A mudança ocorre depois de uma eleição marcada por resultados aparentemente contraditórios. O PL saiu fortalecido das urnas legislativas em 04/10/2026, mas Lula reverteu no segundo turno a vantagem obtida por Flávio Bolsonaro na primeira etapa da eleição presidencial. Em 25/10/2026, o petista recebeu 64.256.232 votos, ou 51,79% dos votos válidos, diante de 59.826.041 votos, ou 48,21%, atribuídos ao candidato do PL.
O resultado presidencial não retirou do PL sua condição de principal força partidária do próximo Congresso. Alterou, porém, a correlação política em torno das presidências das Casas. Na Câmara, a candidatura de Motta passou a contar com uma articulação potencial de 328 deputados, enquanto no Senado Alcolumbre tenta construir uma maioria transversal capaz de superar a bancada de 29 integrantes do PL. Como as eleições das Mesas dependem de maioria parlamentar — e não simplesmente do tamanho individual das bancadas —, a capacidade de formação de coalizões torna-se decisiva.
PL cresce no Congresso, mas tamanho das bancadas não garante presidências
O primeiro turno produziu uma expansão expressiva do Partido Liberal no Poder Legislativo. Na Câmara dos Deputados, a legenda elegeu 121 parlamentares, tornando-se a maior bancada individual da Casa. A Federação Brasil da Esperança, composta por PT, PCdoB e PV, ficou em segundo lugar, com 88 deputados.
No Senado, a força do PL tornou-se proporcionalmente ainda mais relevante. A composição atualmente projetada para fevereiro de 2027 atribui ao partido 29 das 81 cadeiras. O PT terá 10, o MDB, oito, o PP, seis, União Brasil e Republicanos, cinco cada; PSD e PSB, quatro cada; Novo, três; PSDB e Podemos, dois; e Rede e PDT, um representante cada, além de um senador sem partido. A composição permanece sujeita a alterações partidárias, substituições e decisões da Justiça Eleitoral.
O desempenho alimentou, imediatamente depois do primeiro turno, expectativas de dirigentes do PL de disputar simultaneamente os comandos da Câmara e do Senado. Na Câmara, Sóstenes Cavalcante e Altineu Côrtes, ambos do PL do Rio de Janeiro, passaram a ser citados nas articulações internas. No Senado, Rogério Marinho (PL-RN) tornou-se o principal nome da sigla para enfrentar Alcolumbre.
A maior bancada, entretanto, não dispõe sozinha dos votos necessários para eleger os presidentes das Casas.
Na Câmara, a eleição da Mesa é secreta. Para vencer no primeiro turno, o candidato precisa obter maioria absoluta dos votos, com presença da maioria absoluta dos deputados. Se houver segundo escrutínio, passa a valer a maioria simples nas condições previstas pelo Regimento Interno.
No Senado, o presidente precisa alcançar 41 votos, correspondentes à maioria absoluta dos 81 integrantes da Casa. A escolha também ocorre por votação secreta.
Isso significa que os 121 deputados ou 29 senadores do PL, ainda que atuassem de maneira inteiramente unificada, seriam insuficientes para garantir isoladamente a presidência das respectivas Casas.
Hugo Motta constrói maioria ampla na Câmara
A situação de Hugo Motta apresenta, neste momento, maior grau de consolidação.
Em 14/10/2026, portanto antes do segundo turno presidencial, dirigentes de União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Federação PSDB-Cidadania e Podemos anunciaram que manteriam na próxima legislatura um bloco parlamentar de centro. O agrupamento deverá reunir 240 deputados a partir de fevereiro de 2027 e manifestou apoio à tentativa de recondução de Motta.
A cronologia é relevante porque demonstra que a articulação contra uma eventual presidência do PL na Câmara não nasceu exclusivamente da vitória de Lula. A recondução de Motta já estava sendo estruturada antes de o resultado presidencial ser conhecido.
A reeleição do presidente, contudo, ampliou substancialmente o movimento.
Em 27/10/2026, dois dias depois do segundo turno, a Federação PT-PCdoB-PV, que terá 88 deputados, anunciou formalmente apoio à recondução do atual presidente da Câmara e decidiu participar da articulação com o centro. Caso os grupos permaneçam unidos, o bloco poderá alcançar 328 deputados.
