A CPI do Crime Organizado realiza nesta quarta-feira (18/03/2026), no Senado Federal, uma reunião decisiva para ampliar o alcance de suas apurações sobre possíveis conexões entre agentes políticos, estruturas empresariais e operações financeiras suspeitas. A pauta oficial prevê a deliberação de 37 requerimentos, incluindo pedidos de convocação, transferências de sigilo bancário, fiscal, telefônico e telemático, além de solicitações de informações ao Coaf e à CVM. Entre os nomes que entraram no centro da agenda estão o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, a ex-assessora de Michelle Bolsonaro Giselle dos Santos Carneiro da Silva, o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto e o ex-ministro da Economia Paulo Guedes.
Reunião desta quarta amplia o foco da investigação
A reunião da CPI está marcada para as 9h, no Senado, e combina duas frentes centrais: a votação de requerimentos e a oitiva de personagens ligados ao sistema financeiro. Após a fase deliberativa, a comissão deve ouvir o ex-diretor de Fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza e Vladimir Timerman, fundador da Esh Capital, em depoimentos voltados ao esclarecimento de mecanismos de supervisão, estruturação de operações e eventuais falhas de controle no mercado.
A pauta revela uma inflexão importante da CPI. O eixo da comissão, inicialmente associado ao enfrentamento do crime organizado em sentido mais tradicional, avançou para um terreno mais amplo, que inclui lavagem de dinheiro, estruturas societárias, fundos de investimento, crédito consignado e supostas conexões entre o sistema financeiro e organizações sob investigação. Documentos do Senado mostram que os requerimentos mais recentes miram pessoas físicas, empresas e fundos que passaram a ser tratados como peças estratégicas para o rastreamento de fluxos financeiros.
Nesse contexto, a comissão passou a mirar não apenas operadores privados, mas também personagens com projeção nacional. O movimento dá à CPI um peso político adicional, sobretudo por alcançar nomes ligados ao entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro e, ao mesmo tempo, antigos dirigentes da política econômica e monetária do país.
Valdemar, ACM Neto e Giselle entram na linha de convocação
Entre os requerimentos em destaque está o pedido de convocação de Valdemar da Costa Neto, presidente nacional do PL. Segundo a Agência Senado, o requerimento foi apresentado pelo senador Humberto Costa e se apoia em referências a doações eleitorais e vínculos indiretos com personagens investigados no caso do Banco Master.
Outro nome politicamente sensível na pauta é ACM Neto. O requerimento de convocação, também citado pelo Senado, foi justificado pela necessidade de esclarecer o avanço das investigações sobre possíveis conexões entre agentes públicos, estruturas empresariais e organizações sob apuração. No texto do requerimento mencionado pela Agência Senado, há referência a relatório do Coaf segundo o qual uma empresa de consultoria ligada a ACM Neto teria recebido R$ 3,6 milhões do Banco Master e da Reag entre 2023 e 2024.
A ex-assessora de Michelle Bolsonaro Giselle dos Santos Carneiro da Silva também aparece entre os nomes sujeitos à convocação. A inclusão de Giselle reforça o alargamento político da investigação, que já não se limita a executivos, operadores e fundos, alcançando personagens do núcleo de relações do bolsonarismo. A própria relação de itens da pauta registra requerimento específico para sua convocação.
Guedes, Campos Neto e João Roma sob medidas de aprofundamento
No campo econômico, a comissão também concentra atenção sobre figuras centrais da antiga equipe liberal do governo Bolsonaro. Roberto Campos Neto figura em requerimentos de convocação e em pedidos de quebra ou transferência de sigilo relativos a operações entre 2022 e 2026, conforme a Agência Senado.
No caso de Paulo Guedes, há requerimento específico de convocação já apresentado à CPI, com justificativa de aprofundamento das investigações. O nome do ex-ministro também aparece no material jornalístico que circula sobre a reunião desta quarta como um dos alvos de medidas de investigação reforçada.
A pauta também alcança o ex-ministro João Roma e o ex-ministro da Cidadania Ronaldo Vieira Bento, mostrando que a comissão vem conectando a apuração financeira a agentes com passagem pelo Executivo federal. Em paralelo, o advogado Willer Tomaz aparece em requerimentos de convocação e de transferência de sigilos, o que indica interesse da CPI em reconstruir redes de assessoria, intermediação e eventual influência jurídica nas estruturas investigadas.
Prime Aviation e Fraction 024 entram no centro da CPI
Além dos nomes políticos, a CPI intensifica o escrutínio sobre empresas que passaram a ocupar posição central no inquérito parlamentar. Entre elas, destacam-se a Prime Aviation Participações e Serviços S.A. e a Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., citadas em diversos requerimentos.
