A relação entre o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o advogado e empresário Willer Tomaz passou ao centro de uma investigação financeira da Polícia Federal (PF) nesta quinta-feira (22/10/2026), três dias antes do segundo turno presidencial, após a corporação reunir registros de viagens em jatos executivos, dados empresariais do setor de apostas, documentos de uma offshore portuguesa e informações bancárias que apontam Flávio como antigo “usuário master” de uma conta vinculada à Alcazar Holdings, empresa de Tomaz. A apuração, remetida ao Supremo Tribunal Federal (STF) e distribuída ao ministro Alexandre de Moraes, examina hipóteses de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e eventual participação econômica ou societária ainda não comprovada. Flávio e Tomaz reconhecem amizade entre as famílias, mas negam relação financeira ou sociedade empresarial.
Os elementos surgiram, em parte, de dados obtidos após uma fase da Operação Sem Desconto, investigação sobre descontos indevidos em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Em 04/08/2026, o STF autorizou buscas contra nove pessoas e medidas sobre Willer Tomaz em uma frente destinada a investigar possível lavagem de dinheiro que teria como beneficiário o senador Weverton Rocha (PDT-MA). Flávio Bolsonaro não era apontado pelo Supremo como beneficiário desses supostos repasses naquela operação.
A análise posterior do material digital ligado a Tomaz abriu novas linhas de investigação. Entre os elementos examinados estão empresas no Brasil e em Portugal, o licenciamento de casas de apostas no Rio de Janeiro, movimentações bilionárias realizadas por Tomaz em plataformas de jogos, pagamentos de viagens internacionais e registros bancários relacionados à Alcazar Holdings. Até o momento, entretanto, as informações publicadas não demonstram que dinheiro retirado irregularmente de aposentados tenha sido transferido para Flávio Bolsonaro, nem comprovam que o senador tenha movimentado recursos ilícitos.
Cadastro bancário de Flávio Bolsonaro tornou-se um dos principais pontos da investigação
Um dos documentos considerados mais relevantes pela PF é uma troca de e-mails referente a uma conta empresarial da Alcazar Holdings, companhia de Willer Tomaz registrada na Ilha da Madeira, em Portugal.
Segundo relatório policial divulgado por diferentes veículos, Flávio Bolsonaro aparecia cadastrado no ambiente bancário como “usuário master”. Para os investigadores, esse nível de acesso poderia conferir capacidade relevante de consulta e gerenciamento operacional da conta. A PF registrou que, quando considerado juntamente com outros vínculos encontrados, o dado justificaria aprofundar a hipótese de eventual participação econômica ou societária do senador na estrutura empresarial.
Em 22/05/2025, uma funcionária de Tomaz enviou mensagem ao Santander solicitando alterações no gerenciamento da conta. Entre as providências, pediu a desassociação de um cadastro identificado com o nome de Flávio Bolsonaro e de outro relacionado ao próprio Willer. O banco respondeu posteriormente confirmando a exclusão solicitada.
A existência desse registro, contudo, não comprova isoladamente que Flávio tenha transferido dinheiro, recebido recursos da Alcazar ou possuído participação formal na companhia. Para estabelecer eventual vínculo econômico efetivo, será necessário esclarecer quais poderes estavam associados ao perfil, durante quanto tempo permaneceram ativos, quais operações foram realizadas e quem eram os beneficiários.
Flávio contesta a interpretação. O candidato declarou que nunca manteve conta em que Willer Tomaz ou empresas do advogado figurassem como usuário master e sustentou que o próprio pedido de retirada demonstra que a vinculação existente no sistema bancário era indevida. Tomaz também nega sociedade ou relação financeira com o senador.
Alcazar e Cathedral conectam investigação ao mercado de apostas
A estrutura societária examinada pela PF envolve principalmente duas companhias registradas na Ilha da Madeira: Cathedral Holdings e Alcazar Holdings.
