Na segunda-feira (12/10/2026), a possibilidade de Roberto Campos Neto assumir o Ministério da Fazenda em um eventual governo de Flávio Bolsonaro (PL) consolidou-se como uma das principais disputas internas do campo bolsonarista para uma eventual transição presidencial. Ex-presidente do Banco Central entre 2019 e 2024, indicado originalmente por Jair Bolsonaro, Campos Neto tem o apoio de aliados como o governador paulista Tarcísio de Freitas e já teve seu nome defendido informalmente perante Flávio. A hipótese, entretanto, carrega um passivo político e institucional: foi durante sua administração no BC que Daniel Vorcaro assumiu o controle da instituição que viria a se transformar no Banco Master e promoveu sua expansão, enquanto investigações posteriores passaram a examinar relações do banqueiro com servidores do regulador, parlamentares e integrantes do núcleo político ligado ao ex-presidente.
Campos Neto entra na disputa pela Fazenda
A movimentação em torno de Campos Neto ocorre antes de qualquer anúncio oficial de Flávio Bolsonaro. A reportagem da Folha de S.Paulo que revelou a disputa interna pela pasta econômica informa que Tarcísio de Freitas, reeleito governador de São Paulo, passou a atuar politicamente no segundo turno e seu ingresso mais intenso na campanha fortaleceu o nome do ex-presidente do Banco Central para o Ministério da Fazenda.
Tarcísio e Campos Neto construíram uma relação de amizade durante o governo Jair Bolsonaro, período no qual ambos ocuparam posições estratégicas em Brasília. Atualmente, Campos Neto é vice-chairman e chefe global de Políticas Públicas do Nubank e, segundo a apuração, tem afirmado a interlocutores que sua prioridade profissional está na expansão internacional da instituição. Procurados pela Folha, tanto ele quanto Tarcísio não comentaram a eventual indicação.
O nome também encontra respaldo em outros setores próximos à candidatura. A senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura de Jair Bolsonaro, chegou a discutir informalmente possíveis integrantes de um eventual governo com Flávio e, segundo a mesma apuração, defendeu Campos Neto para a Fazenda.
O movimento não significa que a escolha esteja definida. Marcelo Kayath, Alexandre Bettamio, Adolfo Sachsida e Rogério Marinho permanecem entre os nomes considerados por diferentes grupos da campanha. Flávio evita assumir publicamente compromisso com qualquer deles, enquanto aliados reconhecem que Jair Bolsonaro poderá exercer influência relevante na decisão.
Conexão política entre Campos Neto e o bolsonarismo começa no governo Jair Bolsonaro
A principal conexão objetiva entre Roberto Campos Neto e o projeto político da família Bolsonaro é institucional e histórica, não uma relação financeira conhecida.
Campos Neto foi indicado por Jair Bolsonaro em 2019 para comandar o Banco Central. Após a aprovação da autonomia formal da instituição pela Lei Complementar nº 179/2021, Bolsonaro voltou a nomeá-lo para cumprir mandato fixo até 31/12/2024.
Sua gestão passou a ser associada à agenda econômica liberal do período, marcada, entre outros elementos, pela autonomia formal do BC, implantação e expansão do Pix, desenvolvimento do Open Finance e projetos de digitalização financeira.
No ambiente político de 2026, Campos Neto permanece considerado uma referência econômica por setores bolsonaristas. Já em março, antes da atual movimentação ministerial, seu nome era mencionado como possível integrante de um eventual governo Flávio.
Isso estabelece uma continuidade política entre a equipe econômica do governo Jair Bolsonaro e a composição discutida para um eventual governo de seu filho.
Entretanto, não foram identificadas, nas fontes públicas consultadas, evidências de uma relação financeira direta entre Flávio Bolsonaro e Roberto Campos Neto, tampouco provas de que ambos tenham atuado conjuntamente no caso Banco Master. O vínculo hoje documentado é essencialmente político: Campos Neto foi uma escolha do governo Bolsonaro, mantém relações com integrantes daquele núcleo e é defendido por aliados de Flávio para assumir a principal pasta econômica do Executivo.
