Banco Central decreta liquidação do Banco Master; PF prende Daniel Vorcaro e Operação Compliance Zero expõe risco sistêmico no mercado financeiro

O Banco Central decretou a liquidação do Banco Master após meses de crise de liquidez, tentativas frustradas de venda e indícios de irregularidades. A Polícia Federal prendeu o controlador Daniel Vorcaro na Operação Compliance Zero, que investiga emissão de títulos falsos e gestão fraudulenta. O Rioprevidência investiu quase R$ 1 bilhão no banco, aumentando o impacto do colapso. O FGC deve ressarcir até R$ 50 bilhões em depósitos.
Daniel Bueno Vorcaro, de 42 anos, é um banqueiro mineiro, natural de Belo Horizonte (MG), e presidente do Banco Master e foi preso pela PF no âmbito da Operação Compliance Zero.

O Banco Central do Brasil decretou esta terça-feira (18/11/2025) a liquidação extrajudicial do Banco Master, encerrando as atividades da instituição após meses de crise de liquidez, investigações por irregularidades e tentativas frustradas de venda. O anúncio veio poucas horas depois de a Polícia Federal prender o controlador do conglomerado, Daniel Vorcaro, no âmbito da Operação Compliance Zero, deflagrada para investigar suposta emissão de títulos de crédito falsos e outras práticas ilícitas. O episódio desencadeia o maior acionamento recente do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que deverá honrar entre R$ 40 bilhões e R$ 50 bilhões em depósitos.

Liquidação do Master ocorre após deterioração prolongada e falhas de captação

A crise do Banco Master vinha se aprofundando desde o início do ano, quando a instituição passou a demonstrar graves dificuldades para honrar compromissos com investidores e credores. Uma das estratégias adotadas por Vorcaro foi a oferta de CDBs com remuneração muito acima do mercado, chegando a 140% do CDI, com forte apelo ao fato de esses papéis serem cobertos pelo FGC — mecanismo que, na prática, transferiu o risco para o sistema como um todo.

O Master também recorria a uma linha de crédito de R$ 4 bilhões do próprio FGC, que deveria ter expirado em setembro, mas foi excepcionalmente renovada até novembro. A extensão foi interpretada por interlocutores do mercado como uma tentativa de ganhar tempo enquanto negociações de venda eram conduzidas.

Essas negociações, porém, se desgastaram publicamente. Em setembro, o Banco Central barrou a compra do Master pelo BRB, após cinco meses de análise, alegando risco de sucessão e possibilidade de que o banco público de Brasília herdasse passivos desconhecidos e volumosos. A decisão foi considerada um ponto de inflexão na percepção do mercado.

Prisão de Vorcaro revela articulações investigativas e risco de fuga

A Polícia Federal prendeu Daniel Vorcaro na noite desta segunda-feira (17/11), no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando se preparava para embarcar rumo a Dubai. A corporação avaliou que havia risco concreto de tentativa de evasão, tese que a defesa contesta — alegando que o empresário viajava apenas para assinar um contrato de venda do banco.

A operação da PF cumpriu sete mandados de prisão e 25 de busca e apreensão em cinco estados brasileiros, mirando práticas como:

  • emissão de títulos de crédito sem lastro
  • gestão fraudulenta
  • organização criminosa
  • negociações com ativos substituídos sem avaliação técnica

Segundo a PF, o inquérito teve início em 2024, após requisição do Ministério Público Federal e repasse de informações sensíveis pelo Banco Central. A investigação ganhou força após o BC detectar inconsistências e compartilhar dados estratégicos com a PF — ação reforçada por reuniões institucionais ocorridas em outubro, envolvendo o presidente do BC, Gabriel Galípolo, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

Também foi preso Augusto Ferreira Lima, ex-CEO do Master.

Daniel Vorcaro: ascensão veloz, aquisições ousadas e controvérsias na Faria Lima

Daniel Vorcaro, 42, tornou-se um nome de destaque no mercado financeiro após uma sequência acelerada de aquisições que incluiu o projeto Fasano Itaim, o Banco Voiter e o Will Bank. Dono do Banco Master, o banqueiro buscava reposicionar a instituição com estratégias agressivas de captação e crescimento, sustentadas por CDBs de alta remuneração e investimentos em diversos setores. Sua trajetória ganhou visibilidade também por eventos luxuosos e pela aproximação com figuras de peso do Judiciário e do empresariado.

A escalada de Vorcaro sofreu um revés com sua prisão pela Polícia Federal, sob suspeita de tentativa de deixar o país, e com a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, que colocou parte do conglomerado sob administração especial temporária. O empresário enfrenta ainda questionamentos na CVM sobre operações consideradas potencialmente fraudulentas no fundo imobiliário Brazil Realty. Ele nega irregularidades e atribui as críticas à concorrência diante do crescimento do banco.

Antes de assumir o Master, Vorcaro atuou no Grupo Multipar, empresa de sua família no setor imobiliário, ingressando no banco como investidor em 2017 e assumindo o controle em 2019. Construiu reputação pela capacidade de reestruturação de ativos e pela aposta em setores variados, incluindo crédito consignado, turismo, saúde, varejo e esportes — com destaque para sua participação de 27% na SAF do Atlético-MG. O empresário afirma que seu grupo busca apenas ocupar espaço num mercado financeiro concentrado, mantendo atuação regular e auditada.

