A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) prepara uma mobilização religiosa de escala inédita no país ao alugar simultaneamente nove estádios de futebol em diferentes capitais brasileiras para o evento “Família ao Pé da Cruz”, previsto para a Sexta-feira da Paixão, em 3 de abril de 2026. A iniciativa, organizada pela denominação fundada pelo bispo Edir Macedo, busca reunir milhares de fiéis em arenas como Maracanã, Neo Química Arena, Pacaembu, Mané Garrincha, Arena do Grêmio, Fonte Nova, Independência, Mangueirão e Albertão, em uma celebração religiosa tradicional às vésperas da Páscoa. Nos bastidores políticos, porém, o movimento também é interpretado como uma demonstração de força do eleitorado evangélico e do partido Republicanos, legenda associada à igreja e presidida pelo deputado federal Marcos Pereira.
Mobilização religiosa inédita em estádios
A proposta da Igreja Universal consiste em realizar celebrações simultâneas em nove grandes arenas esportivas, distribuídas por diferentes regiões do país. A organização pretende lotar os estádios, promovendo cultos, orações e apresentações religiosas em um formato que combina evangelização e mobilização pública.
Embora eventos religiosos em estádios não sejam novidade no Brasil, a estratégia de reservar múltiplas arenas ao mesmo tempo é considerada inédita em escala nacional. A logística envolve custos elevados, estrutura de produção e coordenação entre diversas cidades.
Entre os estádios previstos para o evento estão:
- Maracanã (Rio de Janeiro)
- Neo Química Arena (São Paulo)
- Pacaembu (São Paulo)
- Mané Garrincha (Brasília)
- Arena do Grêmio (Porto Alegre)
- Fonte Nova (Salvador)
- Independência (Belo Horizonte)
- Mangueirão (Belém)
- Albertão (Teresina)
A celebração ocorre no contexto da Sexta-feira da Paixão, data central do calendário cristão, que tradicionalmente mobiliza grandes eventos religiosos em diversas igrejas.
Dimensão política do evento
Embora oficialmente apresentado como encontro de fé e família, o evento ganhou interpretação política nos bastidores de Brasília. A mobilização ocorre em um momento de disputa intensa pelo apoio do eleitorado evangélico nas eleições nacionais e estaduais.
Um dos articuladores da iniciativa é o bispo Renato Cardoso, genro de Edir Macedo e frequentemente apontado como um dos possíveis sucessores do fundador da igreja. Em vídeos divulgados nas redes sociais, Cardoso destacou o encontro como um grande ato de afirmação da família e dos valores religiosos.
A mobilização também ocorre em meio a um cenário de tensões políticas envolvendo o eleitorado evangélico. Levantamento recente da Quaest indicou que 61% dos evangélicos desaprovam o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto 33% manifestam aprovação.
Outro episódio recente citado por lideranças religiosas foi o desfile de escola de samba que homenageou Lula e incluiu referências satíricas a símbolos conservadores. Apesar de pesquisa Datafolha indicar impacto limitado entre os eleitores, o tema continua sendo utilizado em discursos políticos e religiosos.
Republicanos busca reafirmar protagonismo
A mobilização nacional ocorre em um momento de reposicionamento político do Republicanos, partido associado historicamente à Igreja Universal.
A legenda tem demonstrado incômodo com o espaço reduzido nas negociações eleitorais conduzidas tanto pelo PT, no campo governista, quanto pelo PL, principal força da oposição.
Nos bastidores políticos, duas articulações nacionais ganham destaque:
- O campo bolsonarista discute alianças com União Brasil e PP, além da possibilidade de vice-presidência para lideranças como Romeu Zema (Novo) ou Ratinho Jr. (PSD).
- O governo federal trabalha para ampliar alianças com partidos do centro, especialmente o MDB.
Nesse contexto, o Republicanos avalia manter neutralidade na eleição presidencial em um eventual primeiro turno, concentrando esforços nas disputas estaduais.
Custos e financiamento dos eventos religiosos
A realização de eventos religiosos em estádios envolve custos elevados de aluguel, estrutura e produção. Em alguns casos recentes, contratos de locação de arenas ultrapassaram milhões de reais.
Um exemplo citado no mercado de eventos ocorreu em dezembro de 2025, quando a Igreja Batista Lagoinha realizou um show gospel na Neo Química Arena, em São Paulo, pagando cerca de R$ 2,9 milhões pelo aluguel do estádio.
Já o Pacaembu, recentemente privatizado, tem valores de locação próximos de R$ 1,25 milhão para eventos realizados no gramado.
Eventos religiosos também podem contar com apoio institucional ou patrocínio de governos locais. Em São Paulo, por exemplo, um encontro religioso recente recebeu R$ 4 milhões em apoio da prefeitura. No Rio de Janeiro, o governo estadual anunciou R$ 5 milhões em patrocínio para o evento da Universal no Maracanã.
Relação histórica entre a Universal e Lula
A relação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a Igreja Universal passou por diferentes fases ao longo das últimas décadas.
Nos anos 1980 e 1990, o bispo Edir Macedo criticou duramente o petista e utilizou o jornal Folha Universal para associar Lula a religiões afro-brasileiras, frequentemente alvo de ataques da denominação.
A partir dos anos 2000, porém, ocorreu uma aproximação política. A igreja apoiou as campanhas presidenciais de Lula e posteriormente as duas eleições de Dilma Rousseff, em 2010 e 2014.
Mais recentemente, o Republicanos também se aproximou de setores da direita e apoiou Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 e 2022. Atualmente, o partido mantém posição pragmática, ocupando espaços na estrutura federal, como o Ministério de Portos e Aeroportos.
Disputas internas e projetos eleitorais
Além das articulações nacionais, o Republicanos enfrenta tensões internas sobre candidaturas e estratégias eleitorais.
No Rio de Janeiro, por exemplo, o partido avalia possíveis nomes para disputar o governo estadual ou uma vaga no Senado. Entre os nomes em discussão estão:
- Waguinho Carneiro, ex-prefeito de Belford Roxo
- Ítalo Marsili, psiquiatra e influenciador digital que avalia filiação partidária
Outra disputa envolve o deputado federal Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo e ex-prefeito do Rio de Janeiro. Crivella articula candidatura ao Senado e tem adotado posições alinhadas ao bolsonarismo, defendendo publicamente a anistia aos presos dos atos de 8 de janeiro de 2023.
A direção do Republicanos, contudo, sinaliza preferência para que Crivella dispute novamente uma vaga na Câmara dos Deputados, onde poderia atuar como puxador de votos.
*Com informações do Jornal O Globo.








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