Banco Master transforma experiência no BC em ativo e vulnerabilidade política
A principal controvérsia relacionada a Campos Neto não decorre de sua eventual relação pessoal com Flávio, mas da coincidência entre sua passagem pelo Banco Central e o período decisivo de ascensão de Daniel Vorcaro.
Campos Neto assumiu o BC em 2019. Naquele mesmo ano, durante sua presidência, a autoridade monetária aprovou a entrada de Vorcaro e de seus sócios no controle do então Banco Máxima, instituição posteriormente transformada no Banco Master.
A operação havia enfrentado objeções regulatórias anteriormente. A aprovação ocorrida em 2019 tornou-se, depois da quebra do Master, um dos pontos submetidos à reconstrução histórica e ao escrutínio político sobre a atuação do regulador. Declarações registradas no Senado também passaram a questionar por que diversos ofícios corretivos enviados ao banco ao longo dos anos não foram seguidos de intervenção anterior. Essas manifestações constituem questionamentos políticos e parlamentares, e não uma prova de irregularidade praticada pessoalmente por Campos Neto.
O Master cresceu rapidamente nos anos seguintes, financiando sua expansão, entre outros instrumentos, mediante captação de CDBs de elevada remuneração.
Em 18/11/2025, já sob a presidência de Gabriel Galípolo, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. A autoridade monetária afirmou oficialmente que havia grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.
Esse desfecho transformou inevitavelmente os anos anteriores de supervisão em objeto de investigação institucional.
Mensagens mostram contato direto de Campos Neto com Vorcaro
Outro ponto relevante para a avaliação pública de uma eventual nomeação para a Fazenda são os contatos entre Campos Neto e Daniel Vorcaro enquanto o primeiro ainda presidia o Banco Central.
Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular do banqueiro indicam que Campos Neto chegou a convidá-lo, em dezembro de 2023, para uma reunião em sua residência na Fazenda Boa Vista, em Porto Feliz, no interior paulista. O compromisso acabou transferido para a sede do Banco Central, na Avenida Paulista, e foi registrado na agenda oficial da instituição em 22/12/2023.
O registro documenta interlocução direta entre o presidente do regulador e o controlador de uma instituição supervisionada. Reuniões entre dirigentes do Banco Central e banqueiros não são, por si mesmas, irregulares e fazem parte da atividade institucional da autoridade monetária.
O aspecto que tornou o episódio politicamente relevante foi a revelação posterior de investigações contra servidores e ex-dirigentes do próprio Banco Central por suposto favorecimento a Vorcaro.
Ex-integrantes do BC passaram a ser investigados
A Polícia Federal passou a investigar, entre outros, Paulo Sérgio Neves de Souza e Bellini Santana, antigos integrantes da estrutura do Banco Central.
Mensagens obtidas pelos investigadores levantaram suspeitas de repasse de informações internas e assistência irregular ao banqueiro durante processos de supervisão. Os investigados têm direito ao contraditório e as suspeitas dependem de conclusão investigativa e judicial.
Esses fatos não demonstram participação de Campos Neto. Eles, porém, criam uma questão institucional relevante sobre como funcionava a cadeia de supervisão do Master, quais informações chegaram à presidência do BC e em que momento a gravidade da situação financeira da instituição se tornou conhecida pela direção superior.
São essas perguntas que tornam sua eventual nomeação para a Fazenda politicamente mais sensível.
“Emenda Master” também colocou Campos Neto no centro de mensagens
Outro episódio envolve a tentativa de elevar a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.
A proposta foi apresentada em 2024 pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro-chefe da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro.
Segundo material investigativo divulgado posteriormente, o texto reproduzia integralmente documento produzido pelo próprio Banco Master. A mudança teria interesse direto para a instituição, que captava recursos oferecendo CDBs respaldados pela garantia do FGC.
