Documentário sobre Jair Bolsonaro estreia com sessões vazias, exalta ex-presidente e omite derrota eleitoral e condenação por tentativa de golpe

O documentário A Colisão dos Destinos, produção de 70 minutos sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, estreou nos cinemas na quinta-feira (14/05/2026) com relatos de sessões esvaziadas, narrativa centrada na exaltação pessoal do ex-presidente e ausência de temas decisivos de sua biografia política recente, como a derrota eleitoral de 2022, a condenação no STF por tentativa de golpe de Estado e o papel público de Michelle Bolsonaro. Dirigido por Doriel Francisco, da Dori Filmes, com produção do ex-secretário de Cultura Mario Frias, o filme reúne depoimentos de familiares, aliados e parlamentares próximos, em uma construção audiovisual que busca apresentar uma versão humanizada do ex-presidente, mas evita confrontar episódios institucionais centrais do período posterior à eleição presidencial vencida por Luiz Inácio Lula da Silva em 30/10/2022, conforme resultado oficial do Tribunal Superior Eleitoral.

Filme apresenta versão favorável de Bolsonaro e evita episódios centrais da trajetória recente

O documentário é apresentado como uma obra destinada a mostrar a “história não contada” de Bolsonaro. Segundo o conteúdo-base, a produção inclui depoimentos do próprio ex-presidente, de irmãos, filhos, assessores e aliados políticos, entre eles Mario Frias, Nikolas Ferreira, Hélio Lopes e Gil Diniz. O roteiro é assinado por Doriel Francisco e William Alves, enquanto o argumento é creditado a Eduardo Bolsonaro e Mario Frias.

Na estrutura narrativa, o filme percorre a infância, a adolescência, a carreira militar e a ascensão política de Bolsonaro até a Presidência da República. A abordagem, porém, concentra-se em testemunhos elogiosos e não incorpora dados jornalísticos, documentos oficiais ou contrapontos sobre os principais fatos que marcaram o governo federal entre 2019 e 2022.

A ausência de Michelle Bolsonaro entre os entrevistados chama atenção por seu papel político crescente no campo conservador, especialmente após o fim do mandato presidencial. A omissão é relevante porque Michelle se tornou figura recorrente em agendas públicas, eventos partidários e articulações eleitorais do bolsonarismo, inclusive em movimentos de mobilização feminina e religiosa.

Sessões vazias marcam estreia em salas de cinema

De acordo com o texto-base, A Colisão dos Destinos estreou em salas do Distrito Federal e de estados de todas as regiões do país, incluindo São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e Ceará. A produção também realizou pré-estreias para convidados em Brasília, São Paulo, Recife, Curitiba e Fortaleza.

Apesar da distribuição nacional, a estreia foi marcada por baixa presença de público em algumas sessões. Em Embu das Artes, na Grande São Paulo, a sessão acompanhada pelo g1 registrou sete espectadores. Ainda segundo o relato, outras salas do interior paulista indicavam média de cinco a seis ingressos vendidos pouco antes da exibição.

O desempenho inicial contrasta com a tentativa de transformar o documentário em peça de mobilização política. O lançamento ocorre em um momento de forte disputa narrativa em torno do legado de Bolsonaro, da reorganização do campo de direita e da exposição pública de Flávio Bolsonaro em meio a reportagens sobre contatos com o banqueiro Daniel Vorcaro.

Produção ocorre em meio à repercussão do caso Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro

A estreia do documentário coincidiu com a repercussão de mensagens publicadas pelo The Intercept Brasil envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Segundo a Associated Press, Flávio negou irregularidades após a divulgação de áudios nos quais teria pedido R$ 61 milhões para financiar um filme intitulado The Dark Horse, obra distinta de A Colisão dos Destinos.

A Reuters também noticiou que o caso repercutiu no mercado financeiro brasileiro e associou o episódio a questionamentos sobre a relação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, que se tornou alvo de investigação no contexto da crise do Banco Master. Segundo a agência, Flávio declarou que se tratava de patrocínio privado, sem contrapartida ilícita.

A Agência Brasil informou, em 19/05/2026, que a operação da Polícia Federal contra fraudes envolvendo o Banco Master completou seis meses, com prisões de investigados e afastamento de dirigentes ligados ao BRB no curso das apurações. O caso ampliou o desgaste político em torno da família Bolsonaro e passou a integrar a agenda de cobranças no Congresso e no sistema financeiro.

