Ex-ministro Rui Costa projeta vantagem de 5 milhões de votos para Lula na Bahia, aposta em Jerônimo e critica ACM Neto

O ex-governador da Bahia, ex-ministro da Casa Civil e pré-candidato ao Senado Rui Costa (PT) projetou, na quarta-feira (15/07/2026), durante plenária do Programa de Governo Participativo — PGP 2026, realizada em Cajazeiras, Salvador, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) poderá alcançar no estado uma vantagem de cinco milhões de votos nas Eleições Gerais de 2026. Ao lado do governador e pré-candidato à reeleição Jerônimo Rodrigues (PT), Rui relacionou a meta eleitoral à retomada de obras federais, convocou a base governista à mobilização e direcionou críticas ao grupo político liderado pelo ex-prefeito de Salvador e pré-candidato ao Governo da Bahia ACM Neto (União Brasil).

Rui Costa estabelece meta eleitoral para Lula na Bahia

Durante o pronunciamento, Rui Costa utilizou o desempenho de Lula na Bahia nas eleições presidenciais de 2022 como referência para estabelecer a meta política de 2026.

“Se, em 2022, foram quatro milhões de votos de frente, escrevam: nós vamos dar, este ano, cinco milhões de votos de frente ao presidente Lula.”

O número mencionado pelo ex-ministro corresponde a um arredondamento da diferença registrada no segundo turno de 2022. Naquele pleito, Lula recebeu 6.097.815 votos na Bahia, equivalentes a 72,12% dos votos válidos, enquanto o então presidente Jair Bolsonaro (PL) obteve 2.357.028 votos, ou 27,88%. A vantagem exata do petista foi, portanto, de 3.740.787 votos.

A diferença obtida no estado superou a margem nacional da eleição. Em todo o Brasil, Lula foi eleito com pouco mais de 60 milhões de votos, diante de aproximadamente 58,2 milhões atribuídos a Bolsonaro. O resultado nacional foi decidido por uma diferença próxima de 2,1 milhões de votos, inferior à vantagem isoladamente registrada pelo presidente na Bahia.

Segundo Rui Costa, o desempenho eleitoral baiano ganhou projeção nacional e demonstrou a capacidade de mobilização do grupo político que governa o estado desde 2007.

“A Bahia foi comentada no Brasil inteiro. Foi a maior diferença a favor do presidente em 2022.”

A projeção de cinco milhões de votos, entretanto, foi apresentada como uma meta de mobilização política, sem indicação de pesquisa eleitoral, levantamento estatístico ou modelo de transferência de votos que sustentasse numericamente a previsão. O resultado dependerá da definição das candidaturas, das alianças partidárias, do comportamento do eleitorado e da configuração da disputa presidencial.

Meta para Lula integra estratégia de reeleição de Jerônimo Rodrigues

A declaração ocorreu durante uma etapa do PGP 2026, iniciativa promovida pelo campo governista para recolher propostas regionais e mobilizar apoiadores em torno da reeleição de Jerônimo Rodrigues e das candidaturas ao Senado.

O projeto eleitoral apresentado pelo grupo articula a candidatura presidencial de Lula, a tentativa de recondução de Jerônimo ao Governo da Bahia e as pré-candidaturas de Rui Costa e Jaques Wagner ao Senado. A estratégia procura associar os governos federal e estadual, utilizando investimentos públicos, programas sociais e obras de infraestrutura como elementos centrais da campanha.

Em plenárias anteriores, dirigentes e representantes da aliança governista apresentaram o PGP simultaneamente como instrumento de escuta territorial e espaço de organização eleitoral. Em Jequié, por exemplo, a organização estimou a participação de cerca de 10 mil pessoas, entre moradores, prefeitos, parlamentares, vereadores e lideranças partidárias.

Ao demonstrar confiança na vitória de Lula e de Jerônimo, Rui Costa reforçou a nacionalização da disputa estadual. O objetivo político é vincular a continuidade do governo petista na Bahia à permanência de Lula na Presidência da República, repetindo uma estratégia utilizada pelo grupo em eleições anteriores.