Em uma conversa posteriormente obtida pela investigação, Paulo Sérgio disse a Vorcaro que o mercado atribuía a proposta tanto ao banqueiro quanto a Roberto Campos Neto.
A associação feita naquela mensagem, porém, não comprova que Campos Neto tenha apoiado a medida.
Sua assessoria afirmou que ocorreu justamente o contrário: ao tomar conhecimento da proposta, o então presidente do BC teria determinado mobilização técnica interna contra a ampliação da garantia. A alteração acabou rejeitada.
Esse episódio exemplifica uma diferença indispensável: ser citado em conversas apreendidas não equivale a participar de um esquema.
Flávio Bolsonaro passou de contato político a investigado no caso “Dark Horse”
Se as ligações conhecidas de Campos Neto com o Master permanecem concentradas em sua atuação institucional e em contatos mantidos como presidente do BC, a situação de Flávio Bolsonaro é juridicamente distinta.
Documentos da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República, posteriormente tornados públicos pelo Supremo Tribunal Federal, apontam que Flávio atuou como interlocutor direto de Daniel Vorcaro nas negociações para financiar Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro.
A Polícia Federal instaurou investigação sobre a atuação do senador.
O relatório descreve mensagens, reuniões presenciais e cobranças feitas por Flávio para que Vorcaro liberasse recursos para o projeto cinematográfico. Segundo os documentos divulgados, foram negociados ao menos US$ 24 milhões, equivalentes atualmente a aproximadamente R$ 122,7 milhões, dos quais pelo menos US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 62,9 milhões, teriam sido efetivamente pagos.
Flávio sustenta não haver ilegalidade. Em maio, quando reconheceu ter procurado Vorcaro, afirmou que se tratava de “um filho procurando patrocínio” para um filme privado sobre o pai e declarou que não houve emprego de recursos públicos nem oferta de vantagem ao banqueiro.
Quando parte dos documentos da investigação veio a público em setembro, voltou a pedir transparência integral e afirmou que o material confirmaria sua versão de que nada havia de irregular no financiamento.
A existência da investigação, portanto, é fato. A eventual responsabilidade criminal de Flávio Bolsonaro não está definida e dependerá da conclusão da PF, da manifestação do Ministério Público e das decisões judiciais.
Eduardo Bolsonaro aparece como gestor dos recursos, segundo a PF
Os mesmos documentos expandiram o caso para Eduardo Bolsonaro.
Segundo a Polícia Federal, o ex-deputado atuava como gestor do dinheiro arrecadado para o filme nos Estados Unidos e dava orientações sobre a forma pela qual os recursos poderiam ser administrados.
Parte da estrutura teria envolvido o fundo Havengate, ligado ao advogado Paulo Calixto. A investigação registrou que o fundo, criado em 2020, permaneceu sem movimentações relevantes até fevereiro de 2025, quando recebeu US$ 2 milhões de uma empresa utilizada por Vorcaro nos pagamentos associados ao filme.
A PF também suspeita que parte do dinheiro captado para a produção possa ter financiado despesas de Eduardo nos Estados Unidos. A hipótese está sob investigação e não deve ser tratada como fato definitivamente comprovado.
A entrada de Eduardo no caso amplia seu significado político: o financiamento da obra deixa de envolver exclusivamente uma negociação de Flávio com Vorcaro e alcança outro integrante central da família Bolsonaro.
Mário Frias integra núcleo investigado da produção cinematográfica
O deputado federal Mário Frias (PL-SP), ex-secretário especial da Cultura do governo Bolsonaro e produtor-executivo de Dark Horse, é outra personalidade diretamente ligada ao campo bolsonarista alcançada pelas investigações.
Áudios e mensagens revelaram contatos de Frias com Daniel Vorcaro. O parlamentar chegou a agradecer ao banqueiro pelo apoio ao projeto.
A PF investiga ainda o destino de R$ 2 milhões em emendas parlamentares destinadas por Frias ao Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Gama, também responsável pela produtora Go Up Entertainment.
Os investigadores suspeitam de utilização irregular de parte dos recursos públicos. Frias rejeita irregularidades e sustenta que sua atuação esteve relacionada à produção do filme.
