Documentos, comprovantes bancários e trocas de mensagens analisados pela imprensa indicam que contratos de até R$ 2 milhões teriam sido oferecidos a influenciadores alinhados à direita para questionar publicamente o processo de liquidação do Banco Master conduzido pelo Banco Central, em uma estratégia de comunicação descrita como “projeto DV”, referência às iniciais do banqueiro Daniel Vorcaro. As propostas previam cláusulas rígidas de confidencialidade, pagamentos proporcionais ao alcance dos perfis e a simulação de um movimento orgânico nas redes sociais contra o órgão regulador e foram reveladas em reportagem de Malu Gaspar e Johanns Eller, publicada nesta quinta-feira (08/01/2026) no jornal O Globo.
Propostas milionárias e cláusulas de sigilo
De acordo com o material obtido, os valores variavam conforme o número de seguidores. Um influenciador com mais de um milhão de seguidores teria recebido oferta de R$ 2 milhões por três meses, com a exigência de oito publicações mensais. Para perfis com menos de 500 mil seguidores, a remuneração mencionada foi de R$ 250 mil pelo mesmo período e quantidade de postagens.
Em ao menos um caso, o pagamento teria sido realizado antes da publicação do conteúdo, reforçando indícios de contratação formal, apesar da tentativa de manter a aparência de engajamento espontâneo.
Intermediação por agência e pagamentos
Segundo dois influenciadores que avançaram nas negociações, a contratação final teria sido feita pela Agência Mithi, controlada por Thiago Miranda, ex-CEO e sócio do Grupo Leo Dias. Comprovantes bancários indicariam que ao menos um pagamento partiu de conta ligada a Miranda. O grupo empresarial também tem como sócio majoritário o empresário Flávio Carneiro.
Procurado, Leo Dias afirmou que a agência não mantém relação com o portal que leva seu nome e que Thiago Miranda deixou a gestão em junho. Miranda não respondeu aos contatos até o fechamento desta reportagem.
Abordagens padronizadas e uso de NDA
Os relatos descrevem um roteiro repetido: abordagem inicial para participação em um “projeto de comunicação” voltado à gestão de crise de um executivo do mercado financeiro, sem identificação imediata do cliente. Detalhes e valores só seriam apresentados após a assinatura de um NDA (acordo de confidencialidade), mecanismo usado para evitar vazamentos e assegurar o sigilo absoluto.
Outro intermediário citado foi Junior Favoreto, do Portal Group BR, que declarou ter sido acionado por “outra agência” para indicar influenciadores, negando a formalização de contratos e qualquer vínculo com a Mithi.
Deputado relata recusa e interrupção de contato
Entre os abordados esteve o deputado estadual Leo Siqueira (Novo-SP), conhecido por críticas à condução do Banco Central. Segundo o parlamentar, o contato foi interrompido assim que percebeu indícios de que se tratava de uma operação ligada a Daniel Vorcaro. Em mensagem recebida em 21 de dezembro, um publicitário se apresentou como integrante da estrutura da Agência Mithi e do Grupo Leo Dias.
Siqueira afirmou que só confirmou a ligação com o Banco Master após a divulgação de propostas semelhantes na imprensa, envolvendo os mesmos interlocutores.
Contexto judicial e medidas cautelares
O episódio ocorre em meio a um complexo embate institucional envolvendo a liquidação do banco, questionamentos no Supremo Tribunal Federal e no Tribunal de Contas da União. Daniel Vorcaro foi preso em novembro de 2025, no Aeroporto de Guarulhos, durante a Operação Compliance Zero, sob suspeita de tentativa de fuga, e libertado dias depois mediante monitoramento eletrônico.
No período em que as propostas teriam sido feitas a influenciadores, o banqueiro cumpria medidas cautelares, incluindo restrições de contato com outros investigados, o que adiciona sensibilidade jurídica às iniciativas descritas.
Estrutura do “projeto DV”
Documentos indicam que o serviço oferecido era internamente denominado “projeto DV”, reforçando a associação direta com o controlador do banco. O objetivo central seria minar a credibilidade do Banco Central nas redes sociais, por meio de conteúdos que levantassem suspeitas sobre a legalidade e a motivação da liquidação, sem transparência sobre patrocínio ou interesse econômico.
Omissões relevantes
O caso expõe tensões recorrentes entre regulação financeira, interesses privados e comunicação digital, em um ambiente no qual influenciadores passaram a ocupar papel central na formação de opinião política e econômica. A tentativa de mascarar campanhas pagas como mobilização espontânea representa um desafio direto à transparência do debate público.
Persistem omissões relevantes, como a ausência de esclarecimentos da Agência Mithi e de Thiago Miranda sobre vínculos contratuais e fontes de recursos. Também permanecem incertas as eventuais implicações legais da contratação de influenciadores durante o cumprimento de medidas cautelares por parte do banqueiro.
O episódio reforça a necessidade de critérios mais rígidos para publicidade política e econômica nas redes sociais, bem como de coordenação entre órgãos de controle para coibir estratégias de desinformação que possam afetar a estabilidade do sistema financeiro e a confiança nas instituições reguladoras.
*Com informações da Folha de S.Paulo, Estadão, Veja, Poder360 e o Globo.
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