Nesta terça-feira (01/09/2026), a comparação entre a trajetória socioeconômica de Salvador e a evolução patrimonial declarada por ACM Neto (União Brasil) expõe um contraste de interesse público. No ano em que foi eleito prefeito da capital, em 2012, o político informou à Justiça Eleitoral patrimônio de R$ 13.327.167,12. Na candidatura ao Governo da Bahia, em 2026, declarou R$ 84.888.809,63, o que representa crescimento nominal de 536,9% em 14 anos.
Nesse período, ACM Neto administrou Salvador entre 2013 e 2020, após ter exercido mandatos como deputado federal, e foi sucedido na Prefeitura pelo aliado Bruno Reis. Depois de deixar o Executivo municipal, permaneceu sem mandato eletivo, embora tenha mantido atuação política e partidária.
No mesmo intervalo histórico, Salvador enfrentou indicadores que apontam dificuldades persistentes em sua estrutura econômica e social. A capital perdeu cerca de 258 mil habitantes entre os Censos de 2010 e 2022, voltou a apresentar retração populacional nas estimativas de 2026 e permaneceu marcada por desigualdade de renda, dificuldades no mercado de trabalho e precariedade habitacional.
A simultaneidade desses movimentos é documentalmente verificável e justifica o escrutínio público sobre a evolução patrimonial de agentes políticos e sobre os resultados sociais e econômicos das administrações que comandaram Salvador no período. A comparação, isoladamente, não demonstra relação causal entre o aumento do patrimônio de ACM Neto e a deterioração de indicadores sociais da capital, nem constitui evidência de irregularidade patrimonial. Ela evidencia, contudo, um contraste relevante para a análise da sociedade: enquanto o patrimônio declarado pelo ex-prefeito aumentou mais de seis vezes entre 2012 e 2026, parcela expressiva da população de Salvador continuou submetida a problemas estruturais de renda, habitação, emprego e acesso às oportunidades econômicas.
Patrimônio declarado multiplicou-se por mais de seis desde a chegada à Prefeitura
A série histórica disponível nas declarações eleitorais mostra uma expansão patrimonial contínua. Em 2012, quando venceu pela primeira vez a eleição para prefeito de Salvador, ACM Neto declarou R$ 13,33 milhões. Quatro anos depois, ao disputar a reeleição, informou R$ 27,89 milhões, acréscimo de R$ 14,56 milhões e crescimento nominal de 109,2% durante o primeiro mandato municipal.
Em 2022, dois anos depois de deixar o Palácio Thomé de Souza, a declaração chegou a R$ 41,72 milhões. Comparado com 2012, o patrimônio havia aumentado aproximadamente 213% em valores nominais. O intervalo entre 2016 e 2022, contudo, abrange situações distintas: quatro anos em que ACM Neto continuou prefeito e aproximadamente dois anos posteriores ao encerramento de sua gestão.
Não existe uma declaração eleitoral de 2020 comparável às demais porque ACM Neto não disputou cargo naquele pleito. Por isso, não é possível determinar, apenas com os registros do TSE, qual era exatamente seu patrimônio no último dia como prefeito e quanto do acréscimo observado até 2022 ocorreu dentro ou depois do mandato.
Crescimento patrimonial acelera depois da saída do poder municipal
O maior crescimento absoluto da série ocorreu posteriormente. Entre 2022 e 2026, o patrimônio informado passou de R$ 41.718.572,69 para R$ 84.888.809,63.
A diferença alcança R$ 43.170.236,94 em apenas quatro anos, correspondendo a uma expansão nominal de 103,48%. Em outras palavras, os bens declarados mais do que dobraram entre as duas candidaturas de ACM Neto ao Governo da Bahia.
Mesmo descontando a inflação, o avanço permanece expressivo. Levantamento publicado pela Folha de S.Paulo corrigiu os R$ 41,7 milhões declarados em 2022 pelo IPCA acumulado de 19,4% até julho de 2026, elevando aquela base para aproximadamente R$ 49,8 milhões em valores atuais. Comparado ao patrimônio de R$ 84,8 milhões apresentado neste ano, o aumento real foi calculado em 70,4%. ACM Neto aparece como o terceiro candidato a governador mais rico do país em 2026, segundo o levantamento.
Desde o início da carreira política, patrimônio passou de R$ 820 mil para quase R$ 85 milhões
A dimensão do crescimento torna-se ainda maior quando considerada a trajetória política completa.
ACM Neto foi eleito deputado federal em 2002 e tomou posse em 1º de fevereiro de 2003. Cumpriu três mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados até renunciar para assumir a Prefeitura de Salvador no fim de 2012.
