Neste sábado (24/10/2026), véspera do segundo turno da eleição presidencial, o Brasil chega às últimas horas da campanha entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) depois de uma disputa que ultrapassou a contraposição entre duas candidaturas e expôs diferenças relevantes sobre política econômica, segurança pública, papel do Estado, funcionamento das instituições, meio ambiente e posição brasileira diante de Estados Unidos, China, União Europeia, Mercosul e BRICS. Flávio terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, e o último debate, realizado na sexta-feira (23) pela TV Globo, confirmou divergências programáticas, embora também tenha sido marcado por ataques pessoais e acusações ainda dependentes de comprovação. A votação ocorre neste domingo (25), das 8h às 17h, pelo horário de Brasília.
A reta final também ganhou dimensão internacional. Em entrevista à RFI, a economista Monica de Bolle, professora da Universidade Georgetown e pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics, definiu a eleição como uma disputa entre “quase dois Brasis”, com consequências para a institucionalidade, a economia e a política externa. Em Paris, dirigentes da esquerda francesa publicaram no Le Monde um manifesto favorável a Lula e alertaram para efeitos políticos de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro sobre movimentos de direita radical na Europa. Paralelamente, uma reportagem da RFI apontou o crescimento eleitoral de lideranças conservadoras entre os jovens e, ao mesmo tempo, a redução do contingente eleitoral das faixas etárias mais novas.
O quadro combina, portanto, quatro dimensões interligadas: uma disputa nacional definida por margem estreita; a consolidação de projetos políticos distintos; uma transformação do equilíbrio partidário no Congresso; e uma eleição observada no exterior pelo peso econômico, ambiental e geopolítico do Brasil.
Primeiro turno deixou diferença inferior a dois pontos percentuais
No primeiro turno, realizado em 04/10/2026, Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula. Quando o TSE confirmou matematicamente a passagem dos dois candidatos ao segundo turno, com 99,99% das urnas totalizadas, o senador aparecia com 56,1 milhões de votos, ou 47,03%, enquanto o presidente registrava 53,8 milhões, ou 45,16%. A totalização final manteve os percentuais e a vantagem do candidato do PL.
A diferença eleitoral estreita foi acompanhada por uma mudança importante no Congresso Nacional. O PL elegeu 121 deputados federais e tornou-se a maior bancada da Câmara a partir de 2027. No Senado, a legenda deverá iniciar a próxima legislatura com 28 senadores, também como maior bancada partidária da Casa. A federação PT-PCdoB-PV terá 88 deputados na Câmara, enquanto o PT deverá contar com nove senadores.
Essa composição significa que o resultado presidencial não definirá sozinho a orientação política do próximo ciclo. Independentemente de quem vencer, a relação entre Executivo e Congresso terá peso decisivo na execução das propostas econômicas, reformas institucionais, mudanças legislativas em segurança pública e eventuais alterações constitucionais.
Pesquisas mantêm cenário competitivo na reta final
As pesquisas divulgadas até a sexta-feira (23) não formavam um quadro uniforme de vantagem consolidada. Levantamentos recentes mostravam diferenças pequenas e, em vários casos, compatíveis com as respectivas margens de erro.
No conjunto publicado entre os dias 21 e 23, o Real Time Big Data registrou Flávio com 52% e Lula com 48% dos votos válidos; o PoderData, 51% a 49%; a Quaest, 50,56% a 49,44%; e o Datafolha, empate em 50% a 50%. As metodologias, amostras e períodos de campo são diferentes, razão pela qual os resultados não devem ser somados ou interpretados como uma única pesquisa.
Uma nova rodada de levantamentos estava programada para este sábado (24), incluindo pesquisas de Datafolha, AtlasIntel e Quaest. Até a madrugada, portanto, a leitura jornalisticamente mais segura era a de uma eleição competitiva, sem base suficiente para tratar o resultado como definido antes da votação.
