PF apura possível fuga do senador Flávio Bolsonaro após ministro Alexandre de Moraes cancelar passaportes e proibir saída do Brasil

A Polícia Federal (PF) apura nesta terça-feira (27/10/2026) informações sobre uma possível saída do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil, dois dias depois de ele ser derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno presidencial e após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar o cancelamento de todos os seus passaportes brasileiros, inclusive o diplomático, ordenar a entrega em até 24 horas de eventuais documentos de viagem de outras nacionalidades e proibi-lo de deixar o território nacional. Até o início da tarde, porém, não havia confirmação independente de que Flávio tivesse cruzado a fronteira ou embarcado para o exterior. Autoridades migratórias argentinas negaram registro regular de entrada do senador, enquanto versões atribuídas a aliados sobre uma eventual passagem pela Argentina permaneciam conflitantes.

O episódio ocorre em meio a uma investigação sigilosa sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas ao advogado e empresário Willer Tomaz e a empresas vinculadas ao setor de apostas. Flávio e Tomaz reconhecem que são amigos, mas negam sociedade empresarial e irregularidades. O senador também é investigado em outro inquérito, de relatoria do ministro André Mendonça, relacionado ao financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. As duas frentes investigativas possuem objetos e relatorias distintas e não constituem condenações contra o parlamentar.

A dimensão política do caso é ampliada pelo resultado eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proclamou Lula reeleito com 64.256.232 votos, ou 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%, em uma disputa separada por 3,58 pontos percentuais. O senador havia terminado o primeiro turno na liderança, com 47,03%, diante de 45,16% de Lula.

PF verifica paradeiro de Flávio Bolsonaro

A apuração sobre uma possível saída do país ganhou força na madrugada desta terça-feira depois de o Infobae, da Argentina, publicar que Flávio teria atravessado a fronteira e pretendia embarcar em Puerto Iguazú em direção aos Estados Unidos, a bordo de um avião particular.

A PF passou a verificar pontos de fronteira, registros migratórios e informações sobre voos. O SBT News informou, às 12h10, que dois aliados políticos teriam afirmado que o senador cruzou a fronteira e pretendia seguir para os Estados Unidos. A mesma reportagem, contudo, registrou que o governo argentino contestava a versão e que não havia confirmação independente da saída.

A Direção Nacional de Migrações da Argentina informou que não havia registro de entrada de Flávio Nantes Bolsonaro no território argentino. Um porta-voz do presidente Javier Milei também negou que o brasileiro tivesse ingressado no país e contestou a existência da viagem aérea nas condições divulgadas inicialmente.

O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador-geral da campanha presidencial de Flávio, também negou a saída do Brasil. Outras fontes ouvidas pela imprensa apresentaram versões diferentes. Diante dessa divergência, a existência de uma fuga não pode ser tratada como fato confirmado.

Moraes cancelou passaportes brasileiros e determinou entrega de documentos estrangeiros

A decisão que originou as diligências foi tomada por Alexandre de Moraes na noite de domingo (25/10), poucas horas depois da definição da eleição presidencial, e comunicada ao senador pela PF na manhã de segunda-feira (26).

O despacho determinou três medidas centrais: proibição de contato entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz; cancelamento de todos os passaportes emitidos pela República Federativa do Brasil em nome do senador, inclusive os diplomáticos; e entrega, no prazo de 24 horas, dos passaportes de outras nacionalidades eventualmente mantidos por Flávio.

A distinção é juridicamente relevante. Os documentos brasileiros foram cancelados, tornando-se sem efeito. Em relação a eventual passaporte estrangeiro, a determinação divulgada não fala em cancelamento pelo governo brasileiro, mas em entrega física à Polícia Federal, acompanhada da proibição judicial de saída do território nacional. A decisão também determinou alerta migratório e comunicação às autoridades competentes.

Flávio havia afirmado na segunda-feira que cumpriria a ordem.

“Eu nunca pensei em sair do país. Eu vou entregar os meus passaportes e vou me defender dessa aberração, que é uma clara tentativa de me intimidar.”

Até a manhã desta terça, entretanto, veículos de imprensa informavam que os documentos ainda não haviam sido apresentados, apesar de interlocutores da defesa terem indicado anteriormente que a entrega ocorreria nesse período. A PF programou diligência na residência do parlamentar para verificar o cumprimento das medidas cautelares e recolher os documentos.

Passaporte italiano não está confirmado publicamente

Um ponto exige cautela. Flávio Bolsonaro e seu irmão Eduardo Bolsonaro iniciaram anos atrás procedimentos para reconhecimento de cidadania italiana por descendência. Em 2022, a Embaixada da Itália confirmou que Flávio compareceu à representação diplomática para dar andamento ao processo, cuja tramitação havia sido iniciada anteriormente.

