Márcio Canella, elogiado por ACM Neto em MBA de segurança, é preso novamente pela PF no Rio

Na quinta-feira, 15/10/2026, a Polícia Federal prendeu preventivamente Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo, presidente estadual da legenda no Rio de Janeiro e deputado estadual eleito, durante a oitava fase da Operação Unha e Carne, investigação que apura a atuação de uma organização criminosa armada suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis da Região Metropolitana do Rio de Janeiro para lavagem de dinheiro, com participação de agentes públicos e articulação político-institucional. Segundo a PF, o grupo investigado movimentou mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos. A prisão ocorre meses depois de Canella participar do lançamento de um MBA em Segurança Pública promovido pela Fundação Índigo, presidida por ACM Neto, que naquele evento classificou a experiência administrativa do aliado em Belford Roxo como “realmente transformadora”.

Operação prende seis pessoas e atinge 112 empresas

A Polícia Federal informou oficialmente que a nova etapa da Operação Unha e Carne cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 16 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, Niterói, Angra dos Reis, Petrópolis, Armação dos Búzios, Nova Iguaçu e São Gonçalo. Todos os seis alvos das ordens de prisão foram detidos.

Além das prisões, a Justiça determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas relacionadas, segundo a investigação, à estrutura financeira do grupo. A PF afirma que 96 desses estabelecimentos são postos de combustíveis utilizados para camuflar e conferir aparência de legalidade a recursos de origem supostamente criminosa.

Entre os presos identificados estão Canella; o delegado Marcus Vinicius Amim Fernandes, ex-secretário da Polícia Civil do Rio de Janeiro e ex-presidente do Detran-RJ; e os policiais civis Pablo Jukia Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo, José Carlos Alves de Souza Júnior, Christiano Gaspar Fernandes e Giovanni Gaspar Fernandes.

Segundo informações sobre a decisão judicial, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, também estabeleceu bloqueio de bens e valores de até R$ 700 milhões, medida que alcança pessoas físicas e empresas investigadas. A PF havia identificado movimentações financeiras muito superiores a esse montante, mas o valor fixado judicialmente para indisponibilidade patrimonial ficou limitado ao teto de R$ 700 milhões.

PF atribui a Canella papel político na estrutura investigada

A oitava fase representa uma mudança de grau nas suspeitas publicamente conhecidas contra Canella. Documentos da investigação reproduzidos pela imprensa descrevem o político como “patrono político e articulador de alto escalão” da organização sob apuração. Essa classificação constitui uma tese da Polícia Federal, submetida ao contraditório e à análise do Supremo Tribunal Federal, e não equivale a condenação criminal.

Segundo a investigação, Canella seria um elo entre agentes públicos, integrantes do setor econômico e personagens ligados a grupos criminosos. A PF também investiga supostos entendimentos relacionados à retirada de barricadas em áreas controladas pelo Comando Vermelho, nos quais intervenções municipais teriam sido realizadas mediante negociações envolvendo o controle territorial exercido pela facção. As informações estão nos autos e foram divulgadas por veículos que tiveram acesso a trechos da investigação; permanecem sujeitas à contestação da defesa.

As apurações também examinam vínculos políticos e administrativos estabelecidos durante a trajetória de Canella em Belford Roxo e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Entre os pontos analisados está a relação com Marcus Amim, cuja ascensão a funções relevantes na segurança pública fluminense contou com apoio político de Canella.

Segundo a Folha de S.Paulo, a Polícia Federal ainda identificou movimentações financeiras atribuídas a Canella que passaram a integrar a investigação. A corporação ressalva, de acordo com a documentação citada pelo jornal, que o político não aparece necessariamente como operador direto do fluxo financeiro, mas seria investigado como possível beneficiário de recursos provenientes do núcleo econômico sob apuração.

As suspeitas, portanto, precisam ser separadas dos fatos já estabelecidos. Está confirmado que Canella foi preso preventivamente por ordem judicial, que integra formalmente a investigação, que houve medidas patrimoniais e que a PF atribui a ele papel relevante na estrutura examinada. A eventual prática individual dos crimes investigados dependerá de prova, manifestação da defesa e decisão judicial definitiva.

Investigados podem responder por organização criminosa, corrupção e lavagem

A Polícia Federal informou que os investigados poderão responder, na medida de suas responsabilidades, pelos crimes de organização criminosa armada, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel, sem prejuízo de outros delitos que eventualmente sejam identificados durante a investigação.