A Cathedral foi constituída em janeiro de 2023, segundo documentos empresariais examinados pela revista piauí. No mês seguinte foi criada no Brasil a Rede Loto Ltda., que passou a explorar apostas com a marca Best Bet e tinha ligação societária com a estrutura portuguesa.
A Rede Loto foi formalmente aberta em 17/02/2023. Pouco depois, a Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) abriu procedimento para credenciamento de operadores de apostas. A empresa ligada a Tomaz esteve entre as companhias autorizadas e tornou-se uma das primeiras bets licenciadas pela autarquia estadual.
A investigação também examina o papel de Hazenclever Lopes Cançado, então presidente da Loterj. Reportagens baseadas no material policial afirmam que ele teria sido nomeado pelo então governador Cláudio Castro após indicação ou sugestão política atribuída a Flávio Bolsonaro e que possuía relação profissional anterior com Willer Tomaz. O eventual favorecimento no processo de licenciamento é objeto de apuração e não pode ser tratado como fato definitivamente comprovado.
Em 27/04/2023, data em que a Loterj divulgou edital para o licenciamento, a Rede Loto entregou documentação à autarquia. Segundo a Folha de S.Paulo, o conjunto tinha 132 páginas. A PF tenta reconstruir se a rapidez da entrada da companhia no mercado decorreu apenas de preparação empresarial legítima ou se houve interferência ou favorecimento de agentes públicos.
PF apura hipótese de sociedade indireta na Best Bet
Reportagem da revista piauí, publicada em 20/10/2026, sustentou, com base em registros empresariais brasileiros e portugueses, que Flávio Bolsonaro teria mantido participação indireta na Best Bet. Essa conclusão jornalística integra atualmente o conjunto de elementos que cercam a apuração, mas a existência de sociedade oculta ainda necessita ser demonstrada pelas autoridades competentes.
A reportagem identificou conexões entre Cathedral e Alcazar. As duas companhias foram vinculadas a Willer Tomaz, tiveram administração relacionada ao advogado Mateo Scudeler e utilizaram o mesmo endereço empresarial em Funchal.
Registros contábeis revelaram ainda variações simultâneas em contas a receber da Cathedral e obrigações da Alcazar. Especialista ouvido pela revista considerou possível a existência de financiamento entre as empresas. A correspondência contábil, entretanto, não permite concluir, sem acesso à documentação financeira integral, a natureza, direção ou finalidade de eventuais transferências.
É justamente a combinação entre essas estruturas societárias e o cadastro atribuído a Flávio na conta da Alcazar que levou a PF a considerar necessária uma apuração mais ampla sobre eventual participação econômica do senador.
Não há, por enquanto, decisão judicial reconhecendo Flávio como proprietário, beneficiário final ou sócio oculto da Best Bet.
Willer Tomaz movimentou R$ 6,33 bilhões em apostas desde 2025
Outro núcleo relevante da investigação está nas movimentações de Willer Tomaz como apostador.
Nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, revelada inicialmente pelo UOL e posteriormente confirmada por outros veículos, apontou Tomaz como a pessoa que movimentou o maior volume de apostas no Brasil em 2025.
Naquele ano, o advogado teria girado aproximadamente R$ 5 bilhões dentro das plataformas. O dado exige uma distinção fundamental: “volume apostado” não equivale a dinheiro novo depositado, porque a mesma quantia pode ser ganha, reapostada e novamente contabilizada diversas vezes.
Dados publicados nesta quinta-feira mostram que a movimentação continuou em 2026, com aproximadamente R$ 1,3 bilhão adicional. Entre janeiro de 2025 e 2026, o total contabilizado nas rodadas chegou a R$ 6.333.648.577,66. Segundo a defesa, os depósitos efetivamente realizados no período somaram cerca de R$ 326 milhões, enquanto as retiradas alcançaram aproximadamente R$ 234 milhões.