As medidas incluem convocações e transferências de sigilo envolvendo Artur Martins de Figueiredo, João Gustavo Haenel Neto, Flavio Daniel Aguetoni, Rodolfo Garcia da Costa e Marcus Vinicius da Mata, todos relacionados, segundo os documentos da CPI, à estrutura societária ou à administração dessas companhias. Requerimentos oficiais já registram, por exemplo, pedido de quebra de sigilo de Marcus Vinicius da Mata, presidente da Prime Aviation, e de Artur Martins de Figueiredo, apontado como diretor da Fraction 024.
O interesse da comissão sobre essas empresas sugere uma tentativa de seguir o rastro patrimonial e operacional de ativos considerados relevantes para o caso, inclusive aeronaves e estruturas empresariais associadas a operações financeiras investigadas. Em linguagem de CPI, isso significa deslocar o foco do discurso político para a anatomia material das relações societárias e do trânsito de recursos.
Coaf, CVM e fundos entram como peças-chave da apuração
Outro bloco importante da pauta envolve pedidos de informação ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras e à Comissão de Valores Mobiliários. Um dos requerimentos pede à CVM a identificação completa dos beneficiários finais de fundos exclusivos ou restritos vinculados, geridos ou administrados pelo Banco Master ou pela Reag Investimentos desde janeiro de 2022.
Esse ponto é especialmente sensível porque toca o núcleo de opacidade que frequentemente envolve estruturas de investimento sofisticadas. A CPI tenta descobrir quem, em última instância, está por trás de fundos e veículos financeiros que, na avaliação dos parlamentares, podem ter sido usados em operações sob suspeita. A iniciativa demonstra que a comissão procura ir além dos executivos formais e alcançar os verdadeiros controladores econômicos dessas engrenagens.
Também aparecem na pauta nomes como Letícia Caetano dos Reis, Ahmed Mohamad Oliveira, Francisco Craveiro de Carvalho Junior, além de empresas e fundos mencionados no material jornalístico, como Arleen FIP, Laguz FIDC, Clínica Mais Médicos S.A., A&M Consultoria Empresarial, Prime Aviation, Fraction 024 e Consult Inteligência Tributária. Parte desses alvos já aparece formalmente em requerimentos da CPI, com pedidos de informação ou transferência de sigilo.
Oitivas desta quarta miram fiscalização e engenharia financeira
Na segunda parte da reunião, a comissão ouvirá Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização do Banco Central. Segundo o Senado, os parlamentares pretendem esclarecer mecanismos de supervisão, falhas de controle e eventuais brechas exploradas no sistema financeiro por organizações criminosas ou por operadores de estruturas sob suspeita.
Também será ouvido Vladimir Timerman, fundador da Esh Capital. A expectativa é que o depoimento trate da movimentação de recursos, da montagem de estruturas financeiras e de possíveis relações entre empresas de investimento e agentes investigados pela CPI. A presença de Timerman reforça a linha de investigação que busca entender como o sistema financeiro pode ter sido instrumentalizado em operações de maior complexidade.
A escolha desses depoentes não é casual. Ambos se situam em pontos estratégicos para a CPI: um ligado à fiscalização estatal e outro à operação privada de estruturas de mercado. A combinação permite aos senadores testar se houve falha institucional, omissão regulatória ou sofisticação privada capaz de dificultar o rastreamento de recursos.
Estruturas empresariais opacas
A pauta desta quarta mostra que a CPI do Crime Organizado atravessou uma fronteira política relevante. O colegiado já não atua apenas como espaço de exposição de episódios criminais isolados; passou a operar como arena de investigação sobre a interseção entre poder político, sistema financeiro e estruturas empresariais opacas. Quando uma CPI desloca seu foco para ex-ministros, ex-dirigentes do Banco Central, presidentes partidários e fundos de investimento, ela altera a escala do debate público.
O principal desdobramento possível é duplo. No plano institucional, a comissão pode produzir documentação e quebras de sigilo capazes de abastecer investigações administrativas, policiais e judiciais. No plano político, porém, a CPI também se torna terreno de disputa narrativa entre governo, oposição e atores econômicos atingidos. Esse é o ponto clássico das CPIs brasileiras: elas podem iluminar fatos relevantes, mas também correm o risco de transformar apuração em palco de guerra política.
Há ainda uma tensão evidente entre a gravidade das suspeitas e a necessidade de prova robusta. A lista de convocados e investigados é ampla, mas amplitude não substitui consistência probatória. O êxito da comissão dependerá menos do impacto dos nomes e mais da capacidade de demonstrar, com documentos, rastreamento financeiro e coerência jurídica, se houve de fato conexão material entre as estruturas citadas e práticas criminosas. Sem isso, a CPI corre o risco de produzir muito ruído e pouca consequência institucional duradoura.
*Com informações do jornal O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Poder360, Metrópoles, CNN, Revista Veja e Agências Brasil, Reuters, RFI, Sputnik e BBC Brasil.











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