Deputado Lindbergh pede à PF investigação de Flávio Bolsonaro no caso INSS e quebra de sigilos após divulgação de e-mails

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) apresentou à Polícia Federal (PF) uma notícia-crime pedindo a inclusão formal do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) nas investigações da Operação Sem Desconto, que apura fraudes relacionadas a descontos indevidos em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Protocolado no sábado (10/10/2026) e repercutido neste domingo (11/10/2026), o documento, de 16 páginas, solicita ainda a quebra dos sigilos bancário e fiscal do parlamentar, de sua sociedade de advocacia e de estruturas empresariais relacionadas ao advogado Willer Tomaz, além de rastreamento financeiro e eventual cooperação internacional. A iniciativa foi apresentada depois da divulgação de e-mails obtidos pela PF que apontam que uma conta identificada com o nome de Flávio esteve vinculada a um perfil de acesso bancário relacionado a Tomaz. Os dois negam qualquer relação financeira, e os elementos conhecidos até agora não comprovam que o senador tenha recebido recursos desviados do INSS.

Notícia-crime pede inclusão formal de Flávio Bolsonaro na investigação

Na representação encaminhada à Polícia Federal, Lindbergh solicita que a corporação leve ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), pedido para que Flávio Bolsonaro seja formalmente incluído entre os investigados da Operação Sem Desconto.

Mendonça é responsável no Supremo pela frente investigativa que, em 4 de agosto de 2026, autorizou novas medidas destinadas a esclarecer suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas ao caso. Naquela etapa, o STF informou que buscas haviam sido autorizadas contra nove pessoas na Petição 16.435, dentro de uma apuração sobre possível estrutura financeira que teria como beneficiário o senador Weverton Rocha (PDT-MA).

A apresentação de uma notícia-crime, entretanto, não transforma automaticamente Flávio Bolsonaro em investigado nem confirma as acusações apresentadas pelo parlamentar petista. Caberá às autoridades examinar se os elementos encaminhados justificam novas diligências e, quando houver medidas submetidas à reserva de jurisdição, solicitar autorização judicial.

Pedido inclui quebra de sigilos bancário e fiscal

Segundo o documento obtido pelo UOL, Lindbergh requer a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Flávio Bolsonaro, de sua sociedade de advocacia e de contas relacionadas a Willer Tomaz, Alcazar Holdings e Cathedral Holdings.

O objetivo declarado é verificar se existiram movimentações financeiras relacionadas ao esquema de descontos não autorizados que originou a Operação Sem Desconto. O parlamentar também requer análise de operações pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

A representação solicita ainda cooperação internacional para obtenção de informações em Portugal e, se necessário, nos Estados Unidos, com a finalidade de esclarecer a estrutura societária das empresas estrangeiras, identificar contas e verificar pagamentos relacionados a viagens.

Lindbergh menciona suspeitas de lavagem de dinheiro, organização criminosa, corrupção, evasão de divisas, obstrução de investigação e eventuais irregularidades eleitorais. Essas classificações jurídicas, porém, constituem hipóteses apresentadas pelo deputado e não correspondem, neste estágio, a imputações formalmente reconhecidas pela Polícia Federal, pela Procuradoria-Geral da República ou pelo Supremo.

E-mails encontrados pela PF motivaram representação

A notícia-crime foi apresentada depois da divulgação de documentos obtidos pela Polícia Federal em material relacionado a Willer Tomaz.

Um dos principais registros conhecidos é um e-mail enviado em 22/05/2025 ao Santander por Fayla Zulmira Menezes, funcionária vinculada à estrutura profissional do advogado. Na mensagem, ela solicitou a retirada de uma conta identificada como “Flávio Bolsonaro” de um chamado “usuário master” associado ao ambiente bancário utilizado por Tomaz. O banco confirmou a exclusão no mesmo dia.

Segundo as informações divulgadas, o mesmo ambiente de acesso também estava relacionado à Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, e vinculada ao advogado.

A documentação conhecida, contudo, não estabelece isoladamente quem era o titular econômico dos valores, quais poderes de movimentação estavam disponíveis, se o vínculo permitia transferências entre contas nem se houve operações financeiras entre Flávio e Tomaz.