Cerca de 99,98% das apostas teriam sido destinadas a jogos online, incluindo cassinos virtuais e modalidades semelhantes ao chamado “jogo do tigrinho”; apenas parcela muito menor foi direcionada a apostas esportivas. A principal plataforma utilizada teria sido a Blaze.
Tomaz afirma que os recursos têm origem lícita, são compatíveis com seus rendimentos e foram informados à Receita Federal. Sua defesa argumenta ainda que a repetição de apostas com os mesmos valores multiplica artificialmente o volume bruto registrado pelas plataformas.
A PF, por outro lado, busca saber se todas essas operações corresponderam efetivamente a apostas regulares ou se parte das movimentações poderia ter sido empregada para dificultar o rastreamento da origem e do destino do dinheiro. Essa hipótese ainda depende de análise financeira e pericial.
Fazenda apontou falhas nos controles de prevenção à lavagem
A investigação federal ocorre paralelamente a questionamentos administrativos envolvendo os mecanismos de controle das próprias plataformas.
A nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas apontou problemas nos sistemas de monitoramento da empresa responsável pela Blaze, incluindo falhas na classificação de risco de clientes e na seleção de movimentações de grande vulto para procedimentos reforçados de integridade e prevenção à lavagem de dinheiro.
O Ministério da Fazenda instaurou procedimento administrativo envolvendo a empresa. As conclusões administrativas sobre eventual responsabilidade ainda dependem da tramitação correspondente.
O mercado de apostas atravessou rápida mudança regulatória. As apostas esportivas de quota fixa foram legalizadas pela Lei nº 13.756/2018, enquanto os jogos online passaram a integrar expressamente o marco regulatório com a Lei nº 14.790/2023. A partir de 01/01/2025, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas poderiam operar nacionalmente.
O quadro voltou a mudar em 25/09/2026, quando a Medida Provisória nº 1.394/2026 proibiu a exploração, oferta e publicidade das apostas de quota fixa em território nacional. A alteração é posterior à maior parte dos fatos examinados pela investigação e não modifica retroativamente a necessidade de esclarecer as operações realizadas enquanto o mercado funcionava sob regime anterior.
Empresas ligadas a Tomaz pagaram viagens realizadas com Flávio
As viagens internacionais constituem outro eixo utilizado pela PF para reconstruir a relação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz.
Em 19/01/2025, Flávio, a esposa, as duas filhas e Tomaz viajaram de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília em um jato Legacy 650, prefixo PP-NLR. A aeronave integrava estrutura de propriedade compartilhada administrada pela Fraction 024/Prime You.
Uma das participações econômicas associadas ao avião estava vinculada à Alcazar Holdings, de Tomaz. Outra estrutura relacionada à aeronave teve participação empresarial de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Tomaz afirma que utilizou horas correspondentes à própria cota e que Flávio e familiares viajaram como seus convidados.
A PF também encontrou registros de viagens europeias custeadas por empresa ligada ao setor de apostas.
Em 11/04/2025, Flávio e Willer viajaram de Lisboa para Nice, na França, em aeronave contratada junto à NetJets. Em 23/05/2025, partiram de Cascais para Nice, acompanhados de familiares, seguindo posteriormente para Paris. Segundo documentos examinados pela PF, a Cathedral, ligada à Rede Loto, financiou pelo menos três trechos aéreos realizados na Europa.
Tomaz afirma que os deslocamentos foram viagens particulares entre amigos, sem contrapartida econômica ou política.
A existência dos voos comprova proximidade pessoal e utilização de estruturas empresariais associadas ao advogado. Não comprova, isoladamente, pagamento de vantagem indevida, lavagem de dinheiro ou sociedade empresarial.
Exclusão do acesso bancário ocorreu durante viagem à Europa
Um aspecto temporal chamou a atenção dos investigadores.
O pedido de retirada do cadastro relacionado a Flávio Bolsonaro da conta da Alcazar ocorreu em 22/05/2025. No dia seguinte, Flávio, Tomaz e familiares fizeram um dos deslocamentos europeus ligados à Cathedral.
