O Banco Central do Brasil decretou esta terça-feira (18/11/2025) a liquidação extrajudicial do Banco Master, encerrando as atividades da instituição após meses de crise de liquidez, investigações por irregularidades e tentativas frustradas de venda. O anúncio veio poucas horas depois de a Polícia Federal prender o controlador do conglomerado, Daniel Vorcaro, no âmbito da Operação Compliance Zero, deflagrada para investigar suposta emissão de títulos de crédito falsos e outras práticas ilícitas. O episódio desencadeia o maior acionamento recente do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que deverá honrar entre R$ 40 bilhões e R$ 50 bilhões em depósitos.
Liquidação do Master ocorre após deterioração prolongada e falhas de captação
A crise do Banco Master vinha se aprofundando desde o início do ano, quando a instituição passou a demonstrar graves dificuldades para honrar compromissos com investidores e credores. Uma das estratégias adotadas por Vorcaro foi a oferta de CDBs com remuneração muito acima do mercado, chegando a 140% do CDI, com forte apelo ao fato de esses papéis serem cobertos pelo FGC — mecanismo que, na prática, transferiu o risco para o sistema como um todo.
O Master também recorria a uma linha de crédito de R$ 4 bilhões do próprio FGC, que deveria ter expirado em setembro, mas foi excepcionalmente renovada até novembro. A extensão foi interpretada por interlocutores do mercado como uma tentativa de ganhar tempo enquanto negociações de venda eram conduzidas.
Essas negociações, porém, se desgastaram publicamente. Em setembro, o Banco Central barrou a compra do Master pelo BRB, após cinco meses de análise, alegando risco de sucessão e possibilidade de que o banco público de Brasília herdasse passivos desconhecidos e volumosos. A decisão foi considerada um ponto de inflexão na percepção do mercado.
Prisão de Vorcaro revela articulações investigativas e risco de fuga
A Polícia Federal prendeu Daniel Vorcaro na noite desta segunda-feira (17/11), no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando se preparava para embarcar rumo a Dubai. A corporação avaliou que havia risco concreto de tentativa de evasão, tese que a defesa contesta — alegando que o empresário viajava apenas para assinar um contrato de venda do banco.
A operação da PF cumpriu sete mandados de prisão e 25 de busca e apreensão em cinco estados brasileiros, mirando práticas como:
- emissão de títulos de crédito sem lastro
- gestão fraudulenta
- organização criminosa
- negociações com ativos substituídos sem avaliação técnica
Segundo a PF, o inquérito teve início em 2024, após requisição do Ministério Público Federal e repasse de informações sensíveis pelo Banco Central. A investigação ganhou força após o BC detectar inconsistências e compartilhar dados estratégicos com a PF — ação reforçada por reuniões institucionais ocorridas em outubro, envolvendo o presidente do BC, Gabriel Galípolo, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
Também foi preso Augusto Ferreira Lima, ex-CEO do Master.
Daniel Vorcaro: ascensão veloz, aquisições ousadas e controvérsias na Faria Lima
Daniel Vorcaro, 42, tornou-se um nome de destaque no mercado financeiro após uma sequência acelerada de aquisições que incluiu o projeto Fasano Itaim, o Banco Voiter e o Will Bank. Dono do Banco Master, o banqueiro buscava reposicionar a instituição com estratégias agressivas de captação e crescimento, sustentadas por CDBs de alta remuneração e investimentos em diversos setores. Sua trajetória ganhou visibilidade também por eventos luxuosos e pela aproximação com figuras de peso do Judiciário e do empresariado.
A escalada de Vorcaro sofreu um revés com sua prisão pela Polícia Federal, sob suspeita de tentativa de deixar o país, e com a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, que colocou parte do conglomerado sob administração especial temporária. O empresário enfrenta ainda questionamentos na CVM sobre operações consideradas potencialmente fraudulentas no fundo imobiliário Brazil Realty. Ele nega irregularidades e atribui as críticas à concorrência diante do crescimento do banco.
Antes de assumir o Master, Vorcaro atuou no Grupo Multipar, empresa de sua família no setor imobiliário, ingressando no banco como investidor em 2017 e assumindo o controle em 2019. Construiu reputação pela capacidade de reestruturação de ativos e pela aposta em setores variados, incluindo crédito consignado, turismo, saúde, varejo e esportes — com destaque para sua participação de 27% na SAF do Atlético-MG. O empresário afirma que seu grupo busca apenas ocupar espaço num mercado financeiro concentrado, mantendo atuação regular e auditada.