Por essa razão, a expressão “conta compartilhada” utilizada em parte da cobertura jornalística precisa ser compreendida dentro desses limites documentais: os e-mails indicam uma associação em um sistema de acesso bancário, mas não bastam, por si sós, para demonstrar a existência de uma conta conjunta convencional ou de sociedade financeira entre os envolvidos.

Flávio Bolsonaro nega relação financeira com Willer Tomaz

A assessoria de Flávio Bolsonaro contestou a interpretação dada aos documentos.

O senador afirmou que “nunca manteve conta tendo como usuário master o sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas” e sustentou que qualquer afirmação nesse sentido seria falsa. Sua equipe atribuiu a divulgação das informações ao contexto eleitoral e anunciou medidas contra conteúdos que considere falsos.

A defesa de Willer Tomaz apresentou posição semelhante. Segundo manifestação divulgada à imprensa:

“Entre os dois há apenas amizade, sem relação comercial ou financeira.”

A equipe do advogado também negou que Tomaz tenha criado usuário bancário em nome de Flávio e informou ter adotado providências judiciais. De acordo com a Folha de S.Paulo, a Polícia Federal abriu investigação específica para apurar o vazamento de informações protegidas por sigilo.

Até 11/10/2026, não havia sido apresentada publicamente prova de que valores provenientes das fraudes contra aposentados e pensionistas tenham sido transferidos para Flávio Bolsonaro.

Investigação precisa esclarecer natureza do vínculo bancário

A questão documental central passa a ser determinar a natureza da associação registrada nos sistemas bancários.

Entre os pontos que permanecem sem resposta pública estão quem era o titular formal da conta mencionada no e-mail, quais usuários possuíam poderes efetivos de movimentação, por quanto tempo o vínculo permaneceu ativo, se ocorreram transações e qual foi a origem e o destino de eventual movimentação financeira.

Também deverá ser esclarecido por que a desvinculação registrada no Santander ocorreu em 22/05/2025, aproximadamente um mês depois da deflagração nacional da Operação Sem Desconto.

A proximidade temporal constitui um dado objetivo, mas não permite, isoladamente, inferir a motivação da alteração cadastral. Estabelecer eventual relação causal exige documentos bancários, comunicações completas e demais elementos probatórios.

Alcazar e Cathedral aparecem em pedidos sobre viagens

O requerimento de Lindbergh também menciona deslocamentos realizados por Flávio Bolsonaro e familiares em aeronaves relacionadas a estruturas empresariais vinculadas a Willer Tomaz.

Segundo as informações incorporadas à representação, Alcazar Holdings e Cathedral Holdings, registradas em Portugal, aparecem relacionadas a pagamentos ou utilização de aeronaves executivas. Tomaz declara ser único sócio da Alcazar e possuir participação na Cathedral.

Em 19/01/2025, Flávio, sua mulher, suas duas filhas e Tomaz viajaram de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília em um Legacy 650. Segundo a versão apresentada pelo advogado em reportagens anteriores, o trecho teria sido custeado com horas correspondentes à participação que mantinha na aeronave, tendo os demais passageiros viajado como convidados.

A existência da viagem é relevante para reconstruir as relações pessoais e patrimoniais analisadas pela investigação, mas não comprova pagamento com recursos ilícitos nem contrapartida do senador ao advogado.

Apartamento usado durante campanha também consta do contexto

Outro elemento mencionado na representação refere-se a um apartamento em São Paulo pertencente a uma empresa ligada a Willer Tomaz e utilizado temporariamente por Flávio Bolsonaro durante a campanha presidencial, em agosto de 2026.

Reportagens publicadas em setembro informaram que o parlamentar permaneceu durante alguns dias no imóvel, localizado na Vila Nova Conceição, enquanto seu comitê eleitoral funcionava nas proximidades.

O episódio provocou questionamentos também sobre eventual necessidade de contabilização eleitoral do uso do imóvel. A existência desse questionamento, entretanto, deve ser separada da investigação sobre os descontos do INSS: eventual irregularidade eleitoral depende da natureza da cessão, da existência ou não de pagamento e da análise dos órgãos competentes.

