Relatório da OEA reconhece Tentativa de Golpe em 2022, frustra expectativas bolsonaristas e faz alertas sobre atuação do STF

O relatório da OEA sobre liberdade de expressão reconhece que o Brasil enfrentou tentativas de golpe após as eleições de 2022 e destaca o papel do STF na defesa da democracia. Embora alerte para riscos de concentração de poder e uso prolongado de medidas excepcionais, o documento rejeita a tese de censura generalizada, afirma a solidez das instituições democráticas e recomenda ajustes legais e institucionais para fortalecer a liberdade de expressão.
Relatório da OEA reconhece tentativa de golpe em 2022, destaca atuação do STF e recomenda ajustes institucionais sobre liberdade de expressão no Brasil.

Divulgado nesta sexta-feira (26/12/2025), o relatório final sobre liberdade de expressão no Brasil, elaborado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), vinculada à Organização dos Estados Americanos, reconhece que o país enfrentou tentativas deliberadas de deslegitimar o resultado das eleições de 2022 e a articulação de um golpe de Estado, ao mesmo tempo em que destaca o papel central do Supremo Tribunal Federal (STF) na defesa da ordem democrática. O documento, no entanto, frustra expectativas do bolsonarismo ao rejeitar a narrativa de censura generalizada e, paralelamente, faz alertas institucionais sobre riscos de concentração de poder e excepcionalidades que podem se tornar permanentes.

Relatório contraria expectativas criadas após encontro com Bolsonaro

O conteúdo do relatório não corresponde às expectativas alimentadas por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, que apostavam em uma condenação mais dura do Judiciário brasileiro. Em fevereiro de 2025, durante visita oficial ao país, o relator especial para liberdade de expressão, Pedro Vaca Villarreal, reuniu-se com Bolsonaro, que deixou o encontro demonstrando otimismo quanto ao teor do documento final.

Apesar desse contato, o relatório adota uma linha majoritariamente crítica às teses bolsonaristas, reconhecendo que houve planejamento e tentativa de execução de um golpe de Estado após o pleito presidencial de 2022, cujos resultados foram internacionalmente reconhecidos. Para a CIDH, a defesa da democracia é indissociável da garantia da liberdade de expressão.

Segundo o texto, “a liberdade de expressão requer uma sociedade democrática para ser plenamente exercida”, reforçando que ações estatais voltadas à preservação da ordem constitucional não podem ser automaticamente caracterizadas como censura.

Reconhecimento do papel do STF e alertas institucionais

O relatório destaca que o Supremo Tribunal Federal desempenhou papel fundamental ao instaurar procedimentos para investigar e enfrentar as ameaças ao regime democrático, especialmente após os episódios que culminaram nos atos de 8 de janeiro de 2023.

Ao mesmo tempo, a CIDH faz um alerta institucional relevante: medidas adotadas em caráter excepcional podem gerar precedentes duradouros, caso não sejam devidamente delimitadas no tempo e no alcance. O documento ressalta o risco de concentração de poder e adverte que soluções emergenciais não devem se transformar em mecanismos permanentes, sob pena de uso futuro por regimes com inclinações autoritárias.

Mesmo com essa ressalva, a comissão afirma que o Brasil mantém separação funcional entre os Poderes, autonomia judicial e um sistema de freios e contrapesos em funcionamento, afastando a ideia de colapso institucional ou ruptura democrática.

Avaliação sobre democracia, eleições e legado autoritário

Ao analisar o cenário político e institucional brasileiro, o relatório conclui que o país dispõe de instituições democráticas sólidas, realiza eleições livres e justas e opera sob o Estado de Direito, com arranjos constitucionais compatíveis com padrões nacionais e internacionais de direitos humanos.

A CIDH também contextualiza o debate ao apontar que o Brasil ainda carrega cicatrizes do período da ditadura militar, com a sobrevivência de práticas, discursos e normas autoritárias. Segundo o documento, a ausência de uma resolução plena desse passado, com políticas suficientes de memória, verdade e justiça, contribuiu para a permanência de distorções institucionais.

Nesse contexto, a comissão observa que o próprio Estado brasileiro, em diferentes momentos históricos, utilizou instrumentos repressivos — inclusive forças policiais — de maneira desproporcional, sobretudo contra grupos socialmente vulneráveis, o que complexifica o debate sobre liberdade de expressão e censura.

Recomendações centrais da OEA ao Brasil

Com base na análise realizada, a CIDH apresenta um conjunto de recomendações direcionadas principalmente ao sistema de Justiça e às autoridades públicas:

  • Excepcionalidade e proporcionalidade: medidas que restrinjam a liberdade de expressão devem ser temporárias, fundamentadas e estritamente necessárias.
  • Transparência processual: evitar sigilo excessivo em investigações relacionadas à liberdade de expressão.
  • Garantias judiciais: assegurar amplo direito de defesa, celeridade e publicidade em casos de bloqueio de perfis, remoção de conteúdo ou censura.
  • Descriminalização do desacato: rever o crime de desacato e atualizar os crimes contra a honra, em consonância com padrões interamericanos.
  • Combate ao assédio judicial: coibir o uso abusivo de ações judiciais estratégicas para silenciar críticos, jornalistas e defensores de direitos humanos.
  • Proteção à imprensa: fortalecer mecanismos de prevenção e punição de ameaças e violência contra profissionais da comunicação.
  • Regulação de plataformas: avançar na regulação das redes sociais com devido processo legal, evitando censura privada ou concentração excessiva de poder.

Equilíbrio institucional sob escrutínio internacional

O relatório da OEA possui relevância institucional ao rechaçar a narrativa de censura estrutural propagada por setores bolsonaristas, ao mesmo tempo em que reconhece a existência de riscos inerentes ao uso prolongado de medidas excepcionais pelo Judiciário. A leitura do documento é menos ideológica e mais funcional, centrada na preservação da democracia representativa.

O principal desdobramento está na legitimação internacional das investigações conduzidas pelo STF após a eleição de 2022, sem ignorar os riscos de precedentes institucionais. O texto aponta tensões reais entre defesa da democracia e garantias individuais, mas afasta diagnósticos de autoritarismo sistêmico.

Por fim, ao recomendar mudanças estruturais — como a revisão do crime de desacato e o enfrentamento do assédio judicial —, a OEA amplia o debate para além do embate político imediato, reposicionando a discussão sobre liberdade de expressão no Brasil em um horizonte institucional mais amplo e duradouro.


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