As fontes públicas consultadas, porém, não permitem afirmar com segurança que Flávio Bolsonaro disponha atualmente de um passaporte italiano válido. O que está documentalmente confirmado na decisão atribuída a Moraes é a ordem de entrega de quaisquer passaportes de outras nacionalidades que estejam em poder do senador.

Assim, a existência de um passaporte comum brasileiro e de um passaporte diplomático está contemplada expressamente nas informações divulgadas sobre a ordem judicial. A eventual existência e validade de documento italiano necessita de comprovação documental adicional.

Investigação sobre Willer Tomaz levou caso a Alexandre de Moraes

A cautelar que restringiu as viagens de Flávio decorre do inquérito sobre sua relação com Willer Tomaz. A investigação começou na Justiça Federal do Rio Grande do Sul e apura possíveis crimes envolvendo lavagem de dinheiro, evasão de divisas, empresas de pagamentos e operações relacionadas ao setor de apostas.

Durante a investigação, a PF quebrou o sigilo telemático de Tomaz e localizou documentos segundo os quais Flávio teria figurado como “usuário master” de uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa ligada ao advogado e registrada na Ilha da Madeira, em Portugal. Conforme relatório policial reproduzido pela imprensa, essa condição poderia proporcionar elevado nível de acesso e gerenciamento da conta.

A PF também encontrou registros indicando que Tomaz solicitou em 22/05/2025 a exclusão do acesso atribuído ao senador. Os investigadores registraram ainda viagens internacionais, encontros e documentos pessoais de Flávio armazenados na nuvem de Tomaz, além de deslocamentos custeados por empresa relacionada ao advogado.

Esses elementos são indícios utilizados para justificar diligências investigativas. Não demonstram, isoladamente, que Flávio tenha cometido lavagem de dinheiro ou sido sócio oculto das empresas investigadas. O senador e Tomaz negam a existência de sociedade e sustentam que mantêm relação de amizade.

O procedimento chegou ao Supremo em 8 de outubro de 2026, em razão da presença de autoridade com foro por prerrogativa de função, e Moraes foi sorteado relator.

Dark Horse constitui investigação separada

Paralelamente, Flávio é investigado no chamado caso Dark Horse, relativo à captação e circulação de recursos destinados à cinebiografia de Jair Bolsonaro.

Nesse procedimento, sob relatoria de André Mendonça, a Polícia Federal apura possíveis crimes de lavagem de dinheiro, corrupção, evasão de divisas e delitos relacionados ao financiamento da produção. Flávio foi incluído formalmente como investigado em 22/07/2026, segundo informações já reunidas pelo Jornal Grande Bahia.

A investigação examina a atuação do senador na busca de recursos junto ao empresário Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master. Flávio reconheceu ter procurado financiamento privado para o filme, mas nega ter recebido vantagem indevida ou praticado qualquer contrapartida ilegal. Parte das circunstâncias financeiras continua submetida a perícias e diligências.

É necessário evitar a fusão entre os dois procedimentos: a ordem de Moraes sobre passaportes está vinculada ao inquérito envolvendo Willer Tomaz, empresas e apostas, enquanto o caso Dark Horse constitui investigação autônoma.

Declaração de Eduardo Bolsonaro entrou no contexto da decisão

Segundo Flávio, uma das razões consideradas para a restrição de viagem foi uma declaração de seu irmão Eduardo Bolsonaro, feita em 23/10/2026, dois dias antes do segundo turno presidencial.

Eduardo, que está nos Estados Unidos, disse em entrevista a um programa norte-americano que defendia a saída do irmão do Brasil caso ele fosse derrotado.

“Se meu irmão não ganhar, eu sou a favor de que meu irmão saia do país. Com certeza.”

Flávio sustenta que jamais manifestou intenção semelhante e questionou a utilização da fala de terceiro como elemento para restringir sua circulação.

O conteúdo integral do processo permanece sob sigilo, o que impede afirmar que a manifestação de Eduardo tenha sido o único fundamento da cautelar. Reportagens que tiveram acesso a trechos do despacho indicam que a medida também se insere no contexto do inquérito financeiro envolvendo Flávio e Willer Tomaz.

Derrota ocorreu em uma das eleições presidenciais mais apertadas da redemocratização

A crise judicial se abriu imediatamente depois de uma eleição de forte equilíbrio político.

