Dia da Consciência Negra: origem histórica, legado de Zumbi e a nova agenda das mulheres negras na COP30

O Brasil celebra nesta quinta-feira, 20 de novembro, o Dia Nacional da Consciência Negra, feriado instituído em 2024 e dedicado à memória de Zumbi dos Palmares, morto em 1695. A data reforça debates sobre racismo, reparação histórica, desigualdades socioeconômicas, além de impulsionar mobilizações contemporâneas, como a Marcha das Mulheres Negras, que completará uma década na próxima semana durante a COP30, em Belém.

A escolha do 20 de novembro surgiu como contraponto ao 13 de maio, por iniciativa de estudantes e militantes negros de Porto Alegre nos anos 1970. O grupo conhecido como Palmares – formado por Oliveira Silveira, Ilmo Silva, Vilmar Nunes e Antônio Carlos Cortes – defendia que a memória da resistência deveria prevalecer à narrativa celebratória da abolição formal.

O Quilombo dos Palmares, situado na Serra da Barriga, em Alagoas, consolidou-se desde o século XVII como um dos maiores territórios autônomos de pessoas fugidas da escravidão, abrigando cerca de 30 mil habitantes. O conjunto de aldeias reunia nomes de origem africana, indígena e portuguesa, revelando a complexidade sociocultural do quilombo.

Zumbi nasceu livre por volta de 1655, foi capturado por tropas portuguesas ainda criança, batizado como Francisco e educado por um padre. Aos 15 anos, fugiu de volta a Palmares, retomou o nome africano e, aos 25, assumiu a liderança da resistência armada contra ataques coloniais. Após a invasão da Aldeia do Macaco em 1694, Zumbi permaneceu mais de um ano em fuga até ser morto e esquartejado em 20 de novembro de 1695.

Mobilização contemporânea durante a COP30

Belém se tornou centro das atividades paralelas à COP30, reunindo lideranças negras de várias regiões na chamada Black Zone, instalada na Praça da República. O espaço abriga debates, vivências e articulações políticas que antecedem a Marcha das Mulheres Negras, marcada para 25 de novembro, em Brasília.

O ambiente presta homenagem à paraense Raimunda Nilma Bentes, escritora, ativista e idealizadora da primeira grande marcha, realizada em 2015. À época, cerca de 70 mil mulheres caminharam até a Praça dos Três Poderes sob o mote “Contra o Racismo e a Violência pelo Bem Viver”, desafiando a ausência de redes estruturadas e mobilizando participantes de todas as regiões.

Dez anos depois: pautas, reivindicações e novos instrumentos

A marcha que completará dez anos mantém demandas centrais como reparação histórica, combate ao racismo, enfrentamento à violência e ampliação da representação política. Para o movimento, reparação abrange desde desigualdades estruturais até temas como xenofobia, violência territorial e condições de trabalho.

A noção de bem viver, inspirada em princípios comunitários latino-americanos, orienta propostas que incluem transição energética justa, crítica ao consumismo, prevalência do coletivo e economia subordinada à preservação ambiental. No plano local, reivindica melhores condições profissionais para mulheres negras, sobretudo em setores precarizados, e políticas que valorizem o trabalho de cuidado.

O contexto da COP30 reforça a urgência climática vivida por populações negras em áreas vulneráveis, onde desigualdades socioeconômicas ampliam os efeitos da crise ambiental.

Organização e incidência política

Para fortalecer a atuação nos debates climáticos, as representantes fundaram o Comitê Nacional das Mulheres Negras por Justiça Climática, oficializado em 10 de novembro. O colegiado reúne 36 organizações com foco em incidência climática, defesa de direitos e participação institucional, embora poucas entidades amazônicas tenham obtido credencial oficial para o evento.

Além da marcha, serão entregues três documentos centrais:
• manifesto das mulheres negras por justiça climática;
• manifesto do Levante Negro pela Educação, que defende um Plano Nacional de Educação antirracista;
• manifesto econômico, acompanhado de estudos e diagnósticos elaborados por organizações de pesquisa.

A programação inclui mais de 50 atividades, como diálogos globais do movimento de mulheres, assembleia da Rede Afrolatinoamericana e Caribenha, encontro LGBTQAPN+ e debates de juventudes, com convergência final em Brasília.

Uma cartilha organizada pela comunicadora Flávia Ribeiro orienta participantes sobre a história da marcha, marcos da segunda edição e propostas do movimento, atuando como instrumento pedagógico e mobilizador.

Consolidação do feriado nacional

A consolidação do 20 de novembro como feriado nacional marca a maturação de uma disputa histórica por memória e reconhecimento. O fortalecimento do legado de Zumbi e de Palmares evidencia a permanência das desigualdades raciais no Brasil e reforça a necessidade de políticas públicas sustentadas por diagnóstico histórico rigoroso.

A Marcha das Mulheres Negras, ao articular justiça climática, reparação e bem viver, demonstra que debates ambientais não podem prescindir da dimensão social e racial. A dificuldade de acesso de organizações amazônicas às credenciais oficiais da COP30, contudo, expõe contradições entre discurso e prática, reiterando tensões sobre representatividade nos espaços de decisão global.

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