Nesta quarta-feira (21/10/2026), a quatro dias do segundo turno presidencial, novas informações ampliaram o escrutínio sobre as relações financeiras e empresariais do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o advogado Willer Tomaz. Reportagem da revista piauí, repercutida pela Folha de S.Paulo, revelou que a Polícia Federal (PF) solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de inquérito para investigar se Flávio foi sócio oculto da BestBet, casa de apostas controlada pela Rede Loto e licenciada originalmente pela Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj). A suspeita é construída a partir de registros bancários, documentos empresariais brasileiros e portugueses, relações entre as holdings Cathedral e Alcazar e viagens em jatos executivos. Flávio não respondeu às novas perguntas encaminhadas pelos veículos nesta quarta; anteriormente, afirmou que sua relação com Tomaz é exclusivamente de amizade e negou irregularidades. O advogado também rejeita as acusações.
O episódio ocorre no momento mais sensível da campanha presidencial. No primeiro turno, Flávio recebeu 56.104.268 votos, equivalentes a 47,03% dos votos válidos, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) obteve 53.876.617 votos, ou 45,16%, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O segundo turno está marcado para domingo (25/10/2026). Pesquisa Quaest (BR-08535/2026) divulgada nesta quarta mostra Flávio com 45% das intenções de voto e Lula com 44%, cenário de empate técnico diante da margem de erro de dois pontos percentuais.
PF apura possível participação oculta de Flávio Bolsonaro na BestBet
A informação central revelada pela piauí é que a PF pediu ao STF autorização para aprofundar a suspeita de que Flávio Bolsonaro teria participação econômica não formalizada na BestBet. A expressão “sócio oculto”, nesse contexto, designa a hipótese de alguém participar de um empreendimento ou de seus resultados sem aparecer formalmente no quadro societário.
A BestBet foi estruturada por meio da Rede Loto Ltda., constituída em 2023 com capital de R$ 1 milhão. Sua controladora era a Cathedral Holdings, empresa registrada na Ilha da Madeira, em Portugal, criada por Willer Tomaz e outros investidores brasileiros. A Cathedral aparece nos registros societários como única acionista da Rede Loto.
Segundo a Folha, o principal alvo da investigação por suspeita de lavagem de dinheiro é Willer Tomaz, apontado como sócio ostensivo do negócio e amigo de Flávio. A reportagem registra ainda movimentações de aproximadamente R$ 5 bilhões em apostas atribuídas ao advogado.
Cathedral e Alcazar aparecem no centro do rastreamento financeiro
Um dos elementos considerados relevantes pela investigação é a relação entre a Cathedral, controladora da BestBet, e outra empresa registrada em Portugal, a Alcazar Holdings.
Documentos bancários obtidos pela PF indicam que Flávio Bolsonaro aparecia como “usuário master” de uma conta empresarial ligada à Alcazar no Santander. Essa condição permitiria acesso operacional elevado aos serviços bancários digitais. O pedido para retirar o senador dessa condição foi encaminhado ao banco em 22 de maio de 2025.
A piauí afirma que, naquela conta, Flávio e Willer Tomaz figuravam entre os usuários com privilégios de administração. Tomaz contesta essa interpretação e afirma que o senador “jamais foi sócio da Best Bet, direta ou indiretamente”, que ambos nunca compartilharam conta bancária e que Flávio nunca foi usuário master da Alcazar.
Há, portanto, uma divergência factual relevante: de um lado, documentos e relatório policial citados pelas reportagens indicariam o vínculo operacional; de outro, Tomaz nega que a relação bancária tenha existido nos termos apresentados.
Contabilidades apresentam valores próximos entre Cathedral e Alcazar
Outro ponto que levou os investigadores e jornalistas a examinar eventual ligação financeira entre as duas empresas está nos balanços registrados em Portugal.
Em 2025, a Cathedral declarou créditos a receber de 984 mil euros, contra apenas 7,8 mil euros no exercício anterior. No mesmo período, a dívida registrada pela Alcazar teria passado de 8,1 mil euros para 824 mil euros.
Os valores não constituem, isoladamente, prova de transferência entre as duas empresas. A proximidade, porém, foi apontada pela piauí como um dos indícios que justificam aprofundamento documental. Um auditor fiscal português consultado pela revista afirmou, sob anonimato, ser possível que a Cathedral tivesse financiado total ou parcialmente a Alcazar. Essa avaliação é uma interpretação técnica atribuída à fonte, e não uma conclusão oficial da Justiça brasileira ou portuguesa.
A questão central para a investigação é determinar a origem, o destino e a natureza desses recursos, além de verificar se eventual movimentação financeira produziu benefício econômico direto ou indireto ao candidato do PL.
