Eleições 2026: estimativas divergentes de público em comícios e manifestações expõem limites das contagens de multidões

Neste domingo (18/10/2026), a uma semana do segundo turno presidencial, atos eleitorais voltaram a ocupar ruas de grandes cidades brasileiras enquanto campanhas, partidos, autoridades e instituições independentes divulgam — ou deixam de divulgar — estimativas bastante distintas sobre a quantidade de participantes. Desde o início oficial da campanha, medições realizadas por USP/Cebrap e More in Common, cálculos próprios de veículos de comunicação, números atribuídos a órgãos públicos e estimativas anunciadas pelas campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) produziram um mosaico de dados que exige cautela jornalística: eventos como as manifestações da Avenida Paulista, as caminhadas no circuito Ondina-Barra, em Salvador, e os atos de abertura das campanhas demonstram capacidade de mobilização presencial, mas não existe uma metodologia nacional padronizada que permita transformar todas essas cifras em uma comparação direta ou apontar, com segurança técnica, qual manifestação teve efetivamente o maior público.

Contagem de multidões se transforma em elemento da campanha eleitoral

A dimensão dos atos públicos ganhou relevância adicional no segundo turno das Eleições 2026, marcado pelo Tribunal Superior Eleitoral para 25/10/2026. O primeiro turno ocorreu em 04/10/2026, e a etapa decisiva da disputa presidencial ampliou as mobilizações de rua em várias capitais.

Nesse ambiente, números de participantes passaram a ser utilizados pelas próprias campanhas como demonstração de mobilização. O problema metodológico surge quando estimativas produzidas pelos organizadores são apresentadas ao lado de medições baseadas em fotografias aéreas, inteligência artificial, cálculos de densidade ou informações atribuídas às forças de segurança.

São grandezas produzidas de formas diferentes. Uma caminhada, por exemplo, apresenta fluxo contínuo de entrada e saída de pessoas; um comício parado permite fotografar praticamente todo o público simultaneamente; um estádio possui capacidade física conhecida; e manifestações em avenidas abertas podem ocupar extensões distintas ao longo das horas.

USP, Cebrap e More in Common usam drones e inteligência artificial

Entre as metodologias independentes documentadas durante a campanha está a empregada pelo Monitor do Debate Político da USP/Cebrap, em parceria com a More in Common Brasil.

O sistema utiliza imagens aéreas produzidas por drones e analisadas pelo método Point to Point Network — P2PNet, que identifica individualmente pontos correspondentes às cabeças das pessoas fotografadas. Segundo a More in Common, o modelo trabalha, para grupos superiores a 500 pessoas, com erro percentual absoluto médio estimado em 12%.

A disponibilização das fotografias usadas na análise também permite que terceiros examinem o material e, em princípio, reproduzam ou contestem a estimativa. Essa transparência metodológica distingue esse tipo de levantamento das cifras fornecidas sem explicação sobre a forma de cálculo.

Copacabana teve uma das primeiras medições independentes da campanha

Em 16/08/2026, no lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, o Monitor e a More in Common calcularam 8,9 mil pessoas no pico da manifestação, registrado às 11h30.

Considerando a margem de erro de 12%, as entidades estabeleceram intervalo entre 7,8 mil e 9,9 mil participantes. Foram fotografados sete momentos diferentes do evento, e sete imagens correspondentes ao horário de maior concentração foram selecionadas para o cálculo final.

No mesmo dia, Lula abriu sua campanha no Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo. O PT anunciou público de 40 mil pessoas. Posteriormente, o Poder360 registrou que o partido atribuiu o cálculo ao Gabinete de Segurança Institucional (GSI), a partir da revista dos participantes, mas a cifra não pôde ser submetida à mesma metodologia independente aplicada em Copacabana porque não houve autorização para o sobrevoo de drones.

A capacidade máxima calculada para o estádio foi informada como 41.138 pessoas, considerando arquibancadas e gramado, embora parte da área estivesse ocupada pela estrutura do evento. O número de 40 mil, portanto, permanece registrado como estimativa divulgada pela campanha, e não como contagem independente produzida pelo Monitor.

Avenida Paulista teve duas aferições independentes em 7 de Setembro

Um caso particularmente útil para demonstrar como métodos diferentes podem produzir resultados distintos ocorreu na Avenida Paulista, em São Paulo, durante manifestação convocada por Flávio Bolsonaro em 07/09/2026.

