O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) promoveu nesta quarta-feira (07/10/2026) uma reorganização do comando de sua campanha à reeleição para o segundo turno presidencial, após terminar a primeira etapa da disputa atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL). O senador Camilo Santana (PT-CE) passou a dividir a coordenação-geral com o presidente nacional do PT, Edinho Silva, enquanto Rui Costa, Jaques Wagner e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) deverão assumir participação ampliada na estrutura política e territorial da candidatura. A mudança ocorre a 18 dias do segundo turno, marcado para 25/10/2026, e acompanha uma revisão da estratégia eleitoral depois de Flávio obter 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula.
Resultado do primeiro turno provoca reorganização da campanha
O movimento ocorre depois de uma votação mais adversa ao presidente do que indicava parte das expectativas de sua campanha. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com 99,99% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, enquanto Lula somou 53.876.617, uma diferença superior a 2,2 milhões de votos. Nenhum candidato alcançou a maioria absoluta dos votos válidos, levando a eleição ao segundo turno.
A necessidade de rever a campanha ganhou dimensão pública nesta quarta-feira. Em encontro com parlamentares aliados eleitos, em Brasília, Lula afirmou que a disputa no primeiro turno ficou abaixo das possibilidades de sua candidatura e classificou a estrutura organizada para a eleição como a mais desorganizada de suas campanhas presidenciais desde 1989.
“Acho que nós fizemos uma campanha aquém da minha possibilidade, poderíamos ter feito mais. Disse para o Edinho que essa foi a campanha menos organizada que participei desde 1989”, declarou Lula.
O presidente também disse ter estranhado não terminar o primeiro turno na liderança diante das entregas que atribui ao seu governo. A manifestação foi feita ao lado de Edinho Silva, responsável pela coordenação-geral durante a primeira etapa da campanha e alvo de críticas internas sobre organização, integração das diferentes áreas e capacidade de responder à dinâmica eleitoral.
Camilo Santana passa a dividir a coordenação-geral com Edinho Silva
A principal alteração confirmada no comando é a incorporação de Camilo Santana à coordenação-geral. O senador cearense, ex-governador do Ceará e ex-ministro da Educação, dividirá a função com Edinho Silva. A mudança amplia o núcleo decisório, sem anúncio de afastamento do presidente do PT.
Camilo já participava da campanha nacional, mas havia concentrado sua atuação no Ceará durante o primeiro turno, onde trabalhou pela reeleição do governador Elmano de Freitas (PT). O resultado estadual fortaleceu sua posição: Elmano venceu no primeiro turno com 2.875.573 votos, equivalentes a 53,19% dos votos válidos, segundo o TSE.
Na terça-feira (06/10), Camilo passou parte do dia em reuniões com Lula no Palácio da Alvorada. A avaliação de interlocutores da campanha foi de que sua experiência na articulação cearense poderia ser utilizada na coordenação nacional durante a etapa decisiva da disputa presidencial.
Edinho defende comando ampliado para “percorrer o Brasil em 20 dias”
A ampliação da coordenação havia sido explicitada por Edinho Silva depois da reunião da Executiva Nacional do PT realizada na terça-feira (06/10), em Brasília. Segundo o dirigente, a campanha precisaria multiplicar lideranças capazes de organizar atividades simultâneas pelo país durante o curto período entre os dois turnos.
“Nós temos que ampliar, porque nós temos que percorrer o Brasil em 20 dias, e quanto mais lideranças nós tivermos para organizar essas ações no Brasil todo, eu penso que é mais gente ajudando a dar conta dessa missão”, afirmou Edinho Silva.
O presidente do PT sustentou que a proposta não era simplesmente substituir integrantes da campanha, mas agregar dirigentes que ficaram ocupados com disputas estaduais no primeiro turno e que, encerradas essas eleições, poderiam ser mobilizados para a candidatura presidencial.
A reorganização procura, portanto, transformar estruturas eleitorais regionais que obtiveram resultados considerados positivos pelo PT em braços da campanha nacional, com prioridade para mobilização territorial, articulação política e comunicação.
Bahia ganha peso com Rui Costa e Jaques Wagner
A Bahia ocupa posição relevante nessa reorganização. Rui Costa e Jaques Wagner, ambos do PT, foram eleitos para as duas vagas do estado no Senado e passam a ter disponibilidade para participar mais diretamente da campanha presidencial.