Programas oficiais confirmam diferenças entre Lula e Flávio Bolsonaro
As divergências entre os finalistas não estão limitadas à retórica de campanha. Os programas de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral apresentam prioridades distintas em economia, relações de trabalho, segurança pública, governança e política externa.
No campo econômico, o programa de Lula menciona manutenção da responsabilidade fiscal e do arcabouço fiscal, valorização do salário mínimo, renegociação de dívidas, investimentos por meio do Novo PAC, neoindustrialização, Plano de Transformação Ecológica, reforma tributária e redução da jornada de trabalho, incluindo o fim da escala 6×1 e a proposta de jornada de 40 horas.
O programa de Flávio inclui equilíbrio fiscal, reforma das regras fiscais, redução de impostos, inflação no centro da meta, abertura de empresas, crédito, redução do custo do trabalho, ampliação do princípio do negociado sobre o legislado, exploração de minerais críticos e mudanças regulatórias. Também registra um programa nacional de desestatização e um “tesouraço” na estrutura estatal, além de reforma administrativa e revisão de normas infralegais.
A divergência observada no debate econômico, portanto, encontra correspondência nos documentos oficiais. Lula procura associar sua candidatura à continuidade das políticas sociais, investimento público e valorização salarial; Flávio combina uma agenda de desregulamentação, ajuste administrativo e redução de tributos com promessas de manutenção de programas sociais e novas despesas apresentadas na campanha.
Monica de Bolle critica falta de aprofundamento econômico
Em entrevista publicada pela RFI na sexta-feira (23), Monica de Bolle afirmou que a economia recebeu menos discussão programática do que seria esperado em uma eleição presidencial.
Na avaliação da economista, parte das propostas apresentadas por Flávio Bolsonaro na reta final envolveria despesas incompatíveis com a situação fiscal sem que o candidato tivesse detalhado suficientemente como realizaria o ajuste prometido. Ao mesmo tempo, ela fez críticas à campanha de Lula e afirmou não identificar “grandes propostas” novas no campo econômico, classificando a discussão dos dois lados como insuficiente.
A avaliação de De Bolle é uma análise técnica e opinativa da economista, e não uma conclusão institucional sobre a viabilidade dos programas. O eventual custo das propostas, as fontes de financiamento e os efeitos fiscais dependem de detalhamento orçamentário, aprovação legislativa e condições macroeconômicas que não podem ser antecipadas apenas a partir das promessas eleitorais.
Política externa expõe uma das diferenças mais estruturais
A dimensão internacional é uma das áreas em que as diferenças aparecem de forma mais nítida.
O programa de Lula registra expressamente como prioridades a integração sul-americana, o Mercosul, a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica, a Unasul, o multilateralismo, a atuação em ONU, OMC e FMI, os BRICS e o aprofundamento das relações com África, Ásia, Oriente Médio e Sul Global. Também associa política externa a diplomacia climática, COP30 e defesa nacional.
O documento de Flávio destaca abertura comercial, adesão à OCDE, inserção em cadeias globais de valor, fortalecimento de multinacionais brasileiras, defesa nacional, soberania, transição energética e minerais críticos. O programa oficial, contudo, não resume sua política externa a um alinhamento automático com os Estados Unidos.
A interpretação de que um governo Flávio tenderia a uma aproximação maior com Washington decorre de declarações políticas, relações do bolsonarismo com o governo do presidente norte-americano Donald Trump e posicionamentos assumidos durante a campanha. De Bolle considera que Lula manteria uma política de “multilateralismo pragmático”, enquanto Flávio representaria um alinhamento mais pronunciado com os Estados Unidos.
A própria economista, porém, pondera que um eventual governo do PL dificilmente poderia promover afastamento econômico significativo da China, dado o nível de integração comercial e produtiva existente. O efeito mais provável, em sua avaliação, seria uma mudança de prioridade diplomática e eventual redução do espaço político dedicado a outros parceiros.