O Monitor USP/Cebrap e a More in Common estimaram 28,5 mil participantes às 16h32, considerado o momento de maior concentração. Com margem de erro de 12%, o intervalo estatístico informado foi de aproximadamente 25,1 mil a 32 mil pessoas.

O Poder360, que realizou levantamento próprio, chegou a 34,2 mil participantes. A existência das duas cifras não significa que uma delas necessariamente corrija a outra: foram levantamentos próprios, realizados com parâmetros e registros fotográficos distintos.

O episódio demonstra por que números de público devem ser acompanhados pela identificação da fonte. Informar simplesmente que determinado ato teve 28,5 mil ou 34,2 mil pessoas, sem revelar quem realizou a contagem e como ela foi produzida, elimina uma informação essencial para a interpretação do dado.

Salvador registra divergência entre campanha e Polícia Militar

Na Bahia, uma das estimativas mais relevantes foi produzida durante a caminhada de Lula, Jerônimo Rodrigues, Jaques Wagner e Rui Costa, realizada em 29/09/2026, entre Ondina e o Farol da Barra, em Salvador.

A campanha petista anunciou 200 mil pessoas. A Polícia Militar da Bahia, segundo registro do Poder360, estimou 150 mil participantes. Não houve aferição independente por drone equivalente à realizada pelo Monitor USP/Cebrap em outros eventos.

A diferença ilustra uma dificuldade específica de caminhadas: enquanto uma fotografia aérea registra o número presente naquele momento, o total acumulado de pessoas que passaram pelo percurso pode ser diferente. Sem indicação clara de se a estimativa mede o pico simultâneo ou o fluxo acumulado, números aparentemente precisos podem representar fenômenos distintos.

O Jornal Grande Bahia acompanhou a preparação e a realização da agenda. O ato havia sido inicialmente previsto para Feira de Santana, mas foi transferido para Salvador por decisão atribuída à coordenação nacional da campanha. A caminhada ocorreu cinco dias antes do primeiro turno e reuniu as principais lideranças petistas da Bahia.

Campanha atribuiu mais de 100 mil a caminhada em São Paulo

Em 03/10/2026, véspera do primeiro turno, a campanha de Lula realizou uma caminhada entre a Avenida Paulista e a Praça Roosevelt, em São Paulo.

O PT informou público superior a 100 mil pessoas. O trajeto tinha aproximadamente 1,8 quilômetro, mas a Polícia Militar comunicou que não divulgaria estimativa de participantes e não houve confirmação independente do número apresentado pela campanha.

O próprio Poder360 registrou que o partido não explicou à reportagem a metodologia empregada para chegar ao número.

O episódio reforça a distinção necessária entre uma cifra produzida pela organização de um ato e uma contagem realizada por instituição externa com procedimento conhecido.

Marcha de 11 de outubro ocupou 12 quarteirões, mas ficou sem contagem independente

A questão metodológica tornou-se ainda mais evidente na Marcha pela Democracia, realizada na Avenida Paulista em 11/10/2026, já durante o segundo turno.

A Folha de S.Paulo registrou que a manifestação favorável à reeleição de Lula ocupou 12 quarteirões da avenida, cuja extensão é de aproximadamente 2,8 quilômetros. A campanha petista divulgou posteriormente uma estimativa de mais de 1 milhão de pessoas.

Não houve, contudo, estimativa oficial divulgada pela Polícia Militar nem contagem independente do Monitor USP/Cebrap e da More in Common.

As duas entidades afirmaram que pretendiam utilizar drones para medir a concentração, mas não obtiveram autorização para o sobrevoo. Segundo a nota divulgada posteriormente, foi a quarta ocasião na campanha de 2026 em que não conseguiram realizar esse tipo de medição em ato com Lula.

A campanha não apresentou, nas fontes consultadas, metodologia independente capaz de reproduzir a cifra de um milhão. Por isso, o tratamento jornalístico tecnicamente adequado é identificá-la como estimativa da campanha, e não como contagem oficial ou aferição independente.

A Agência Brasil registrou que a manifestação ocupou grande parte da Avenida Paulista e reuniu milhares de participantes, mas não publicou cálculo numérico próprio.

Salvador volta ao centro da mobilização no segundo turno

Em 17/10/2026, um dia antes do novo ato da Avenida Paulista, Flávio Bolsonaro participou de caminhada entre o Morro do Cristo e o Farol da Barra, em Salvador.

