Depoimentos à PF expõem versão de Daniel Vorcaro sobre patrimônio no exterior, relações políticas e colapso do Banco Master

Em depoimentos prestados à Polícia Federal em dezembro de 2025, o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, apresentou sua versão sobre a suposta posse de imóveis de alto padrão nos Estados Unidos, a estrutura de bens e contas no exterior, as negociações frustradas com o Banco de Brasília (BRB), além de negar irregularidades na venda de carteiras de crédito que somam mais de R$ 12 bilhões. As declarações foram colhidas no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura possíveis fraudes financeiras, relações políticas e impactos sistêmicos no mercado bancário.

Questionado pela PF sobre notícias que atribuíram a ele a posse de uma mansão em Miami, Vorcaro negou ser proprietário de imóvel na cidade. Segundo o banqueiro, sua relação com o mercado imobiliário local se limitaria à locação de um imóvel, não à compra.
A declaração contrasta com reportagens que apontaram a existência de propriedades de alto valor associadas à família do empresário na Flórida. Conforme apuração jornalística, uma mansão avaliada em cerca de R$ 180 milhões, localizada em Orlando, teria sido adquirida em 2023 por US$ 35 milhões, figurando entre as maiores transações imobiliárias do estado naquele ano.

Outras reportagens mencionaram ainda um imóvel em Miami, situado no condomínio Bay Point, avaliado em valores significativamente superiores. Vorcaro, no entanto, reafirmou à PF que não é dono de mansão na cidade, restringindo sua explicação a contratos de aluguel.

Bens e estruturas no exterior

Ao ser indagado sobre patrimônio fora do país, o banqueiro afirmou não conseguir se recordar de todas as contas bancárias que mantém no exterior. Entre os ativos citados, mencionou a holding do Banco Master nas Ilhas Cayman, estruturada, segundo ele, como parte do arranjo societário da instituição financeira.

Além da holding, Vorcaro declarou possuir algumas contas correntes internacionais, sem detalhar valores ou instituições, alegando limitação de memória quanto a outros ativos. A resposta chamou atenção dos investigadores por ocorrer no contexto de apuração de operações financeiras complexas e de grande monta.

Relação com políticos e resistência em citar nomes

Durante a oitiva, a PF questionou Vorcaro sobre a frequência de políticos em sua residência e sobre eventuais interlocuções institucionais relacionadas ao negócio com o BRB. O banqueiro afirmou que não conseguiria nominar individualmente parlamentares ou autoridades que o visitaram, excetuando o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha.

Mesmo após insistência da delegada responsável pelo inquérito, Vorcaro manteve a posição de que não houve relação direta entre encontros sociais e o caso investigado. Ele declarou ainda que, além de Ibaneis e de diretores do Banco Central, não tratou da venda do banco com outras autoridades públicas.

Contradições e reações políticas

As declarações do banqueiro geraram reações no meio político. Parlamentares da oposição no Distrito Federal apresentaram pedido de impeachment contra Ibaneis Rocha, após a divulgação de trechos do depoimento que indicariam conversas sobre a negociação entre Master e BRB. O governador, por sua vez, negou ter tratado de operações bancárias com Vorcaro, afirmando que confiou integralmente nas informações técnicas fornecidas pela então direção do BRB.

Negócio frustrado com o BRB e críticas ao Banco Central

Vorcaro afirmou à PF que o fracasso da venda do Banco Master ao BRB decorreu de “forças internas” do Banco Central e do mercado financeiro. Segundo ele, houve resistência desde o início do processo para que permanecesse no comando da instituição.

O banqueiro declarou que chegou a se dispor a deixar o banco, desde que a transição ocorresse de forma ordenada e sem prejuízos. Na sua versão, mudanças regulatórias e entraves institucionais inviabilizaram a conclusão do negócio.

Carteiras de crédito e negativa de fraude

No centro da investigação estão carteiras de crédito que somam R$ 12,2 bilhões, adquiridas pelo Master e posteriormente negociadas com o BRB. Vorcaro negou ter conhecimento prévio sobre a qualidade dos créditos e afirmou que não sabia identificar quais eram bons ou ruins.

Ele sustentou que a transação não chegou a ser concluída, alegando que os recursos destinados à compra ficaram retidos em uma conta escrow, sem liberação definitiva. Segundo o banqueiro, ao constatar a ausência de documentação completa por parte da consultoria originadora, o negócio teria sido desfeito.

Modelo de negócios e dependência do FGC

Em outro depoimento, Vorcaro admitiu que o modelo de negócios do Banco Master era integralmente baseado no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que protege investidores em caso de quebra bancária. Segundo ele, essa estratégia era conhecida e estava de acordo com as regras vigentes.

O banqueiro reconheceu uma crise de liquidez, que teria sido agravada por alterações regulatórias no FGC, limitando a capacidade de captação do banco. Atualmente, o fundo já desembolsou dezenas de bilhões de reais para ressarcir investidores do conglomerado Master, impacto considerado relevante para o sistema financeiro nacional.

O alcance institucional do caso Master

O conjunto de depoimentos de Daniel Vorcaro revela uma estratégia defensiva centrada na negação de irregularidades diretas e na transferência de responsabilidades para fatores regulatórios e de mercado. A recorrente alegação de desconhecimento — seja sobre a qualidade dos créditos, seja sobre a extensão de seu patrimônio — expõe fragilidades no discurso de governança de um banqueiro que comandava operações bilionárias.

O caso também evidencia tensões institucionais entre agentes privados, reguladores e atores políticos. As contradições entre versões apresentadas por Vorcaro e autoridades públicas ampliam o desgaste político e reforçam a necessidade de apuração rigorosa sobre a relação entre o sistema financeiro e o poder público.

Por fim, o impacto sistêmico da liquidação do Banco Master, com forte dependência do FGC, recoloca no debate a sustentabilidade de modelos bancários baseados em captação agressiva e ativos de baixa liquidez, tema central para a estabilidade financeira do país.

*Com informações dos jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Estadão, Revista Veja, site Metrópoles e Agência Brasil.


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