Deputado Afonso Florence compara evolução patrimonial de ACM Neto a “loteria” e cita alta de 10.245% e consultorias ao Banco Master

Salvador, quinta-feira (06/08/2026) — O deputado federal Afonso Florence (PT-BA) afirmou que “a política foi uma loteria na vida de ACM Neto” ao questionar a evolução dos bens declarados pelo ex-prefeito de Salvador e candidato do União Brasil ao Governo da Bahia. Segundo o parlamentar, o patrimônio informado à Justiça Eleitoral passou de R$ 820.561,15, em 2006, para R$ 84.888.809,63, em 2026, crescimento nominal de aproximadamente 10.245%. Florence também relacionou o debate aos pagamentos atribuídos ao Banco Master à empresa de consultoria constituída por Neto e sua esposa depois das eleições de 2022.

A declaração insere a evolução patrimonial do candidato oposicionista no centro da disputa política estadual. O valor apresentado por ACM Neto no pedido de registro de candidatura de 2026 é R$ 43,17 milhões superior ao informado nas eleições de 2022, quando declarou R$ 41,71 milhões. Em quatro anos, portanto, o patrimônio nominalmente declarado aumentou cerca de 103,48%.

Afonso Florence exerce mandato de deputado federal pelo PT da Bahia na legislatura de 2023 a 2027. Após períodos de licença para comandar a Casa Civil do Governo da Bahia, o parlamentar reassumiu o mandato na Câmara dos Deputados em 1º de abril de 2026.

Florence compara patrimônio com inflação e investimentos

No pronunciamento, Florence utilizou indicadores econômicos para sustentar que a elevação do patrimônio declarado por ACM Neto teria ocorrido em proporção muito superior à inflação e ao desempenho de diferentes modalidades de investimento no período analisado.

“Não tem índice que acompanhe este crescimento da riqueza dele.”

De acordo com os percentuais apresentados pelo parlamentar, entre 2006 e 2026 o IPCA teria acumulado 202%, o INPC, 203%, e o IGP-M, 261%. Florence afirmou ainda que a valorização acumulada da Selic ou do CDI teria alcançado 660%, enquanto o dólar teria avançado 120% e o Ibovespa, 430%.

Patrimônio declarado tornou-se 103 vezes maior

O percentual de 10.245% resulta da comparação entre os R$ 820.561,15 declarados em 2006 e os R$ 84.888.809,63 informados em 2026. Em valores nominais, o acréscimo acumulado foi de aproximadamente R$ 84,07 milhões, fazendo com que o patrimônio atual corresponda a cerca de 103,45 vezes o montante registrado duas décadas antes.

Embora Florence tenha utilizado a expressão “quando entrou na política”, ACM Neto foi eleito deputado federal pela primeira vez nas eleições de 2002 e iniciou o mandato em 2003. O valor de 2006 constitui o primeiro ponto da série histórica recente com montante exato consolidado na comparação apresentada pelo parlamentar. A Câmara dos Deputados registra que Neto exerceu mandatos federais entre 2003 e 2012, quando renunciou para assumir a Prefeitura de Salvador.

As declarações mostram que o crescimento ocorreu em diferentes etapas da trajetória política e empresarial do candidato. Entre 2006 e 2008, os bens declarados praticamente dobraram. O salto proporcional mais expressivo da série ocorreu entre 2010 e 2012, quando o valor passou de R$ 2,54 milhões para R$ 13,32 milhões.

Linha do tempo da evolução patrimonial

2002 — Início da trajetória eleitoral

ACM Neto foi eleito deputado federal pela primeira vez. Levantamentos sobre o período apontam patrimônio inferior a R$ 1 milhão, mas o valor exato não aparece de forma consolidada na série consultada.

2006 — R$ 820.561,15

Na campanha pela reeleição para deputado federal, declarou pouco mais de R$ 820 mil. Esse é o ponto de partida utilizado por Afonso Florence para calcular o crescimento patrimonial de 10.245%.

2008 — aproximadamente R$ 1,64 milhão

Ao disputar pela primeira vez a Prefeitura de Salvador, Neto informou patrimônio próximo de R$ 1,64 milhão, praticamente o dobro do valor apresentado dois anos antes.

2010 — R$ 2.541.751,04

Na eleição para o terceiro mandato consecutivo na Câmara dos Deputados, o patrimônio declarado alcançou R$ 2,54 milhões.

2012 — R$ 13.327.167,12

No ano em que foi eleito prefeito de Salvador, o valor subiu para R$ 13,32 milhões. A declaração passou a incluir aproximadamente R$ 9,3 milhões em participações na TV Bahia, além de aplicações financeiras e outros ativos.

2016 — R$ 27.886.721,62

Na campanha pela reeleição à Prefeitura de Salvador, os bens declarados chegaram a R$ 27,88 milhões, crescimento nominal de aproximadamente 109% em relação a 2012.

2020 — encerramento do mandato municipal

ACM Neto concluiu o segundo mandato consecutivo como prefeito de Salvador em dezembro de 2020 e passou a exercer atividades partidárias e privadas.

2022 — R$ 41.718.572,69

Na primeira candidatura ao Governo da Bahia, declarou R$ 41,71 milhões. O valor representava aumento de 49,6% em comparação com 2016.

