Operação da PF atinge Márcio Canella e amplia crise no palanque de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro

Nesta terça-feira, 07/07/2026, a Polícia Federal deflagrou a sexta fase da Operação Unha e Carne, no Rio de Janeiro, e aprofundou a crise política no palanque do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, após atingir o ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella (União Brasil), cotado para disputar o Senado pela federação União Brasil-PP. Segundo a PF, a investigação apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro por meio de uma rede de postos de combustíveis, com movimentação superior a R$ 7,6 bilhões em seis anos; durante as diligências, Canella foi preso em flagrante após agentes encontrarem um fuzil calibre .556 em seu veículo, conforme apuração jornalística.

PF mira rede de postos e impõe novo revés à articulação eleitoral no Rio

A sexta fase da Operação Unha e Carne cumpriu 19 mandados de busca e apreensão nos municípios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Resende e na capital fluminense. A ação também incluiu medidas de sequestro de bens e valores e de suspensão de atividades econômicas de empresas ligadas ao grupo investigado, segundo comunicado oficial da Polícia Federal.

De acordo com a corporação, o esquema teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos, conforme Relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) encaminhado à PF. A investigação aponta suspeita de uso de empresas do setor de combustíveis para operações de lavagem de dinheiro, em um segmento que tem sido alvo recorrente de apurações por sua capacidade de circulação intensiva de recursos em espécie e elevada complexidade operacional.

Além de Márcio Canella, a operação teve entre os principais alvos o delegado Marcus Amim, ex-secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro. A CNN Brasil informou que a PF apontou Canella como possível “braço político” do grupo investigado, enquanto o ex-prefeito teria alegado que o fuzil encontrado no veículo não lhe pertencia. Até a consolidação desta reportagem, não havia decisão judicial definitiva sobre o mérito das acusações, e os investigados preservam o direito de defesa.

Canella se torna o segundo nome da chapa atingido por investigação

O impacto político da operação ultrapassa o campo policial. Canella era apontado pela federação União Brasil-PP como nome para uma das vagas ao Senado no Rio de Janeiro, com aval de Flávio Bolsonaro. Com a prisão em flagrante e a vinculação do ex-prefeito à operação, dirigentes do PL passaram a avaliar que a manutenção da indicação se tornou politicamente difícil, especialmente por se tratar do segundo revés relevante na composição da chapa fluminense em menos de dois meses.

A primeira baixa foi o ex-governador Cláudio Castro (PL), que havia sido escolhido para disputar o Senado, mas desistiu da pré-candidatura depois de ser declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e de se tornar alvo de operações da Polícia Federal. Em 24/03/2026, por 5 votos a 2, o TSE declarou Castro inelegível por oito anos, ao reconhecer abuso de poder político e econômico, condutas vedadas e captação ilícita de recursos nas eleições de 2022.

Em 02/06/2026, o TSE rejeitou recursos apresentados contra a decisão e manteve a inelegibilidade do ex-governador, consolidando o cenário jurídico que retirou força de sua candidatura ao Senado. A desistência de Castro abriu uma vaga na chapa do PL e forçou Flávio Bolsonaro a reorganizar sua estratégia no estado considerado berço político da família Bolsonaro.

PL avalia substituição e tenta reduzir desgaste eleitoral

Nos bastidores, aliados de Flávio Bolsonaro avaliam que insistir na candidatura de Márcio Canella ao Senado poderia impor desgaste adicional à campanha presidencial do senador. Segundo reportagem publicada pelo InfoMoney, com base em apuração da Agência O Globo, dirigentes do PL esperam que a federação União Brasil-PP recue da indicação e apresente um substituto.

A decisão formal, contudo, cabe à federação integrada por União Brasil e PP, que detém a prerrogativa política sobre a vaga. A dificuldade está em encontrar um nome competitivo que preserve o equilíbrio da aliança regional, não gere nova crise interna e seja capaz de sustentar a disputa em um ambiente de forte exposição pública.