Willer Tomaz foi alvo da Operação Sem Desconto em agosto

O advogado entrou formalmente no centro das diligências da Operação Sem Desconto em 04/08/2026, quando o ministro André Mendonça autorizou uma nova etapa da investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro.

Segundo o STF, a operação buscava verificar possível atuação de investigados em operações financeiras que teriam como beneficiário Weverton Rocha. O senador maranhense nega irregularidades.

Nos documentos da investigação divulgados posteriormente, a estrutura relacionada a Willer Tomaz — formada por empresas, imóveis, aeronaves, funcionários e operadores — foi descrita pela tese policial como um possível “hub financeiro, patrimonial e logístico”.

Essa descrição representa a hipótese da Polícia Federal submetida ao Judiciário e não uma conclusão judicial sobre culpa. Tomaz nega participação nas fraudes previdenciárias ou em operações de lavagem de dinheiro.

Operação Sem Desconto começou após auditorias da CGU

A origem do caso antecede as atuais conexões políticas.

A Controladoria-Geral da União (CGU) informa que iniciou, em 2023, apurações diante do crescimento do número de entidades conveniadas e dos valores descontados de aposentados.

Foram auditadas 29 entidades que possuíam Acordos de Cooperação Técnica com o INSS e entrevistados cerca de 1.300 aposentados. Segundo a CGU, a maioria dos entrevistados declarou não ter autorizado os descontos, enquanto 70% das 29 entidades analisadas não haviam apresentado toda a documentação exigida.

A Polícia Federal e a CGU deflagraram nacionalmente a Operação Sem Desconto em 23/04/2025, destinada a apurar cobranças associativas não autorizadas incidentes sobre aposentadorias e pensões.

A investigação avançou posteriormente para diferentes núcleos financeiros, empresariais, administrativos e políticos.

Primeiro inquérito foi concluído em julho de 2026

Em 14/07/2026, a Polícia Federal concluiu o primeiro inquérito de um dos núcleos da Operação Sem Desconto e indiciou 48 pessoas relacionadas às apurações sobre a Conafer.

Entre os nomes citados naquele procedimento estavam o empresário conhecido como Careca do INSS, o ex-presidente do instituto Alessandro Stefanutto, Carlos Roberto Ferreira Lopes, Virgílio Oliveira Filho e André Fidelis. O relatório foi encaminhado para avaliação do Ministério Público.

Outros núcleos permaneceram sob investigação, demonstrando que a operação reúne procedimentos distintos e que a eventual presença de um nome em uma frente não significa participação comprovada em todas as irregularidades apuradas.

Caso assume dimensão eleitoral no segundo turno

A representação contra Flávio Bolsonaro foi apresentada em meio ao segundo turno da eleição presidencial de 2026, disputado pelo senador do PL e pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Lindbergh Farias pertence ao PT, integra a base governista e exerce em 2026 funções de vice-liderança do governo na Câmara e no Congresso, segundo os registros oficiais da Câmara dos Deputados.

A posição política do autor da notícia-crime é, portanto, um elemento indispensável para compreender o contexto de apresentação do documento, mas não determina por si mesma sua validade ou invalidade jurídica.

Da mesma forma, a condição de Flávio como adversário eleitoral do presidente não constitui argumento para confirmar ou afastar os fatos descritos. A consistência das suspeitas dependerá do conteúdo dos documentos, das diligências policiais, da manifestação do Ministério Público e das decisões judiciais cabíveis.

Pedido depende de PF, PGR e STF

A notícia-crime não equivale a denúncia criminal, indiciamento ou processo penal.

A Polícia Federal deverá avaliar os elementos apresentados e definir quais providências podem ser adotadas dentro de suas atribuições. Medidas invasivas, como determinadas quebras de sigilo, dependem de fundamentação concreta e de autorização judicial.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) também poderá se manifestar diante da presença de agente político com foro perante o Supremo e da tramitação de procedimentos sob supervisão da Corte.