28 de dezembro de 2022 — criação da A&M Consultoria

Poucas semanas depois das eleições estaduais, ACM Neto e sua esposa, Mariana Almeida Barreto de Magalhães, constituíram a A&M Consultoria Ltda., com capital social declarado de R$ 2 mil e atividade principal de consultoria em gestão empresarial.

2023 a 2025 — contratos privados e pagamentos atribuídos ao Banco Master

Relatórios da Receita Federal encaminhados à CPI do Crime Organizado apontaram pagamentos que totalizariam R$ 5,4 milhões do Banco Master à empresa de consultoria ligada a ACM Neto. A defesa afirmou que os serviços foram contratados e prestados de maneira lícita e transparente.

2025 — nova empresa de participações

Em setembro de 2025, Neto constituiu a Cabaceiras Participações Ltda., com capital social informado de R$ 3 milhões e atuação prevista na participação em sociedades, administração de imóveis e negócios imobiliários.

2026 — R$ 84.888.809,63

Na segunda candidatura ao Governo da Bahia, o patrimônio declarado chegou a R$ 84,88 milhões. O valor representa aumento de R$ 43,17 milhões e de 103,48% em apenas quatro anos. A série histórica completa consta das declarações apresentadas pelo candidato à Justiça Eleitoral.

Consultoria recebeu pagamentos atribuídos ao Banco Master

Afonso Florence também utilizou os contratos da A&M Consultoria com o Banco Master como elemento de seu questionamento. O deputado destacou que a empresa foi aberta com capital social de R$ 2 mil e teria recebido mais de R$ 5,4 milhões da instituição financeira.

“Não é todo mundo que abre uma empresa com capital social de R$ 2 mil e fatura mais de R$ 5,4 milhões em consultorias ao Banco Master.”

Reportagem publicada em abril de 2026, com base em relatórios da Receita Federal enviados à CPI do Crime Organizado, informou que a empresa vinculada ao ex-prefeito recebeu aproximadamente R$ 5,4 milhões do banco entre 2023 e 2025. Os documentos também relacionavam pagamentos efetuados a escritórios e empresas ligados a outros agentes políticos e antigos integrantes de governos.

O montante é superior aos R$ 3,6 milhões anteriormente identificados em informações atribuídas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Esse primeiro levantamento compreendia transferências do Banco Master e da gestora Reag entre 2023 e maio de 2024, período menor do que o abrangido pelos relatórios posteriormente enviados à CPI.

ACM Neto confirmou anteriormente que sua empresa prestou serviços de consultoria, mas afirmou que os contratos eram formais, que os trabalhos foram efetivamente realizados e que os tributos correspondentes foram recolhidos. Segundo sua defesa, a relação comercial foi estabelecida quando nenhum dos sócios da A&M Consultoria ocupava cargo público.

A defesa declarou ainda que não poderia confirmar o valor de R$ 5,4 milhões mencionado nas reportagens porque não havia tido acesso aos relatórios fiscais utilizados como fonte. Ao mesmo tempo, sustentou que as contratações ocorreram de forma lícita, transparente e vinculada a serviços efetivamente prestados.

ACM Neto atribui crescimento a trabalho e atividades empresariais

Em manifestação realizada na terça-feira (04/08/2026), durante agenda com representantes da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado da Bahia, ACM Neto afirmou que a evolução patrimonial decorreu de atividades empresariais privadas, aplicações financeiras e negócios familiares.

O candidato declarou que passou os últimos anos fora de cargos públicos e, por essa razão, pôde dedicar-se a investimentos e empreendimentos particulares. Também afirmou que os recursos possuem origem conhecida, foram declarados às autoridades fiscais e não mantêm interface com contratos ou funções públicas.

Neto classificou o crescimento como resultado de “trabalho honesto” e argumentou que parte significativa dos bens está vinculada a empresas, investimentos financeiros e negócios imobiliários. Segundo ele, os impostos correspondentes foram recolhidos e as informações podem ser verificadas por meio dos registros públicos e tributários.

Em nota anterior, o candidato havia afirmado que os acréscimos patrimoniais decorreram principalmente dos rendimentos de aplicações financeiras e de atividades empresariais, especialmente no setor imobiliário. Ele também declarou que, no período posterior às eleições de 2022, não exerceu cargo público nem integrou conselhos ou diretorias de empresas estatais ou paraestatais.

Declarações ao TSE têm finalidade de transparência eleitoral

O sistema DivulgaCandContas, mantido pelo Tribunal Superior Eleitoral, reúne informações apresentadas pelos candidatos, incluindo propostas de governo, certidões, limites de despesas, dados partidários e relações patrimoniais. A plataforma permite comparar as declarações feitas em diferentes eleições e acompanhar arrecadações e gastos de campanha.

Os valores são informados pelos próprios candidatos no processo de registro eleitoral. A declaração de bens, isoladamente, não constitui auditoria contábil, fiscal ou financeira e não detalha necessariamente todos os rendimentos, dividendos, distribuições de lucro, heranças, operações empresariais ou alterações de valor ocorridas entre uma eleição e outra.

Da mesma forma, o crescimento nominal do patrimônio não comprova, por si só, irregularidade. Uma conclusão sobre a compatibilidade entre bens, rendimentos e atividades econômicas dependeria da análise conjunta de declarações tributárias, contratos, demonstrações contábeis, extratos, registros societários e documentos fiscais pelos órgãos legalmente competentes.


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