A expressão “na medida de suas responsabilidades” é juridicamente relevante porque a PF não atribui automaticamente todos os crimes a todos os investigados. A definição das condutas individuais dependerá do conjunto probatório e das etapas posteriores da persecução penal.

O montante de R$ 7,6 bilhões também não corresponde, necessariamente, ao valor comprovadamente lavado ou desviado. Trata-se da movimentação financeira identificada em Relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e utilizada como elemento da investigação. A caracterização criminal de cada operação financeira depende da apuração da origem, destino e finalidade dos recursos.

Canella havia sido elogiado por ACM Neto em evento de segurança pública

A prisão ganha repercussão política na Bahia porque, meses antes, Canella participou de um evento organizado pela Fundação Índigo, instituição vinculada ao União Brasil e presidida por ACM Neto, ex-prefeito de Salvador e primeiro vice-presidente nacional da legenda.

Em 21/05/2026, a Fundação Índigo e a Fundação Getulio Vargas (FGV) lançaram, no Centro Cultural da FGV, no Rio de Janeiro, um MBA em Segurança Pública. A própria fundação anunciou previamente a participação de Canella, então presidente do União Brasil no Rio, ao lado de ACM Neto, do presidente nacional da legenda, Antonio Rueda, e de especialistas ligados à segurança pública.

A especialização foi estruturada com mais de 430 horas-aula e 18 disciplinas, abrangendo temas como crime organizado, controle territorial, crimes cibernéticos e segurança pública. As inscrições começaram em 21 de maio, e o início das aulas da primeira turma foi programado para agosto.

Durante o lançamento, Canella foi apresentado politicamente como exemplo de experiência municipal na área. O ex-capitão do Bope Rodrigo Pimentel destacou ações realizadas em Belford Roxo, e ACM Neto afirmou que o trabalho desenvolvido pelo então ex-prefeito havia sido “realmente transformador”, acrescentando que a experiência mostraria a possibilidade de participação das administrações municipais nas políticas de segurança.

Na mesma ocasião, Canella afirmou que pretendia percorrer o país ao lado de Antonio Rueda e ACM Neto para discutir segurança pública. A manifestação indicava alinhamento político e intenção de utilizar a experiência de Belford Roxo no debate nacional promovido pelo partido e pela Fundação Índigo.

Não há comprovação de cargo formal de “consultor de ACM Neto”

Apesar de reportagens publicadas após a prisão terem chamado Canella de “consultor de segurança de ACM Neto”, os documentos públicos consultados não comprovam, até o momento, que o político fluminense tenha ocupado formalmente esse cargo.

O material oficial da Fundação Índigo de 14/05/2026 identifica Canella como presidente do União Brasil do Rio de Janeiro e registra sua participação no lançamento do MBA, mas não o apresenta como consultor de ACM Neto, professor do curso ou integrante formal da coordenação acadêmica. O coordenador identificado pela própria fundação era o analista de segurança Alessandro Visacro.

A formulação mais rigorosa, portanto, é dizer que Canella foi participante de destaque, aliado partidário e personagem elogiado publicamente por ACM Neto durante o lançamento do MBA, e não afirmar como fato, sem documentação adicional, que exercia função formal de consultoria.

Essa distinção não elimina a relevância política da associação pública. Apenas separa um vínculo efetivamente documentado — partidário, institucional e político — de um cargo profissional que não aparece comprovado nas fontes oficiais consultadas.

Segunda prisão em pouco mais de três meses

A prisão preventiva de outubro não é o primeiro episódio envolvendo Canella na Operação Unha e Carne.

Em 07/07/2026, durante a sexta fase da investigação, a Polícia Federal cumpriu 19 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Resende. Na ocasião, foram apreendidos aproximadamente R$ 919 mil, US$ 13 mil, um fuzil de calibre restrito, nove armas curtas, computadores, telefones, veículos, joias, relógios e documentos. Duas pessoas foram presas em flagrante por porte ilegal de arma de fogo de uso restrito.

Canella era um dos alvos das buscas e foi preso em flagrante depois que agentes localizaram um fuzil em seu veículo. Sua defesa sustentou que a arma era legalizada e registrada em nome de um policial militar que fazia sua segurança. O ministro Alexandre de Moraes determinou posteriormente sua soltura e, mais tarde, revogou as medidas cautelares impostas.