Com 100% das urnas apuradas, Rui Costa recebeu 4.335.196 votos, equivalentes a 30,07% dos votos válidos para senador, enquanto Wagner obteve 3.986.690 votos, ou 27,65%. A Bahia foi a única unidade da Federação a eleger dois candidatos do PT para o Senado em 2026.
O resultado ocorreu simultaneamente à reeleição do governador Jerônimo Rodrigues (PT) no primeiro turno. O TSE registrou 55,80% dos votos válidos para o governador baiano. A combinação das vitórias estaduais dá ao grupo governista uma estrutura eleitoral já mobilizada que agora pode ser parcialmente transferida para a candidatura presidencial.
Equipes da Bahia também podem ser incorporadas à campanha nacional
Além de Rui Costa e Jaques Wagner, integrantes da estrutura responsável pela campanha de Jerônimo Rodrigues podem participar da operação presidencial. Segundo informações divulgadas após as reuniões do comando nacional, três integrantes da equipe baiana estavam sendo considerados para incorporação, mas seus nomes e atribuições ainda não haviam sido definidos publicamente.
A integração representa uma continuidade da articulação realizada durante o primeiro turno. Lula participou de atos ao lado de Jerônimo, Rui e Wagner na Bahia, incluindo a caminhada e o comício realizados entre Ondina e Barra, em Salvador, em 29/09/2026, cinco dias antes da votação.
A transferência de quadros estaduais para a estrutura nacional também evidencia a tentativa de utilizar experiências locais consideradas eleitoralmente bem-sucedidas para aumentar a capacidade de mobilização da candidatura presidencial durante uma campanha de apenas três semanas.
Geraldo Alckmin deverá ter participação mais efetiva
Outro nome apontado por Edinho Silva para assumir maior protagonismo é o vice-presidente e candidato à reeleição Geraldo Alckmin (PSB). O dirigente petista afirmou defender uma participação mais efetiva de Alckmin na coordenação.
“Eu tenho defendido que o vice-presidente Geraldo Alckmin também venha participar de forma mais efetiva da coordenação”, declarou Edinho.
Alckmin tem papel particular na composição política da candidatura. Ex-governador de São Paulo e adversário histórico do PT em eleições anteriores, passou a integrar a chapa de Lula em 2022 dentro da estratégia de construção de uma frente política mais ampla contra Jair Bolsonaro e permanece como candidato a vice-presidente em 2026. A candidatura Lula-Alckmin foi novamente oficializada pelo PT em agosto.
No ambiente da campanha, aliados consideram que o vice pode ampliar o diálogo com segmentos empresariais e eleitores de centro. Também circulou a hipótese de Alckmin assumir o Ministério da Fazenda em eventual novo mandato de Lula, mas não havia, até esta quarta-feira, anúncio oficial dessa decisão. A hipótese deve ser tratada como articulação política em discussão, e não como definição de governo.
Campanha busca ampliar presença territorial e atuação nas redes sociais
A reorganização não se limita à divisão formal dos cargos. O comando eleitoral discute aumento da presença de Lula nas ruas, expansão das entrevistas a emissoras regionais, maior produção de conteúdos digitais e participação de parlamentares com forte alcance nas redes sociais.
Em reunião com parlamentares nesta quarta-feira, integrantes mais jovens da base governista avaliaram que a campanha obteve capacidade de mobilização presencial, mas apresentou desempenho insuficiente nas plataformas digitais. Lula reconheceu a necessidade de ampliar a atuação nesse ambiente e passou a produzir conteúdos em formato mais direto, incluindo vídeos gravados no estilo de selfie.
A comunicação tornou-se um dos principais pontos de revisão. Reportagens sobre as discussões internas registram críticas ao funcionamento da área comandada pelo ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Sidônio Palmeira, além da possibilidade de participação de novos profissionais. Até o momento, entretanto, não há anúncio oficial de substituição do responsável pela comunicação da campanha.
Abstenção de mais de 21% entra no centro da estratégia
Outro eixo da campanha será a tentativa de reduzir a abstenção registrada no primeiro turno. Cerca de 21,08% do eleitorado não compareceu às urnas, o equivalente a aproximadamente 33,4 milhões de pessoas, patamar que passou a ser tratado pelas duas campanhas como uma reserva potencial de votos.
