Sexta-feira, 20/02/2026 — Mensagens obtidas pela Polícia Federal e incluídas em relatório encaminhado ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, apontam propostas de contratos para a advogada Roberta Rangel, ex-mulher do ministro Dias Toffoli, além de menção ao uso de um jatinho ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro. Os fatos são tratados como indícios que poderiam sustentar eventual arguição de suspeição ou impedimento do magistrado no caso envolvendo o Banco Master.
As informações emergem em meio à crise política e institucional desencadeada pelo caso, que também provocou desgaste na relação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Toffoli, com relatos de indignação no entorno do Planalto e risco de abalo na articulação entre governo e ala política do STF.
Entre os elementos reunidos pela Polícia Federal, constam minutas de contratos enviadas por Vorcaro ao advogado Walfrido Warde, nas quais aparece a advogada Roberta Rangel como possível contratada para atuar em dois processos de interesse do banqueiro.
O primeiro caso refere-se à Operação Fundo Fake, que investigou fraudes em fundos de pensão municipais em 2020. Vorcaro chegou a ter prisão decretada em 2019, mas a ordem não foi cumprida e acabou revogada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).
O segundo episódio envolve a Ação Direta de Constitucionalidade (ADC) 81, julgada pelo STF, que discutiu restrições impostas pelo Ministério da Educação à criação de cursos de medicina. O processo tinha interesse direto para a Ulbra, universidade cujo controle foi adquirido por Vorcaro em 2022, quando a instituição estava em recuperação judicial e dependia financeiramente desses cursos.
Votos e efeitos na ADC 81
No julgamento da ação, Toffoli acompanhou o voto do ministro Gilmar Mendes, mantendo limitações para a abertura de novas faculdades de medicina, posição que, em tese, não favoreceria a Ulbra.
Entretanto, o ministro teve papel relevante ao consolidar entendimento de que cursos já autorizados por liminar ou em fase avançada de análise poderiam funcionar, situação que beneficiava diretamente a universidade ligada ao banqueiro.
Jatinho citado em mensagens durante o Carnaval de 2025
Além das minutas contratuais, a Polícia Federal identificou mensagem de fevereiro de 2025 em que Vorcaro autoriza a utilização de um jatinho Embraer 500 Phenom 300 por Roberta Rangel.
O voo sairia de Brasília com destino a Ourinhos, interior de São Paulo, aeroporto mais próximo do resort Tayayá, no Paraná, empreendimento do qual Toffoli era sócio.
O episódio também foi incluído no relatório como elemento a ser avaliado para eventual questionamento sobre a permanência do ministro na relatoria do caso.
Defesa das partes envolvidas
Procurada, Roberta Rangel negou ter utilizado o avião do banqueiro e afirmou não ter atuado efetivamente nas ações citadas nas mensagens. Ela admitiu, porém, que “pode ter constado” em procuração relacionada ao caso Fundo Fake, no qual aparece como representante de Vorcaro em decisão do TRF-1.
Sobre a ADC 81, disse ter apenas subscrito procuração a pedido do escritório Warde Advogados, representando a associação Abrafi, e não o banqueiro diretamente. Segundo ela, a ação mobilizou diversos grupos como amici curiae e, pela jurisprudência do STF, processos de controle concentrado não geram suspeição.
O escritório Warde Advogados informou que Roberta foi sócia da banca em São Paulo, mantendo escritório próprio em Brasília. A defesa afirmou não localizar procurações relacionadas aos fatos citados e declarou não se recordar das mensagens.
Por sua vez, Toffoli declarou que, ao ingressar no STF, comunicou impedimento para julgar processos ligados à ex-esposa. O ministro também afirmou que eventual arguição de suspeição foi arquivada por unanimidade pelo plenário da Corte.
Renúncia à relatoria e pressão interna no Supremo
Na quinta-feira anterior, Toffoli renunciou à relatoria do caso Master após reunião reservada com colegas do STF. O encontro foi descrito como longo e tenso, com pressão para que o magistrado deixasse o processo.
O ministro André Mendonça acabou sorteado como novo relator, o que foi recebido com alívio no Palácio do Planalto, segundo relatos de interlocutores do presidente.
Crise política: Lula vê “traição” e relação com STF é afetada
O caso também provocou desgaste na relação entre o presidente Lula e Toffoli. Aliados próximos do petista relatam clima de decepção e ruptura, com o presidente classificando a situação como “traição altíssima”.
A tensão é agravada pelo histórico entre os dois. Toffoli foi indicado ao STF por Lula em 2009, mas houve rompimento em 2019, quando o ministro impediu o então ex-presidente preso de comparecer ao velório do irmão. A relação teria sido reatada no início do terceiro mandato de Lula.
Agora, a crise do caso Master ameaça atingir a articulação estratégica entre o governo e a ala política do STF, considerada fundamental para a governabilidade após os atos de 8 de janeiro de 2023.
Impacto eleitoral e institucional
No entorno do presidente, a avaliação é de que a sucessão de acontecimentos cria problema adicional para o governo às vésperas de uma campanha eleitoral considerada difícil.
Embora aliados reforcem o discurso de presunção de inocência e direito de defesa, há avaliação de que decisões polêmicas de Toffoli e sua permanência na relatoria por longo período agravaram a situação.








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