Retomada de obras federais sustenta discurso governista

Para justificar a expectativa de ampliação da votação de Lula, Rui Costa destacou ações desenvolvidas pelo Governo Federal desde janeiro de 2023, especialmente a retomada de empreendimentos nas áreas de habitação, educação e saúde.

“Quando eu sentei na cadeira de ministro, nós encontramos 87 mil casas paralisadas, 4,5 mil obras de escolas e 6,5 mil obras de hospitais e postos de saúde paralisadas. E nós retomamos todas elas.”

Os números foram apresentados pelo ex-ministro durante o discurso, sem detalhamento sobre a localização, o estágio de execução, o valor financeiro ou a situação atual de cada empreendimento. A afirmação deve ser compreendida como um balanço político da passagem de Rui Costa pela Casa Civil, cargo que exerceu no terceiro governo Lula até abril de 2026.

Rui deixou oficialmente o ministério em 02/04/2026 para se dedicar à disputa eleitoral na Bahia. Sua saída ocorreu antes do prazo de desincompatibilização exigido para integrantes do Executivo que pretendem concorrer nas eleições.

Ao relacionar a execução das obras com o comportamento do eleitorado, o pré-candidato afirmou que uma nova vitória de Lula representaria tanto o reconhecimento das medidas adotadas pelo Governo Federal quanto a expectativa de continuidade dos investimentos.

“Como gratidão ao que Lula fez nesses três anos e meio, mas também porque a gente vai querer mais. A gente vai querer mais porque o povo precisa de mais.”

O argumento busca transformar as entregas administrativas do governo em capital eleitoral. Ao mesmo tempo, estabelece como questão central da campanha a capacidade de os governos federal e estadual demonstrarem resultados concretos nas áreas de moradia, infraestrutura, saúde, educação, emprego e renda.

Rui Costa intensifica críticas ao grupo de ACM Neto

Além da projeção eleitoral, Rui Costa voltou a direcionar críticas ao grupo liderado por ACM Neto, principal adversário do PT na disputa pelo Governo da Bahia. O ex-ministro associou a oposição baiana ao ex-presidente Jair Bolsonaro e acusou seus integrantes de manterem distanciamento em relação às demandas sociais das áreas periféricas.

“Essa gente tem desprezo pela periferia e pela população mais simples.”

A declaração integra uma linha discursiva adotada pelo petista durante a pré-campanha. Em manifestações anteriores, Rui classificou a chapa articulada por ACM Neto como “bolsonarista e anti-Lula”, procurando dividir a disputa estadual entre o campo governista associado ao presidente e uma oposição vinculada à direita nacional.

No material que fundamenta esta reportagem, não consta manifestação de ACM Neto, de representantes do União Brasil ou de integrantes do grupo oposicionista sobre as declarações feitas na plenária de Cajazeiras. As acusações refletem, portanto, a posição política de Rui Costa e exigem atribuição direta ao autor.

Concessão dos ônibus entra no centro da disputa

Rui Costa também retomou as críticas ao modelo de concessão do transporte coletivo implantado durante a administração de ACM Neto na Prefeitura de Salvador. Segundo o ex-governador, ele teria alertado o então prefeito sobre os impactos da cobrança de uma outorga financeira das empresas vencedoras da licitação.

“Eu disse: não faça isso, prefeito, porque o povo de Salvador é pobre, a renda é baixa. Se você arrecadar R$ 400 milhões para colocar no caixa da Prefeitura, as empresas de ônibus vão cobrar isso na passagem ou com a queda da qualidade do serviço, porque empresário não dá nada a ninguém de graça.”

Rui atribuiu à cobrança parte das dificuldades financeiras enfrentadas posteriormente pelas concessionárias e da deterioração do serviço. A relação direta entre a outorga, o preço da tarifa e a crise operacional constitui, contudo, uma interpretação política e econômica apresentada pelo ex-ministro.