Voos de Flávio foram contratados por empresa ligada à bet
A relação ganhou maior dimensão pública na semana anterior, quando documentos da PF mostraram que a Cathedral esteve associada à contratação de ao menos três trechos de jato executivo utilizados por Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz em viagens pela Europa em 2025.
Em 11 de abril de 2025, ambos viajaram de Lisboa para Nice, na França. Em 23 de maio, acompanhados de familiares, partiram de Cascais novamente para Nice e depois seguiram para Paris.
A defesa de Tomaz afirmou que os custos foram assumidos pessoalmente pelo advogado e caracterizou os deslocamentos como viagens de lazer entre amigos e familiares, “sem contrapartida de qualquer natureza”. Flávio também sustentou que sua ligação com o advogado é estritamente pessoal.
A informação exige uma distinção essencial: a existência das viagens e da relação pessoal não comprova, por si só, sociedade empresarial, lavagem de dinheiro ou contraprestação ilícita. A relevância investigativa decorre da necessidade de confrontar esses episódios com documentos bancários, societários e contábeis.
Versão de que BestBet não operou é confrontada por registros regulatórios
Willer Tomaz sustenta que a BestBet nunca chegou a iniciar efetivamente suas operações de apostas.
A versão, entretanto, é confrontada por elementos documentais citados pela Folha. Registros arquivados na internet mostram o domínio bestbet.com.br ativo pelo menos desde dezembro de 2023, enquanto documentos da Loterj registrariam, desde junho daquele ano, recolhimentos de taxa variável equivalentes a 5% da receita da empresa com jogos.
Esse conflito documental é especialmente relevante porque a existência ou não de faturamento ajuda a definir a natureza econômica da companhia e permite rastrear eventual distribuição de receitas.
Ata registrada na Junta Comercial de São Paulo em 3 de fevereiro de 2026 também aprovou a distribuição de lucros acumulados pela Rede Loto até 31 de dezembro de 2025, embora o documento citado pela reportagem não detalhe os valores. Formalmente, a Cathedral era a beneficiária societária registrada.
Loterj autorizou empresa em 2023 e STF limitou atuação territorial em 2025
A BestBet entrou no mercado por meio de autorização estadual da Loterj, vinculada ao governo de Cláudio Castro (PL-RJ).
Segundo a reconstrução documental da piauí, a Cathedral foi criada em janeiro de 2023, a Rede Loto no mês seguinte e, em maio, a empresa estava entre as casas autorizadas pela autarquia fluminense. A autorização foi assinada pelo então presidente da Loterj Hazenclever Cançado. A revista registra reportagem anterior da Folha segundo a qual Cançado teria chegado ao posto por indicação de Flávio Bolsonaro; essa indicação é uma atribuição jornalística e não demonstra, por si só, participação do senador na concessão da licença.
O modelo regulatório do Rio tornou-se posteriormente objeto de disputa judicial. Em janeiro de 2025, o ministro André Mendonça, do STF, determinou que as empresas credenciadas pela Loterj não recebessem apostas realizadas fora do território fluminense e restabelecessem mecanismos de geolocalização.
O Plenário confirmou posteriormente a medida. O STF estabeleceu que os estados podem explorar loterias dentro de seus territórios, mas que uma autorização estadual não permite atuação nacional.
Governo Lula proibiu apostas de quota fixa em setembro de 2026
O setor atravessa atualmente mudança regulatória ainda mais profunda.
Em 25/09/2026, Lula editou a Medida Provisória nº 1.394/2026, que proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa no território nacional. A norma estabeleceu a extinção das autorizações então existentes em 30 dias e determinou que as plataformas fossem retiradas de operação durante o período de transição.
Esse contexto adiciona uma dimensão política ao caso. A piauí registra apoio de empresários do setor de apostas à candidatura de Flávio Bolsonaro e afirma que alguns deles esperam eventual reversão da proibição em um futuro governo do PL. A expectativa atribuída ao setor não equivale, contudo, a compromisso formal do candidato de restaurar o modelo anterior.
A discussão sobre a BestBet refere-se principalmente a relações empresariais e movimentações realizadas antes da proibição nacional, razão pela qual a mudança legislativa de setembro não elimina a necessidade de esclarecimento de fatos anteriores.
Lula leva quebra de sigilos ao centro da campanha
As revelações coincidem com uma estratégia explícita da campanha de Lula para transformar transparência financeira e rejeição eleitoral em temas dos últimos dias da disputa.
