Reeleito governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT) afirmou que pretende mobilizar sua base política para ampliar a votação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais contra o senador Flávio Bolsonaro (PL). Em entrevista à Folha de S.Paulo neste sábado (10/10/2026), Jerônimo disse que trabalha com a expectativa de produzir uma reversão do resultado nacional do primeiro turno e voltou a confrontar politicamente ACM Neto (União Brasil), derrotado na disputa pelo Governo da Bahia.
“Nossa expectativa é reverter para fazer uma virada que nunca houve na história do Brasil”, afirmou o governador.
A declaração ocorre após Flávio Bolsonaro terminar o primeiro turno presidencial à frente de Lula: com 99,99% das urnas apuradas, o candidato do PL recebeu 56.104.268 votos, ou 47,03% dos votos válidos, enquanto o presidente obteve 53.876.617 votos, equivalentes a 45,16%. O segundo turno está marcado para domingo (25/10/2026).
Na Bahia, Jerônimo chega ao segundo turno presidencial fortalecido pela própria reeleição. O petista venceu novamente ACM Neto no primeiro turno estadual, com 55,80% dos votos válidos, contra 43,72% do ex-prefeito de Salvador, garantindo ao PT a continuidade no comando do Governo da Bahia.
Jerônimo busca ampliar votação de Lula na Bahia
Ao analisar a disputa presidencial, Jerônimo afirmou que temas como democracia e soberania nacional precisam ser associados às demandas concretas da população, incluindo alimentação, moradia, infraestrutura e acesso a políticas públicas.
Questionado sobre a possibilidade de essas questões parecerem abstratas para eleitores preocupados com problemas cotidianos, o governador relacionou a discussão democrática à capacidade do Estado de executar políticas sociais.
“É etéreo para quem não compreende o percurso de uma democracia. Quem viveu a ditadura de 1964 sabe do que se trata. Nunca imaginava que o governo pudesse dar uma casa a uma pessoa pobre, que pudesse ter asfalto numa zona rural”, afirmou.
Jerônimo também avaliou que parte do eleitorado passou a exigir resultados adicionais do presidente Lula. Segundo ele, essa cobrança não deve ser interpretada necessariamente como frustração.
“Eu não digo que é uma frustração, mas é exigir do Lula algo mais. E isso é bom para a sociedade brasileira”, declarou.
A avaliação indica que a estratégia governista no segundo turno deverá combinar a defesa das políticas implantadas por governos petistas com compromissos relacionados às demandas atuais dos eleitores.
Resultado do primeiro turno aumenta importância eleitoral da Bahia
A mobilização anunciada pelo governador ocorre em um cenário nacional de disputa apertada. A diferença entre Flávio Bolsonaro e Lula no primeiro turno ficou abaixo de dois pontos percentuais, aumentando a importância dos grandes colégios eleitorais e das regiões em que cada candidato dispõe de maior estrutura política.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registrou 125.272.513 votos válidos no primeiro turno presidencial. Flávio terminou com 47,03%, Lula com 45,16%, enquanto os demais candidatos dividiram a parcela restante dos votos válidos. Houve ainda 2.300.781 votos brancos e 3.674.149 votos nulos.
Nesse contexto, a Bahia passa a ocupar espaço relevante na estratégia nacional do PT. Além da reeleição de Jerônimo, o partido elegeu Rui Costa e Jaques Wagner para as duas vagas do Senado disputadas pelo estado, consolidando uma estrutura política estadual alinhada à candidatura presidencial de Lula.
Apoio de ACM Neto a Flávio Bolsonaro amplia confronto político
Parte central da entrevista foi dedicada a ACM Neto, adversário derrotado por Jerônimo na eleição estadual. Na quarta-feira (07/10/2026), o ex-prefeito de Salvador declarou apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno presidencial e anunciou que pretende mobilizar prefeitos, parlamentares e lideranças de sua base política na Bahia.
O posicionamento representou uma mudança em relação à estratégia adotada por ACM Neto durante parte da campanha estadual. O candidato do União Brasil apoiou nacionalmente Ronaldo Caiado (PSD) no primeiro turno, enquanto segmentos do eleitorado baiano passaram a defender nas redes sociais uma combinação de votos em Lula para presidente e ACM Neto para governador, chamada informalmente de “Lula-Neto” ou “LuNeto”.