O número supera com folga os 257 votos que correspondem à maioria absoluta de uma Câmara composta por 513 integrantes.
O líder do PT, Pedro Uczai (SC), relacionou diretamente a decisão à governabilidade do quarto mandato de Lula. A dirigente do PCdoB Jandira Feghali (RJ) foi ainda mais explícita ao afirmar que a composição entre esquerda e centro procura impedir que o PL assuma o comando das Casas.
A formação de um bloco de 328 integrantes, contudo, não equivale automaticamente a 328 votos para Motta. A eleição é secreta, existem candidaturas avulsas e acordos partidários podem sofrer dissidências. O número deve ser compreendido como potencial parlamentar da aliança, e não como placar antecipado.
Mesmo assim, a diferença é significativa. Motta já demonstrou capacidade de agregar partidos ideologicamente distintos quando foi escolhido presidente da Câmara em 01/02/2025: recebeu 444 votos, contra 31 de Marcel van Hattem e 22 de Pastor Henrique Vieira, além de dois votos em branco.
Vitória de Lula reforça convergência entre Planalto e Hugo Motta
A relação de Motta com o governo passou por divergências durante a atual legislatura, mas convergiu em pautas importantes na reta final da eleição.
A reportagem que deu origem ao debate, publicada pela revista Veja em 31/10/2026, sustenta que a reeleição de Lula reorganizou o tabuleiro justamente porque o presidente passou a trabalhar pela permanência de Motta e Alcolumbre. A publicação relaciona a aproximação, entre outros fatores, à votação de pautas consideradas relevantes pelo governo durante o período eleitoral.
Depois da vitória presidencial, a aproximação deixou de ser apenas uma projeção política.
Em 26/10/2026, Lula recebeu Motta e Alcolumbre no Palácio da Alvorada, em Brasília. Foi o primeiro encontro do presidente reeleito com os chefes das duas Casas depois do segundo turno. Os presidentes do Legislativo destacaram publicamente o diálogo institucional, a independência parlamentar e a disposição de construir entendimentos.
Apurações publicadas posteriormente por CNN Brasil e UOL informaram que Lula comunicou aos dois dirigentes seu apoio à recondução de ambos em fevereiro de 2027. O apoio a Motta foi depois materializado institucionalmente pela decisão da Federação PT-PCdoB-PV.
A convergência não transforma Motta em integrante da base governista nem elimina a autonomia da Câmara. Trata-se essencialmente de um acordo político em torno da Mesa Diretora e da governabilidade, dentro de um Congresso cuja composição permanecerá majoritariamente situada do centro à direita.
Senado concentra disputa mais imprevisível
No Senado, a situação é diferente.
O PL terá 29 senadores, aproximadamente 36% das cadeiras, e parte de seu crescimento eleitoral ocorreu em torno de uma agenda de oposição ao governo e de críticas ao Supremo Tribunal Federal. O tamanho da bancada torna qualquer candidatura patrocinada pela legenda competitiva, ainda que sejam necessários pelo menos 41 votos para controlar a Presidência da Casa.
Rogério Marinho, ex-ministro e senador pelo Rio Grande do Norte, aparece como principal possibilidade do PL para enfrentar Alcolumbre. Reportagens publicadas nos últimos dias informaram que o partido marcou uma reunião para 04/11/2026 com parlamentares atuais e eleitos para discutir a posição oficial nas disputas da Câmara e do Senado.
Isso significa que, até este domingo, a candidatura e a estratégia definitiva do PL ainda dependem de deliberações partidárias.
A disputa também chegou a envolver a senadora Tereza Cristina (PP-MS). A ex-ministra da Agricultura foi mencionada entre os possíveis nomes para a Presidência do Senado e, segundo a Folha de S.Paulo, manteve sua disposição de participar da disputa mesmo depois de União Brasil e PP anunciarem apoio institucional a Alcolumbre. A eleição, ressaltou ela, será decidida individualmente pelos senadores em votação secreta.
Alcolumbre procura reeditar coalizão suprapartidária
A principal vantagem de Davi Alcolumbre não está em sua bancada partidária, mas no histórico de construção de alianças entre diferentes legendas.