A alteração bancária ocorreu também aproximadamente um mês depois da deflagração nacional da Operação Sem Desconto, em 23/04/2025.
Essas coincidências cronológicas são fatos verificáveis, mas não demonstram qual foi a motivação da retirada do cadastro. Qualquer relação causal dependerá de comunicações bancárias completas, depoimentos, registros internos da empresa e demais evidências.
Operação Sem Desconto é origem indireta de parte das novas provas
A Operação Sem Desconto foi deflagrada pela PF e pela Controladoria-Geral da União (CGU) em 23/04/2025 para investigar um esquema de descontos associativos não autorizados sobre aposentadorias e pensões.
Documentos oficiais indicam que as apurações alcançaram fraudes patrimoniais de dimensão bilionária. A AGU informou que descontos potencialmente irregulares entre 2019 e 2024 poderiam chegar a R$ 6,3 bilhões, enquanto medidas judiciais buscaram inicialmente bloquear R$ 2,56 bilhões de associações, dirigentes e empresas investigadas.
A CGU já vinha examinando o crescimento das cobranças e encontrou problemas estruturais em entidades conveniadas ao INSS. Entre 29 associações auditadas, entrevistas realizadas com cerca de 1.300 aposentados indicaram que a maioria dizia não ter autorizado os descontos examinados.
A investigação expandiu-se para rastrear a circulação do dinheiro e identificar operadores, empresas, intermediários e eventuais beneficiários.
Busca contra Willer Tomaz foi autorizada pelo STF em agosto
Em 04/08/2026, a PF deflagrou nova fase da operação e cumpriu 18 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e no Maranhão.
Segundo a comunicação oficial da Polícia Federal, a investigação examinava indícios de operações realizadas por meio de pessoas físicas e jurídicas, contas bancárias de terceiros, estruturas empresariais e valores em espécie possivelmente destinados a ocultar origem e destino de recursos.
O ministro André Mendonça, então relator dessa frente da Operação Sem Desconto no STF, autorizou buscas e também o afastamento do sigilo de dados de localização telefônica de Willer Tomaz. O Supremo registrou oficialmente que aquela etapa buscava apurar suspeitas de lavagem que teriam como beneficiário Weverton Rocha.
Foi a análise posterior dos equipamentos e arquivos associados a Tomaz que revelou informações sobre Flávio Bolsonaro, bets, empresas, viagens e relacionamentos políticos, contribuindo para a abertura de uma frente investigativa distinta.
Essa origem é juridicamente relevante porque impede tratar automaticamente Flávio como participante das fraudes previdenciárias. Uma coisa é o material ter sido encontrado durante uma investigação ligada ao INSS; outra, diferente, é comprovar que o senador participou do esquema de descontos ou recebeu valores dele.
Até 22/10/2026, não foi publicada prova que estabeleça essa transferência.
Nova investigação chegou ao STF e ficou com Alexandre de Moraes
A PF decidiu encaminhar ao Supremo os novos elementos porque eles alcançam Flávio Bolsonaro, senador da República e autoridade submetida à jurisdição da Corte nos casos alcançados pelas regras constitucionais de competência.
Reportagens publicadas desde 18/10/2026 informam que o procedimento foi distribuído por sorteio ao ministro Alexandre de Moraes e está sob atuação de investigadores especializados em combate à lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Há, entretanto, divergência pública sobre a nomenclatura processual exata.
Veículos noticiaram a existência de um inquérito da PF envolvendo Flávio e Tomaz. A campanha do candidato sustenta que os autos enviados ao Supremo ainda não teriam sido formalmente convertidos em inquérito judicial porque faltariam manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) e decisão correspondente.
Independentemente dessa discussão terminológica, três elementos estão documentados: a PF reuniu e enviou material ao Supremo; Alexandre de Moraes foi designado relator; e a defesa de Flávio pediu acesso aos autos em 20/10/2026.
Investigação também examina licenciamento de bets no Rio
O material encaminhado ao STF não está limitado à relação privada entre Flávio e Willer.