A disputa é especialmente relevante no Nordeste, região na qual Lula obteve sua maior vantagem sobre Flávio Bolsonaro, mas onde milhões de eleitores deixaram de votar. A campanha petista pretende mobilizar parte desse grupo ao mesmo tempo em que tenta recuperar terreno nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Norte, onde Flávio ficou à frente no primeiro turno.
A dimensão da abstenção amplia a importância da expressão utilizada por Edinho Silva — “percorrer o Brasil em 20 dias”. A estratégia exige simultaneamente ações presenciais, comunicação digital, articulação com governadores, prefeitos, parlamentares e partidos e um esforço de convencimento de eleitores que não participaram da primeira votação.
PT procura alianças enquanto Flávio amplia apoios
A recomposição da campanha ocorre paralelamente à disputa por apoios partidários. Edinho Silva afirmou ter conversado com dirigentes do PSD e do Republicanos. O presidente do PSD, Gilberto Kassab, comunicou que a legenda manteria neutralidade nacional, liberando suas lideranças regionais para estabelecer seus próprios posicionamentos.
No campo adversário, a Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, decidiu apoiar Flávio Bolsonaro no segundo turno. O candidato do PL também recebeu manifestações individuais de lideranças políticas que disputaram ou participaram do primeiro turno.
A disputa pelas alianças reforça a importância de Alckmin e de lideranças estaduais na estrutura lulista. Mais do que ampliar numericamente a coordenação, o objetivo é criar diferentes canais de negociação com setores partidários, econômicos e regionais que não necessariamente integram a estrutura orgânica do PT.
Segundo turno será realizado em 25 de outubro
O segundo turno ocorrerá no domingo, 25/10/2026, conforme o calendário oficial do Tribunal Superior Eleitoral. A votação será realizada para presidente e vice-presidente da República e para governador nos estados e no Distrito Federal onde nenhuma candidatura alcançou maioria absoluta no primeiro turno.
O TSE também definiu que a propaganda eleitoral gratuita de segundo turno para presidente será exibida entre 9 e 23 de outubro, com igualdade de tempo entre as duas candidaturas.
Até a votação, portanto, a campanha de Lula terá de transformar a reorganização interna em ação eleitoral concreta, ao mesmo tempo em que Flávio Bolsonaro procura consolidar a vantagem obtida no primeiro turno e ampliar sua coalizão.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 01/08/2026 — PT prepara a oficialização da candidatura de Lula à reeleição, novamente tendo Geraldo Alckmin como candidato a vice-presidente; a composição preserva a aliança construída para a eleição de 2022.
- 29/09/2026 — Lula participa de caminhada e ato político entre Ondina e Barra, em Salvador, ao lado de Jerônimo Rodrigues, Rui Costa e Jaques Wagner, na reta final do primeiro turno.
- 04/10/2026 — realizado o primeiro turno. Flávio Bolsonaro termina à frente, com 47,03%, e Lula fica em segundo, com 45,16%, levando a eleição presidencial ao segundo turno.
- 04/10/2026 — Elmano de Freitas é reeleito governador do Ceará no primeiro turno com 53,19%, depois de campanha na qual Camilo Santana teve atuação destacada.
- 04/10/2026 — Rui Costa e Jaques Wagner conquistam as duas vagas da Bahia para o Senado; o governador Jerônimo Rodrigues também é reeleito no primeiro turno.
- 05/10/2026 — aliados iniciam reuniões para revisar a estratégia presidencial, com propostas de maior presença de Lula nas ruas, reorganização da comunicação e ampliação do comando nacional.
- 06/10/2026 — após reunião da Executiva Nacional do PT, Edinho Silva anuncia a intenção de ampliar a coordenação e cita Camilo Santana, Rui Costa, Jaques Wagner e Geraldo Alckmin. No mesmo dia, Lula mantém reuniões com aliados no Palácio da Alvorada.
- 07/10/2026 — Camilo Santana passa a dividir a coordenação-geral com Edinho Silva; Rui Costa e Wagner são incorporados ao esforço nacional e Alckmin deverá ganhar maior protagonismo.
- 07/10/2026 — Lula afirma publicamente que a campanha do primeiro turno foi a “menos organizada” de que participou desde 1989 e reconhece que sua candidatura poderia ter feito mais.
- 09 a 23/10/2026 — período definido pelo TSE para a propaganda eleitoral gratuita de presidente no segundo turno.
- 25/10/2026 — eleitores retornam às urnas para decidir a Presidência da República entre Flávio Bolsonaro e Lula.








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