No primeiro turno, Flávio Bolsonaro recebeu 56,1 milhões de votos e 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, assumindo a liderança nacional. No segundo turno, entretanto, o presidente reverteu a diferença e alcançou 51,79%, enquanto Flávio terminou com 48,21%.

O resultado colocou a eleição de 2026 entre as disputas presidenciais mais apertadas desde a redemocratização. Flávio recebeu 59.826.041 votos, contingente eleitoral que assegura ao candidato derrotado peso político nacional mesmo sem a Presidência.

Após a apuração, o senador inicialmente afirmou que não reconheceria o resultado e anunciou intenção de buscar a anulação da eleição, especialmente por causa da prorrogação do horário de votação determinada durante o segundo turno.

Na segunda-feira, modificou a estratégia e passou a afirmar que pretende pedir à Justiça Eleitoral a cassação da chapa Lula-Geraldo Alckmin, sob alegação de abuso de poder político e econômico. Até agora, essas acusações constituem alegações da parte derrotada e dependerão de provas e decisão da Justiça Eleitoral.

O próprio PL, contudo, reconheceu formalmente o resultado proclamado pelo TSE. Em nota assinada pelo presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, o partido afirmou: “Reconhecemos o resultado presidencial, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral”, embora tenha defendido a apuração de questionamentos eleitorais.

PL terá as maiores bancadas da Câmara e do Senado em 2027

O peso institucional do episódio vai além da situação pessoal do ex-candidato.

Flávio não é o presidente nacional do Partido Liberal — cargo exercido por Valdemar Costa Neto —, mas foi o candidato presidencial da legenda e emerge da eleição como uma de suas principais referências nacionais.

Nas eleições legislativas de 2026, o PL conquistou 121 das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados, mantendo-se como a maior bancada partidária da Casa a partir de fevereiro de 2027. A Federação PT-PCdoB-PV terá 88 deputados.

No Senado, a legenda ampliará sua representação de 15 para 28 senadores, também formando a maior bancada na próxima legislatura. O número corresponde a mais de um terço das 81 cadeiras da Casa.

Essa configuração torna qualquer crise envolvendo Flávio Bolsonaro politicamente relevante para a relação entre Executivo, Congresso e Supremo, ainda que a força eleitoral ou parlamentar do PL não altere a obrigação individual de cumprimento de decisões judiciais.

Eventual saída do Brasil ainda depende de comprovação

Neste momento, há três conjuntos distintos de informação.

O primeiro é confirmado: Moraes determinou o cancelamento dos passaportes brasileiros de Flávio, ordenou a entrega de documentos de outras nacionalidades, proibiu sua saída do país e vedou contato com Willer Tomaz.

O segundo corresponde a declarações e informações contraditórias: o Infobae e interlocutores citados por veículos brasileiros sustentam que o senador teria atravessado a fronteira argentina; Rogério Marinho, autoridades argentinas e outros interlocutores negam essa versão.

O terceiro permanece sem confirmação: não há, até o quadro mais recente disponível, prova pública independente de que Flávio Bolsonaro tenha saído do Brasil, ingressado irregularmente na Argentina ou embarcado para os Estados Unidos.

Essa diferença é essencial. Enquanto não houver documentação migratória, imagens verificadas, registros aeroportuários, localização confirmada pelas autoridades ou manifestação direta do senador, o correto é tratar o episódio como investigação sobre uma possível fuga, e não como fuga consumada.

O que pode acontecer a partir de agora

A prioridade imediata da Polícia Federal é estabelecer o paradeiro de Flávio, verificar se os documentos foram entregues e determinar se houve cumprimento integral das cautelares impostas pelo Supremo.

Caso seja comprovada eventual saída posterior à ciência da proibição judicial, caberá ao STF avaliar suas consequências processuais e decidir se mantém, modifica ou amplia as medidas cautelares. Não é possível antecipar quais providências seriam adotadas sem a comprovação do fato e sem nova decisão judicial.

A defesa também poderá contestar a proporcionalidade, os fundamentos e a necessidade das restrições perante o próprio Supremo, especialmente porque o processo tramita sob sigilo e os fundamentos integrais ainda não são conhecidos publicamente.

Em paralelo, seguirão independentes a investigação envolvendo Willer Tomaz, o inquérito Dark Horse e eventual ação eleitoral contra a chapa vencedora. Cada procedimento possui objeto, autoridade responsável, rito e padrão probatório próprios.

