Forjada nos levantes que a tornaram famosa no Brasil e no mundo, a Bahia abrigou – e ainda abriga -, uma das maiores confluências de negros escravizados em nosso período colonial. Sua herança africana está nas crenças e culturas enraizadas na alma do seu povo, simpático, hospitaleiro e sempre disposto a difundir sua musicalidade e suas tradições religiosas.
Logo que o Brasil foi descoberto, para aqui vieram portugueses, degredados e negros. Após anos de miscigenação, a mistura de negros com brancos e índios fez nascer os pardos, mulatos e outros, com ascendência da cor parda. As tradições e crenças vindas da África influenciaram e ainda influenciam sua cultura, artes, culinária, vocabulário e o carnaval.
Aqui dominam os orixás, guias de políticos, comerciantes, intelectuais e do povo. Todos seguem as orientações das ialorixás (mães de santo) e dos babalorixás (pais de santo). Os terreiros de candomblé representam núcleos comunitários frequentados por uma boa parte de sua população. A isso se junte suas igrejas com os seus fiés, misturadas num sincretismo que associa cada santo da Igreja Católica a um dos principais orixás.
Em um momento de resgate da figura de Luiz Gama como um dos grandes nomes do abolicionismo no século XIX e da ancestralidade africana na identidade da raça no Brasil, o selo História Real lança luz sobre um recorte desse personagem na Bahia de todos os negros.
Os levantes do século XIX foram muitos, com destaque para a Revolta dos Malés (1835) e para a Sabinada (1837). A primeira foi dos escravos; a segunda tinha como objetivo a independência da Bahia do Governo Imperial. Tais acontecimentos formam um passado indispensável à compreensão do povo baiano e da sua alegria contagiante e do seu comportamento festeiro. Aqui domina o axé, que na língua iorubá significa força de realização, poder, desejo e felicidade.
No Carnaval do Rio de Janeiro, de 1969, no desfile das escolas de samba, a Salgueiro foi campeã ao desfilar homenageando a “Bahia de Todos os Deuses”. O título não poderia ser outro. Os deuses da Bahia são cultuados por adeptos das religiões afro-brasileiras, entre elas o candomblé. Essas divindades iorubás (ou nagôs) são os orixás como Oxalá, Iemanjá, Ogum e Exu. No candomblé, há mais de 200 deles.
A Bahia é, realmente, uma terra de deuses, tanto na política como no comércio, na música, na poesia, no direito, na magistratura e nos seus orixás. Não é sem razão, pois, que a canção premiada naquele Carnaval tenha, em sua primeira estrofe, essa beleza: “Bahia, os meus olhos estão brilhando; Meu coração palpitando de tanta felicidade; É a rainha da beleza universal; Minha querida Bahia; Muito antes do Império fostes a primeira capital”. A isso se some os contrastes, os guerreiros, as misérias, riquezas, analfabetismo e grandes artes.
*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.







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