Liberdade de Imprensa ameaçada: Relatório da FENAJ expõe uso do Judiciário para perseguir jornalistas no Brasil

Relatório da FENAJ, apresentado em audiência na Câmara dos Deputados, mostra queda de 20,44% nos casos de violência contra a imprensa, mas alerta para permanência de práticas sistemáticas de intimidação.
Samira de Castro, presidente da Fenaj, mostra relatório de violência contra jornalistas. Relatório da FENAJ, apresentado em audiência na Câmara dos Deputados, mostra queda de 20,44% nos casos de violência contra a imprensa, mas alerta para permanência de práticas sistemáticas de intimidação.

A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) divulgou nesta terça-feira (20/05/2025), durante audiência pública da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados, o Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil – 2024. O documento revela que, embora os casos tenham apresentado uma queda de 20,44% em comparação a 2023, a violência contra profissionais da imprensa permanece estrutural e preocupante.

Em 2024, foram registrados 144 casos de violência contra jornalistas, o que representa uma agressão a cada dois dias e meio. Em 2023, esse número havia sido de 181 ocorrências. Apesar da redução, a presidenta da FENAJ, Samira de Castro, advertiu que a normalização desses ataques compromete o exercício da liberdade de imprensa.

“Virou comum atacar jornalista”, declarou Castro. “A redução nos números não pode ser usada para minimizar a gravidade da situação. Proteger o jornalismo é proteger a democracia.”

Perfil dos agressores e tipos de violência

O relatório aponta que mais de 40% das agressões partiram de políticos, seus assessores e apoiadores, com destaque para representantes da direita e extrema-direita. Entre os tipos de violência, destacam-se:

  • Agressão física: 20,83% dos casos

  • Assédio judicial: 15,97%

  • Violência simbólica e digital, com ataques sistemáticos nas redes sociais

O assédio judicial é descrito como a instrumentalização do sistema de Justiça para perseguir jornalistas e meios de comunicação, muitas vezes por meio de ações cíveis e criminais infundadas.

Propostas de enfrentamento e proteção

A FENAJ propôs a inclusão formal dos jornalistas no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas, vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, argumentando que o jornalismo precisa ser reconhecido como atividade de risco no atual cenário político e social.

Além disso, defendeu a regulação das plataformas digitais como medida urgente para conter a propagação do discurso de ódio e da desinformação, que alimentam ataques virtuais a profissionais da comunicação.

Contexto internacional agrava preocupação

No panorama global, a Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ) relatou 122 assassinatos de jornalistas em 2024, com destaque para a região de Gaza, em decorrência do conflito promovido por Israel contra a população palestina. A comparação internacional evidencia que, embora o Brasil não tenha registrado mortes de jornalistas em 2024, a ameaça à liberdade de imprensa não se limita ao uso da força letal, mas também a formas sistemáticas de intimidação institucional, política e judicial.

Citação de caso emblemático

Entre os exemplos destacados no relatório, consta o caso do jornalista Carlos Augusto, editor do Jornal Grande Bahia, vítima de assédio judicial por parte de um desembargador do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA). O relatório indica que ações judiciais reiteradas buscam cercear reportagens investigativas publicadas pelo veículo, o que representa violação direta à liberdade de expressão e ao exercício do jornalismo investigativo no país.

Reação parlamentar e defesa da imprensa livre

Durante a audiência pública, o presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado Reimont (PT-RJ), destacou que a violação de direitos de um jornalista representa uma ameaça coletiva à democracia.

“Quando um jornalista é violado no seu direito, todos somos violados”, afirmou o parlamentar.

Principais dados do Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil – 2024

Listagem dos principais dados do Relatório da FENAJ 2024, organizada por categorias.

Assédio judicial e censura em alta

Entre os tipos de violência documentados, o assédio judicial correspondeu a 15,97% dos casos registrados, consolidando-se como um dos principais instrumentos de intimidação contra jornalistas. Essa modalidade é caracterizada pela utilização abusiva de processos judiciais para constranger, silenciar ou esgotar financeiramente profissionais e veículos de imprensa.

A censura apresentou o maior crescimento proporcional: subiu de 5 casos em 2023 para 11 em 2024, um aumento de 120%. Trata-se de uma retomada de iniciativas voltadas ao controle do conteúdo jornalístico, muitas vezes originadas de decisões judiciais ou pressões de agentes públicos.