O valor exato de sua declaração patrimonial de 2002 não aparece consolidado na série histórica consultada pelo Jornal Grande Bahia, embora registros anteriores a situem abaixo de R$ 1 milhão. O primeiro valor exato consolidado utilizado no levantamento é o de 2006: R$ 820.561,15.
A evolução registrada foi:
- 2006 — R$ 820.561,15;
- 2008 — cerca de R$ 1,6 milhão;
- 2010 — R$ 2.541.751,04;
- 2012 — R$ 13.327.167,12;
- 2016 — R$ 27.886.721,62;
- 2022 — R$ 41.718.572,69;
- 2026 — R$ 84.888.809,63.
Entre 2006 e 2026, o patrimônio nominal cresceu aproximadamente 10.245% e se tornou cerca de 103 vezes maior. A diferença absoluta entre as duas declarações é superior a R$ 84 milhões.
Primeiro salto expressivo ocorreu antes da eleição para prefeito
A evolução histórica também exige uma precisão que impede atribuir todo o crescimento aos anos da Prefeitura.
Um dos maiores saltos proporcionais aconteceu entre 2010 e 2012, antes de ACM Neto tomar posse como prefeito. Nesse intervalo, o patrimônio declarado passou de R$ 2,54 milhões para R$ 13,33 milhões, crescimento nominal de aproximadamente 424%.
A declaração de 2012 incorporou aproximadamente R$ 9,3 milhões em participação na TV Bahia, além de aplicações financeiras e outros ativos. O dado demonstra que parcela substancial da formação patrimonial registrada pela Justiça Eleitoral está relacionada às participações empresariais e familiares já existentes quando ele chegou ao Executivo municipal.
Essa circunstância é relevante porque impede uma conclusão segundo a qual a passagem pela Prefeitura, isoladamente, explicaria a multiplicação dos bens. O que a série permite afirmar é que a expansão continuou durante os mandatos e ganhou nova intensidade depois da saída do cargo.
ACM Neto atribui patrimônio a empresas, investimentos e estrutura empresarial familiar
Questionado em agosto sobre a elevação patrimonial, ACM Neto afirmou que os recursos derivam de atividades empresariais, aplicações financeiras e negócios familiares, sustentando que toda a origem dos valores é lícita e declarada.
Ao Terra, declarou que, nos quatro anos anteriores, dedicou-se a atividades privadas e não exerceu cargo público, nem integrou diretorias ou conselhos de empresas estatais ou entidades paraestatais. Também atribuiu os acréscimos aos rendimentos de aplicações financeiras e a atividades empresariais, sobretudo no setor imobiliário.
Em outro pronunciamento público, ACM Neto afirmou ter permanecido aproximadamente seis anos sem função pública e disse que a estrutura empresarial familiar foi decisiva para a formação de seu patrimônio. Segundo ele, os recursos tiveram origem em trabalho privado, investimentos e negócios familiares, com recolhimento dos tributos correspondentes.
Até o momento, a simples evolução das declarações de bens não constitui evidência de enriquecimento ilícito. Para uma avaliação dessa natureza seriam necessários dados fiscais, contábeis, contratos, distribuições de lucros, dividendos, extratos, operações societárias e outros documentos que não integram automaticamente as declarações eleitorais.
Carteira de 2026 reúne mídia, fundos, imóveis e participações empresariais
A declaração apresentada em 2026 ajuda a compreender como o patrimônio está estruturado.
Entre os maiores ativos aparecem aproximadamente R$ 11,98 milhões vinculados ao Fundo de Investimento Imobiliário Praia do Castelo; R$ 9,38 milhões em participação na Televisão Bahia S.A.; cerca de R$ 9,08 milhões em fundos informados sob a Planner Corretora de Valores; e R$ 8 milhões registrados como adiantamento para futuro aumento de capital da ANRE Participações Empreendimentos Ltda.
Também consta um apartamento no edifício Mansão Leonor Calmon, em Salvador, declarado por aproximadamente R$ 7,88 milhões, além de aplicações em renda fixa, debêntures, certificados de recebíveis, fundos multimercado, participações em empresas de comunicação, imóveis e veículos.
As declarações eleitorais utilizam valores informados pelo próprio candidato e não equivalem à declaração do Imposto de Renda. A própria metodologia dificulta comparações perfeitas, pois determinados bens podem permanecer registrados pelo custo histórico enquanto investimentos financeiros refletem saldos ou aportes mais recentes. O TSE disponibiliza esses dados como mecanismo de transparência eleitoral.
