segundo turno também ocorreram em outras cidades. Em Curitiba, estudantes realizaram manifestação em 08/10/2026 com reivindicações relacionadas a direitos sociais, defesa da CLT e fim da escala 6×1.
Em Feira de Santana, estudantes, trabalhadores e apoiadores de Lula fizeram no sábado (10/10) uma manifestação que passou pela Praça da Bandeira, Avenida Senhor dos Passos e Prefeitura, também incluindo entre as pautas a redução da jornada.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 2019 — O deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) apresenta a PEC 221/2019, destinada a modificar a duração máxima da jornada semanal de trabalho.
- 2024 e 2025 — Mobilizações do movimento Vida Além do Trabalho (VAT) ampliam a discussão pública sobre a escala 6×1 e fortalecem a pressão pela mudança da jornada.
- 2025 — A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) apresenta a PEC 8/2025, propondo jornada de 36 horas e novo regime semanal de trabalho.
- 29/04/2026 — Câmara instala comissão especial destinada a analisar propostas de redução da jornada e superação da escala 6×1.
- 13/05/2026 — Câmara e governo anunciam acordo político em torno de jornada máxima de 40 horas, dois dias de descanso e manutenção salarial.
- 27/05/2026 — Comissão especial aprova o texto por 34 votos a 4; no mesmo dia, o Plenário da Câmara aprova a PEC nos dois turnos.
- 28/05/2026 — PEC chega ao Senado após aprovação pela Câmara; texto prevê redução progressiva durante período de 14 meses.
- 02/06/2026 — Davi Alcolumbre informa que a proposta deverá passar pelas comissões do Senado antes do Plenário.
- 21/08/2026 — PEC é encaminhada à CCJ do Senado, sob relatoria de Omar Aziz.
- 02/09/2026 — Concluída a instrução na CCJ; matéria fica pronta para deliberação do Plenário.
- 06/10/2026 — Senado realiza a primeira sessão de discussão da PEC em primeiro turno.
- 07/10/2026 — Segunda sessão de discussão; Alcolumbre afirma que eventual aceleração dependerá de decisão dos senadores.
- 08/10/2026 — O Senado realiza a terceira sessão de discussão em primeiro turno.
- 11/10/2026 — Marcha pela Democracia reúne Lula, aliados, estudantes e artistas na Avenida Paulista; defesa do fim da escala 6×1 ocupa posição central na mobilização.
- 14/10/2026 — Senado tem programada a quinta sessão de discussão e votação em primeiro turno da PEC 221/2019.











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