Quando foi eleito presidente do Senado para o biênio 2025-2026, em 01/02/2025, obteve 73 dos 81 votos. União Brasil, MDB, PP, PL, PDT, PT, PSB e PSD declararam apoio à sua candidatura naquele pleito.
O quadro de 2027 será diferente porque o PL, agora fortalecido e colocado na oposição ao quarto mandato de Lula, pretende disputar diretamente a Presidência do Senado.
Alcolumbre, entretanto, recebeu em 27/10/2026 apoio formal da Federação União Progressista, formada por União Brasil e PP. Outras articulações divulgadas pela imprensa apontam aproximação com PT, MDB e PSD, além da tentativa de conquistar votos individualmente em outras bancadas, inclusive no próprio PL.
O voto secreto torna qualquer contagem prévia necessariamente provisória. Apoios partidários são politicamente relevantes, mas não obrigam individualmente os senadores a reproduzir a orientação da legenda na urna.
É por essa razão que a disputa pelo Senado permanece consideravelmente mais aberta do que a eleição da Câmara.
Presidência do Senado ganha importância adicional na relação com o STF
Há outro elemento que amplia o peso político dessa eleição interna.
O Senado exerce competências constitucionais específicas em relação a integrantes do Supremo Tribunal Federal, e o tema dos pedidos de impeachment de ministros da Corte esteve presente na agenda de setores da direita ao longo da atual legislatura e da campanha eleitoral.
A reportagem da Veja observa justamente que a oposição continua com possibilidades relevantes no Senado, onde essa agenda possui peso político superior ao registrado na Câmara.
A vitória presidencial de Lula, portanto, não eliminou a força institucional conquistada pelo PL. O partido terá a maior bancada da Casa e capacidade de influenciar comissões, votações, investigações, requerimentos e negociações com outras legendas.
O que mudou foi a possibilidade de transformar automaticamente a vitória legislativa em controle da Presidência do Senado.
Reeleição de Lula desfez expectativa produzida pelo primeiro turno
O movimento precisa ser observado também à luz da trajetória eleitoral de outubro.
No primeiro turno, realizado em 04/10/2026, Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula. Com 99,99% das urnas então apuradas, o TSE registrava 47,03% dos votos válidos para o candidato do PL e 45,16% para o presidente.
Paralelamente, o PL havia conquistado as maiores bancadas das duas Casas.
A combinação dos dois resultados produziu uma perspectiva particularmente favorável à legenda: Presidência da República sob comando de Flávio Bolsonaro, bancada de 121 deputados e a maior representação do Senado.
A eleição de 25/10/2026 alterou uma das peças fundamentais desse cenário.
Lula recebeu 51,79% dos votos válidos e Flávio Bolsonaro, 48,21%, abrindo vantagem final de 4.430.191 votos. Mais de 128,2 milhões de eleitores participaram do segundo turno e a abstenção ficou em aproximadamente 19,2%, abaixo dos 21,08% da primeira etapa.
O resultado significou que o maior partido do Congresso iniciará 2027 fazendo oposição a um presidente reeleito, e não atuando como principal sustentação parlamentar de um presidente de sua própria legenda.
Essa diferença modifica profundamente a lógica das alianças.
Centro continua decisivo apesar de perder espaço eleitoral
O crescimento do PL ocorreu parcialmente às custas de partidos tradicionalmente situados no centro do sistema político. Mas a redução relativa dessas bancadas não significa desaparecimento de sua capacidade de arbitragem.
Na Câmara, sete partidos ou federações do centro deverão reunir 240 parlamentares. Ao agregar os 88 integrantes da Federação Brasil da Esperança, a articulação associada à recondução de Motta pode alcançar 328 deputados.
O fenômeno demonstra uma diferença essencial entre eleição popular e eleição interna parlamentar.
Nas urnas, o eleitor escolhe deputados e senadores individualmente ou por meio das regras proporcionais e majoritárias. Na eleição das Mesas Diretoras, entretanto, partidos precisam construir maiorias dentro de um universo já definido de parlamentares.
Uma bancada pode ser a maior sem possuir maioria.