Consultoria privada foi criada depois das eleições de 2022
O período posterior à Prefeitura também marcou a ampliação formal da atuação empresarial direta de ACM Neto.
Em 28/12/2022, após a disputa pelo Governo da Bahia, foi constituída a A&M Consultoria Ltda., sociedade integrada pelo ex-prefeito e sua esposa. A empresa foi aberta com capital social de R$ 2 mil e atividade principal de consultoria em gestão empresarial.
Em março de 2026, reportagens baseadas em informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) registraram aproximadamente R$ 3,6 milhões em pagamentos do Banco Master e da Reag Investimentos para a empresa entre o período posterior às eleições de 2022 e maio de 2024. A informação foi divulgada por diferentes veículos e confirmada por ACM Neto quanto à existência dos contratos e recebimentos.
O ex-prefeito afirmou que os valores correspondiam a serviços de consultoria efetivamente prestados, contratados formalmente, com recolhimento de impostos, e negou irregularidades. Segundo sua manifestação, os trabalhos não tinham relação com os fatos que posteriormente se tornaram objeto de investigações envolvendo o Master e a Reag.
Fundo exclusivo de ACM Neto também aparece em informações sobre a Reag
Outra parcela do patrimônio privado passou a receber atenção pública em agosto de 2026.
ACM Neto é cotista exclusivo do Seattle 95, fundo criado no final de 2021 e anteriormente administrado pela Reag. Segundo informações divulgadas pelo UOL, Neto aportou aproximadamente R$ 7,92 milhões, e o patrimônio do fundo chegou a cerca de R$ 11,94 milhões em outubro de 2025, diferença de aproximadamente R$ 4,01 milhões.
O Seattle 95 investiu aproximadamente R$ 4,8 milhões no fundo Structure, relacionado a operações de crédito consignado originadas pelo Banco Master. As informações surgiram no contexto da proposta de colaboração de João Carlos Mansur, ex-controlador da Reag, apresentada à Procuradoria-Geral da República. A proposta ainda dependia das etapas jurídicas necessárias e sua existência não representa prova de irregularidade cometida por ACM Neto.
ACM Neto afirmou que os aportes eram formados por recursos próprios, declarados e de origem lícita, que a Reag havia sido contratada como administradora financeira e que a rentabilidade ficou dentro dos parâmetros de mercado. Após as suspeitas envolvendo a antiga gestora, o fundo passou a ser administrado pela Planner.
Bruno Reis assumiu Salvador enquanto patrimônio do antecessor continuou crescendo
A sucessão municipal acrescenta uma dimensão política à análise, mas não uma relação financeira automaticamente demonstrada.
Bruno Reis, aliado político e então vice-prefeito de ACM Neto, assumiu a Prefeitura de Salvador em 2021, mantendo o mesmo grupo político no controle do Executivo municipal. ACM Neto deixou de exercer função pública municipal, mas permaneceu como uma das principais lideranças políticas da Bahia.
Foi exatamente no período posterior à sucessão que ocorreu o maior crescimento absoluto conhecido: R$ 43,17 milhões entre 2022 e 2026.
A simultaneidade possui amplo interesse da sociedade, mas não deve ser confundida com causalidade. Não foi identificada, nas declarações patrimoniais ou nas fontes consultadas, evidência de que o aumento dos bens de ACM Neto tenha sido provocado pela gestão Bruno Reis ou por contratos da Prefeitura de Salvador.
O dado verificável é que a continuidade política no Município ocorreu paralelamente à expansão das atividades empresariais privadas do ex-prefeito e à mais intensa elevação absoluta de seu patrimônio declarada até hoje.
Enquanto patrimônio aumenta, Salvador perde moradores
No mesmo horizonte histórico, a capital governada pelo grupo político de ACM Neto e Bruno Reis apresentou uma trajetória demográfica distinta.
Entre os Censos de 2010 e 2022, Salvador passou de 2.675.656 para aproximadamente 2,418 milhões de habitantes, perda próxima de 258 mil moradores. A retração foi a maior em números absolutos entre as capitais no intervalo censitário.
O movimento voltou a aparecer nas estimativas mais recentes. O IBGE calculou 2.559.945 habitantes em 2026, contra 2.564.204 estimados para 2025. A queda de 0,17% foi a maior variação negativa entre as capitais naquele intervalo anual.
A perda populacional não pode ser imputada integralmente às administrações municipais. Mudanças na fecundidade, envelhecimento da população e deslocamentos para municípios da Região Metropolitana participam do fenômeno. Entretanto, o resultado constitui um indicador objetivo sobre a capacidade de Salvador de reter habitantes durante um longo ciclo de continuidade política.
