Na quarta-feira, 08/07/2026, o deputado estadual Angelo Almeida (PT) afirmou que a participação de Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e presidente do União Brasil no Rio de Janeiro, como destaque em evento sobre segurança pública da Fundação Índigo, presidida por ACM Neto, exige explicações políticas e institucionais, após Canella ser apontado como alvo da 6ª fase da Operação Unha e Carne, deflagrada pela Polícia Federal no Rio de Janeiro para investigar suspeitas de lavagem de dinheiro por meio de uma rede de postos de combustíveis que teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos.
Deputado ironiza escolha de Canella para evento sobre segurança pública
A presença de Márcio Canella em uma agenda da Fundação Índigo voltada à segurança pública tornou-se alvo de crítica do deputado estadual Angelo Almeida. Para o parlamentar, o fato de um aliado político de ACM Neto ter sido apresentado como referência em um debate sobre enfrentamento ao crime organizado e, posteriormente, aparecer no centro de noticiário policial de grande repercussão, cria uma contradição pública que precisa ser esclarecida.
“Convidar alvo da PF para dar aula de segurança pública só pode ser uma pegadinha”, afirmou Angelo Almeida, ao comentar a relação entre o evento da fundação partidária e a investigação federal. O deputado questionou quais critérios foram utilizados para selecionar Canella como vitrine de uma iniciativa apresentada como contribuição técnica para a área da segurança.
A Fundação Índigo anunciou, em maio de 2026, parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV) para criação de um MBA em Segurança Pública, destinado a servidores públicos, gestores, profissionais da segurança, integrantes do partido e membros do Poder Judiciário. Na divulgação oficial, Canella foi relacionado entre os participantes do lançamento do curso, ao lado de ACM Neto, Antonio Rueda, Alessandro Visacro e representantes da FGV.
Operação Unha e Carne mira rede de postos no Rio de Janeiro
A Polícia Federal informou que a 6ª fase da Operação Unha e Carne foi deflagrada na terça-feira, 07/07/2026, com o objetivo de desarticular organização criminosa suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio de Janeiro como plataforma de lavagem de dinheiro, com participação de agentes públicos. Segundo a corporação, o grupo investigado teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões, conforme Relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Na ação, a PF cumpriu 19 mandados de busca e apreensão em Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Resende e na capital fluminense. A operação também envolveu sequestro de bens e valores, além da suspensão de atividades econômicas de empresas ligadas ao grupo investigado. Foram apreendidos cerca de R$ 919 mil, US$ 13 mil, um fuzil de calibre restrito, nove armas curtas, computadores, celulares, veículos, joias, relógios e documentos.
Embora a nota oficial da Polícia Federal não liste nominalmente todos os alvos, reportagens nacionais apontaram Márcio Canella entre os principais investigados da fase da operação. A CNN Brasil informou que Canella, além de ex-prefeito de Belford Roxo, é presidente do União Brasil no Rio de Janeiro e pré-candidato ao Senado pelo estado.
Crimes investigados e cautela jurídica
De acordo com a Polícia Federal, os investigados poderão responder por organização criminosa, contratação direta ilegal e lavagem de dinheiro, além de outros crimes eventualmente identificados no curso das apurações. A operação integra a Força-Tarefa Missão Redentor II, coordenada pela PF para enfrentar organizações criminosas no Rio de Janeiro, em conformidade com diretrizes do Supremo Tribunal Federal na ADPF 635.
O fato de uma pessoa ser alvo de investigação ou de medidas de busca e apreensão não equivale a condenação. No Estado de Direito, prevalecem a presunção de inocência, o contraditório e a ampla defesa. A crítica feita por Angelo Almeida, entretanto, situa-se no campo político e institucional: a cobrança recai sobre os critérios de seleção de personagens apresentados publicamente como referência em segurança.
Essa distinção é essencial para a leitura jornalística do episódio. A investigação apura suspeitas criminais sob responsabilidade das autoridades competentes; já o debate político envolve a responsabilidade pública de partidos, fundações e lideranças que utilizam a segurança pública como plataforma de discurso e formação de quadros.
Fundação Índigo apresentou MBA como resposta ao crime organizado
O MBA em Segurança Pública da Fundação Índigo foi divulgado como iniciativa gratuita, com carga superior a 430 horas-aula, 18 disciplinas e exigência de Trabalho de Conclusão de Curso. Entre os temas previstos estão crimes no agronegócio, crimes cibernéticos, insurgência criminal, controle territorial e dinâmicas criminais na Amazônia Legal.
Durante o lançamento, ACM Neto afirmou que a qualificação técnica seria uma condição para enfrentar a violência e a criminalidade. Segundo registros publicados à época, o ex-prefeito de Salvador defendeu que o curso representava uma ação concreta da Fundação Índigo para formar profissionais mais preparados na área de segurança pública.
Para Angelo Almeida, a escolha de Canella como personagem associado ao evento fragiliza o discurso de ACM Neto sobre o tema. “Como ACM Neto explica convidar uma pessoa envolvida em um noticiário dessa gravidade para tratar justamente de segurança pública? Quais foram os critérios?”, questionou o deputado.
Disputa política na Bahia ganha novo elemento
A segurança pública tem sido um dos temas centrais da disputa política na Bahia, especialmente no embate entre governo estadual, oposição e lideranças partidárias com pretensão de protagonismo em 2026. ACM Neto, presidente da Fundação Índigo e vice-presidente nacional do União Brasil, tem usado o tema como uma das vitrines de atuação política e programática.
Nesse contexto, a crítica de Angelo Almeida busca deslocar o debate do plano retórico para o campo da coerência institucional. O parlamentar sustenta que não basta defender publicamente medidas de combate ao crime organizado; é necessário demonstrar rigor na escolha de aliados, palestrantes e referências apresentados em espaços de formação política.
“É fácil fazer discurso duro contra o crime organizado. Difícil é explicar por que, na hora de montar uma vitrine nacional sobre segurança, o seu grupo político leva para o centro do palco alguém que agora aparece no centro de uma operação da Polícia Federal”, declarou o deputado.







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