Aos 88 anos, Seymour Myron “Cy” Hersh, conhecido como Seymour Hersh, permanece como uma das figuras centrais do jornalismo investigativo contemporâneo. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, construiu uma trajetória marcada pela exposição sistemática de abusos de poder, crimes de guerra e operações encobertas do Estado norte-americano, frequentemente em confronto direto com versões oficiais. Vencedor do Prêmio Pulitzer de Reportagem Internacional, Hersh consolidou um método clássico de investigação baseado em fontes diretas, documentos primários, checagem rigorosa e independência editorial, mesmo sob intensa pressão política e institucional.
Origem, formação e primeiros passos
Nascido em Chicago, em 8 de abril de 1937, Seymour Hersh é filho de imigrantes judeus do Leste Europeu, falantes de iídiche, que mantinham uma pequena lavanderia na cidade. A origem familiar modesta e o ambiente urbano influenciaram sua percepção precoce sobre trabalho, hierarquias e poder.
Formou-se em História pela Universidade de Chicago, formação que lhe forneceu base analítica sólida e senso apurado de contexto histórico — elementos que se tornariam centrais em sua prática jornalística. Antes de ingressar definitivamente na imprensa, trabalhou na rede de farmácias Walgreens e chegou a ser aceito na Faculdade de Direito da mesma universidade, da qual foi desligado por baixo rendimento acadêmico. A experiência reforçou um traço recorrente de sua biografia: trajetórias não lineares, resistência a estruturas rígidas e disposição para recomeçar.
Em 1959, iniciou a carreira jornalística como repórter policial no City News Bureau de Chicago, instituição conhecida pelo padrão extremo de checagem factual. Ali consolidou o princípio que marcaria toda a sua carreira: nenhuma informação publicada sem confirmação independente. Posteriormente, atuou como correspondente da United Press International e da Associated Press, cobrindo temas nacionais e de segurança em diferentes regiões dos Estados Unidos, inclusive em Washington.
Influências intelectuais e método investigativo
Durante sua passagem por Washington, Hersh aproximou-se do jornalista independente I. F. Stone, crítico contundente do macartismo e defensor da autonomia da imprensa diante do Estado. A influência foi decisiva para a formação de seu método: desconfiança permanente das narrativas oficiais e recusa em aceitar briefings governamentais como fonte suficiente.
Esse estilo o levou a atritos com a Associated Press, que se recusou a publicar uma reportagem sobre atividades do governo dos Estados Unidos envolvendo armas químicas e biológicas. Hersh deixou a agência e publicou o material em revista independente, afirmando sua independência profissional — uma escolha que definiria o restante de sua carreira.
Ainda no final da década de 1960, atuou como assessor de imprensa na campanha presidencial do senador Eugene McCarthy, experiência que lhe proporcionou contato direto com o funcionamento interno da política, antes de retornar ao jornalismo investigativo em posição abertamente crítica ao poder.
My Lai e o Pulitzer: a ruptura definitiva
O ponto de inflexão de sua trajetória ocorreu em 1969, quando Hersh revelou o massacre de My Lai, no Vietnã, episódio em que centenas de civis foram assassinados por soldados norte-americanos. A reportagem desmontou a narrativa oficial da guerra e expôs, com documentação e testemunhos, a dimensão dos crimes cometidos.
A investigação lhe rendeu o Prêmio Pulitzer de Reportagem Internacional em 1970, mas, mais do que a premiação, consolidou um modelo clássico de jornalismo investigativo: apuração prolongada, trabalho solitário, documentação rigorosa e disposição para enfrentar o poder estatal. O caso estabeleceu um padrão recorrente em sua carreira: negação inicial por parte das autoridades, tentativas de desqualificação do jornalista e confirmação posterior dos fatos.
CIA, Guerra Fria e repressão interna
Na década de 1970, Hersh revelou operações ilegais da CIA contra movimentos pacifistas e grupos políticos dentro dos Estados Unidos, ampliando o debate público sobre os limites democráticos da atuação das agências de inteligência. As denúncias contribuíram para a demissão de James Jesus Angleton, então chefe da contraespionagem da agência.
Outro furo de grande impacto foi a revelação do Projeto Jennifer, operação secreta da CIA destinada a recuperar destroços do submarino soviético K-129, numa tentativa de obter tecnologia e informações estratégicas da União Soviética durante a Guerra Fria. O episódio evidenciou o alcance das operações encobertas e a lógica de competição geopolítica que orientava essas ações.
Kissinger, concentração de poder e política externa
Em 1983, Hersh publicou o livro The Price of Power: Kissinger in the Nixon White House, obra que lhe rendeu o National Book Critics Circle Award. No livro, documentou a concentração extraordinária de poder decisório nas mãos de Henry Kissinger durante os governos Nixon e Ford, analisando decisões tomadas com mínima supervisão institucional.
