Caso Banco Master: investigação sobre fraude bilionária se expande ao STF, TCU e envolve autoridades, empresários e influenciadores

A investigação do Banco Master revelou um esquema de fraude estimado em R$ 12 bilhões, envolvendo títulos fictícios, manipulação contábil e ampla rede de influência política e institucional. A prisão de Daniel Vorcaro, a liquidação do banco e o resgate histórico do FGC ampliaram o caso para o STF e o TCU. O episódio expõe fragilidades regulatórias, riscos de captura institucional e os custos públicos de falhas na supervisão financeira.
Caso Banco Master: fraude bilionária, prisão de Daniel Vorcaro, liquidação pelo Banco Central e impacto histórico no FGC expõem fragilidades do sistema financeiro brasileiro.

A investigação sobre o Banco Master, conduzida por Banco Central, Polícia Federal e Ministério Público Federal, avançou para outras instâncias do Estado e alcançou o TCU e o STF, ao apurar uma fraude estimada em R$ 12 bilhões atribuída ao controlador da instituição, Daniel Vorcaro. O caso reúne suspeitas de manipulação contábil, uso de títulos falsos, pressão política, contratos com escritórios ligados a autoridades e uma rede de influência que envolve ministros, ex-dirigentes econômicos, empresários e atuação coordenada em redes sociais, culminando na liquidação do banco e no maior resgate já realizado pelo FGC.

Origem e expansão do Banco Master

O atual Banco Master tem origem na aquisição, em 2017, de participação no Banco Máxima por Daniel Vorcaro, empresário de Belo Horizonte ligado ao setor imobiliário por meio do Grupo Multipar. Em 2019, Vorcaro assumiu o controle da instituição e, em 2021, promoveu sua reestruturação e rebatismo.

A partir desse período, o banco adotou uma estratégia agressiva de captação, oferecendo CDBs com remuneração de até 120% do CDI, patamar significativamente acima do mercado. Essa política acelerou o crescimento da base de clientes e ampliou a exposição do banco ao FGC, responsável por garantir depósitos de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ.

Paralelamente, o controlador passou a adquirir ativos de grande visibilidade e a ampliar sua presença em setores distintos, como hotelaria de luxo, sistema financeiro e futebol profissional, o que contribuiu para projetar seu nome no mercado e no meio político.

Quem é Daniel Vorcaro e suas conexões

Daniel Vorcaro ganhou notoriedade ao adquirir participações relevantes em empreendimentos como o complexo Fasano Itaim e ao comprar instituições como o Banco Voiter e o Will Bank. Fora do setor financeiro, investiu cerca de R$ 300 milhões na SAF do Atlético-MG, passando a deter aproximadamente 27% do clube.

Antes de sua prisão, Vorcaro cultivou relações com lideranças políticas e empresariais. Aproximou-se do senador Ciro Nogueira e de dirigentes partidários como Antonio Rueda, além de frequentar eventos organizados por grupos empresariais com forte trânsito institucional, como Esfera Brasil, Lide e Voto, alguns deles financiados pelo Banco Master nos últimos anos.

Consultorias, contratos e trânsito institucional

No campo institucional, o Banco Master contratou consultores e ex-autoridades de alto escalão, entre eles ex-presidentes do Banco Central, ex-ministros da Fazenda e ex-integrantes do Supremo Tribunal Federal. Um dos contratos que chamou a atenção dos investigadores envolve pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões a um escritório ligado a familiares de um ministro do STF, destinado à defesa de interesses da instituição financeira.

Segundo apuração, essas conexões facilitaram o acesso do banqueiro a autoridades do Executivo e do Legislativo, incluindo encontros no Palácio do Planalto e interlocuções com membros do governo federal, em meio às tentativas de viabilizar operações de socorro ou venda do banco.

Fraude bilionária e indícios de corrupção

De acordo com a Polícia Federal, o esquema investigado envolve a emissão e circulação de títulos de crédito inexistentes, em especial carteiras de crédito consignado com tomadores fictícios. Esses ativos teriam sido usados para inflar artificialmente o balanço do banco e viabilizar operações de venda e captação.

