CPMI expõe elo entre ex-diretor do INSS e chefe de esquema de fraudes a aposentados

Na segunda-feira (27/10/2025), a CPMI que investiga fraudes contra aposentados e pensionistas ouviu o ex-diretor de Governança do INSS, Alexandre Guimarães, que admitiu ter mantido negócios com Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como o “Careca do INSS”, apontado pela Polícia Federal (PF) como o chefe de um esquema de desvio de recursos previdenciários.

Guimarães foi categórico ao reconhecer transações entre sua empresa, Vênus Consultoria, e duas empresas ligadas ao “Careca” — a Brasília Consultoria e a Prospect — que juntas movimentaram mais de R$ 2 milhões. Apesar da admissão, ele negou qualquer envolvimento em irregularidades e sustentou que os valores se referem a serviços legítimos de educação financeira.

O esquema revelado: empresas de fachada e repasses simulados

Os parlamentares destacaram que o depoimento confirma o “modus operandi” já identificado pela PF: a criação de empresas de fachada usadas para lavagem de dinheiro e repasses simulados de contratos fictícios.

O senador Izalci Lucas (PL-DF) descreveu o padrão repetido de corrupção:

“O ‘modus operandi’ do ‘Careca’ foi esse: criar empresas e repassar recursos. Nenhuma ação foi tomada para beneficiar os aposentados — apenas o ‘Careca’ e seus comparsas.”

O relator, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), pressionou Guimarães sobre o vínculo financeiro e político com o grupo investigado. Segundo Gaspar, o ex-diretor criou a Vênus Consultoria já sob influência de Rubens Oliveira Costa, operador financeiro de Antunes, que o teria ajudado a abrir a empresa e indicar o contador Alexandre Caetano — o mesmo das empresas do “Careca”.

“O senhor virou diretor do INSS por indicação política, criou uma empresa administrada pelo operador financeiro do chefe da organização criminosa, recebeu mais de R$ 2 milhões desse conglomerado e quer nos convencer de que produziu tutoriais de educação financeira?”, questionou o relator.

Contradições e vínculos políticos sob suspeita

Guimarães afirmou que não possuía ingerência sobre a área de benefícios e que sua atuação se restringia à governança administrativa do INSS. Contudo, documentos apresentados pela PF indicam que as transações entre a Vênus Consultoria e o grupo do “Careca” coincidem com o período de maior volume de fraudes.

A senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) questionou o enriquecimento súbito do ex-diretor e criticou o fato de ele não ter apresentado o contrato de prestação de serviços à CPMI.

“O senhor vem aqui para responder sobre um contrato que não apresenta. Há mais esperteza do que inteligência nessa defesa”, afirmou.

Os parlamentares também questionaram as indicações políticas que levaram Guimarães ao cargo. Ele declarou que foi nomeado duas vezes — primeiro em 2017, durante o governo Temer, por meio de currículos enviados à liderança do governo André Moura (PSC-SE), e novamente em 2021, no governo Bolsonaro, por indicação do deputado Euclydes Pettersen (Republicanos-MG).

Reuniões, negócios e coincidências suspeitas

Durante o depoimento, Guimarães relatou ter conhecido o “Careca do INSS” em 2021, em um bar de Brasília, “por meio de amigos em comum”. Disse que só tomou conhecimento das acusações contra ele quando a Operação Sem Desconto veio a público.

Mesmo assim, admitiu ter realizado reuniões de negócios com o grupo de Antunes e recebido pagamentos diretos da Brasília Consultoria, empresa que seria usada para viabilizar os repasses ilícitos.

O presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), reagiu com dureza:

“Cada mentira dita aqui reforça a verdade que virá à tona. O país está entendendo que ninguém está acima do povo.”

Fraudes no INSS e prejuízo bilionário aos cofres públicos

De acordo com a Polícia Federal, o esquema desvendado envolveu associações e consultorias de fachada que descontavam valores indevidos de aposentadorias e pensões. As investigações estimam que o rombo aos cofres públicos ultrapassa R$ 6 bilhões.

Durante o período em que Guimarães ocupou a Diretoria de Governança (2021–2023), o número de denúncias de descontos não autorizados praticamente dobrou a cada ano. Ele atribuiu o aumento à “transferência da ouvidoria para dentro do próprio INSS”, que teria facilitado o recebimento de reclamações.

Parlamentares, porém, consideraram as explicações insuficientes, afirmando que o ex-diretor beneficiou-se do mesmo padrão de movimentação ilícita que marca outras investigações em curso.

Engrenagem de corrupção e impunidade sistêmica

O depoimento de Alexandre Guimarães expôs o funcionamento interno de um sistema de corrupção estrutural no INSS, sustentado por indicações políticas, consultorias fantasmas e repasses milionários disfarçados de contratos legítimos.

A CPMI revelou como a interligação entre gestores públicos e operadores privados cria uma “zona cinzenta” de responsabilidade, em que fraudes se repetem sem responsabilização efetiva. A resistência de Guimarães em apresentar provas concretas de sua defesa reforça a percepção de que parte da máquina estatal foi capturada por interesses particulares.

Esse caso soma-se a outros episódios recentes de desvio de recursos públicos e mostra a fragilidade dos mecanismos de controle interno, especialmente em órgãos de alta rotatividade política, como o INSS. A manutenção da impunidade nesse contexto ameaça não apenas o erário, mas a confiança social na Previdência — pilar de proteção dos mais vulneráveis.

*Com informações da Agência Câmara e Senado.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading