O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou na quarta-feira (28/10/2026), após chegar aos Estados Unidos, uma carta na qual contestou sem apresentar provas o resultado do segundo turno da eleição presidencial, acusou integrantes do Judiciário de perseguição política e chegou a se apresentar como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”.
A manifestação provocou reação imediata tanto entre governistas quanto dentro do próprio campo político que apoiou Flávio na disputa contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Enquanto parlamentares da ala mais próxima ao bolsonarismo reproduziram a carta e sustentaram a tese de perseguição judicial, lideranças que tiveram participação relevante na campanha recusaram-se a endossar a acusação de fraude eleitoral.
A publicação feita pelo próprio Flávio no X também foi rapidamente modificada. Às 17h19, o senador se apresentava como “verdadeiro presidente do Brasil” e afirmava, em outro trecho, ser o “presidente eleito”. Às 17h41, 22 minutos depois, o post foi editado: “presidente” passou a “líder do Brasil” e “presidente eleito” foi substituído por “líder”.
O que dizia a carta de Flávio Bolsonaro
A carta foi apresentada como uma manifestação dirigida simultaneamente “ao povo brasileiro e à comunidade internacional”.
Nas primeiras versões distribuídas por aliados, Flávio dizia falar na condição de “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, embora o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tenha declarado Lula vencedor do segundo turno realizado no domingo (25/10).
Flávio agradeceu nominalmente aos presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Javier Milei, da Argentina, e afirmou considerar os Estados Unidos uma terra de liberdade.
O senador sustentou, sem apresentar elementos comprobatórios, que teria presenciado uma “fraude eleitoral” no domingo.
A acusação se concentra principalmente na decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, que autorizou a extensão da votação até as 19h para seções que ainda permaneciam abertas.
Flávio também atribuiu ao aumento da votação de Lula entre o primeiro e o segundo turnos uma suposta irregularidade e qualificou a evolução dos votos do petista como uma “impossibilidade matemática”.
Os dados oficiais, entretanto, não sustentam essa conclusão.
TSE registrou 34.393 votos depois das 17h
Levantamento divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral informa que apenas 34.393 votos foram registrados depois das 17h no segundo turno.
Desse total:
- 32.399 votos foram registrados entre 17h e 18h;
- 1.981 votos, entre 18h e 19h;
- 13 votos, depois das 19h.
O total representa cerca de 0,03% do comparecimento eleitoral e é muito inferior à diferença de aproximadamente 4,43 milhões de votos entre Lula e Flávio.
Lula recebeu 64.256.232 votos, ou 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro obteve 59.826.041 votos, equivalentes a 48,21%.
Outro elemento relevante é que as duas campanhas solicitaram extensão do horário de votação, embora por motivos e abrangências diferentes.
A campanha de Lula pediu ampliação diante de relatos de problemas no transporte coletivo. A campanha de Flávio também havia solicitado ao TSE mais tempo de votação em municípios atingidos por chuvas e dificuldades de deslocamento.
O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, afirmou posteriormente que a prorrogação não comprometeu a eleição e declarou que a Justiça Eleitoral mantinha “absoluta confiança em todo o processo eleitoral”.
Carta fala em “regime de exceção” e perseguição pelo STF
Flávio também utilizou a carta para apresentar sua saída do Brasil como consequência de uma suposta perseguição política.
O senador afirmou que não havia fugido do país, mas que havia “saído pelo Brasil”, argumentando que estaria deixando um suposto “regime de exceção”.
Ele mencionou a decisão que determinou a entrega de seus passaportes e afirmou que esperava uma sequência de medidas contra ele, incluindo restrições pessoais e eventual prisão.
Flávio deixou o Brasil depois de receber ordem judicial para entregar seus passaportes no contexto de investigação conduzida no Supremo. Não havia, naquele momento, mandado de prisão contra o senador, circunstância que ele próprio ressaltou na carta.
Depois de passar pela Argentina e pelo Equador, ele chegou à região de Miami na manhã de quarta-feira.
Flávio se compara a líderes que atuaram no exílio
Outro trecho chama atenção pelas comparações históricas.
Flávio cita Rui Barbosa, Charles de Gaulle e José Martí, além dos venezuelanos Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado, como exemplos de personalidades que enfrentaram governos ou regimes a partir do exterior.