O episódio teve consequência eleitoral imediata. Canella era pré-candidato ao Senado pelo Rio de Janeiro em uma composição apoiada por Flávio Bolsonaro, na qual Rogéria Bolsonaro, mãe do senador, havia sido anunciada como primeira suplente. Após a prisão de julho, Canella abandonou a disputa pelo Senado e retornou à eleição proporcional.

Em 04/10/2026, foi eleito deputado estadual com 197.178 votos, a segunda maior votação para o cargo no estado. Onze dias depois, voltou a ser preso, desta vez por ordem preventiva na oitava fase da investigação.

Prisão ocorre após nova derrota eleitoral de ACM Neto na Bahia

A nova prisão também acontece num momento sensível para o União Brasil.

ACM Neto, que preside a Fundação Índigo e ocupa a primeira vice-presidência nacional da legenda, disputou novamente o Governo da Bahia em 2026. No primeiro turno de 04/10/2026, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) foi reeleito com 55,80% dos votos válidos, enquanto Neto obteve 43,72%.

Assim, quando Canella foi preso em 15 de outubro, apenas onze dias haviam transcorrido desde duas eleições politicamente relevantes para os personagens envolvidos: ACM Neto havia sido derrotado na Bahia e Canella conquistara novo mandato na Assembleia Legislativa fluminense.

O União Brasil mantém, em seu cadastro institucional, Canella como presidente de sua comissão provisória no Rio de Janeiro. O diretório nacional também o apresenta entre os vice-presidentes nacionais da sigla.

O vínculo partidário e a participação conjunta em eventos públicos tornam legítimo o questionamento político sobre os critérios utilizados para selecionar experiências administrativas apresentadas como referência em segurança. Essa discussão, entretanto, deve permanecer distinta da esfera criminal: não há nas informações públicas examinadas qualquer indicação de participação de ACM Neto nos fatos investigados pela Operação Unha e Carne.

Operação nasceu de investigação sobre infiltração do crime organizado no Estado

A Operação Unha e Carne integra um contexto investigativo mais amplo relacionado à ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas.

Em 03/04/2025, o Supremo Tribunal Federal concluiu uma etapa do julgamento da ação e determinou, entre outras medidas, que a Polícia Federal investigasse indícios de crimes de repercussão interestadual ou internacional relacionados à atuação de organizações criminosas no Rio de Janeiro e a suas conexões institucionais.

A primeira fase da Unha e Carne foi deflagrada em 03/12/2025 e atingiu o então presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Rodrigo Bacellar, sob suspeita de vazamento de informações sigilosas relacionadas à Operação Zargun, que havia alcançado o então deputado TH Joias, investigado por suspeitas de ligações com o Comando Vermelho.

Em 16/12/2025, a segunda fase aprofundou a investigação sobre o vazamento de informações e resultou na prisão do desembargador federal Macário Ramos Judice Neto, então ligado ao processo envolvendo TH Joias.

Ao longo de 2026, a investigação deixou de se restringir ao vazamento de operações policiais e passou a alcançar suspeitas de corrupção, contratos públicos, estruturas econômicas, agentes de segurança, grupos criminosos e possíveis mecanismos de lavagem de dinheiro.

A sexta fase, em julho, colocou Canella diretamente no centro dessa nova frente. A oitava, em outubro, elevou significativamente o nível das medidas cautelares ao decretar sua prisão preventiva e atingir uma extensa rede empresarial.

Defesa afirma confiar no esclarecimento dos fatos

Após a prisão, a assessoria de Márcio Canella informou inicialmente que ainda não havia obtido acesso integral aos autos. Em manifestação posteriormente reproduzida pela imprensa, a defesa declarou que o político confia na Justiça e acredita que os fatos serão esclarecidos.

A defesa de Marcus Amim também informou que aguardava acesso formal ao preso e ao inteiro teor da decisão judicial para formular manifestação.