Essa distinção é relevante. Uma preferência geopolítica não implica necessariamente ruptura comercial. A estrutura econômica brasileira, especialmente no agronegócio, mineração e comércio exterior, impõe limites materiais a mudanças abruptas nas relações com Pequim.
Recursos naturais, Amazônia e transição energética ampliam interesse internacional
De Bolle relaciona o interesse estrangeiro pela eleição brasileira ao peso econômico do país, aos recursos minerais estratégicos e à Amazônia.
Na entrevista à RFI, ela destacou minerais críticos, terras raras e nióbio como ativos estratégicos e relacionou a disputa presidencial às transformações globais das cadeias de energia, defesa e tecnologia. Também apontou a política ambiental como elemento capaz de interferir nas relações do Brasil com a União Europeia e outros parceiros.
Nesse ponto, é importante separar a previsão da economista do conteúdo formal dos programas. O documento de Flávio Bolsonaro contém referências a bioeconomia, mercado de carbono, redução do desmatamento, fiscalização ambiental, transição energética e pagamento por serviços ambientais. O de Lula prevê, entre outros pontos, desmatamento líquido zero, Fundo Amazônia, mercado de carbono, energias renováveis e diplomacia climática.
Assim, a existência de agendas ambientais nos dois programas é um fato documental. A intensidade da fiscalização, as prioridades econômicas, a aplicação concreta das normas e os efeitos de cada modelo constituem questões distintas e dependeriam das políticas efetivamente adotadas após a posse.
Último debate combina propostas, ataques e disputa por indecisos
O último confronto entre Lula e Flávio ocorreu na sexta-feira (23/10/2026), nos estúdios da TV Globo, no Rio de Janeiro.
Os primeiros blocos foram mais concentrados em propostas do que o debate anterior da Band. Os candidatos discutiram infraestrutura, salário mínimo, agronegócio, desenvolvimento regional, saneamento, meio ambiente, saúde, segurança pública e economia.
Flávio criticou o custo de vida, o endividamento das famílias e os gastos públicos e prometeu, entre outras medidas, reajustes reais para aposentadorias, investimentos em infraestrutura e endurecimento das políticas de segurança. Lula defendeu investimentos de seu governo, valorização do salário mínimo, programas sociais, expansão da infraestrutura e fortalecimento das estruturas federais de segurança.
O clima se deteriorou em alguns momentos. Ao discutir renda e salário mínimo, Flávio afirmou que o governo “dá com uma mão e tira com nove dedos”, referência à amputação sofrida por Lula quando era trabalhador metalúrgico. O presidente reagiu e exigiu pedido de desculpas. Flávio respondeu: “Se eu ofendi, eu te peço desculpas de verdade. Não queria te ofender.”
Lula, por sua vez, voltou a chamar o adversário de “miliciano”. A expressão constitui uma acusação política de campanha e não deve ser interpretada, por sua reprodução, como constatação judicial de envolvimento de Flávio Bolsonaro com milícias.
Caso Ana Clara entra no debate sobre segurança pública
Um dos momentos mais sensíveis ocorreu durante a discussão sobre segurança.
Lula mencionou o caso de Ana Clara Gomes Machado, menina de cinco anos morta em Niterói, em 2021. A mãe da criança, Cristiane Gomes da Silva, estava no estúdio. Flávio Bolsonaro integrou, como advogado, a defesa do policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado pelo Ministério Público de efetuar o disparo. O acusado nega a responsabilidade e não havia, até o debate, julgamento definitivo pelo Tribunal do Júri.
O presidente utilizou o episódio para questionar o modelo de segurança defendido pelo candidato do PL. Flávio respondeu manifestando confiança na inocência do policial e afirmou que sua atuação profissional como advogado não poderia ser interpretada como reconhecimento da responsabilidade do cliente.