O mandato de Flávio Bolsonaro no Senado termina no início de 2027. A eventual perda do cargo não significa necessariamente que toda investigação deixará automaticamente o STF: desde março de 2025, a Corte entende que o foro por prerrogativa subsiste depois da saída da função para crimes supostamente praticados durante o cargo e em razão dele. A aplicação dessa jurisprudência a cada procedimento dependerá, contudo, das circunstâncias e do vínculo dos fatos investigados com o mandato parlamentar.

Relação de inquéritos envolvendo Flávio Bolsonaro

  1. Inquérito 5.070 — Caso Dark Horse / Banco Master
    • Relator: ministro André Mendonça.
    • Origem: Petição 16.369, convertida no Inq 5.070, protocolado como inquérito em 06/08/2026; a instauração havia sido autorizada em 22/07/2026.
    • Objeto: apura a possível participação de Flávio Bolsonaro em irregularidades relacionadas ao financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, com recursos associados ao então controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro.
    • Crimes investigados em tese: lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e delitos correlatos.
    • Ponto central: a PF investiga as tratativas de Flávio com Vorcaro para obtenção de recursos para a produção cinematográfica, o fluxo financeiro correspondente e a eventual utilização de estruturas no exterior. Flávio reconheceu que buscou recursos privados para o projeto, mas nega ilegalidade.
    • Situação: investigação em andamento, sem condenação. A PF ainda realiza perícias e diligências, inclusive envolvendo rastreamento de recursos e cooperação internacional. O cadastro oficial do STF confirma o Inq 5.070 e a relatoria de Mendonça.
  2. Inquérito sobre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz — lavagem de dinheiro, apostas e empresas
    • Relator: ministro Alexandre de Moraes.
    • Número: o número do inquérito não apareceu de forma pública nas fontes processuais e jornalísticas que consegui confirmar; parte do procedimento permanece sob sigilo.
    • Origem: investigação iniciada na Justiça Federal do Rio Grande do Sul sobre pagamentos digitais, empresas e operações relacionadas ao setor de apostas. O processo chegou ao STF em outubro de 2026 em razão do foro de Flávio Bolsonaro.
    • Objeto: apuração de possíveis crimes financeiros relacionados ao advogado e empresário Willer Tomaz, amigo de Flávio, e às relações pessoais, empresariais e financeiras entre ambos.
    • Elementos investigados: a PF encontrou documentação indicando que Flávio teria sido cadastrado como “usuário master” de conta bancária ligada à Alcazar Holdings, empresa relacionada a Tomaz. A investigação também examina movimentações por plataformas de apostas, empresas, estruturas no exterior, viagens e comunicações entre os envolvidos.
    • Crimes em apuração: principalmente lavagem de dinheiro e evasão de divisas, além de possíveis delitos associados às operações financeiras investigadas.
    • Situação: investigação em curso. Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz afirmam que são amigos e negam sociedade ou irregularidades. Foi nesse contexto que Moraes adotou as cautelares que restringiram a saída de Flávio do país e o contato com Tomaz.
  3. Inquérito 5.045 — suposta calúnia contra Lula
    • Relator: ministro Alexandre de Moraes.
    • Número: Inq 5.045, processo nº 0171319-39.2026.1.00.0000.
    • Origem: instaurado em 13/04/2026, após representação da Polícia Federal e parecer favorável da Procuradoria-Geral da República.
    • Objeto: uma publicação feita por Flávio Bolsonaro na rede X, em 03/01/2026, na qual o senador associou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a crimes como tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro e apoio a terrorismo, no contexto da captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos.
    • Crime investigado: calúnia, previsto no artigo 138 do Código Penal, com as causas de aumento indicadas no artigo 141.
    • Situação: a PF apresentou relatório em junho afirmando haver elementos para caracterizar o delito. A PGR, antes de decidir sobre eventual denúncia, pediu que Flávio fosse ouvido. Após sucessivas tentativas de realização da oitiva, o senador apresentou manifestação escrita e não compareceu pessoalmente; em 28/07/2026, Moraes devolveu os autos ao Ministério Público para manifestação. O processo continua cadastrado como inquérito no STF, e não localizei decisão pública posterior de arquivamento.

Flávio Bolsonaro é alvo de pelo menos três investigações criminais no STF. Duas envolvem suspeitas financeiras de maior complexidade — Dark Horse/Banco Master e Willer Tomaz/apostas e empresas — e uma terceira apura suposta calúnia contra Lula.

A Petição 16.292, apresentada a partir de comunicação de crime sobre o financiamento de Dark Horse, não deve ser contabilizada como um quarto inquérito independente: ela trata de fatos sobrepostos ao caso que acabou concentrado sob a relatoria de André Mendonça e deu origem à investigação específica do filme.

