Rejeitar a Globalização seria um erro, afirma presidente Lula em artigo internacional sob medidas do Governo Trump contra o Brasil 

Em artigo publicado no The Guardian, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz uma defesa do multilateralismo e da cooperação internacional como caminhos para superar as crises globais. Ele critica a atuação das grandes potências, denuncia desigualdades históricas e cobra compromissos efetivos diante das mudanças climáticas. Lula conclama à reconstrução das instituições internacionais com mais equidade e representatividade.
Em artigo publicado nesta quinta-feira (10/07/2025), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende a reconstrução do multilateralismo diante das crises globais e critica o abandono da cooperação internacional por parte das grandes potências.

O ano de 2025, que deveria ser uma celebração pelos 80 anos da Organização das Nações Unidas (ONU), corre o risco de ser lembrado como o momento de colapso da ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial. A avaliação é do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, em artigo publicado nesta quinta-feira (10/07/2025) no jornal britânico The Guardian, sob o título “Com o mundo em crise, muitos dizem que é o fim da globalização. Eu digo que isso seria um erro.”

Fragilidade do sistema internacional

Segundo Lula, os sinais de desgaste do sistema multilateral já vinham se acumulando desde as intervenções unilaterais no Iraque, no Afeganistão e na Líbia, além da guerra na Ucrânia. A crítica é direta aos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, que, segundo ele, banalizaram o uso ilegal da força. Para o presidente brasileiro, a omissão diante do genocídio na Faixa de Gaza representa um abandono dos valores mais elementares da humanidade.

A recente escalada de violência no Oriente Médio, incluindo o ataque ao Irã, é, segundo Lula, consequência direta da incapacidade de diálogo entre as nações. Ele argumenta que a crise atual é agravada por ações unilaterais e excludentes, bem como pela ausência de lideranças coletivas eficazes.

A crise do comércio global e o legado do neoliberalismo

No campo econômico, Lula afirma que o sistema multilateral de comércio também está sob ameaça, com o aumento de tarifas e sanções que comprometem as cadeias globais de valor e empurram o mundo para um ciclo de inflação e estagnação. A Organização Mundial do Comércio (OMC), segundo ele, foi esvaziada, e as promessas da Rodada de Doha foram esquecidas.

Lula denuncia ainda os efeitos duradouros do colapso financeiro de 2008, ressaltando que a opção por salvar grandes corporações e setores privilegiados, em detrimento de cidadãos comuns e pequenas empresas, aprofundou a desigualdade global. Ele cita um relatório da Oxfam que aponta que o 1% mais rico do mundo acumulou US$ 33,9 trilhões nos últimos dez anos, valor 22 vezes superior ao necessário para erradicar a pobreza extrema.

Desigualdades históricas e mudança climática

Para o presidente, o mundo precisa enfrentar as desigualdades estruturais geradas por séculos de exploração colonial. Em um planeta com PIB superior a US$ 100 trilhões, Lula considera inaceitável que mais de 700 milhões de pessoas ainda vivam com fome e sem acesso a eletricidade ou água potável.

No tocante à crise climática, Lula responsabiliza os países desenvolvidos pelas emissões históricas de carbono, ressaltando que são os mais pobres os que mais sofrem com os impactos. Ele lembra que 2024 foi o ano mais quente já registrado, e que os compromissos assumidos em Copenhague (COP-15) — como os US$ 100 bilhões anuais prometidosnunca se concretizaram, sendo substituídos por metas voluntárias frágeis.

Reconstrução do multilateralismo

Lula argumenta que atacar as instituições internacionais ignora os benefícios concretos do multilateralismo, como a erradicação da varíola, a preservação da camada de ozônio e a proteção de direitos trabalhistas em diversas regiões do mundo. Para ele, termos como “desglobalização” são ilusórios, uma vez que não se pode “desplanetar” a realidade compartilhada da humanidade.

Ele conclui que a solução para a atual crise não está no abandono do multilateralismo, mas na sua reconstrução sobre bases mais justas, democráticas e inclusivas. Segundo o presidente, essa é a linha de atuação que o Brasil tem seguido em fóruns internacionais como o G20, o BRICS e a COP30.

Principais dados apresentados pelo presidente Lula

Crise da Ordem Internacional

  • 80 anos da ONU (2025) marcados por instabilidade e risco de colapso do sistema criado em 1945.

  • Denúncia de que membros permanentes do Conselho de Segurança banalizaram o uso ilegal da força (Iraque, Afeganistão, Líbia, Ucrânia).

  • Crítica à omissão internacional diante do genocídio em Gaza.

  • Crescente escalada de violência no Oriente Médio, incluindo ataque recente ao Irã.

Economia Global e Desigualdade

  • US$ 33,9 trilhões acumulados pelo 1% mais rico da população mundial na última década.

  • Valor citado equivale a 22 vezes o necessário para erradicar a pobreza extrema global (dados da Oxfam).

  • Austeridade pós-2008 priorizou resgate de grandes corporações em detrimento de cidadãos comuns e pequenos negócios.

  • Mais de 700 milhões de pessoas ainda vivem com fome, sem energia elétrica ou água.

Multilateralismo e Cooperação Internacional

  • OMC enfraquecida; a Rodada de Doha foi abandonada.

  • Ataques às instituições multilaterais ignoram seus benefícios históricos (ex: erradicação da varíola, preservação do ozônio).

  • Muitos países cortaram programas de cooperação, dificultando o avanço dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030.

  • Recursos escassos, burocracia elevada e condições inadequadas às realidades locais.

Crise Climática

  • 2024 foi o ano mais quente da história registrada.

  • Protocolo de Kyoto (com obrigações vinculantes) foi substituído por compromissos voluntários do Acordo de Paris.

  • A promessa feita na COP-15 em 2009 de US$ 100 bilhões por ano nunca foi cumprida.

  • Países mais ricos são os maiores emissores históricos de carbono, mas os mais pobres sofrem os piores impactos.

Propostas e Soluções

  • Rejeição à ideia de “desglobalização” — “não se pode desplanetar a existência compartilhada”.

  • Defesa de uma reconstrução do multilateralismo, com base em justiça, inclusão e representatividade real.

  • Citação do papel do Brasil na presidência do G20 (2024), BRICS e COP30 (2025) como exemplo de busca por consenso em cenários adversos.

  • Apelo urgente à valorização da diplomacia e da cooperação internacional para combater guerras, desigualdades e a destruição ambiental.

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