O caso possui relevância adicional porque, paralelamente às investigações, Frias passou a articular seu retorno à área da Cultura em um eventual governo Flávio Bolsonaro.
Ciro Nogueira apresentou proposta de interesse do Master
Outro personagem relevante é o senador Ciro Nogueira, presidente do PP e ex-ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro.
Em 2024, Nogueira apresentou a proposta de ampliação da cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.
Segundo a investigação, o texto legislativo reproduzia documento produzido pelo Banco Master. Mensagens mostram que Vorcaro acompanhava a tramitação e que integrantes ligados ao banco avaliavam que sua aprovação ampliaria significativamente a capacidade de negócios da instituição.
A medida não prosperou.
A apresentação da proposta constitui fato documentado, mas não demonstra automaticamente contrapartida ilícita, corrupção ou participação de Nogueira nas fraudes atribuídas ao Master. Eventual responsabilidade dependeria de elementos adicionais de prova.
Fábio Wajngarten recebeu R$ 3,8 milhões e passou a atuar na defesa de Vorcaro
Fábio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação Social de Jair Bolsonaro e um dos auxiliares mais próximos do ex-presidente após sua saída do governo, também aparece na rede de relações profissionais do Master.
Documentos enviados pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado registraram que a WF Comunicação, empresa de Wajngarten, recebeu pelo menos R$ 3,8 milhões do Banco Master em 2025.
Wajngarten confirmou a prestação de serviços. Afirmou ter sido apresentado a Daniel Vorcaro no primeiro semestre de 2025 por intermédio de advogados e disse que passou a integrar a equipe de defesa do banqueiro. O contrato possui cláusula de confidencialidade e não foi divulgado integralmente.
A existência dos pagamentos é documentada; isso, por si só, não demonstra ilicitude.
Kassio Nunes Marques: indicado por Bolsonaro e atingido por novas suspeitas
Um caso de natureza institucional distinta envolve o ministro do STF e atual presidente do TSE Kassio Nunes Marques, indicado à Suprema Corte por Jair Bolsonaro em 2020.
Mensagens extraídas do celular de Vorcaro mostram referências a pagamentos destinados ao advogado Kevin Marques, filho do ministro, por intermédio da Consult Inteligência Tributária.
Dados do Coaf indicaram que Kevin recebeu 11 parcelas de R$ 25 mil, somando aproximadamente R$ 281,6 mil. Outras mensagens falavam em valores mensais maiores associados a seu nome.
Nunes Marques nega possuir relação com Vorcaro, receber benefícios ou atuar judicialmente em favor do Master.
Em 12/10/2026, deputados Rui Falcão e Rogério Correia, ambos do PT, protocolaram pedido de investigação contra o ministro com base em mensagens, documentos e reportagens já divulgadas. Trata-se de uma representação política que ainda depende da apreciação das autoridades competentes e não equivale à comprovação das acusações nela formuladas.
Classificar o ministro simplesmente como integrante político do bolsonarismo seria impreciso diante da natureza constitucional do cargo. É correto, contudo, registrar que foi indicado ao STF por Jair Bolsonaro e que sua situação acrescenta mais uma conexão entre personagens elevados ao poder durante aquele governo e desdobramentos do caso Master.
Rede não se limita à direita ou ao bolsonarismo
A concentração desta reportagem sobre personalidades vinculadas ao campo bolsonarista não significa que a rede de Daniel Vorcaro estivesse restrita à direita.
Documentos e investigações já revelaram contratos, pagamentos ou relações com personagens associados a diferentes partidos, governos, ministros, ex-ministros, magistrados e grupos empresariais.
Entre os nomes que apareceram em diferentes circunstâncias estão Michel Temer, Guido Mantega, Ricardo Lewandowski, ACM Neto, Antônio Rueda, Jaques Wagner e pessoas próximas de outros ministros do STF. Cada vínculo possui natureza jurídica própria — serviços profissionais, relações empresariais, reuniões, contratos, pagamentos ou simplesmente menções em mensagens — e não pode ser automaticamente transformado em suspeita criminal.