Também é preciso separar a Operação Sem Desconto: Willer Tomaz é investigado nessa frente, mas as informações disponíveis não apontam Flávio Bolsonaro como alvo desse inquérito específico. Foram os dados apreendidos na investigação sobre Tomaz que ajudaram a produzir elementos para a nova investigação autônoma envolvendo Flávio.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 2020 — Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro iniciam procedimentos perante autoridades italianas para reconhecimento de cidadania por descendência. A existência atual de passaporte italiano válido de Flávio não está confirmada nas fontes públicas consultadas.
  • 22/07/2026 — Flávio é incluído formalmente como investigado no inquérito sobre o financiamento do filme Dark Horse, de relatoria de André Mendonça. A apuração envolve recursos associados a Daniel Vorcaro e suspeitas financeiras ainda não julgadas.
  • 08/10/2026 — Investigação originada na Justiça Federal do Rio Grande do Sul envolvendo Willer Tomaz, empresas e apostas chega ao STF; Alexandre de Moraes é sorteado relator.
  • 23/10/2026 — Eduardo Bolsonaro afirma, em programa nos Estados Unidos, que defendia que Flávio deixasse o Brasil caso perdesse a eleição presidencial. A declaração seria posteriormente citada pelo senador ao questionar a cautelar.
  • 25/10/2026 — Lula vence o segundo turno com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Na noite de domingo, Moraes determina medidas cautelares no inquérito relacionado a Willer Tomaz.
  • 26/10/2026 — Flávio é intimado pela PF após visitar Jair Bolsonaro. Afirma que entregará os passaportes, nega intenção de sair do Brasil e classifica a decisão como tentativa de intimidação. No mesmo dia, o PL reconhece oficialmente o resultado presidencial proclamado pelo TSE.
  • 27/10/2026 — Informações sobre possível passagem de Flávio pela Argentina levam a PF a verificar fronteiras e voos. Autoridades argentinas dizem não haver registro regular de entrada; aliados apresentam versões divergentes e não há confirmação independente de fuga.
  • 27/10/2026 — Durante a manhã, reportagens informam que os passaportes ainda não haviam sido apresentados à PF e que agentes se dirigiriam à residência do senador para verificar o cumprimento das cautelares.

O elemento mais sensível do caso é a coincidência temporal entre uma derrota presidencial extremamente apertada, uma investigação criminal em curso e uma medida cautelar que restringe a circulação internacional do candidato derrotado. Essa proximidade temporal produz inevitável repercussão política, mas não elimina a necessidade de analisar separadamente o resultado eleitoral, os fundamentos jurídicos da decisão e as provas existentes nos inquéritos. A legitimidade da cautelar deverá ser examinada pelos meios processuais próprios; da mesma forma, questionamentos contra a eleição dependem da Justiça Eleitoral e não modificam automaticamente a proclamação realizada pelo TSE.

A hipótese de fuga exige cautela ainda maior. Há informações jornalísticas de fontes não identificadas afirmando que Flávio atravessou a fronteira, mas há negativas do governo argentino, de Rogério Marinho e ausência, até o momento verificado, de confirmação independente. Transformar a suspeita em fato consumado antes da documentação necessária comprometeria a precisão jornalística. O dado objetivo é que existe uma ordem judicial proibindo a saída e que a PF investiga se ela foi ou não cumprida.

Também é fundamental não confundir investigação com responsabilidade criminal. Os documentos sobre a conta da Alcazar Holdings, viagens, relações empresariais e a proximidade com Willer Tomaz justificam perguntas e diligências, mas caberá à investigação estabelecer a origem dos recursos, eventuais beneficiários, participação consciente dos envolvidos e existência ou não de crimes. O mesmo princípio se aplica ao Dark Horse: os elementos já conhecidos justificaram a abertura da apuração, mas não constituem condenação.

A relevância pública do episódio decorre da combinação entre quase 60 milhões de votos obtidos por Flávio Bolsonaro, a condição de senador, a força parlamentar conquistada pelo PL para 2027 e a existência de investigações no STF. Os próximos passos dependem principalmente da Polícia Federal, que deverá esclarecer o paradeiro do parlamentar e o cumprimento das cautelares; do Supremo Tribunal Federal, responsável pelo controle judicial das medidas e dos inquéritos sob sua competência; da defesa de Flávio Bolsonaro, que poderá questioná-las; e da Justiça Eleitoral, caso seja efetivamente apresentada a anunciada ação contra a chapa Lula-Alckmin. Até que novos documentos e decisões sejam produzidos, a distinção entre fatos comprovados, versões políticas e hipóteses investigativas permanece indispensável.

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