Mais de 1 milhão vivem em favelas e comunidades urbanas
O contraste patrimonial ocorre também diante de um dos indicadores habitacionais mais expressivos da capital.
O Censo 2022 contabilizou 1.033.258 pessoas vivendo em favelas e comunidades urbanas de Salvador, equivalentes a aproximadamente 42,7% da população municipal. Os moradores estavam distribuídos por 262 territórios classificados pelo IBGE.
O número significa que mais de quatro em cada dez moradores da capital residiam em territórios marcados, em diferentes graus, por informalidade urbanística, insegurança fundiária ou insuficiência de infraestrutura.
A escala dessa realidade contrasta com a solidez financeira adquirida pela administração municipal e evidencia que equilíbrio fiscal e execução de obras não foram suficientes para eliminar desigualdades urbanas historicamente acumuladas.
Salvador chega a 2026 com maior desemprego entre capitais
Os dados mais atuais do mercado de trabalho tornam o contraste ainda mais relevante.
No segundo trimestre de 2026, Salvador registrou taxa de desocupação de 11,4%, acima dos 10,2% observados no primeiro trimestre. Foi a maior taxa entre as capitais pesquisadas. Na Região Metropolitana, o desemprego atingiu 12,5%, também o maior entre as 21 regiões metropolitanas analisadas.
O rendimento médio real do trabalho em Salvador foi de R$ 3.514, crescimento anual de 7,7%, mas recuo de 3,6% em comparação com o trimestre anterior. Mesmo com a recuperação frente a 2025, a capital permaneceu com o quinto menor rendimento médio entre as capitais brasileiras.
Em 2024, a situação havia sido ainda mais desfavorável: o rendimento médio dos ocupados em Salvador ficou em R$ 2.699, menor valor entre todas as capitais naquele ano e menor resultado municipal desde o início da série da PNAD Contínua, em 2012.
Pobreza e desigualdade ampliam dimensão do contraste
Indicadores produzidos pelo FGV IBRE a partir da PNAD Contínua de 2023 estimaram que 34,4% da população de Salvador estava abaixo da linha de pobreza e 6,4% vivia em extrema pobreza.
A renda domiciliar per capita média era de R$ 1.824, enquanto o Índice de Gini chegava a 0,562 e o Índice de Palma a 4,5, retratando elevada concentração de renda.
Esses indicadores não permaneceram necessariamente estáticos nos anos posteriores e não sustentam uma tese de empobrecimento contínuo. Houve recuperação do rendimento e geração de empregos em determinados períodos. O que permanece documentado é a existência de uma estrutura socioeconômica marcada por desigualdades significativas.
Contraste não equivale a prova de relação causal
A comparação entre patrimônio individual e indicadores sociais possui valor jornalístico porque ACM Neto ocupou posições centrais no poder político durante o período analisado.
Ela não permite, porém, afirmar que o ex-prefeito tenha enriquecido por causa dos mandatos exercidos. O patrimônio declarado inclui participações familiares em empresas de comunicação, investimentos, fundos imobiliários, aplicações financeiras, imóveis e negócios privados.
Também seria metodologicamente errado afirmar que o crescimento patrimonial do ex-prefeito provocou a pobreza, o desemprego, a favelização ou a perda populacional de Salvador.
O que existe é um contraste entre duas trajetórias: a evolução particular dos bens declarados por uma das principais autoridades políticas da cidade e a permanência de problemas econômicos e urbanos entre parcelas expressivas da população governada pelo seu grupo político.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 2002 — ACM Neto é eleito deputado federal pela Bahia; registros históricos consultados situam seu patrimônio em menos de R$ 1 milhão, sem valor exato consolidado disponível na série utilizada.
- 01/02/2003 — ACM Neto toma posse na Câmara dos Deputados, iniciando o primeiro de três mandatos consecutivos.
- 2006 — Declara R$ 820.561,15 em patrimônio; trata-se do primeiro valor exato consolidado da série analisada.
- 2010 — Patrimônio declarado alcança R$ 2.541.751,04.
- 2012 — ACM Neto é eleito prefeito de Salvador e declara R$ 13.327.167,12; crescimento nominal de cerca de 424% frente a 2010.
- 2013 — Início do primeiro mandato de ACM Neto na Prefeitura de Salvador.
- 2016 — Na campanha pela reeleição, informa patrimônio de R$ 27.886.721,62, expansão nominal de 109,2% sobre 2012.
- 2017 a 2020 — ACM Neto exerce o segundo mandato como prefeito; não há declaração eleitoral de 2020 que permita estabelecer seu patrimônio exatamente ao final da gestão.