O senador utiliza essas referências para sustentar que pretende continuar atuando politicamente fora do Brasil.
Em outro trecho, dirige-se diretamente aos parlamentares e governadores aliados e afirma que liderará a oposição dos Estados Unidos.
Flávio cita especificamente o senador Rogério Marinho (PL-RN) como seu candidato à Presidência do Senado e afirma que pretende dizer do exterior aquilo que, segundo ele, integrantes da oposição não conseguiriam dizer dentro do Brasil.
O texto também promete a apresentação de uma estratégia de mobilização política por “meios pacíficos e legítimos”.
Rogério Marinho rejeita acusação de fraude
A reação de Rogério Marinho foi uma das politicamente mais relevantes.
Marinho, que coordenou a campanha presidencial de Flávio e ocupa posição de liderança na oposição no Senado, declarou que não possui elementos para afirmar que houve fraude eleitoral.
Segundo ele, nem o próprio PL poderia fazer essa acusação sem provas.
Marinho classificou a carta como um “desabafo” de Flávio e afirmou não ter tido conhecimento prévio do documento. Questionado sobre a retirada da expressão “presidente eleito”, disse que poderia ter ocorrido algum problema na elaboração e considerou oficial a versão final.
A posição expôs uma divergência relevante: o homem indicado pelo próprio Flávio na carta para disputar a Presidência do Senado não acompanhou a principal acusação política apresentada pelo senador no documento.
Tarcísio também se distancia da contestação eleitoral
O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), outro nome central na campanha de Flávio, adotou posição semelhante.
Tarcísio disse compreender o sentimento e a indignação do senador, mas afirmou que “o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”.
A reação ganhou peso porque Tarcísio foi um dos principais aliados eleitorais de Flávio e voltou a ser apontado dentro da direita como possível liderança nacional após a saída do senador do país.
A senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra de Jair Bolsonaro e outra liderança do campo conservador, também defendeu respeito ao resultado.
Segundo ela, “a eleição acabou” e a direita deve concentrar esforços na fiscalização do governo e na construção de sua atuação política futura.
MDB, União Brasil e PSDB reconhecem resultado
Partidos que tiveram setores ou dirigentes apoiando Flávio no segundo turno também se manifestaram.
O MDB reafirmou confiança no sistema eleitoral e na legitimidade do resultado.
O União Brasil, que declarou apoio a Flávio no segundo turno, afirmou que a eleição transcorreu com lisura e classificou a democracia como um “valor inegociável”. Para o partido, o resultado das urnas deve ser respeitado independentemente do vencedor.
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), afirmou que o presidente da República é aquele declarado eleito pelo TSE.
Já o presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, classificou o comportamento de Flávio como “incompreensível” e defendeu que a oposição seja exercida no Brasil, dentro das regras democráticas e com respeito às instituições.
Com isso, uma parcela expressiva da coalizão política que esteve ao lado de Flávio durante a eleição rejeitou a tese de desconhecer o resultado oficial.
Ala bolsonarista do PL apoia narrativa de perseguição
O quadro foi diferente entre parlamentares mais identificados com a ala bolsonarista do PL.
O senador eleito Carlos Jordy (PL-RJ) publicou vídeos lendo a versão da carta na qual Flávio ainda aparecia como presidente eleito. Jordy classificou o senador como um perseguido político e defendeu união da direita para conquistar a Presidência do Senado.
O deputado Gustavo Gayer (PL-GO), também eleito senador, reproduziu a carta e afirmou que Flávio seria vítima de uma suposta “perseguição ditatorial” do Judiciário.
O deputado Maurício Marcon (PL-RS) relacionou o episódio à disputa pela Presidência do Senado e afirmou esperar que eventuais denúncias de fraude fossem comprovadas.
Paulo Bilynskyj (PL-SP) também divulgou o documento e disse que seriam apresentados elementos sobre a suposta fraude eleitoral. Até a publicação desta reportagem, entretanto, as acusações contidas na carta não estavam acompanhadas de provas que invalidassem os números oficiais do TSE.
Também compartilharam o texto Eduardo Bolsonaro, Jorge Seif e José Medeiros, segundo levantamento da CNN Brasil.