Há também uma divergência objetiva sobre o valor mencionado. Registros publicados no período da assinatura dos contratos, em outubro de 2014, apontam que a outorga onerosa prevista para os três consórcios totalizava R$ 180 milhões, e não R$ 400 milhões. Desse montante, aproximadamente R$ 36 milhões teriam sido pagos inicialmente, enquanto o saldo seria quitado em 60 meses. Os contratos concederam às empresas o direito de operar o sistema por 25 anos.

A diferença entre os R$ 400 milhões citados por Rui Costa e os R$ 180 milhões registrados na documentação e nas notícias contemporâneas à concessão exige esclarecimento. O valor maior pode decorrer de atualização monetária, agregação de outros encargos ou imprecisão no discurso, mas nenhuma dessas hipóteses foi detalhada na declaração apresentada.

O debate sobre o sistema de ônibus envolve fatores adicionais, como queda no número de passageiros, custos operacionais, gratuidades, integração com o metrô, renovação da frota, subsídios públicos, cumprimento dos contratos e mudanças no padrão de mobilidade urbana. A atribuição da crise a uma única decisão administrativa não esgota, portanto, a complexidade financeira e operacional do serviço.

Eleições ocorrerão em outubro de 2026

O Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu o primeiro turno para 04/10/2026. Nessa data, os eleitores escolherão presidente da República, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais. Caso nenhuma candidatura presidencial ou estadual alcance a maioria exigida, o segundo turno será realizado em 25/10/2026.

Até a realização das convenções partidárias e o registro das candidaturas, os nomes apresentados pelos grupos políticos permanecem formalmente na condição de pré-candidatos. As convenções definirão as chapas, as coligações permitidas para os cargos majoritários e as candidaturas oficialmente submetidas à Justiça Eleitoral.

A meta anunciada por Rui Costa será confrontada com o resultado efetivo das urnas. Para obter uma vantagem de cinco milhões de votos, Lula precisaria ampliar significativamente a diferença de 2022, seja por meio do crescimento de sua votação, da redução do desempenho de seus adversários ou da combinação dos dois movimentos.

Linha do tempo

23/10/2014 — A Prefeitura de Salvador assina contratos de concessão do transporte coletivo com três consórcios. A outorga onerosa divulgada totalizava R$ 180 milhões, com prazo contratual de 25 anos.

30/10/2022 — Lula vence o segundo turno presidencial. Na Bahia, recebe 6.097.815 votos, contra 2.357.028 de Jair Bolsonaro, abrindo vantagem de 3.740.787 votos.

01/01/2023 — Inicia-se o terceiro mandato presidencial de Lula, com Rui Costa no comando da Casa Civil.

02/04/2026 — Rui Costa deixa o ministério para se dedicar à disputa por uma vaga no Senado pela Bahia.

09/07/2026 — Plenária do PGP em Jequié reúne lideranças governistas e público estimado pela organização em cerca de 10 mil pessoas.

15/07/2026 — Durante o PGP em Cajazeiras, Rui projeta uma vantagem de cinco milhões de votos para Lula, defende a continuidade do governo Jerônimo Rodrigues e critica ACM Neto.

04/10/2026 — Data marcada pelo TSE para o primeiro turno das Eleições Gerais.

25/10/2026 — Data prevista para eventual segundo turno presidencial e para os governos estaduais.

A meta anunciada por Rui Costa demonstra que a Bahia continuará ocupando posição central na estratégia nacional do PT. Em 2022, a vantagem obtida por Lula no estado foi superior à diferença que decidiu a eleição no país, circunstância que transformou o eleitorado baiano em ativo decisivo para o campo governista. Alcançar cinco milhões de votos de frente, porém, exigirá crescimento expressivo em relação ao resultado anterior e dependerá de fatores que ultrapassam a capacidade de mobilização das lideranças estaduais.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading