Presidente Lula critica tarifação do Governo Trump, defende soberania do Brasil e promete resposta diplomática e econômica

Presidente Lula afirma que não aceitará imposições dos EUA, denuncia pressão sobre o Judiciário e reforça estratégia de diversificação de mercados com China, Índia e BRICS.
Em entrevista à Reuters, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva critica a taxação de 50% imposta por Donald Trump às exportações brasileiras, defende a soberania nacional e afirma que buscará retaliações diplomáticas se as negociações falharem.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a imposição de tarifas de até 50% por parte dos Estados Unidos às exportações brasileiras representa uma medida “autoritária, antipolítica e anticivilizatória”, que rompe com uma tradição diplomática de mais de dois séculos entre os dois países. Em entrevista concedida nesta quarta-feira (06/08/2025) aos jornalistas Brad Haynes e Lisandra Paraguassu, da agência Reuters, Lula acusou o ex-presidente Donald Trump de agir sem diálogo, desrespeitando a soberania do Brasil e os canais institucionais de negociação.

Segundo o presidente, o governo brasileiro foi surpreendido pela medida tarifária, anunciada unilateralmente por Trump em cartas publicadas em seu site pessoal, sem qualquer comunicação oficial. Lula criticou a ausência de interlocução diplomática e ressaltou que, apesar da provocação, o Brasil ainda aposta no diálogo e evitará uma escalada retaliatória no curto prazo.

Na mesma entrevista, o chefe do Executivo reagiu com veemência às alegações de Trump de que a taxação seria uma resposta à suposta perseguição judicial contra Jair Bolsonaro. Lula classificou a justificativa como “inadmissível e infundada”, e destacou que a Suprema Corte brasileira é autônoma, julgando com base nas leis e provas, e não sob comando do Executivo. “Nenhum presidente da República pode dar ordens ao Judiciário. Nem aqui, nem nos EUA”, afirmou.

O presidente também acusou o deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, de agir como “traidor da pátria” ao buscar influenciar setores políticos e empresariais norte-americanos contra o Brasil. Para Lula, a atuação do clã Bolsonaro nos Estados Unidos configura uma ofensiva deliberada contra os interesses nacionais, que deveria ser investigada judicialmente.

Medidas para proteger empresas nacionais e manter empregos

Lula anunciou que sua equipe econômica está reunida para elaborar um pacote de medidas emergenciais com o objetivo de minimizar os prejuízos causados às empresas brasileiras afetadas pelas tarifas norte-americanas. Segundo o presidente, a prioridade é garantir a manutenção do emprego e da competitividade do setor exportador.

Mesmo sob pressão, o governo manterá o compromisso com a responsabilidade fiscal, mas não descarta ações diretas fora do Orçamento caso a crise se intensifique.

“A única certeza que tenho é que faremos o necessário. E o povo pode ter certeza de que não deixaremos ninguém para trás”, declarou.

Diversificação de mercados e críticas ao unilateralismo norte-americano

Ao comentar a política comercial do Brasil, Lula reforçou que a diversificação de parcerias internacionais é prioridade estratégica. Nos últimos dois anos e meio, o país abriu 398 novos mercados para suas exportações, com destaque para os avanços com China, Índia, União Europeia, países africanos e da Ásia-Pacífico. O presidente também enfatizou que, se os Estados Unidos não quiserem comprar, o Brasil buscará outros compradores.

Lula acusou Trump de adotar uma postura hostil ao multilateralismo, tentando esvaziar fóruns como a Organização Mundial do Comércio (OMC). Segundo ele, o Brasil poderá recorrer à OMC e buscar apoio de outros países para denunciar a prática abusiva das tarifas. “O multilateralismo protege os pequenos contra os grandes. E é isso que vamos fortalecer”, afirmou.

Compromissos ambientais e valorização da cadeia mineral nacional

A entrevista também abordou temas ambientais e energéticos. Lula confirmou que apresentará na COP30, que será realizada em Belém do Pará, a proposta de criação de um fundo internacional de preservação das florestas tropicais, chamado “Floresta Para Sempre”. A iniciativa pretende envolver países com áreas preservadas, como os da Amazônia, Indonésia e Congo, e cobrará dos países ricos o financiamento prometido em fóruns climáticos.

Outro ponto destacado por Lula foi a criação do Conselho Nacional de Minerais Estratégicos, que ficará vinculado à Presidência da República. O objetivo é garantir soberania e agregação de valor à produção nacional de minerais raros e insumos críticos para a transição energética. O presidente criticou o modelo de exportação bruta de matéria-prima e defendeu que o Brasil se transforme em um polo industrial estratégico nesse setor.

Relação com os Estados Unidos: respeito, mas sem subserviência

Apesar das críticas, Lula deixou claro que não deseja romper com os Estados Unidos, mas exige respeito mútuo. “Não tenho nada contra Trump, mas não vou me humilhar para falar com ele. Quando um não quer, dois não brigam. E eu não quero brigar com os Estados Unidos”, afirmou.

O presidente ressaltou que está disposto a ligar para Trump caso haja sinais de disposição ao diálogo, mas que, até o momento, as mensagens vindas da Casa Branca apontam apenas para ameaças e retaliações adicionais, sem abertura para negociações. Lula reforçou que a diplomacia brasileira seguirá trabalhando por alternativas e alianças estratégicas com o G20, BRICS e União Europeia.

Reação internacional e articulação com o BRICS

Lula confirmou que pretende acionar seus interlocutores no BRICS, como Xi Jinping (China) e Narendra Modi (Índia), para debater o impacto das medidas unilaterais dos EUA sobre o comércio global. Segundo ele, os países emergentes precisam se unir para proteger seus mercados e manter uma ordem econômica mais justa e equilibrada.

O presidente também pretende envolver México, França e União Europeia na construção de uma resposta internacional à política econômica trumpista.

“Estamos conversando com todo mundo. O Brasil não quer guerra comercial, mas também não aceitará imposições”, disse.

Diplomacia ativa, pragmática e multilateral

A entrevista de Lula à Reuters marca um ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Estados Unidos. O presidente mescla críticas contundentes ao protecionismo de Trump com um apelo ao multilateralismo e à racionalidade econômica. Ao mesmo tempo, busca projetar o Brasil como um ator independente, capaz de negociar com diferentes blocos e liderar pautas globais como a preservação ambiental e a transição energética.

Lula adota um discurso de defesa firme da soberania nacional, ao mesmo tempo em que evita medidas precipitadas ou retaliações simbólicas. A articulação com os BRICS e a União Europeia sinaliza uma estratégia mais ampla de realinhamento geopolítico e diversificação comercial. A tensão com os EUA, no entanto, pode se agravar caso a interlocução continue bloqueada e o clã Bolsonaro siga atuando como ponte para sanções externas.


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