Antes da operação contra Canella, o PL já discutia quem ocuparia a vaga deixada por Cláudio Castro. Entre os nomes citados estavam o senador Carlos Portinho (PL-RJ) e o deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ). O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, também aparecia entre os cotados, mas perdeu espaço após o avanço de apurações sobre suposto desvio de cotas parlamentares e questionamentos sobre a origem de R$ 468 mil apreendidos em dinheiro vivo em imóvel ligado ao parlamentar, segundo relatos publicados pela imprensa.

Calendário eleitoral aumenta pressão sobre partidos e federações

A crise ocorre em um momento sensível do calendário eleitoral. O TSE aprovou, em 02/03/2026, a Resolução nº 23.760, que estabelece as regras do calendário das Eleições 2026. O período de convenções partidárias começou em 20/07/2026 e segue até 05/08/2026, etapa em que partidos e federações devem deliberar sobre coligações e escolher candidaturas para presidente, governador, senador, deputados federais, estaduais e distritais.

O prazo para requerimento de registro das candidaturas termina em 15/08/2026, o que reduz a margem de manobra das legendas para substituir nomes, recompor alianças e avaliar riscos jurídicos e eleitorais. A indefinição no Rio, portanto, não é apenas um problema de imagem: ela interfere diretamente na montagem formal das candidaturas e na distribuição de forças entre PL, União Brasil e PP.

Para Flávio Bolsonaro, a instabilidade tem peso nacional. O Rio de Janeiro é seu principal território político, abriga a base histórica do bolsonarismo e terá papel estratégico na eleição presidencial. Um palanque fragilizado por investigações sucessivas pode comprometer a capacidade de mobilização local, afetar alianças regionais e ampliar a exposição negativa da pré-campanha em um momento decisivo de consolidação das chapas.

Setor de combustíveis volta ao centro de investigações sobre lavagem de dinheiro

A Operação Unha e Carne se insere em um contexto mais amplo de investigações sobre o uso do setor de combustíveis para práticas de lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial, fraude fiscal e movimentação de recursos de origem suspeita. A cadeia de postos reúne características que dificultam a fiscalização, como grande volume de transações, capilaridade territorial e possibilidade de mistura entre receitas lícitas e ilícitas.

No caso do Rio de Janeiro, a PF afirma que a organização criminosa investigada teria utilizado uma rede de postos na Região Metropolitana para lavar dinheiro, com participação de agentes públicos. A dimensão financeira informada pela corporação — mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos — confere ao caso relevância econômica e institucional, além de seus efeitos imediatos sobre o tabuleiro eleitoral.

A presença de figuras políticas e de agentes vinculados à segurança pública entre os alvos da operação amplia a gravidade do episódio. A investigação ainda está em curso, mas já produz consequências concretas: instabilidade partidária, reavaliação de candidaturas e pressão pública por esclarecimentos sobre a interface entre política, financiamento eleitoral, segurança pública e atividades econômicas sensíveis.

Caso expõe fragilidade do palanque e impõe teste de responsabilidade institucional

A crise aberta pela Operação Unha e Carne revela uma vulnerabilidade central da articulação de Flávio Bolsonaro no Rio: a dependência de nomes com capital eleitoral regional, mas submetidos a elevado risco jurídico e reputacional. A sucessão de problemas envolvendo Cláudio Castro, Sóstenes Cavalcante e Márcio Canella não permite conclusão automática sobre culpa ou inocência, mas impõe um teste objetivo às legendas que pretendem disputar o poder com discurso de ordem, segurança e governança.

Do ponto de vista institucional, o episódio exige cautela. A Polícia Federal apresentou dados relevantes sobre a investigação, mas a responsabilização criminal depende de apuração, contraditório, manifestação das defesas, atuação do Ministério Público e decisão judicial. No plano político, porém, o custo é imediato: candidaturas ao Senado precisam combinar viabilidade eleitoral, segurança jurídica e capacidade de sustentação pública até outubro.

O desdobramento mais provável é a intensificação das negociações entre PL, União Brasil e PP para definir se Canella será mantido, substituído ou deslocado para outro projeto eleitoral. A resposta das legendas, a evolução das investigações e o cumprimento dos prazos do TSE serão determinantes para medir se o palanque de Flávio Bolsonaro no Rio chegará estabilizado ao período oficial de campanha ou se continuará marcado por substituições, desgaste público e risco de novas crises.


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