Esse aspecto é fundamental para compreender o método de atuação atribuído a Vorcaro: construir uma ampla rede de interlocução política, empresarial, jurídica e institucional capaz de atravessar divisões partidárias.
Campos Neto na Fazenda colocaria caso Master dentro do debate sobre futuro governo
A eventual escolha de Roberto Campos Neto teria, portanto, efeito político superior ao de uma simples nomeação técnica.
De um lado, representaria uma sinalização de continuidade com a vertente liberal da política econômica do governo Jair Bolsonaro e atenderia a setores do mercado financeiro interessados em previsibilidade fiscal, autonomia monetária e reformas econômicas.
De outro, sua indicação recolocaria inevitavelmente no centro do debate público a supervisão do Banco Master entre 2019 e 2024.
A questão central não seria afirmar culpa sem prova, mas estabelecer responsabilidades institucionais.
Entre as perguntas ainda sem resposta definitiva estão: quando a alta direção do Banco Central tomou conhecimento da dimensão dos riscos do Master; quais advertências foram produzidas pelas equipes técnicas; quais determinações partiram da presidência da instituição; se houve falhas sistêmicas de supervisão; e em que medida a eventual atuação irregular de servidores investigados interferiu nas informações encaminhadas ao comando do BC.
O problema político para Flávio Bolsonaro
Há ainda uma particularidade que torna a eventual escolha sensível para o próprio candidato.
Flávio Bolsonaro não observaria o caso Master apenas como futuro chefe do Executivo encarregado de nomear o ministro da Fazenda. Ele próprio está formalmente investigado em uma ramificação das investigações associada aos recursos de Daniel Vorcaro para o filme sobre Jair Bolsonaro.
Assim, caso vença e nomeie Campos Neto, um eventual governo começaria com dois personagens centrais submetidos a diferentes níveis de escrutínio relacionados ao mesmo conglomerado financeiro: o presidente eleito, investigado pelas negociações para o Dark Horse, e o titular da Fazenda, caso seja Campos Neto, questionado politicamente sobre a supervisão exercida pelo BC durante a expansão do banco.
As situações jurídicas são completamente diferentes.
Flávio figura formalmente em investigação. Campos Neto, segundo as informações públicas examinadas nesta reportagem, não aparece como acusado ou investigado por integrar o esquema de fraudes atribuído ao Master.
A distinção deve permanecer explícita.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 2019 — Jair Bolsonaro indica Roberto Campos Neto para presidir o Banco Central. No mesmo ano, durante a gestão de Campos Neto, o BC aprova a entrada de Daniel Vorcaro no controle da instituição que posteriormente se tornaria Banco Master.
- 2021 — Bolsonaro sanciona a Lei Complementar nº 179, que concede autonomia formal ao Banco Central e estabelece mandatos fixos para presidente e diretores. Campos Neto permanece no comando até dezembro de 2024.
- 22/12/2023 — Campos Neto recebe Daniel Vorcaro em reunião registrada na agenda do Banco Central em São Paulo, após conversas em que havia sido cogitado um encontro na residência do então presidente do BC.
- 2024 — Ciro Nogueira apresenta proposta para elevar a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Segundo a investigação, o texto reproduzia material elaborado pelo Master. A proposta é rejeitada.
- 2024 — Mensagem de antigo diretor do BC informa a Vorcaro que agentes do mercado associavam a chamada “emenda Master” também a Campos Neto. A assessoria do ex-presidente do BC afirma que ele determinou atuação técnica contra a proposta.
- 2024 a 2025 — Daniel Vorcaro negocia financiamento do filme Dark Horse. Documentos posteriores apontam Flávio Bolsonaro como interlocutor direto e Eduardo Bolsonaro como participante da gestão dos recursos.
- 2025 — A empresa de Fábio Wajngarten recebe pelo menos R$ 3,8 milhões do Banco Master. Ele afirma que os valores decorrem de serviços profissionais e que passou a integrar a equipe de defesa de Vorcaro.