Bahia lidera no Nordeste

No recorte regional, o Nordeste concentrou 25% dos casos, com destaque para a Bahia, que liderou a violência contra jornalistas na região pelo terceiro ano consecutivo, com 9 ocorrências. Alagoas e Paraíba aparecem em seguida, com seis casos cada.

Durante o período eleitoral (maio a outubro), houve uma concentração de 65,27% dos ataques, revelando correlação direta entre o aumento da polarização política e os ataques à imprensa. A maioria dos agressores identificados está vinculada ao espectro ideológico da direita e extrema-direita.

Mídia digital é a mais atingida

O levantamento mostra que a mídia digital foi a mais afetada, com 63 casos (43,75%), superando os ataques a profissionais de TV (34 casos) e jornais impressos (14 casos). A tendência reforça a necessidade de proteção a jornalistas que atuam em plataformas digitais.

Agressores e motivações

Os políticos figuram como os principais agressores, respondendo por 33,33% dos ataques. Quando somados a assessores, apoiadores e funcionários de órgãos públicos, esse número chega a 47,22%. O uso político da justiça para perseguir jornalistas é uma das tendências identificadas com maior clareza pela FENAJ.

Dados Gerais

  • Total de casos registrados em 2024: 144

  • Redução em relação a 2023: 20,44%

  • Período mais violento: maio a outubro (65,27% dos casos)

  • Mês mais violento: julho

Tipos de Violência

Tipo de Violência Casos % do total
Assédio judicial 23 15,97%
Agressão física 30 20,83%
Ameaça ou ataque verbal presencial 15 10,42%
Ameaça ou ataque virtual 12 8,33%
Censura 11 7,64%
Impedimento ao exercício profissional 10 6,94%
Descredibilização da imprensa 9 6,25%
Intimidação / hostilização 8 5,56%
Ataque misógino 7 4,86%
Tentativa de homicídio / ameaça 6 4,17%
Outros (LGBTfobia, racismo, etc.) 13 ≈9%

Distribuição Regional

Região Casos % Nacional
Sudeste 38 26,39%
Nordeste 36 25%
Sul 31 21,53%
Norte 22 15,28%
Centro-Oeste 17 11,81%

Estado com mais ocorrências no Nordeste: Bahia (9 casos, líder regional pelo terceiro ano consecutivo)

Perfil das Vítimas por Gênero

Gênero Vítimas % Nacional
Masculino 81 52,60%
Feminino 47 30,52%
Coletivo/Não identificado 26 16,86%

Tipo de Mídia Mais Afetada

Tipo de Veículo Casos % do total
Mídia digital 63 43,75%
TV 34 23,61%
Jornal impresso 14 9,72%
Revista 4 2,78%
Assessoria de imprensa 4 2,78%
Órgão público 3 2,08%
Freelancer 3 2,08%
Rádio 1 0,69%
Mídia não identificada 17 11,81%

Perfis dos Agressore(a)s

Categoria de Agressor Casos % do total
Políticos / assessores / parentes 48 33,33%
Funcionários de órgãos públicos 9 6,25%
Policiais civis e militares 9 6,25%
Torcedores e dirigentes de clubes de futebol 9 6,25%
Empresários / comerciantes 7 4,86%
Juízes / procuradores / advogados 7 4,86%
Manifestantes de extrema-direita 6 4,17%
Apoiadores de políticos 5 3,47%
Internautas 5 3,47%
Conib / grupos pró-Israel 4 2,78%
Outros (comunicadores, influencers etc.)

Casos emblemáticos e ameaças futuras

O Relatório de 2024 documenta também casos emblemáticos de agressão física, tentativa de homicídio, ataques misóginos, importunação sexual e racismo. Nenhum jornalista foi morto no exercício da profissão, mas a entidade alerta para o agravamento do clima de hostilidade.

A FENAJ ressalta que os anos de 2025 e 2026 serão decisivos para a liberdade de imprensa no Brasil, exigindo ações institucionais para combater a instrumentalização do Judiciário, o discurso de ódio e a descredibilização da imprensa.

Confira vídeo


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Facebook
Threads
WhatsApp
Twitter
LinkedIn

Deixe um comentário

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading

Privacidade e Cookies: O Jornal Grande Bahia usa cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com o uso deles. Para saber mais, inclusive sobre como controlar os cookies, consulte: Política de Cookies.