Há indícios de que o negócio com o BRB tenha sido utilizado como instrumento para mascarar essas irregularidades, com a circulação de ativos entre instituições e fundos ligados a uma mesma gestora. Parte dos recursos teria sido desviada por meio de intermediários e “laranjas”, segundo investigadores.

Outro ponto sob apuração é o uso de ativos de baixíssimo valor, como certificados do extinto Besc, contabilizados como se valessem milhões de reais, prática que reforça suspeitas de fraude contábil estruturada e possível conivência ou omissão de agentes externos.

Liquidação e impacto no sistema financeiro

A liquidação extrajudicial do Banco Master foi decretada com base em “grave crise de liquidez” e “violações às normas do Sistema Financeiro Nacional”, segundo o Banco Central. A medida retirou o banco do sistema e acionou o FGC, que deverá desembolsar cerca de R$ 41 bilhões para 1,6 milhão de credores, configurando o maior resgate de sua história.

Apesar do volume, autoridades avaliam que não há risco sistêmico, já que o FGC dispõe de aproximadamente R$ 122 bilhões em caixa. Ainda assim, o caso reacendeu o debate sobre incentivos perversos gerados pela garantia de depósitos e sobre a fiscalização de bancos médios.

Questionamentos no TCU e disputas institucionais

No TCU, o ministro Jhonatan de Jesus assumiu a relatoria de um processo que analisa a conduta do Banco Central na liquidação. A tentativa inicial de realizar uma inspeção in loco no BC gerou reação interna e externa, sendo posteriormente revista, diante do risco de politização do tribunal.

Paralelamente, ações no STF buscam questionar decisões administrativas e judiciais relacionadas ao caso, ampliando o conflito entre órgãos de controle, reguladores e a defesa do banqueiro.

Atuação coordenada nas redes sociais

Investigadores identificaram ao menos 46 perfis em redes sociais atuando de forma coordenada para atacar o Banco Central e agentes da investigação, difundindo informações distorcidas e críticas à liquidação do banco. A prática, segundo apuração, já ocorria durante a análise da venda ao BRB e se intensificou após a prisão de Vorcaro.

O fenômeno passou a integrar a investigação como possível estratégia de pressão institucional e desinformação, ampliando o alcance político do caso.

Linha do tempo da crise e da investigação

2017–2021 – Aquisição do Banco Máxima, tomada de controle e rebatismo para Banco Master.
2022–2024 – Expansão acelerada com venda de CDBs de alta remuneração e aquisições estratégicas.
Março/2025 – Anúncio de negociação para venda do banco ao BRB, sob alegação de fortalecimento de capital.
Setembro/2025Banco Central veta a operação, citando riscos de sucessão e inconsistências.
Janeiro/2026Polícia Federal prende Daniel Vorcaro; investigação aponta fraude bilionária.
Horas depoisBC decreta a liquidação do Banco Master, interrompendo suas atividades.
Dias seguintes – Caso alcança TCU e STF, com disputas jurídicas e pressão política.

Poder financeiro, influência e fragilidades institucionais

O caso Banco Master expõe, de forma contundente, as fragilidades na supervisão de instituições financeiras de crescimento acelerado e os riscos associados à combinação entre captação agressiva, garantias públicas e fiscalização reativa. A velocidade da expansão do banco contrastou com a capacidade de detecção precoce das irregularidades.

Os indícios de trânsito privilegiado entre o setor financeiro e instâncias políticas e judiciais levantam questionamentos sobre conflitos de interesse, captura regulatória e limites éticos na contratação de ex-autoridades para defesa de interesses privados.

Por fim, a atuação coordenada em redes sociais e a judicialização do episódio revelam como crises financeiras contemporâneas extrapolam o campo econômico, tornando-se disputas institucionais amplas, com impacto direto sobre a confiança pública no sistema financeiro e nos órgãos de controle.

*Com informações do O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Veja, Poder360 e Metrópoles.


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