Estiveram presentes, entre outras lideranças, ACM Neto, Bruno Reis, João Roma, Nikolas Ferreira e Tarcísio de Freitas. Segundo os organizadores, o evento reuniu mais de 100 mil pessoas.

Até a atualização desta reportagem, não foi localizada uma contagem equivalente produzida pela Polícia Militar, pelo Monitor USP/Cebrap ou por outra instituição independente com metodologia publicamente descrita.

Assim, embora o número possa ser citado, precisa permanecer acompanhado de sua origem: “mais de 100 mil, segundo os organizadores”.

O ato também ocorreu no mesmo espaço urbano que havia recebido, semanas antes, a caminhada de Lula e aliados entre Ondina e Barra. Essa recorrência transforma o circuito da orla de Salvador em um dos principais locais utilizados pelas campanhas na Bahia durante a fase decisiva da eleição.

O JGB também acompanhou os acontecimentos relacionados à agenda de Flávio Bolsonaro na capital baiana, incluindo a decisão judicial que suspendeu a cerimônia prevista para entrega do Título de Cidadão de Salvador, inicialmente associada à programação do dia 17.

Avenida Paulista recebe novo ato neste domingo

Neste 18/10/2026, Flávio Bolsonaro voltou à Avenida Paulista para uma manifestação denominada por apoiadores de “Bloquinho 22”.

A concentração começou pela manhã, com presença de Tarcísio de Freitas, Nikolas Ferreira e outras lideranças. A Folha registrou forte ocupação em determinados trechos da avenida, especialmente nas proximidades da Rua Augusta, mas, no momento desta atualização, ainda não havia sido publicada uma contagem final independente do público.

Antes do evento, o diretório municipal do PL informou à Prefeitura de São Paulo uma previsão de 20 mil participantes. O número constava do ofício destinado a organizar o uso do espaço, segurança e trânsito e, portanto, deve ser entendido como estimativa prévia da organização, não como público efetivamente contabilizado.

A distinção é particularmente importante porque uma previsão protocolada antes da realização do evento não pode ser convertida posteriormente em dado de comparecimento sem nova aferição.

No mesmo domingo estão programadas mobilizações favoráveis a Lula, inclusive um ato artístico em Copacabana, no Rio de Janeiro, convocado por Caetano Veloso e organizado pelos coletivos 342 Artes e Mídia Ninja. Até o fechamento desta atualização, o evento ainda não havia ocorrido e, portanto, não havia número de participantes disponível.

Estimativa de campanha, autoridade e contagem técnica não significam a mesma coisa

A análise das manifestações de 2026 revela pelo menos quatro categorias de informação sobre público.

A primeira é a contagem independente com metodologia divulgada, exemplificada pelos levantamentos USP/Cebrap-More in Common. Nesse caso, há horário do pico, fotografias, margem de erro e descrição da tecnologia utilizada.

A segunda envolve levantamentos próprios de veículos jornalísticos, como o realizado pelo Poder360 na Avenida Paulista em 7 de setembro. Esses dados também precisam ser acompanhados da metodologia adotada e não devem ser automaticamente confundidos com números produzidos por universidades ou órgãos públicos.

A terceira categoria reúne estimativas de órgãos públicos, como a informação de 150 mil participantes atribuída à Polícia Militar no ato de 29 de setembro em Salvador. Embora a fonte institucional aumente a relevância documental, é igualmente importante conhecer a metodologia utilizada.

Por fim, existem as estimativas das campanhas e dos organizadores. Elas são informações jornalisticamente utilizáveis, desde que a atribuição permaneça explícita. O problema surge quando o qualificativo desaparece e o número passa a ser apresentado como dado definitivamente aferido.

Público presencial não é pesquisa eleitoral

A presença em manifestações indica capacidade de convocação e mobilização de determinados segmentos, mas não permite inferir automaticamente o comportamento do conjunto do eleitorado.

O Brasil possui 158.765.543 eleitoras e eleitores aptos nas Eleições Gerais de 2026. Mesmo manifestações com dezenas ou centenas de milhares de participantes representam apenas uma parcela do eleitorado nacional e são compostas por pessoas altamente mobilizadas politicamente.

Por essa razão, atos de rua e pesquisas eleitorais medem fenômenos diferentes. Uma pesquisa busca estimar preferências de uma população por meio de amostras e procedimentos estatísticos; uma manifestação registra a presença de pessoas que decidiram comparecer voluntariamente a determinado evento.