Nesse contexto, legendas intermediárias recuperam na negociação parlamentar parte da influência que perderam eleitoralmente.
Recondução é juridicamente possível com início da nova legislatura
A possibilidade de Motta e Alcolumbre disputarem novamente os cargos também possui fundamento jurídico estabelecido pelo Supremo Tribunal Federal.
No julgamento da ADI 6.524, concluído em dezembro de 2020, o STF vedou a recondução dos presidentes da Câmara e do Senado ao mesmo cargo na eleição imediatamente subsequente dentro da mesma legislatura, mas admitiu a reeleição quando começa uma nova legislatura.
Como deputados e senadores eleitos em 2026 tomarão posse em 01/02/2027, inicia-se uma nova legislatura. Na mesma data, serão realizadas as eleições das Mesas Diretoras para mandatos de dois anos.
Motta e Alcolumbre, portanto, podem juridicamente concorrer à recondução.
Resultado da eleição das Mesas será primeiro teste do quarto mandato
A votação de fevereiro deverá constituir o primeiro teste concreto da capacidade de Lula de formar uma coalizão parlamentar para o período 2027-2030.
O presidente assumirá seu quarto mandato em 05/01/2027, menos de um mês antes da posse do novo Congresso e das eleições internas das Casas.
Ter Motta e Alcolumbre reconduzidos não significaria dispor de uma base automática para aprovar todas as propostas do Executivo. Ambos reivindicam independência institucional e construíram carreiras baseadas justamente na interlocução com diferentes campos políticos.
A Presidência da República continuará necessitando negociar projeto por projeto, especialmente em matérias constitucionais, fiscais e politicamente sensíveis.
Por outro lado, uma eventual vitória simultânea de candidatos do PL teria impacto político imediato. O partido que perdeu a Presidência da República passaria a controlar as duas Casas legislativas e poderia exercer influência ainda maior sobre a definição das agendas parlamentares e sobre a relação entre Executivo e Congresso.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 01/02/2025 — Hugo Motta é eleito presidente da Câmara com 444 votos, enquanto Davi Alcolumbre conquista a Presidência do Senado com 73 dos 81 votos. Os resultados demonstram a capacidade inicial dos dois de construir alianças suprapartidárias.
- 04/10/2026 — O PL conquista 121 cadeiras na Câmara e se torna a maior bancada da Casa. No primeiro turno presidencial, Flávio Bolsonaro termina à frente de Lula, com 47,03% contra 45,16% dos votos válidos na totalização então divulgada pelo TSE.
- 14/10/2026 — União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Federação PSDB-Cidadania e Podemos anunciam manutenção de um bloco de centro que deverá reunir 240 deputados em 2027 e sinalizam apoio à recondução de Hugo Motta.
- 25/10/2026 — Lula é reeleito com 64.256.232 votos, ou 51,79%, contra 59.826.041 votos, ou 48,21%, de Flávio Bolsonaro. A vitória inverte a liderança registrada no primeiro turno.
- 26/10/2026 — Lula recebe Hugo Motta e Davi Alcolumbre no Palácio da Alvorada. Os chefes das Casas defendem diálogo, independência do Legislativo e cooperação institucional.
- 27/10/2026 — A Federação PT-PCdoB-PV, com 88 deputados eleitos, anuncia apoio à reeleição de Motta e negocia participação no bloco de centro, que pode atingir 328 integrantes.
- 27/10/2026 — União Brasil e PP formalizam apoio à tentativa de recondução de Davi Alcolumbre à Presidência do Senado, embora existam divergências internas entre parlamentares.
- 29/10/2026 — É divulgada a previsão de uma reunião do PL em 04/11/2026 para definir sua estratégia nas eleições das Mesas da Câmara e do Senado. Rogério Marinho aparece como provável candidato do partido no Senado.
- 31/10/2026 — A revista Veja publica análise segundo a qual a reeleição de Lula reduziu a expectativa do PL de transformar o crescimento parlamentar em controle simultâneo das presidências da Câmara e do Senado.
- 01/02/2027 — Deputados e senadores eleitos tomarão posse e participarão das eleições das Mesas Diretoras. No Senado, serão necessários pelo menos 41 votos para escolher o presidente.








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