Assim, houve apoio de integrantes da ala mais próxima ao bolsonarismo à narrativa de perseguição, mas não uma adesão uniforme da direita à autoproclamação feita na versão inicial do documento.
Randolfe chama carta de “afronta”
Do lado governista, o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso, classificou a manifestação como uma “afronta”.
Randolfe criticou especialmente o fato de um candidato derrotado questionar o processo eleitoral a partir de território estrangeiro.
Até a noite de quarta-feira, o Palácio do Planalto não havia divulgado manifestação oficial específica sobre a carta, mas integrantes da base governista reagiram publicamente.
A coligação que apoiou Lula — formada por PT, PCdoB, PV, PSB, Rede e PDT — afirmou que a contestação eleitoral apresentada por Flávio não se sustentava e lembrou que as duas candidaturas haviam solicitado, em algum momento, extensão da votação.
Gleisi, Lindbergh e parlamentares da base criticam documento
A deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) criticou tanto a contestação das eleições quanto a viagem de Flávio e observou posteriormente que o senador havia retirado da carta a formulação em que se apresentava como presidente.
O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) afirmou que a escolha do presidente cabe ao eleitor brasileiro e rejeitou qualquer possibilidade de reconhecimento externo substituir o resultado das urnas.
Também houve manifestações críticas dos deputados Rogério Correia (PT-MG) e Sâmia Bomfim (PSOL-SP).
O recuo: “presidente eleito” vira “líder do Brasil”
A mudança de texto ocorreu rapidamente.
Documentos analisados pela imprensa indicam ao menos quatro versões da carta: duas distribuídas inicialmente por aliados e outras duas relacionadas à publicação feita pelo próprio Flávio.
Um primeiro PDF, com registro de criação às 16h38, dizia:
“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil.”
A primeira versão também utilizava um brasão histórico no qual aparecia a inscrição “Estados Unidos do Brazil”.
Posteriormente, o símbolo foi substituído pelo brasão com a denominação atual, “República Federativa do Brasil”.
Às 17h19, Flávio publicou pessoalmente uma versão na qual ainda se apresentava na abertura como “verdadeiro presidente do Brasil” e, mais adiante, afirmava: “eu sou o presidente eleito”.
Às 17h41, apenas 22 minutos depois, o conteúdo foi editado.
A abertura passou para:
“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o líder do Brasil.”
E a afirmação “eu sou o presidente eleito” foi substituída por “eu sou o líder”.
Portanto, o principal recuo não ocorreu horas depois, mas aproximadamente 22 minutos após a publicação feita diretamente pelo senador. Consideradas as versões anteriormente distribuídas por aliados, toda a sequência de alterações ocorreu em menos de uma hora.
Acusações centrais permaneceram depois do recuo
A retirada da autoproclamação, porém, não significou abandono da contestação eleitoral.
A versão final continuou afirmando que teria ocorrido fraude, manteve as acusações contra o Judiciário, descreveu o Brasil como um suposto “regime de exceção”, falou em “tirania” e sustentou que Flávio comandaria a oposição brasileira a partir dos Estados Unidos.
Também permaneceu a promessa de mobilização política e o pedido para que a comunidade internacional acompanhe a situação brasileira.
Ou seja, Flávio recuou da reivindicação explícita de ser o presidente eleito, mas preservou a estrutura política central do manifesto.
Episódio amplia disputa pela liderança da direita
Nas primeiras horas desta quinta-feira (29/10), relatos de bastidores indicam crescente preocupação entre integrantes do próprio PL com os efeitos políticos da saída de Flávio do país e da divulgação da carta.
Aliados avaliam que o partido precisa evitar associação com iniciativas consideradas inconstitucionais e demonstram preocupação com a capacidade de Flávio de comandar a oposição à distância.
Nesse cenário, Tarcísio de Freitas voltou a ganhar espaço como possível referência nacional da direita, principalmente entre setores que defendem o reconhecimento do resultado eleitoral e uma atuação de oposição dentro das instituições.
A carta, portanto, produziu um efeito político duplo: mobilizou a ala mais radical do bolsonarismo, mas também tornou explícito o distanciamento de dirigentes partidários, governadores e parlamentares que haviam apoiado Flávio durante a eleição.








Deixe um comentário