A PF também analisa possíveis irregularidades envolvendo a Loterj, o ex-governador Cláudio Castro, dirigentes da autarquia e empresários ligados ao setor de apostas. Entre as questões examinadas estão os processos de credenciamento de operadores e de contratação de estruturas de pagamento.
Uma empresa ligada a Tomaz, a RioPag, tornou-se responsável pelo processamento de pagamentos das bets licenciadas pela Loterj.
Dados divulgados pelo UOL indicam que a companhia obteve aproximadamente R$ 187,8 milhões em receitas entre junho de 2023 e agosto de 2026. Do total de R$ 233 milhões gerado pela intermediação, cerca de 80,6% ficaram com a empresa, enquanto R$ 45,2 milhões foram destinados à Loterj.
A autarquia passou a cobrar da RioPag valores que considera devidos. Segundo dados publicados pela Folha, a cobrança alcançava R$ 9,4 milhões, além de R$ 4,8 milhões em multa. A companhia contesta a cobrança judicialmente, e Tomaz afirma não administrar diretamente a RioPag.
A PF deverá esclarecer se os resultados empresariais decorreram de operações regulares ou se existiram favorecimentos indevidos na formação dessa estrutura de mercado.
Apartamento utilizado na campanha reforça proximidade entre Flávio e Tomaz
Além das viagens, documentos e relatos públicos apontam outras situações de proximidade.
Durante a campanha presidencial de 2026, Flávio utilizou um apartamento pertencente a Willer Tomaz na Vila Nova Conceição, em São Paulo, para reuniões e atividades eleitorais, segundo reportagem da revista piauí posteriormente confirmada pela Folha.
O imóvel havia pertencido anteriormente a Fabiano Zettel, empresário ligado a Daniel Vorcaro. A aquisição e a sequência de proprietários passaram a despertar interesse jornalístico pela sobreposição de personagens encontrados em diferentes investigações financeiras.
O uso do apartamento, contudo, demonstra proximidade pessoal e disponibilidade patrimonial entre os dois, não uma irregularidade por si só.
Relação pessoal é reconhecida pelos dois
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz não negam que são próximos.
A Folha identificou registros da aproximação desde pelo menos 2019, quando Tomaz atuou na defesa do ex-ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio. Em 2021, durante a CPI da Covid, houve registro público em que Flávio tratava o advogado como amigo.
O ponto em disputa não é, portanto, a existência da amizade, mas sua eventual extensão econômica.
A PF procura determinar se a relação permaneceu estritamente pessoal, como afirmam os envolvidos, ou se também envolveu participação empresarial, operações financeiras, benefícios comerciais ou interesses comuns no mercado de apostas.
Essa distinção somente poderá ser estabelecida com documentos bancários, registros societários, perícias digitais, contratos, dados fiscais e eventual tomada de depoimentos.
Flávio e Willer negam irregularidades
Flávio Bolsonaro afirma que sua relação com Willer Tomaz é exclusivamente de amizade e que associar essa proximidade a práticas criminosas constitui ilação.
Sua defesa nega sociedade nas empresas do advogado, contesta a interpretação sobre a conta bancária e afirma que o candidato não praticou irregularidades.
A campanha também questiona a divulgação de informações sigilosas às vésperas do segundo turno presidencial e sustenta que o procedimento existente no STF ainda não corresponde, segundo sua interpretação, a um inquérito judicial formalizado.
Willer Tomaz declara que seus negócios são legais, suas participações empresariais constam de registros públicos e sua renda é declarada às autoridades fiscais. Sobre as apostas bilionárias, afirma que a contabilização repetitiva de valores em sucessivas rodadas produz volumes muito superiores aos depósitos efetivamente realizados.
Quanto às viagens, sustenta que decorreram da relação pessoal entre as famílias e não tiveram contrapartida política ou empresarial.