As prisões são preventivas, e os investigados não podem ser tratados como condenados. O princípio constitucional da presunção de inocência permanece aplicável durante toda a investigação e eventual processo penal.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 03/04/2025 — STF e ADPF 635: o Supremo determina medidas voltadas ao enfrentamento de organizações criminosas no Rio e estabelece investigação federal sobre conexões entre crime organizado e agentes públicos. A decisão cria parte do ambiente institucional no qual se desenvolve a força-tarefa.
  • 03/12/2025 — Primeira fase da Operação Unha e Carne: a PF prende Rodrigo Bacellar, então presidente da Alerj, em investigação sobre suposto vazamento de informações relacionadas à Operação Zargun e a TH Joias.
  • 16/12/2025 — Segunda fase: a investigação alcança o desembargador federal Macário Ramos Judice Neto e aprofunda a apuração de vazamentos institucionais.
  • 21/05/2026 — MBA em Segurança Pública: Fundação Índigo e FGV lançam curso no Rio. Márcio Canella participa do evento e sua experiência em Belford Roxo é elogiada por ACM Neto como “realmente transformadora”.
  • 07/07/2026 — Sexta fase da Unha e Carne: Canella é alvo de busca e preso em flagrante depois que a PF localiza um fuzil em seu veículo. A defesa sustenta que a arma pertencia ao policial responsável por sua segurança.
  • Julho de 2026 — Soltura: Alexandre de Moraes determina a libertação de Canella, e medidas cautelares são posteriormente revogadas.
  • 03/08/2026 — Mudança eleitoral: Canella abandona a candidatura ao Senado e passa a disputar vaga de deputado estadual. A decisão ocorre após os efeitos políticos da prisão de julho.
  • 22/09/2026 — Sétima fase: a PF realiza nova etapa da Unha e Carne para apurar posse irregular de armamento de uso restrito e apreende dois fuzis e uma submetralhadora com um investigado.
  • 04/10/2026 — Eleições: Canella é eleito deputado estadual com 197.178 votos, ficando com a segunda maior votação no Rio de Janeiro. Na Bahia, Jerônimo Rodrigues derrota ACM Neto no primeiro turno.
  • 15/10/2026 — Oitava fase: a PF prende preventivamente Canella e outros cinco investigados, cumpre 16 buscas e atinge 112 empresas. A investigação informa movimentação superior a R$ 7,6 bilhões em seis anos.

A prisão de Márcio Canella reúne três dimensões de evidente interesse público: a investigação criminal de uma suposta estrutura econômica bilionária associada ao setor de combustíveis; a possível infiltração ou utilização de agentes públicos em benefício de interesses criminosos; e a projeção político-eleitoral de personagens que, simultaneamente, ocupavam espaços relevantes em debates sobre segurança pública. O aspecto mais grave da investigação não é uma associação partidária específica, mas a hipótese levantada pela PF de interpenetração entre poder político, agentes de segurança, empresas e organizações criminosas.

A participação de Canella no lançamento do MBA da Fundação Índigo introduz uma dimensão política adicional. Há documentação suficiente para afirmar que ele foi convidado ao evento, participou de discussões sobre segurança e teve sua experiência administrativa elogiada publicamente por ACM Neto. Não há, porém, base documental localizada para classificá-lo como “consultor de segurança de ACM Neto”. Da mesma forma, a relação partidária entre ambos não permite atribuir a Neto responsabilidade pelos crimes investigados. O questionamento legítimo situa-se, neste estágio, no campo dos critérios políticos adotados para legitimar experiências e aliados como referências públicas.

No plano criminal, a fase atual ainda é cautelar e investigativa. Afirmações da PF sobre supostos acordos com traficantes, vínculos com agentes associados a milícias, movimentações financeiras e utilização de postos para lavagem precisam ser submetidas ao contraditório e à produção de provas. A existência de prisão preventiva, bloqueios e medidas contra empresas demonstra a avaliação judicial de gravidade e risco processual, mas não substitui uma eventual denúncia, julgamento e condenação.

O caso possui relevância nacional porque a Operação Unha e Carne evoluiu de uma apuração sobre vazamento de informações policiais para uma investigação de estruturas políticas, econômicas e de segurança potencialmente relacionadas ao crime organizado no Rio de Janeiro. Os próximos passos dependerão da Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República e Supremo Tribunal Federal, além das manifestações das defesas. No plano político, União Brasil e Fundação Índigo deverão responder pela condução de seus vínculos institucionais, enquanto a Justiça Eleitoral e a Alerj poderão enfrentar consequências relacionadas à situação de um deputado eleito que se encontra preso preventivamente.


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