Ao ministro André Mendonça caberá decidir sobre eventuais pedidos submetidos ao Judiciário no processo sob sua relatoria.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 2023 — Início das auditorias da CGU: Controladoria passa a investigar a expansão dos descontos associativos no INSS; auditorias em 29 entidades e entrevistas com cerca de 1.300 aposentados identificam problemas de autorização e documentação.
  • 19/01/2025 — Viagem entre Estados Unidos e Brasília: Flávio Bolsonaro, familiares e Willer Tomaz viajam em um Legacy 650; a natureza financeira do uso da aeronave integra os elementos posteriormente mencionados na investigação.
  • 23/04/2025 — Deflagração da Operação Sem Desconto: PF e CGU iniciam operação nacional contra descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões do INSS.
  • 22/05/2025 — E-mail ao Santander: funcionária vinculada a Willer Tomaz pede a retirada de uma conta identificada como “Flávio Bolsonaro” de um perfil bancário relacionado ao advogado; o banco confirma a alteração.
  • 14/07/2026 — Primeiro inquérito concluído: PF indicia 48 pessoas em uma das frentes relacionadas à Conafer; outros núcleos permanecem sob investigação.
  • 04/08/2026 — Nova etapa da Operação Sem Desconto: ministro André Mendonça autoriza buscas contra investigados em apuração sobre possível lavagem de dinheiro relacionada ao senador Weverton Rocha; Willer Tomaz aparece entre os alvos da investigação.
  • Agosto de 2026 — Uso de imóvel em São Paulo: Flávio Bolsonaro utiliza durante parte da campanha um apartamento pertencente a empresa ligada a Willer Tomaz, segundo reportagens posteriormente publicadas.
  • 10/10/2026 — Divulgação dos e-mails: documentos obtidos pela PF tornam pública a associação de uma conta identificada com o nome de Flávio a ambiente bancário relacionado a Willer Tomaz. Ambos negam vínculo financeiro.
  • 10/10/2026 — Notícia-crime: Lindbergh Farias apresenta documento de 16 páginas pedindo investigação formal de Flávio, quebra de sigilos, análise do Coaf e rastreamento internacional.
  • 11/10/2026 — Caso repercute durante segundo turno: pedido passa a integrar o debate político e jurídico da campanha presidencial, ainda sem decisão pública que transforme as acusações de Lindbergh em imputações formais.

Os documentos divulgados acrescentam um elemento objetivo a relações pessoais que já eram publicamente conhecidas entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz: a existência de uma associação registrada em ambiente bancário entre uma conta identificada com o nome do senador e uma estrutura de acesso relacionada ao advogado e à Alcazar Holdings. O dado justifica questionamentos e eventual aprofundamento investigativo, mas a documentação disponível não demonstra, por si só, conta conjunta, transferência de recursos, lavagem de dinheiro ou recebimento de valores desviados do INSS.

A notícia-crime de Lindbergh amplia a dimensão institucional do caso ao propor diligências capazes de responder às principais lacunas: titularidade das contas, poderes de movimentação, origem e destino dos valores, pagamentos de aeronaves, eventual relação financeira com empresas portuguesas e circunstâncias da desvinculação bancária ocorrida em maio de 2025. Somente a obtenção desses elementos permitirá estabelecer se o registro encontrado possui natureza meramente administrativa ou significado financeiro relevante para a Operação Sem Desconto.

O ambiente eleitoral impõe cuidado adicional. Lindbergh integra o partido do adversário presidencial de Flávio, enquanto a defesa do senador afirma que a divulgação busca produzir efeitos políticos. Ambas são posições das partes. A análise jurídica não pode derivar nem da acusação partidária nem da alegação de perseguição eleitoral: deverá resultar da documentação bancária, das provas produzidas pela PF, da avaliação da PGR e das decisões do Supremo.

O episódio possui relevância pública porque uma investigação iniciada para apurar cobranças bilionárias sobre benefícios de aposentados e pensionistas alcançou estruturas financeiras e patrimoniais complexas e agora produz questionamentos sobre um senador e candidato à Presidência. Nos próximos passos, caberá à Polícia Federal avaliar a notícia-crime e aprofundar ou não as diligências; à PGR, examinar eventual repercussão penal; ao STF, decidir sobre medidas sujeitas à autorização judicial; e às defesas apresentar documentos capazes de esclarecer os vínculos apontados. Até que esses elementos sejam produzidos, a distinção entre indícios, alegações e fatos comprovados permanece fundamental.


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