As diferenças programáticas também são objetivas. O plano de Flávio prevê, entre outros pontos, endurecimento de penas, redução da maioridade penal em determinados crimes, combate a facções, reconhecimento facial e medidas específicas contra estupro e roubo de celulares. Lula registra a criação de um Ministério da Segurança Pública, fortalecimento do Sistema Único de Segurança Pública, inteligência, combate financeiro ao crime organizado e políticas de controle de armas.
Banco Master volta ao centro das acusações
No último bloco do debate, Lula e Flávio retomaram acusações envolvendo o Banco Master e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Lula procurou associar o adversário a Vorcaro, enquanto Flávio respondeu com questionamentos sobre patrimônio, relações empresariais e supostos vínculos do banqueiro com pessoas próximas ao presidente. Também houve desafios recíprocos para abertura de sigilos.
Essas declarações precisam ser tratadas segundo o princípio do contraditório. Parte das acusações apresentadas no debate consiste em afirmações eleitorais que não equivalem, por si só, a fatos judicialmente comprovados. A própria cobertura de checagem identificou declarações incorretas, imprecisas ou sem comprovação feitas durante o confronto.
A proximidade da votação aumenta o impacto político dessas acusações, mas reduz o tempo disponível para que documentos, investigações ou respostas institucionais sejam examinados antes de o eleitor decidir.
Juventude combina avanço de lideranças conservadoras e menor participação eleitoral
Outro elemento relevante da eleição está na transformação do comportamento eleitoral dos jovens.
Reportagem da RFI publicada em 23 de outubro apontou que o contingente de eleitores de 16 a 24 anos considerado na análise chegou a 14,9 milhões, número 12% inferior ao registrado em 2022. Entre os jovens de 16 a 18 anos, faixa em que o voto é facultativo, os registros mencionados caíram de 2,1 milhões para 1,6 milhão, redução de 23%, segundo dados do TSE citados pela reportagem.
Ao mesmo tempo, políticos com forte presença digital alcançaram votações expressivas. O deputado mineiro Nikolas Ferreira (PL) superou 3,1 milhões de votos para deputado federal, segundo a RFI, enquanto Lucas Pavanato (PL) consolidou-se como liderança conservadora em São Paulo. A reportagem relaciona os dois à capacidade do PL de ampliar sua votação e conquistar novas cadeiras.
A cientista política Mayra Goulart, coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada da UFRJ, sustenta que o fenômeno não deve ser lido simplesmente como desinteresse dos jovens pela política. Segundo ela, a intensificação da polarização pode afastar parte do eleitorado que não deseja se identificar publicamente com posições ideológicas rígidas.
A eleição também mostrou que o voto jovem não se limita à divisão PT-PL. Renan Santos (Missão) obteve 2,24% dos votos válidos no primeiro turno e recusou apoio formal aos dois finalistas. Parte desse eleitorado tornou-se alvo das campanhas de Lula e Flávio na disputa final.
Manifesto da esquerda francesa transforma eleição brasileira em tema europeu
A eleição brasileira também entrou diretamente no debate político francês.
Em 22/10/2026, dirigentes da esquerda da França publicaram no jornal Le Monde uma tribuna na qual defenderam a eleição de Lula e alertaram que uma vitória de Flávio Bolsonaro poderia fortalecer a normalização internacional de movimentos que classificam como extrema direita. Entre os signatários estavam Jean-Luc Mélenchon, Marine Tondelier, Fabien Roussel, Olivier Faure, Mathilde Panot e a ex-ministra Christiane Taubira.
O texto fez uma conexão explícita com a eleição presidencial francesa de 2027 e afirmou que vitórias de partidos de direita radical em outros países podem ampliar sua legitimidade política no cenário doméstico francês. Os autores pediram voto em Lula e mencionaram especialmente os brasileiros que vivem na França.
O manifesto, entretanto, deve ser identificado corretamente: trata-se de uma posição política de dirigentes da esquerda francesa, e não de uma manifestação oficial do governo da França, da União Europeia ou de um consenso da sociedade francesa.