Derrota de 2022 e condenação de Bolsonaro ficam fora da narrativa

Um dos pontos centrais da crítica ao documentário é a ausência da derrota de Jair Bolsonaro na eleição presidencial de 2022. O resultado oficial do TSE confirmou a vitória de Lula no segundo turno, realizado em 30/10/2022, quando o petista obteve 50,83% dos votos válidos contra 49,17% de Bolsonaro, com 98,91% das urnas apuradas no momento da confirmação matemática do resultado.

A omissão também alcança a condenação de Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal. Em 11/09/2025, o STF fixou pena de 27 anos e três meses para o ex-presidente, apontado como líder de organização criminosa no julgamento relacionado à tentativa de golpe de Estado. A decisão foi divulgada pelo próprio Supremo e marcou um dos episódios mais relevantes da história política e judicial recente do país.

Em maio de 2026, a Agência Brasil informou que a defesa de Bolsonaro apresentou revisão criminal ao STF para tentar anular a condenação. A reportagem registrou que o ex-presidente foi condenado por cinco crimes: organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado pela violência e grave ameaça e deterioração de patrimônio tombado.

Pandemia é tratada sem menção às conclusões da CPI da Covid

Outro ponto sensível está na forma como o filme aborda a pandemia de Covid-19. Segundo o conteúdo-base, o deputado Hélio Lopes afirma no documentário que Bolsonaro “não errou uma” durante a crise sanitária. A obra, porém, não menciona as conclusões da CPI da Pandemia, instalada no Senado para investigar ações e omissões do governo federal no enfrentamento da Covid-19.

O relatório final da CPI foi apresentado em 20/10/2021 pelo senador Renan Calheiros, após quase seis meses de trabalhos. Segundo a Agência Senado, o documento atribuiu nove crimes a Jair Bolsonaro e reuniu mais de mil páginas de apuração sobre a condução da pandemia pelo governo federal.

Em 26/10/2021, a CPI aprovou o relatório final e pediu 80 indiciamentos, incluindo o do então presidente da República. A Agência Brasil registrou que um dos pontos principais do documento sugeria o indiciamento de Bolsonaro por nove crimes, em um dos episódios parlamentares mais relevantes do período da pandemia.

Construção religiosa e personalização política encerram a obra

O documentário encerra, segundo o texto-base, com depoimentos de irmãos e filhos de Bolsonaro que atribuem ao ex-presidente uma missão de caráter religioso. A última sequência apresenta imagens de Bolsonaro sendo ovacionado por apoiadores, discursando em palanques e celebrando vitórias políticas.

Essa opção narrativa reforça a personalização da trajetória do ex-presidente e desloca o foco de uma análise histórica para uma construção simbólica voltada à fidelização de apoiadores. O recurso é comum em produções de propaganda política, nas quais a biografia do personagem central é organizada em torno de superação, sacrifício, predestinação e culto à liderança.

Do ponto de vista jornalístico, a lacuna mais expressiva está na ausência de contraponto documental. Uma obra biográfica pode adotar recorte favorável, mas, quando omite fatos decisivos e verificáveis, reduz sua capacidade de funcionar como registro histórico abrangente e passa a se aproximar de um produto de mobilização política.

Documentário revela disputa pela memória política do bolsonarismo

A estreia de A Colisão dos Destinos ocorre em um contexto no qual a memória pública do governo Bolsonaro permanece em disputa. O documentário procura fixar uma narrativa de liderança, perseguição e missão pessoal, mas evita enfrentar fatos institucionais que já integram o registro oficial do país, como a derrota eleitoral de 2022, as investigações sobre a pandemia e a condenação criminal no STF.

A principal tensão está entre a liberdade de produção audiovisual e o dever de precisão histórica. Uma obra documental não é obrigada a reproduzir todos os fatos da vida de seu personagem, mas a omissão sistemática de episódios centrais reduz sua densidade informativa. No caso de Bolsonaro, deixar de fora o resultado das urnas, a CPI da Covid e a condenação por tentativa de golpe significa retirar do espectador elementos indispensáveis para compreender a dimensão política do personagem.

O lançamento também expõe a tentativa de reorganização simbólica do campo bolsonarista em meio à crise judicial e à sucessão política da direita. A baixa presença de público nas sessões iniciais, se confirmada em outras praças, indica um contraste entre o peso digital do bolsonarismo e sua capacidade de converter mobilização política em audiência cinematográfica. Ainda assim, o filme tende a cumprir função estratégica junto ao núcleo mais fiel de apoiadores, mais como peça de identidade política do que como documento histórico equilibrado.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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