Tentativa de compra pelo BRB vira alvo da PF e provoca afastamento do presidente do banco

O episódio agravou-se após a PF realizar buscas no Banco de Brasília (BRB), que negociou a compra do Master no primeiro semestre de 2025. O presidente da instituição, Paulo Henrique Costa, foi afastado do cargo, e a operação aponta para a suspeita de que títulos irregulares possam ter sido usados em transações entre os dois bancos.

A compra anunciada em março previa que o BRB assumiria R$ 23 bilhões em ativos, mas ficaria exposto a passivos incertos. A medida foi vista como arriscada e, por isso, rejeitada pelo BC. A revelação de irregularidades reforça a percepção de que a decisão da autoridade monetária evitou um problema sistêmico de maiores proporções.

Proposta da Fictor e investidores dos Emirados Árabes fracassa antes mesmo de avançar

A liquidação do Master ocorreu menos de um dia após a Fictor Holding Financeira anunciar uma proposta de aquisição, em conjunto com investidores dos Emirados Árabes Unidos — grupo supostamente detentor de mais de US$ 100 bilhões em ativos. A promessa incluía aporte imediato de R$ 3 bilhões para reestruturação do banco.

A proposta, entretanto, não convenceu o Banco Central, que avaliou que a situação já era irrecuperável. A falta de transparência sobre a identidade dos investidores internacionais também gerou questionamentos entre analistas.

Rioprevidência expõe 235 mil servidores ao risco ao investir R$ 1 bilhão no Master

Um dos aspectos mais delicados revelados pela crise diz respeito ao Rioprevidência, fundo responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de mais de 235 mil servidores do Estado do Rio de Janeiro. Em outubro, o TCE-RJ alertou que cerca de R$ 960 milhões — equivalentes a 8% do patrimônio do fundo — estavam alocados em letras financeiras do Master, produtos sem cobertura do FGC.

Apesar dos alertas, o Rioprevidência realizou novos aportes. Pareceres técnicos apontavam:

  • concentração crítica de investimentos
  • ambiente externo de elevado risco
  • retorno incompatível com práticas prudenciais

A conselheira Mariana Montebello Willeman afirmou que o banco oferecia taxas “impossíveis de serem praticadas”, indicando provável insolvência estrutural. O fundo justificou a aplicação mencionando o rating “A-” da Fitch Ratings à época e alegando conformidade com normas do Ministério da Previdência.

Impactos imediatos para os clientes: contas congeladas e acionamento do FGC

Com a liquidação decretada, todos os ativos do conglomerado ficam indisponíveis, incluindo contas correntes, investimentos e fundos administrados.

O FGC será responsável por ressarcir valores cobertos, seguindo o fluxo padrão:

  1. Decretação da liquidação pelo BC
  2. Cadastro do cliente no aplicativo do FGC
  3. Consolidação da lista de credores
  4. Pagamento, geralmente em até 30 dias úteis

São cobertos pelo Fundo:

  • contas correntes
  • CDBs e RDBs
  • LCIs, LCAs, LCDs
  • letras hipotecárias

O limite é de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição.

Dada a magnitude financeira do caso, analistas preveem que o processo poderá ser mais lento e tecnicamente complexo do que o padrão.

Autonomia do Banco Central volta ao centro do debate político

A liquidação ocorreu enquanto o Congresso discutia um projeto de lei que permitiria ao Legislativo demitir diretores e o presidente do Banco Central por critérios vagos, definidos como “interesses nacionais”.

O presidente do BC, Gabriel Galípolo, reafirmou a necessidade de autonomia institucional como proteção do interesse público, sobretudo diante de decisões sensíveis, como liquidações e intervenções bancárias.

Vulnerabilidades

A liquidação do Banco Master escancara vulnerabilidades ainda presentes no sistema financeiro brasileiro, especialmente no segmento de bancos médios que operam com produtos de alto retorno e baixa transparência. O episódio demonstra que o mecanismo de supervisão, embora robusto, enfrenta limitações quando instituições adotam estratégias agressivas de captação e alavancagem.

A combinação de remunerações acima do mercado, investidores públicos expostos, tentativas de compra arriscadas e suspeitas de fraude evidencia um ambiente propício a desequilíbrios. Além disso, a confluência entre investigação criminal, resolução financeira e disputa política reforça a importância de preservar a autonomia do Banco Central e fortalecer mecanismos de governança para reduzir riscos sistêmicos e proteger investidores e contribuintes.

*Com informações do UOL, Folha de S.Paulo e Metrópoles.

Leia +

Polícia Federal prende dono do Banco Master, afasta presidente do BRB e Banco Central liquida instituição durante Operação Compliance Zero contra fraudes financeiras

Fraude bilionária no sistema financeiro: Operação Compliance Zero revela rombo de R$ 12,2 bilhões no Banco Master, conexões políticas estratégicas e risco sistêmico para o BRB


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Facebook
Threads
WhatsApp
Twitter
LinkedIn

Deixe um comentário

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading

Privacidade e Cookies: O Jornal Grande Bahia usa cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com o uso deles. Para saber mais, inclusive sobre como controlar os cookies, consulte: Política de Cookies.