O que está comprovado e o que continua sob investigação
Os elementos conhecidos permitem estabelecer algumas distinções fundamentais.
Fatos documentados: Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz mantêm relação pessoal; viajaram juntos; empresas relacionadas a Tomaz custearam ou contrataram deslocamentos utilizados por ambos; um registro bancário encontrado pela PF indicava Flávio como usuário master em ambiente relacionado à Alcazar; o acesso foi retirado em 22/05/2025; Tomaz movimentou bilhões de reais em sucessivas apostas; e empresas ligadas ao advogado participaram do mercado de bets e de pagamentos vinculado à Loterj.
Hipóteses investigativas: eventual sociedade de fato entre Flávio e Tomaz; participação econômica do senador em estruturas empresariais; possível uso de plataformas de apostas ou empresas para lavagem de dinheiro ou evasão de divisas; e possíveis irregularidades nos processos relacionados à Loterj.
Informações ainda não demonstradas publicamente: que Flávio tenha movimentado dinheiro da conta da Alcazar; que tenha recebido recursos desviados do INSS; que seja beneficiário final da Cathedral, Rede Loto ou Best Bet; ou que as viagens representassem pagamento por algum ato praticado pelo senador.
Questões pendentes: identificação das operações bancárias efetuadas enquanto o cadastro permanecia ativo, reconstrução dos fluxos entre Cathedral e Alcazar, origem do dinheiro utilizado nas apostas de Tomaz, eventual destino de recursos retirados das plataformas e esclarecimento das relações entre empresas privadas e decisões administrativas da Loterj.
Caso emerge três dias antes do segundo turno presidencial
O avanço da investigação ocorre em momento eleitoral excepcionalmente sensível.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Flávio Bolsonaro obteve 56.104.268 votos, ou 47,03% dos votos válidos, no primeiro turno. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu 53.876.617 votos, equivalentes a 45,16%. Ambos disputarão a Presidência no domingo 25/10/2026.
A proximidade da votação amplia a repercussão política das informações, mas não altera o padrão probatório necessário à investigação.
Não há, até agora, dados objetivos que permitam medir eventual impacto eleitoral das revelações. Tampouco o calendário eleitoral substitui o dever institucional de apurar fatos potencialmente relevantes ou o direito dos investigados de contestar as suspeitas e ter acesso às provas utilizadas contra eles.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 2019 — Willer Tomaz atua na defesa do ex-ministro Marcelo Álvaro Antônio; registros públicos situam nesse período o início da aproximação conhecida entre o advogado e Flávio Bolsonaro.
- 2021 — Flávio refere-se publicamente a Tomaz como amigo durante episódio relacionado à CPI da Covid, reforçando a existência da relação pessoal.
- Janeiro de 2023 — É criada em Portugal a Cathedral Holdings, ligada a Willer Tomaz.
- 17/02/2023 — É constituída a Rede Loto Ltda., posteriormente vinculada à marca Best Bet.
- Abril e maio de 2023 — A Loterj desenvolve processo de licenciamento de bets; a Rede Loto integra o conjunto de empresas autorizadas. A PF atualmente examina possíveis irregularidades nesse processo.
- 19/01/2025 — Flávio, familiares e Willer viajam de Fort Lauderdale para Brasília em jato executivo associado a estrutura de propriedade compartilhada. Tomaz afirma ter utilizado sua própria cota.
- 11/04/2025 — Flávio e Tomaz viajam de Lisboa para Nice em voo contratado por estrutura empresarial ligada ao advogado.
- 23/04/2025 — PF e CGU deflagram a Operação Sem Desconto, destinada a investigar descontos associativos indevidos em benefícios previdenciários.
- 22/05/2025 — Funcionária de Tomaz solicita ao Santander a retirada de cadastro identificado como Flávio Bolsonaro do gerenciamento bancário relacionado à Alcazar.
- 23/05/2025 — Flávio, Tomaz e familiares viajam de Cascais para Nice e seguem posteriormente para Paris; a Cathedral aparece na contratação dos trechos.
