O relatório da Polícia Federal (PF) sobre a tentativa de golpe de Estado no Brasil revela que os investigados pelo caso obtiveram informações sobre a delação premiada de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro. As mensagens trocadas entre os suspeitos, localizadas em documentos apreendidos no Partido Liberal (PL), indicam que houve uma tentativa coordenada de obter detalhes sigilosos do acordo de colaboração de Cid com a PF, com o intuito de obstruir as investigações em andamento.
Embora o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, tenha retirado o sigilo sobre o relatório da PF no dia 26 de novembro de 2024, a decisão sobre a delação premiada de Mauro Cid ainda permanece sob sigilo. O ministro também havia determinado no ano anterior a proibição de qualquer tipo de contato entre Mauro Cid e o ex-presidente Bolsonaro, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, além dos investigados no inquérito sobre a tentativa de golpe.
O relatório da PF mostra que os investigados estavam particularmente preocupados com a possibilidade de Mauro Cid ter mencionado figuras-chave no contexto do golpe, como os generais Braga Netto e Augusto Heleno. Nos documentos apreendidos, um trecho específico revela que o conteúdo das mensagens sugere um grupo envolvido na tentativa de subverter o regime democrático, com intenções claras de acessar informações sigilosas sobre a colaboração de Cid.
As mensagens trocadas indicam que os investigados questionavam Cid sobre o teor de reuniões e documentos relacionados à tentativa de golpe, como uma minuta do Artigo 142. Em uma das mensagens, o respondente, possivelmente Mauro Cid, afirma que “não entrou nas reuniões”, mas detalha o que sabia a respeito de outras figuras envolvidas, como Filipe Martins, ex-assessor internacional de Bolsonaro. Em outro trecho, Cid menciona que os investigadores da PF sabiam de informações que não estavam registradas em e-mails ou celulares, evidenciando o grau de preocupação com o alcance das investigações.
A PF também destaca uma série de perguntas feitas pelos investigados sobre temas sensíveis, como o general Mário, o ex-ministro Rogério Marinho e até mesmo sobre os generais Braga Netto e Augusto Heleno. Os interrogadores pareciam estar à procura de respostas sobre esses indivíduos, mas as mensagens indicam que Mauro Cid não forneceu informações relevantes sobre os generais. O relatório da PF considera que o “contexto do documento é grave”, confirmando que os investigados estavam empenhados em acessar informações sensíveis relacionadas à tentativa de golpe, com o apoio de membros próximos aos envolvidos.
Militar analisa recuo de Jair Bolsonaro após golpe frustrado no Peru
Em uma recente revelação, o tenente-coronel Sérgio Cavaliere, do Exército Brasileiro, afirmou que o ex-presidente Jair Bolsonaro desistiu de tentar um golpe de Estado no Brasil após a prisão do ex-presidente peruano Pedro Castillo. Cavaliere, um dos 37 indiciados pela Polícia Federal na investigação sobre a tentativa de golpe em 2022, explicou que Bolsonaro, ao perceber o desfecho do golpe fracassado no Peru, recuou para evitar um destino semelhante ao de Castillo.
A análise de Cavaliere foi registrada em uma gravação de áudio obtida pela Polícia Federal, datada de 20 de dezembro de 2022, na qual ele detalha os eventos que ocorreram após a tentativa de golpe no Peru. Segundo o militar, Bolsonaro teria preparado um decreto para fechamento do Congresso, mas a perspectiva de ser preso, tal como ocorreu com Castillo, fez com que o ex-presidente brasileiro recuasse da ideia.
“Ele não vai embarcar sozinho porque pode acontecer o mesmo que no Peru. Ele está com decreto pronto, ele assina e aí ninguém vai, ele vai preso. Então não vai arriscar”, afirmou Cavaliere na gravação.
A comparação com o cenário peruano se dá pelo fato de Pedro Castillo ter sido destituído do cargo e preso após tentar dissolver o Congresso, em uma tentativa frustrada de golpe. Cavaliere comentou ainda sobre a falta de apoio dentro das Forças Armadas brasileiras. Durante a conversa gravada, o militar lamentou que o Alto Comando do Exército não tenha se envolvido na ação, mencionando que a Marinha estava disposta, mas que não teria apoio suficiente para sustentar a operação sozinha.
Além disso, Cavaliere fez críticas ao Alto Comando do Exército, a quem acusou de priorizar interesses pessoais em detrimento da defesa de um suposto movimento político.
“Nossos líderes, formados naquela escola de prostitutas, por escolherem um lado, o seu lado pessoal, em detrimento do povo”, disse ele, em referência às lideranças militares que, segundo ele, não aderiram ao movimento golpista.
A análise de Cavaliere surge no contexto de investigações sobre um alegado “Núcleo de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral”, que teria envolvido membros das Forças Armadas e outras instituições na tentativa de desestabilizar a democracia brasileira. A Polícia Federal tem investigado essas alegações, com foco nas gravações que revelam discussões sobre a realização de um golpe semelhante ao ocorrido no Peru.








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