Jerônimo utilizou essa mudança como argumento para atacar politicamente o adversário.
“Ele queria colar no Lula e já descolou tão rápido? Que fluidez, que interesse. Ele foi derrotado comigo, vai perder outra eleição com o Lula”, afirmou.
Em manifestação anterior, após a formalização do apoio de Neto a Flávio Bolsonaro, Jerônimo também declarou que a posição do ex-prefeito demonstraria que a neutralidade eleitoral anterior havia sido circunstancial. ACM Neto, por sua vez, afirmou que o União Brasil decidiu apoiar Flávio e defendeu mudança no comando do governo federal.
Jerônimo projeta disputa política por Salvador
A segunda vitória consecutiva sobre ACM Neto também foi utilizada por Jerônimo para projetar a próxima disputa pelo comando da Prefeitura de Salvador.
“Duas vezes eu derrotei o herdeiro. Esse resultado já é o pé na porta para dizer assim: nós queremos e vamos cuidar de Salvador”, declarou.
A afirmação indica que o resultado estadual de 2026 deverá influenciar desde cedo a reorganização das forças políticas para as eleições municipais de 2028. Salvador permanece administrada pelo grupo político ligado a ACM Neto, atualmente representado pelo prefeito Bruno Reis.
Embora a eleição municipal ainda esteja distante, o desempenho dos grupos governista e oposicionista em Salvador e nas maiores cidades baianas tende a se tornar um dos elementos da reorganização política posterior às eleições gerais de 2026.
Governador critica proposta de Flávio Bolsonaro sobre Constituição
Na entrevista, Jerônimo também criticou declarações atribuídas a Flávio Bolsonaro sobre mudanças na Constituição Federal. O governador questionou quais dispositivos seriam alterados em eventual governo do candidato do PL.
“Como uma pessoa, em uma eleição presidencial, diz que vai mexer na Constituição e não explica o que é isso? Todo mundo conhece o modelo golpista por trás deles, são golpistas”, declarou.
A expressão representa uma avaliação política de Jerônimo e não uma caracterização jurídica feita pela reportagem. A discussão sobre eventuais mudanças constitucionais deverá integrar o confronto entre as campanhas presidenciais no segundo turno.
O TSE disponibiliza as propostas apresentadas formalmente pelas duas candidaturas presidenciais — Flávio Bolsonaro, número 22, e Lula, número 13 — no sistema eleitoral, permitindo a comparação dos programas registrados pelos candidatos.
Educação integral, saúde e segurança entram na agenda do segundo mandato
Ao tratar do novo mandato na Bahia, Jerônimo afirmou que uma de suas prioridades será ampliar a educação em tempo integral, buscando expandir o modelo em parceria com municípios.
O governador também apontou saúde e segurança pública como áreas prioritárias para os próximos quatro anos e destacou a importância da articulação administrativa e financeira com o governo federal.
“Eu paguei uma conta com Bolsonaro. A expectativa do próximo mandato é com Lula”, afirmou, comparando o ambiente político enfrentado anteriormente pelo grupo petista na Bahia com a perspectiva de manter uma relação institucional alinhada entre os governos estadual e federal.
A execução dessas propostas deverá ser acompanhada ao longo do novo mandato, particularmente em áreas que permanecem entre os principais desafios da administração estadual, como segurança pública, atendimento de saúde, regulação e expansão da jornada escolar.
Bahia entra na reta final do segundo turno presidencial
O segundo turno presidencial será realizado em 25 de outubro de 2026. Na Bahia, onde não haverá segundo turno para governador após a vitória de Jerônimo na primeira votação, os eleitores irão às urnas para escolher entre Lula e Flávio Bolsonaro para a Presidência da República.
A campanha entra, portanto, em uma fase de disputa direta entre dois campos políticos. De um lado, Jerônimo e os principais integrantes de sua base estadual trabalharão pela ampliação da votação de Lula. Do outro, ACM Neto afirmou que mobilizará seu grupo político e prefeitos aliados em favor de Flávio Bolsonaro.
O desempenho eleitoral da Bahia será um dos indicadores da capacidade de Lula de recuperar a diferença registrada no primeiro turno. Para Jerônimo, a meta é transformar a própria reeleição e a estrutura política do grupo governista em uma ampliação da vantagem petista no estado. Questionado sobre uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, respondeu:
“Ele vai perder as eleições.”








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