- 2021 — Bruno Reis, aliado e sucessor político de ACM Neto, assume a Prefeitura de Salvador.
- Final de 2021 — É constituído o fundo Seattle 95, posteriormente administrado pela Reag e destinado a investimentos privados de ACM Neto.
- 2022 — ACM Neto disputa o Governo da Bahia e declara R$ 41.718.572,69. O Censo registra forte retração populacional em Salvador e mais de 1 milhão de moradores em favelas e comunidades urbanas.
- 28/12/2022 — É constituída a A&M Consultoria Ltda., integrada por ACM Neto e sua esposa.
- 2023 a 2024 — A&M Consultoria recebe valores do Banco Master e da Reag que, segundo informações de relatório do Coaf divulgadas pela imprensa, somaram aproximadamente R$ 3,6 milhões; ACM Neto afirma que os pagamentos remuneraram serviços regulares de consultoria.
- 2025 — O patrimônio do Seattle 95 chega a aproximadamente R$ 11,94 milhões em outubro, segundo informações divulgadas posteriormente pelo UOL.
- 2026 — ACM Neto registra nova candidatura ao Governo da Bahia e declara R$ 84.888.809,63, crescimento nominal de 103,48% sobre 2022.
- Agosto de 2026 — Levantamento da Folha calcula crescimento real de 70,4% no patrimônio entre 2022 e 2026, depois de descontada a inflação do período.
- 2º trimestre de 2026 — Salvador registra 11,4% de desemprego, maior taxa entre as capitais, e rendimento médio de R$ 3.514, quinto menor do país.
- 28/08/2026 — Nova estimativa do IBGE calcula 2.559.945 habitantes em Salvador, com retração de 0,17% diante de 2025.
A evolução patrimonial de ACM Neto é suficientemente expressiva para constituir tema legítimo de escrutínio público. Desde o primeiro valor exato disponível na série eleitoral, em 2006, seus bens declarados tornaram-se aproximadamente 103 vezes maiores. Desde a eleição para a Prefeitura em 2012, cresceram 536,9% nominalmente. O movimento atravessou três fases: expansão anterior ao governo municipal, crescimento durante o período em que comandou Salvador e forte aceleração após deixar o cargo. A própria existência dessas fases conduz a um questionamento sobre aumento pessoal da riqueza e exercício do poder.
Neste contexto, o contraste social é politicamente relevante. O mesmo ciclo histórico em que um dos principais dirigentes políticos da capital acumulou patrimônio declarado de quase R$ 85 milhões terminou com Salvador menor demograficamente, mais de 1 milhão de pessoas vivendo em favelas e comunidades urbanas, desemprego de 11,4% no segundo trimestre de 2026 e rendimento do trabalho ainda entre os menores das capitais. Isso não estabelece relação econômica entre uma realidade e outra, mas oferece um parâmetro concreto para discutir quem acumulou riqueza, como a economia urbana distribuiu oportunidades e em que medida a prosperidade privada e a capacidade fiscal municipal foram acompanhadas por desenvolvimento social abrangente.
A etapa posterior à Prefeitura exige atenção adicional porque coincide com a duplicação do patrimônio declarado entre 2022 e 2026 e com o ingresso formal de ACM Neto em novas atividades privadas, incluindo consultoria e investimentos financeiros. Parte dessas relações comerciais tornou-se pública em documentos e reportagens referentes ao Banco Master e à Reag. Até agora, os elementos consultados não permitem afirmar que o crescimento patrimonial decorra de ilegalidade, e ACM Neto sustenta que seus recursos possuem origem lícita, são declarados, resultam de negócios privados e tiveram os tributos recolhidos. Eventual conclusão diferente dependeria de documentação contábil, fiscal ou investigação conduzida pelas autoridades competentes.
A questão pública central: Como um patrimônio declarado de R$ 820 mil em 2006 chegou a R$ 84,89 milhões em 2026, quais atividades, rendimentos, participações empresariais e investimentos explicam cada etapa desse crescimento e como esses fluxos se relacionam cronologicamente com a carreira pública de ACM Neto?
A sociedade deve avaliar o legado político de um ciclo municipal que alcançou equilíbrio fiscal e realizou grandes obras, mas não conseguiu impedir perda populacional, elevada favelização, desemprego e desigualdades persistentes.
A resposta patrimonial compete ao candidato e, quando necessário, aos órgãos de fiscalização; a avaliação da gestão e de seus resultados compete ao eleitorado e às instituições democráticas.
*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.








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