Estados Unidos rumo ao unilateralismo estratégico: Michael Beckley analisa postura do Governo Trump no contexto da Nova Ordem Mundial

O artigo de Michael Beckley, publicado em 16 de abril de 2025 na revista Foreign Affairs, sustenta que os Estados Unidos caminham para uma postura unilateral sustentada por seu poder econômico e militar. Beckley alerta para os riscos do protecionismo irrestrito e propõe uma aliança estratégica entre democracias ocidentais como alternativa à fragmentação da ordem liberal. A análise evidencia os dilemas da política externa norte-americana em um mundo multipolar e instável.
O Capitólio dos EUA, símbolo do poder legislativo norte-americano. Michael Beckley apresenta análise da crescente tendência dos EUA à ação unilateral na redefinição da Nova Ordem Mundial.

Washington, quarta-feira, 16/04/2025 — Em artigo publicado na revista Foreign Affairs, o cientista político Michael Beckley, professor da Tufts University e pesquisador sênior do American Enterprise Institute, propõe uma análise contundente sobre a nova configuração da política externa dos Estados Unidos. Intitulado “A era do unilateralismo americano: Como uma superpotência desonesta refará a ordem global”, o artigo examina a evolução da postura estratégica norte-americana diante do declínio das instituições multilaterais e da ascensão de potências autocráticas.

Segundo Beckley, a trajetória atual dos EUA não se limita à dicotomia entre o internacionalismo liberal e o isolacionismo. Em vez disso, a nação caminha para se tornar uma “superpotência desonesta”, que age de forma assertiva, autônoma e desvinculada das estruturas que outrora sustentaram a ordem global liberal.

Supremacia econômica e militar: fundamentos da autossuficiência

O autor argumenta que a guinada unilateralista é possível graças à resiliência econômica e à hegemonia militar dos EUA. O país concentra metade do capital de risco mundial, domina setores estratégicos de alta tecnologia e detém poder significativo sobre o sistema financeiro global, com quase 90% das transações internacionais ocorrendo em dólares. Além disso, as exportações representam apenas 11% do PIB norte-americano, revelando uma baixa dependência do comércio exterior.

Militarmente, os Estados Unidos mantêm alianças com cerca de 70 países, fornecendo proteção a um terço da economia global. Isso lhes confere capacidade de rever ou ignorar regras internacionais, segundo Beckley.

“Washington tem imensa influência para revisar as regras — ou abandoná-las completamente”, afirma o autor.

A ordem liberal e seus paradoxos

O texto destaca que a ordem liberal construída no pós-guerra cumpriu seu propósito, ao conter o expansionismo soviético e promover prosperidade entre os aliados ocidentais. No entanto, segundo Beckley, essa mesma estrutura enfraqueceu-se ao integrar potências autocráticas como China e Rússia, que passaram a se beneficiar do sistema para redefinir a geopolítica global por meio da força.

Para o autor, essa dinâmica criou uma nova dependência: “Os países que antes ancoravam a ordem liberal tornaram-se dependentes — drenando o poder dos EUA em vez de reforçá-lo”. Na visão de Beckley, a liberalização comercial e o multilateralismo passaram a favorecer adversários estratégicos, como Pequim e Moscou, que exploram as instituições globais para subverter valores liberais e expandir zonas de influência.

Transição tecnológica e demográfica como motor do unilateralismo

Beckley sustenta que mudanças demográficas e avanços tecnológicos estão acentuando a tendência ao unilateralismo. Os Estados Unidos, ao contrário de China, Rússia e Europa, manterão uma força de trabalho crescente ao longo do século, enquanto aliados e rivais enfrentam envelhecimento populacional, déficit fiscal e enfraquecimento da base industrial.

Com o desenvolvimento de tecnologias militares como drones autônomos e inteligência artificial, os EUA estão se tornando menos dependentes de bases permanentes no exterior. Isso favorece uma doutrina de ataque remoto e reestrutura sua economia e sua segurança nacional rumo à autossuficiência.

“Uma economia de fortaleza está crescendo para se equiparar a uma fortaleza militar”, sintetiza Beckley.

A crise como oportunidade: proposta de uma nova aliança do mundo livre

Apesar da crítica ao protecionismo exacerbado, Beckley vê na crise atual uma possibilidade de reorganizar a ordem mundial com base em alianças mais restritas e eficazes. Ele propõe que os EUA consolidem um bloco de democracias industrializadas capaz de conter as autocracias e preservar os valores liberais.

Esse novo arranjo incluiria:

  • fortalecimento do núcleo norte-americano (EUA, Canadá e México);

  • apoio militar a democracias da linha de frente (Taiwan, Polônia, Coreia do Sul);

  • integração econômica com regras conjuntas e defesa das cadeias críticas de suprimentos.

O objetivo, segundo o autor, não seria ressuscitar uma ordem universal, mas formar um bloco funcional, coeso e resiliente, com poder de barganha suficiente para enfrentar os desafios geopolíticos emergentes.

“O objetivo não é apenas vencer uma disputa de grande potência. É canalizá-la — para consertar o que está quebrado em casa e moldar um mundo que reflita os interesses e valores americanos”, conclui Beckley.

Quem é Michael Beckley

Michael Beckley é professor associado de Ciência Política na Tufts University, nos Estados Unidos, e um dos mais respeitados especialistas contemporâneos em geopolítica, relações internacionais e segurança nacional. Atua também como pesquisador sênior não residente no American Enterprise Institute (AEI), além de ser diretor do programa sobre Ásia do Foreign Policy Research Institute (FPRI) e Moynihan Public Scholar no City College de Nova York.

Beckley tornou-se amplamente conhecido por suas análises sobre a ascensão e os limites do poder chinês, o declínio relativo das potências e a transição estratégica dos Estados Unidos em um mundo multipolar. Seus trabalhos destacam-se pela combinação de rigor empírico, abordagem teórica original e foco na interseção entre poder militar, economia e demografia.

É autor de “Unrivaled: Why America Will Remain the World’s Sole Superpower” (Cornell University Press, 2018), obra em que desafia o consenso declinista e sustenta que os EUA manterão sua primazia global por décadas, com base em vantagens estruturais duradouras. Também é coautor, com Hal Brands, do livro “Danger Zone: The Coming Conflict with China” (W.W. Norton, 2022), no qual argumenta que a janela de maior risco para um confronto entre EUA e China ocorre no curto prazo, enquanto Pequim tenta consolidar sua influência antes do agravamento de seus desafios internos.

Seus artigos são regularmente publicados em veículos de prestígio como Foreign Affairs, Foreign Policy, The Atlantic e The New York Times. Além disso, Beckley atua como consultor de órgãos governamentais, militares e centros de pesquisa estratégica nos Estados Unidos e em outros países.

Reconhecido por sua clareza analítica e independência intelectual, Michael Beckley é uma voz influente no debate sobre o futuro da ordem internacional, o papel dos Estados Unidos e os dilemas estratégicos do século XXI.

*O artigo “The Age of American Unilateralism: How a Rogue Superpower Will Remake the Global Order” (A era do unilateralismo americano: Como uma superpotência desonesta refará a ordem global), de autoria de Michael Beckley, foi publicado na Foreign Affairs, em 16 de abril de 2025.


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