No debate da Band de domingo (18/10), Lula desafiou Flávio a abrir os sigilos bancário e telefônico. Na terça-feira (20), formalizou perante o TSE uma manifestação segundo a qual aceita divulgar seus próprios dados e os de integrantes da família, condicionando o procedimento a uma iniciativa equivalente do adversário.
A ofensiva ocorre num momento em que pesquisas mostram um eleitorado praticamente dividido. A Quaest divulgada nesta quarta, registrada no TSE sob o protocolo BR-08535/2026, ouviu 2.154 eleitores entre 17 e 20 de outubro e marcou Flávio com 45% e Lula com 44%, dentro da margem de erro.
Segundo a Folha, integrantes da campanha petista avaliam que a negativa do rival em aderir à abertura voluntária pode aumentar sua rejeição, especialmente entre eleitores ainda não consolidados. Essa leitura deve ser tratada como estratégia eleitoral da campanha, e não como efeito já comprovado pelas pesquisas.
Campanha de Flávio pretende manter sigilos
O entorno de Flávio Bolsonaro informou que o candidato não pretende aderir ao desafio.
Aliados argumentam que o senador vem sendo submetido a investigações e escrutínio público há anos, que as informações patrimoniais exigidas legalmente já foram apresentadas à Justiça Eleitoral e que a ofensiva de Lula seria uma tentativa de alterar o eixo da disputa nos últimos dias.
A posição política da campanha, entretanto, é distinta da investigação criminal. A recusa em abrir voluntariamente dados protegidos por sigilo não constitui prova de irregularidade, assim como uma autorização voluntária de acesso não substitui procedimentos judiciais regulares quando uma investigação exige dados bancários, fiscais ou telemáticos.
O ponto eleitoral está na interpretação pública dessa decisão: Lula busca apresentar a abertura como teste de transparência; Flávio procura caracterizar a proposta como manobra política sem relevância material.
Apurações diferentes não podem ser confundidas
A coincidência entre campanha eleitoral e diferentes operações policiais exige especial cuidado na atribuição de responsabilidades.
Na terça-feira (20/10), o próprio TSE confirmou, por unanimidade, a remoção de uma publicação que ligava Flávio Bolsonaro à Operação Unha e Carne, da Polícia Federal. Naquele processo eleitoral, a Justiça registrou que não havia base factual mínima para associar o candidato à operação específica.
Essa decisão não se refere à investigação sobre BestBet, Cathedral, Alcazar ou Willer Tomaz. Trata-se de procedimento diferente. Da mesma forma, a existência de uma investigação não autoriza atribuir ao candidato participação em outras operações policiais das quais ele não faça parte.
A distinção é fundamental tanto juridicamente quanto jornalisticamente: cada investigação deve ser analisada a partir de seus próprios documentos, objetos, decisões e pessoas formalmente envolvidas.
Pedido da PF ainda exige definição judicial
O elemento institucional mais importante agora é o pedido encaminhado pela Polícia Federal ao STF para aprofundar a hipótese de sociedade oculta na BestBet. As reportagens consultadas informam a existência da solicitação, mas não apresentam decisão pública definitiva do Supremo reconhecendo a hipótese investigativa como comprovada.
Isso significa que não está demonstrado judicialmente que Flávio Bolsonaro tenha sido sócio da BestBet, nem que os valores registrados entre Cathedral e Alcazar tenham origem ou destino ilícitos.
O que está documentado até este momento é um conjunto de relações pessoais, empresariais, bancárias e de viagens que a PF considera suficientemente relevante para solicitar aprofundamento investigativo.
Tomaz rejeita a interpretação, acusa a piauí de produzir “ilações” e “acusações falsas” e afirma que pretende adotar novas medidas judiciais contra a publicação. Também sustenta que a PF instaurou investigação sobre o vazamento de dados sigilosos.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- Janeiro de 2023 — Willer Tomaz participa da criação da Cathedral Holdings, na Ilha da Madeira, estrutura que posteriormente aparece como controladora da Rede Loto.
- Fevereiro de 2023 — é constituída a Rede Loto Ltda., com capital registrado de R$ 1 milhão, tendo a BestBet como marca vinculada ao negócio de apostas.
- Maio de 2023 — a Rede Loto/BestBet obtém autorização da Loterj para exploração de apostas no Rio de Janeiro.
- Junho de 2023 em diante — documentos regulatórios citados pela Folha registram recolhimentos variáveis ligados à receita da empresa, elemento que contradiz a versão de que a operação nunca funcionou.
- Dezembro de 2023 — registros arquivados na internet mostram o domínio da BestBet ativo.
- Janeiro a fevereiro de 2025 — STF determina e posteriormente confirma a limitação territorial das empresas autorizadas pela Loterj ao Estado do Rio de Janeiro.