A investigação incluiu o papel dos Estados Unidos no Chile, durante o governo de Salvador Allende, demonstrando como a política externa norte-americana promoveu desestabilização econômica e política de um governo democraticamente eleito. As reportagens e análises apontam que essa estratégia contribuiu para o golpe de 1973 e para a instalação da ditadura de Augusto Pinochet, tornando o caso chileno um exemplo emblemático da lógica intervencionista da Guerra Fria.
Iraque, Abu Ghraib e o pós-11 de Setembro
Em 2004, Hersh voltou ao centro do debate internacional ao publicar uma série de reportagens sobre a tortura de prisioneiros na prisão de Abu Ghraib, no Iraque. Fotografias e documentos revelaram práticas sistemáticas de abuso cometidas por militares dos Estados Unidos, desmentindo versões oficiais que tratavam os casos como desvios isolados.
No mesmo período, publicou investigações sobre a criação do Office of Special Plans, estrutura paralela no Departamento de Defesa que teria produzido informações seletivas para justificar a invasão do Iraque em 2003. Hersh também descreveu manobras políticas para contornar procedimentos tradicionais de inteligência, reforçando críticas à condução da chamada “Guerra ao Terror”.
Controvérsias e independência tardia
Ao longo da carreira, Hersh acumulou controvérsias decorrentes de reportagens que atingiram figuras influentes da política externa e do complexo militar-industrial. Em textos posteriores, manteve a disposição de desafiar consensos, mesmo sob isolamento profissional.
Em 2015, publicou uma longa reportagem questionando a versão oficial da morte de Osama bin Laden, sustentando que a narrativa divulgada pelo governo dos Estados Unidos teria sido construída com objetivos políticos. A apuração gerou forte controvérsia e ilustra um traço constante de sua trajetória: a disposição para sustentar versões dissidentes, mesmo diante de críticas severas.
O documentário e a memória do jornalismo investigativo
A trajetória de Hersh é revisitada no documentário “Seymour Hersh: Em Busca da Verdade (Cover-Up)”, lançado em 2025. A obra articula documentos, imagens de arquivo e anotações pessoais para reconstruir mais de cinco décadas de jornalismo investigativo, do Vietnã ao Iraque, do Chile à Guerra ao Terror.
Com linguagem sóbria e rigor documental, o filme reforça uma constatação recorrente: repórteres enfrentam riscos, pressões e ostracismo, enquanto formuladores de políticas raramente respondem por decisões com impactos globais duradouros.
Poder, imprensa e responsabilidade histórica
A trajetória de Seymour Hersh reafirma um dos fundamentos clássicos do jornalismo profissional: a imprensa existe para vigiar o poder, não para acomodar-se a ele. Sua biografia demonstra, de forma recorrente, que abusos estatais prosperam em ambientes de opacidade institucional, especialmente quando decisões estratégicas — militares, diplomáticas ou de inteligência — são tomadas fora do alcance do escrutínio público. Em contextos assim, a responsabilização raramente emerge de mecanismos automáticos do Estado; ela depende, quase sempre, da persistência de jornalistas dispostos a sustentar investigações longas, custosas e politicamente incômodas, mesmo diante de isolamento profissional e ataques à credibilidade.
O trabalho de Hersh também expõe um padrão histórico: instituições de poder tendem a reagir defensivamente à revelação de seus próprios abusos, recorrendo inicialmente à negação, à desqualificação do mensageiro e à fragmentação da responsabilidade. Ao longo de décadas, suas reportagens evidenciaram que punições, quando ocorrem, concentram-se em agentes de menor escalão, preservando a estrutura decisória que autorizou ou tolerou violações. Esse padrão levanta uma questão central para a democracia liberal: até que ponto sistemas políticos conseguem impor limites efetivos ao poder estatal sem a pressão constante de uma imprensa independente.
Ao mesmo tempo, a trajetória de Hersh ilumina as tensões estruturais do jornalismo investigativo em temas de segurança nacional. Nessas áreas, a apuração frequentemente depende de fontes que não podem ser expostas, documentos classificados e reconstruções indiretas de fatos deliberadamente ocultados. A verificação ocorre, muitas vezes, em zonas cinzentas, nas quais o repórter precisa equilibrar rigor factual, proteção de fontes e interesse público. Esse contexto amplia o risco de controvérsias, disputas narrativas e tentativas de deslegitimação, tornando o jornalismo investigativo uma atividade de alto custo pessoal e profissional.
O legado de Seymour Hersh, portanto, é duplo e inseparável. De um lado, afirma a potência do método investigativo tradicional, baseado em tempo, documentação, memória histórica e independência editorial — um modelo cada vez mais pressionado por ciclos de notícia acelerados e restrições econômicas. De outro, impõe um debate necessário sobre os limites, riscos e responsabilidades desse método em democracias contemporâneas, especialmente quando o Estado invoca a segurança nacional para restringir transparência. Sua obra lembra que a verdade raramente é confortável, mas que sem desconforto institucional não há controle democrático real.











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