Sua relevância está menos na capacidade de determinar votos no Brasil e mais na demonstração de que o pleito brasileiro é acompanhado como parte de uma disputa internacional entre famílias políticas, movimentos conservadores, partidos de esquerda e diferentes concepções de democracia e política externa.
Condenação de Jair Bolsonaro integra o contexto institucional
O histórico recente brasileiro também influencia a percepção internacional sobre a eleição.
Em 11/09/2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão na ação penal relativa à tentativa de golpe de Estado. O STF atribuiu a ele papel de liderança na organização julgada no processo.
A condenação tornou-se definitiva em novembro de 2025, quando o Supremo declarou o trânsito em julgado e determinou o início do cumprimento da pena. Em 2026, Bolsonaro obteve prisão domiciliar por razões humanitárias, posteriormente mantida pelo STF.
Esse antecedente ajuda a explicar por que temas como relação com o Supremo, limites institucionais, reformas do Judiciário e continuidade política do bolsonarismo adquiriram importância na campanha de Flávio Bolsonaro.
Ao mesmo tempo, não é juridicamente correto transferir ao filho responsabilidades penais atribuídas ao ex-presidente. A eleição de Flávio deve ser analisada a partir de sua própria candidatura, programa, trajetória e declarações, ainda que a continuidade política com o movimento liderado por Jair Bolsonaro seja parte explícita do contexto eleitoral.
Poder Judiciário e reformas de Estado entram na disputa
Monica de Bolle afirmou à RFI que vê na questão institucional um dos temas mais relevantes da eleição e citou declarações de Flávio sobre mudanças constitucionais e alterações envolvendo o Supremo Tribunal Federal.
O programa oficial do candidato do PL inclui uma reforma do Judiciário, o fim de decisões monocráticas, reforma política, reforma administrativa, redução de ministérios e mudanças regulatórias. Essas medidas, dependendo do desenho legislativo, exigiriam aprovação do Congresso e, em determinados casos, alterações constitucionais.
O plano de Lula, por sua vez, enfatiza mecanismos de controle, integridade, transparência, participação social, serviços digitais e regulação de plataformas, sem apresentar uma reforma estrutural do Judiciário equivalente à prevista no documento adversário.
A composição do Congresso eleito torna essa discussão particularmente importante. Com o PL ocupando a maior bancada nas duas Casas a partir de 2027, a capacidade de articulação parlamentar poderá alterar significativamente os limites políticos do próximo governo.
Últimas horas de campanha e votação de domingo
A propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão terminou na sexta-feira (23), mesmo dia do debate final. Neste sábado (24), caminhadas, carreatas, passeatas e distribuição de material eleitoral permanecem permitidas até as 22h, dentro das regras da Justiça Eleitoral.
Lula programou atividades no Rio de Janeiro e em São Paulo. Flávio Bolsonaro prevê compromissos em Belo Horizonte e no Rio. A estratégia das duas campanhas está direcionada aos últimos indecisos, ao comparecimento de seus próprios eleitores e à tentativa de conquistar segmentos que apoiaram candidaturas eliminadas no primeiro turno.
O segundo turno será realizado neste domingo, 25/10/2026, das 8h às 17h. O TSE poderá iniciar a divulgação nacional dos resultados a partir das 17h.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 11/09/2025 — Condenação de Jair Bolsonaro: a Primeira Turma do STF condena o ex-presidente a 27 anos e três meses de prisão na ação penal sobre a tentativa de golpe de Estado; o episódio passa a integrar o contexto institucional do bolsonarismo.
- 04/10/2026 — Primeiro turno: Flávio Bolsonaro obtém 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%; os dois avançam para o segundo turno.
- 04 e 05/10/2026 — Novo Congresso: o PL confirma 121 deputados federais e projeta bancada de 28 senadores para 2027, tornando-se a maior força partidária nas duas Casas.