Tentativa de compra pelo BRB vira alvo da PF e provoca afastamento do presidente do banco
O episódio agravou-se após a PF realizar buscas no Banco de Brasília (BRB), que negociou a compra do Master no primeiro semestre de 2025. O presidente da instituição, Paulo Henrique Costa, foi afastado do cargo, e a operação aponta para a suspeita de que títulos irregulares possam ter sido usados em transações entre os dois bancos.
A compra anunciada em março previa que o BRB assumiria R$ 23 bilhões em ativos, mas ficaria exposto a passivos incertos. A medida foi vista como arriscada e, por isso, rejeitada pelo BC. A revelação de irregularidades reforça a percepção de que a decisão da autoridade monetária evitou um problema sistêmico de maiores proporções.
Proposta da Fictor e investidores dos Emirados Árabes fracassa antes mesmo de avançar
A liquidação do Master ocorreu menos de um dia após a Fictor Holding Financeira anunciar uma proposta de aquisição, em conjunto com investidores dos Emirados Árabes Unidos — grupo supostamente detentor de mais de US$ 100 bilhões em ativos. A promessa incluía aporte imediato de R$ 3 bilhões para reestruturação do banco.
A proposta, entretanto, não convenceu o Banco Central, que avaliou que a situação já era irrecuperável. A falta de transparência sobre a identidade dos investidores internacionais também gerou questionamentos entre analistas.
Rioprevidência expõe 235 mil servidores ao risco ao investir R$ 1 bilhão no Master
Um dos aspectos mais delicados revelados pela crise diz respeito ao Rioprevidência, fundo responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de mais de 235 mil servidores do Estado do Rio de Janeiro. Em outubro, o TCE-RJ alertou que cerca de R$ 960 milhões — equivalentes a 8% do patrimônio do fundo — estavam alocados em letras financeiras do Master, produtos sem cobertura do FGC.
Apesar dos alertas, o Rioprevidência realizou novos aportes. Pareceres técnicos apontavam:
- concentração crítica de investimentos
- ambiente externo de elevado risco
- retorno incompatível com práticas prudenciais
A conselheira Mariana Montebello Willeman afirmou que o banco oferecia taxas “impossíveis de serem praticadas”, indicando provável insolvência estrutural. O fundo justificou a aplicação mencionando o rating “A-” da Fitch Ratings à época e alegando conformidade com normas do Ministério da Previdência.
Impactos imediatos para os clientes: contas congeladas e acionamento do FGC
Com a liquidação decretada, todos os ativos do conglomerado ficam indisponíveis, incluindo contas correntes, investimentos e fundos administrados.
O FGC será responsável por ressarcir valores cobertos, seguindo o fluxo padrão:
- Decretação da liquidação pelo BC
- Cadastro do cliente no aplicativo do FGC
- Consolidação da lista de credores
- Pagamento, geralmente em até 30 dias úteis
São cobertos pelo Fundo:
- contas correntes
- CDBs e RDBs
- LCIs, LCAs, LCDs
- letras hipotecárias
O limite é de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição.
Dada a magnitude financeira do caso, analistas preveem que o processo poderá ser mais lento e tecnicamente complexo do que o padrão.
Autonomia do Banco Central volta ao centro do debate político
A liquidação ocorreu enquanto o Congresso discutia um projeto de lei que permitiria ao Legislativo demitir diretores e o presidente do Banco Central por critérios vagos, definidos como “interesses nacionais”.
O presidente do BC, Gabriel Galípolo, reafirmou a necessidade de autonomia institucional como proteção do interesse público, sobretudo diante de decisões sensíveis, como liquidações e intervenções bancárias.
Vulnerabilidades
A liquidação do Banco Master escancara vulnerabilidades ainda presentes no sistema financeiro brasileiro, especialmente no segmento de bancos médios que operam com produtos de alto retorno e baixa transparência. O episódio demonstra que o mecanismo de supervisão, embora robusto, enfrenta limitações quando instituições adotam estratégias agressivas de captação e alavancagem.
A combinação de remunerações acima do mercado, investidores públicos expostos, tentativas de compra arriscadas e suspeitas de fraude evidencia um ambiente propício a desequilíbrios. Além disso, a confluência entre investigação criminal, resolução financeira e disputa política reforça a importância de preservar a autonomia do Banco Central e fortalecer mecanismos de governança para reduzir riscos sistêmicos e proteger investidores e contribuintes.
*Com informações do UOL, Folha de S.Paulo e Metrópoles.
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