- 04/08/2026 — PF cumpre 18 mandados em nova fase da Operação Sem Desconto. O STF autoriza medidas relacionadas a Willer Tomaz na apuração sobre suspeita de lavagem que teria Weverton Rocha como beneficiário.
- 25/09/2026 — A MP nº 1.394/2026 proíbe a exploração, oferta e publicidade de apostas de quota fixa no país.
- 10/10/2026 — Tornam-se públicas informações sobre e-mails encontrados pela PF envolvendo o cadastro bancário relacionado a Flávio Bolsonaro.
- 16/10/2026 — O procedimento envolvendo Flávio e Willer é distribuído no STF ao ministro Alexandre de Moraes, segundo informações publicadas posteriormente.
- 20/10/2026 — Flávio pede a Moraes acesso ao material investigativo. No mesmo período, é divulgada nota técnica da Fazenda segundo a qual Willer movimentou aproximadamente R$ 5 bilhões em apostas em 2025.
- 21/10/2026 — Novos detalhes do relatório da PF tornam pública a hipótese de eventual participação econômica ou societária de Flávio em estrutura relacionada a Tomaz; os envolvidos negam.
- 22/10/2026 — Dados adicionais indicam que a movimentação de Tomaz em apostas alcançou R$ 6,33 bilhões desde 2025, enquanto nova consolidação jornalística reúne os vínculos empresariais, bancários e pessoais encontrados pela investigação.
- 25/10/2026 — Flávio Bolsonaro e Lula disputarão o segundo turno presidencial, conforme calendário oficial do TSE.
O núcleo relevante do caso não está na amizade, já reconhecida, entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz, mas na sobreposição de relações pessoais, estruturas empresariais e registros financeiros. Viagens custeadas por companhias ligadas ao advogado, cadastro bancário atribuído ao senador, empresas instaladas no exterior e negócios no setor de apostas constituem elementos objetivos que justificam investigação. Isoladamente, porém, nenhum desses fatos prova lavagem de dinheiro, sociedade oculta ou recebimento de vantagem indevida.
A investigação enfrenta um desafio probatório decisivo: converter conexões pessoais e coincidências empresariais em fluxos financeiros demonstráveis. Para confirmar ou afastar a hipótese de participação econômica de Flávio, será necessário identificar quem movimentou a conta da Alcazar, quais operações foram realizadas, se houve transferência entre Cathedral e Alcazar e quem efetivamente se beneficiou dos recursos. O mesmo rigor deve orientar a análise das apostas de Tomaz: R$ 6,33 bilhões em volume de jogo não significam R$ 6,33 bilhões de patrimônio ou dinheiro novo, razão pela qual depósitos, saques, ganhos, perdas e reapostas precisam ser examinados separadamente.
Também é indispensável manter juridicamente separados os diferentes núcleos investigativos. A Operação Sem Desconto forneceu acesso a materiais que desencadearam novas apurações, mas isso não significa que todo personagem encontrado nesses arquivos integre o esquema contra aposentados. Até o momento, não existe prova pública de transferência de recursos desviados do INSS para Flávio Bolsonaro. Da mesma forma, a investigação sobre bets e Loterj precisa demonstrar individualmente eventual favorecimento, contrapartida ou participação societária antes que essas hipóteses possam ser apresentadas como responsabilidades comprovadas.
A relevância pública é ampliada porque o caso alcança um senador que disputa a Presidência da República, envolve movimentações financeiras de grande escala, empresas no exterior, o mercado regulado de apostas e uma investigação originada em fraudes contra beneficiários da Previdência. Os próximos passos dependerão da Polícia Federal, responsável pelo rastreamento financeiro e perícias; da PGR, a quem caberá avaliar providências penais perante o Supremo; e do STF, que decidirá sobre medidas judiciais. Para Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz, a questão central será confrontar documentalmente os indícios reunidos pela investigação com a versão apresentada por suas defesas.








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