- 18/10/2026 — Primeiro debate do segundo turno: Lula e Flávio se enfrentam na Band em confronto marcado por divergências sobre segurança, SUS, economia, política externa e Banco Master.
- 22/10/2026 — Manifesto na França: dirigentes da esquerda francesa publicam no Le Monde uma tribuna favorável a Lula e relacionam o resultado brasileiro ao avanço internacional da direita radical.
- 23/10/2026 — Juventude e eleição: reportagem da RFI destaca simultaneamente o crescimento eleitoral de Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato e a redução do contingente eleitoral entre os mais jovens.
- 23/10/2026 — Análise de Monica de Bolle: a economista afirma à RFI que Lula e Flávio representam projetos distintos para a economia, as instituições e a inserção internacional brasileira.
- 23/10/2026 — Debate final da Globo: os candidatos discutem infraestrutura, salário mínimo, economia, segurança e políticas sociais, mas também trocam acusações envolvendo Banco Master, patrimônio, milícias e episódios de suas trajetórias.
- 24/10/2026 — Véspera da votação: pesquisas finais ainda são esperadas e campanhas realizam as últimas atividades de rua permitidas antes da eleição.
- 25/10/2026 — Segundo turno: votação presidencial ocorre das 8h às 17h, com divulgação dos resultados autorizada a partir do encerramento das urnas.
A eleição presidencial de 2026 apresenta um contraste programático efetivo, mas a expressão “dois Brasis”, utilizada por Monica de Bolle, deve ser compreendida como interpretação analítica. Os documentos registrados no TSE mostram diferenças importantes sobre tamanho e funcionamento do Estado, política trabalhista, segurança, governança e inserção internacional, mas também revelam temas comuns — responsabilidade fiscal, defesa nacional, desenvolvimento, sustentabilidade, infraestrutura e proteção social — cuja divergência está principalmente nos instrumentos, prioridades e intensidade das políticas propostas.
A dimensão internacional é concreta porque o Brasil reúne peso econômico, influência regional, recursos minerais, capacidade agrícola, biodiversidade e posição central nas negociações climáticas. Entretanto, projeções sobre uma ruptura com a China, um alinhamento automático aos Estados Unidos ou mudanças futuras nos acordos comerciais permanecem hipóteses dependentes das decisões do governo eleito. O programa de Lula confirma uma orientação multilateral; o de Flávio registra abertura comercial e adesão à OCDE, mas não formaliza, isoladamente, todas as consequências geopolíticas atribuídas ao candidato por analistas.
A mobilização da esquerda francesa e a emergência eleitoral de lideranças conservadoras entre os jovens mostram, por caminhos diferentes, que a política brasileira está integrada a fenômenos internacionais de polarização, fragmentação eleitoral e disputa digital. O manifesto publicado no Le Monde é uma intervenção política explícita em favor de Lula e não deve ser confundido com posição institucional francesa; da mesma forma, o avanço de influenciadores ligados ao PL não permite concluir que toda a juventude brasileira tenha migrado ideologicamente para a direita, especialmente diante da redução da participação eleitoral e da existência de votos de rejeição aos dois principais campos.
O núcleo factual permanece definido: Lula e Flávio Bolsonaro disputam neste domingo a Presidência após um primeiro turno separado por menos de dois pontos percentuais, diante de um Congresso em que o PL terá força ampliada e de um ambiente internacional atento às escolhas brasileiras. O resultado terá consequências imediatas sobre política econômica, segurança, relações exteriores, meio ambiente e governabilidade. A partir da proclamação do vencedor, caberá ao TSE concluir o processo eleitoral; ao Congresso examinar as propostas que dependam de legislação ou emenda constitucional; ao próximo governo detalhar custos, fontes de financiamento e mecanismos de implementação; e à imprensa, aos órgãos de controle e à sociedade acompanhar se as promessas apresentadas durante a campanha serão compatíveis com os limites legais, fiscais e institucionais do Estado brasileiro.








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