A dimensão visual dos atos possui peso político e comunicacional, mas não funciona como substituto de levantamento de intenção de voto nem permite projetar o resultado da eleição.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 16/08/2026 — Copacabana, Rio de Janeiro: lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro; Monitor USP/Cebrap e More in Common estimam 8,9 mil pessoas, com intervalo de 7,8 mil a 9,9 mil, a partir de fotografias aéreas e inteligência artificial.
  • 16/08/2026 — São Bernardo do Campo: lançamento da campanha de Lula no Estádio 1º de Maio; o PT divulga 40 mil participantes. Não houve contagem independente por drone; o partido atribuiu posteriormente a estimativa ao GSI.
  • 07/09/2026 — Avenida Paulista, São Paulo: manifestação com Flávio Bolsonaro; USP/Cebrap e More in Common calculam 28,5 mil pessoas, com margem de erro de 12%, enquanto o Poder360 produz estimativa própria de 34,2 mil.
  • 29/09/2026 — Salvador: caminhada de Lula, Jerônimo Rodrigues, Jaques Wagner e Rui Costa entre Ondina e Barra; campanha informa 200 mil participantes, enquanto a Polícia Militar estima 150 mil.
  • 03/10/2026 — São Paulo: caminhada entre Avenida Paulista e Praça Roosevelt; o PT informa mais de 100 mil pessoas, sem aferição independente divulgada.
  • 04/10/2026 — Brasil: realização do primeiro turno das Eleições Gerais de 2026.
  • 11/10/2026 — Avenida Paulista: Marcha pela Democracia ocupa 12 quarteirões; campanha de Lula anuncia mais de 1 milhão de participantes, mas não há contagem oficial nem levantamento USP/Cebrap-More in Common, devido à ausência de autorização para o sobrevoo de drones.
  • 17/10/2026 — Salvador: caminhada de Flávio Bolsonaro entre Morro do Cristo e Farol da Barra; organizadores informam mais de 100 mil participantes. Até a atualização da matéria, não havia aferição independente localizada.
  • 18/10/2026 — Avenida Paulista: campanha de Flávio realiza o “Bloquinho 22”. O PL havia informado previamente à Prefeitura expectativa de 20 mil pessoas, mas o número era uma previsão anterior ao evento e não uma contagem de comparecimento.
  • 25/10/2026 — Brasil: data estabelecida pelo TSE para o segundo turno presidencial e para governos estaduais onde houver necessidade de nova votação.

Fato confirmado: as Eleições 2026 produziram manifestações com grande ocupação de espaços públicos e diferentes números de participantes divulgados por campanhas, autoridades, imprensa e instituições independentes. Também está documentado que alguns eventos puderam ser medidos por imagens aéreas e inteligência artificial, enquanto outros não foram submetidos à mesma metodologia. Essa assimetria impede tratar todas as cifras como dados tecnicamente equivalentes.

Versões atribuídas: números como 40 mil em São Bernardo, 200 mil em Salvador, mais de 100 mil na caminhada Paulista–Roosevelt, mais de 1 milhão na Marcha pela Democracia e mais de 100 mil no ato de Flávio Bolsonaro em Salvador precisam permanecer associados às respectivas campanhas ou organizadores sempre que não houver confirmação independente. A atribuição não invalida a informação, mas delimita corretamente seu grau de comprovação.

Informações ainda dependentes de confirmação: o público efetivo do ato realizado neste domingo, 18/10/2026, na Avenida Paulista, ainda depende de eventual levantamento posterior. Da mesma forma, continua relevante verificar se forças de segurança, universidades, veículos ou organizações independentes publicarão novas aferições ou revisões referentes aos eventos recentes.

A consequência editorial é objetiva: a cobertura responsável deve informar não apenas quantas pessoas teriam participado, mas quem produziu a estimativa, em que momento, com qual metodologia e com qual margem de incerteza. A dimensão dos atos constitui informação de interesse público porque revela capacidade de mobilização e estratégias das campanhas, mas não substitui pesquisas eleitorais nem antecipa o resultado das urnas. Até 25/10/2026, caberá às campanhas, aos órgãos de segurança, às instituições de pesquisa, à Justiça Eleitoral e à imprensa fornecer e escrutinar dados que permitam distinguir mobilização política, narrativa eleitoral e informação verificável.


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