- 18/11/2025 — Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master, citando grave crise de liquidez, comprometimento econômico-financeiro e graves violações às normas do sistema financeiro.
- 2026 — Investigações avançam sobre antigos integrantes da estrutura de supervisão do Banco Central e suas relações com Daniel Vorcaro.
- 13/05/2026 — Flávio Bolsonaro admite ter buscado dinheiro de Vorcaro para o filme sobre Jair Bolsonaro, mas sustenta tratar-se de patrocínio privado, sem contraprestação política.
- Maio de 2026 — Mário Frias passa a ser alvo de investigação relacionada ao financiamento e aos recursos destinados a entidades ligadas à produção de Dark Horse.
- 11/09/2026 — Documentos tornados públicos mostram que a PF considera Flávio interlocutor direto de Vorcaro e atribui a Eduardo Bolsonaro participação na gestão dos recursos do filme.
- 10/10/2026 — A disputa pela composição de um eventual governo Flávio Bolsonaro ganha força, e Roberto Campos Neto aparece entre os principais nomes defendidos para o Ministério da Fazenda.
- 12/10/2026 — Deputados do PT apresentam ao STF pedido de investigação de Kassio Nunes Marques sobre supostos vínculos com o caso Master; o ministro nega irregularidades.
A eventual nomeação de Roberto Campos Neto para o Ministério da Fazenda reuniria duas forças contraditórias. Sua experiência no Banco Central e o reconhecimento de parte do mercado financeiro poderiam transmitir previsibilidade econômica a um novo governo. Ao mesmo tempo, sua presença transformaria a discussão sobre a supervisão do Banco Master em um tema permanente de escrutínio sobre a nova administração. O problema institucional não reside em presumir culpa, mas em esclarecer de maneira documental como um banco que cresceu aceleradamente sob supervisão do BC terminou liquidado por grave crise de liquidez e violações regulatórias.
Há um segundo componente mais sensível: o caso Master já penetrou no núcleo político que poderia compor o futuro governo. Flávio Bolsonaro é formalmente investigado pelas negociações relativas ao Dark Horse; Eduardo Bolsonaro aparece nos documentos policiais como participante da gestão dos recursos; Mário Frias é investigado em outra frente ligada à produção; Ciro Nogueira apresentou proposta legislativa de interesse direto do banco; e Fábio Wajngarten recebeu pagamentos que afirma decorrerem de serviços legítimos. Esses fatos possuem pesos jurídicos diferentes e não autorizam uma acusação coletiva contra o bolsonarismo, mas demonstram que as relações de Vorcaro alcançaram personagens relevantes desse campo político.
A investigação também revela um problema mais amplo do sistema institucional brasileiro. Vorcaro estabeleceu relações com agentes de diferentes espectros partidários, membros ou pessoas próximas a integrantes dos Três Poderes, empresários e profissionais influentes. O desafio das autoridades será separar relações legítimas de lobby, advocacia, consultoria e interlocução institucional de eventuais atos de corrupção, fraude, tráfico de influência ou lavagem de dinheiro. Essa diferenciação depende de contratos, fluxos financeiros, mensagens, decisões administrativas, atos legislativos e provas capazes de demonstrar contrapartidas.
Caso Flávio Bolsonaro vença a eleição e Roberto Campos Neto seja escolhido para a Fazenda, a necessidade de transparência aumentará. O novo governo teria de explicar simultaneamente os critérios para a nomeação, o alcance das investigações relacionadas ao candidato eleito e as decisões adotadas durante a supervisão do Master. Caberá à Polícia Federal, Ministério Público, Banco Central, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal definir responsabilidades individuais. Até que isso ocorra, a relevância pública do episódio reside precisamente na necessidade de impedir que proximidade política seja confundida com culpa — e, igualmente, que relações de poder impeçam a completa reconstrução documental de um dos maiores casos financeiros recentes do país.








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