- 11/04/2025 — Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz viajam de Lisboa para Nice em jato contratado por meio da estrutura empresarial associada à Cathedral, segundo documentos da investigação.
- 22/05/2025 — funcionária ligada a Tomaz solicita ao Santander a retirada de Flávio da condição descrita nos documentos como usuário master da conta da Alcazar.
- 23/05/2025 — Flávio, Tomaz e familiares viajam de Cascais para Nice e posteriormente para Paris. A defesa afirma tratar-se de lazer entre amigos.
- 2025 — registros contábeis apontam 984 mil euros em créditos da Cathedral e 824 mil euros em dívida da Alcazar, valores cuja relação efetiva ainda depende de comprovação documental.
- 25/09/2026 — Lula edita a MP nº 1.394, proibindo apostas de quota fixa no Brasil e estabelecendo período de encerramento das autorizações.
- 04/10/2026 — Flávio Bolsonaro termina o primeiro turno presidencial com 47,03%, e Lula com 45,16% dos votos válidos.
- 11/10/2026 — reportagem do Jornal Grande Bahia detalha e-mails e documentos da PF relacionados ao vínculo bancário entre Flávio, Willer Tomaz e a Alcazar Holdings.
- 15/10/2026 — vêm a público documentos sobre viagens em jatos executivos envolvendo Flávio, Tomaz e a Cathedral.
- 18/10/2026 — Lula e Flávio se enfrentam no debate da Band; o petista propõe abertura recíproca dos sigilos.
- 20/10/2026 — Lula formaliza no TSE sua proposta condicionada de divulgação de sigilos; no mesmo dia, a piauí publica investigação documental sobre possível participação oculta de Flávio na BestBet.
- 21/10/2026 — Folha repercute que a PF pediu ao STF abertura de inquérito para investigar eventual sociedade oculta de Flávio Bolsonaro na BestBet; Quaest registra empate técnico entre os candidatos quatro dias antes do segundo turno.
- 25/10/2026 — segundo turno presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro, conforme calendário oficial da Justiça Eleitoral.
O caso reúne três dimensões que precisam permanecer rigorosamente separadas: a investigação criminal, a controvérsia empresarial e a disputa eleitoral. No primeiro plano, cabe à PF reunir documentos e ao STF decidir sobre medidas investigativas submetidas à sua competência. No segundo, é necessário esclarecer a relação econômica entre Cathedral, Alcazar e Rede Loto, a condição bancária atribuída a Flávio, a origem dos recursos que financiaram viagens e a existência ou não de benefício econômico não declarado. No terceiro, Lula e Flávio utilizam politicamente o debate sobre transparência financeira numa eleição praticamente empatada.
Os documentos revelados pela imprensa oferecem indícios que justificam investigação, mas não autorizam converter suspeita em culpa. A existência de acesso bancário, viagens conjuntas, amizade, empresas interligadas ou valores contabilmente próximos não prova automaticamente sociedade oculta ou lavagem de dinheiro. Em sentido inverso, negativas das partes também não eliminam a necessidade de explicar documentos concretos. É justamente essa tensão entre registros materiais e versões apresentadas que torna necessária a atuação das autoridades competentes.
Há ainda lacunas centrais. Permanecem por esclarecer a natureza exata das operações financeiras entre Cathedral e Alcazar; quem eram os beneficiários econômicos finais dos valores movimentados; quais poderes Flávio efetivamente possuía sobre a conta atribuída à Alcazar; se houve recebimento, distribuição ou expectativa de lucros vinculada à BestBet; e qual será a decisão do STF sobre o pedido policial específico. Também será necessário acompanhar se documentos ainda protegidos por sigilo produzirão confirmação, revisão ou descarte das hipóteses atualmente investigadas.
O núcleo factual, portanto, é preciso: a Polícia Federal solicitou investigação sobre eventual participação oculta de Flávio Bolsonaro em uma estrutura empresarial ligada à BestBet; documentos bancários, societários e contábeis alimentam a suspeita; Flávio e Willer Tomaz negam vínculo empresarial irregular; e o episódio entrou diretamente na campanha presidencial quatro dias antes da votação decisiva. A relevância pública decorre tanto da possibilidade de relações econômicas não declaradas envolvendo um candidato à Presidência quanto do risco de uso eleitoral de alegações ainda não julgadas. Caberá ao STF, à PF e às demais autoridades responsáveis, além das partes e das empresas envolvidas, fornecer documentos e decisões capazes de definir o que é vínculo comprovado, hipótese investigativa ou alegação sem sustentação.








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