A Assembleia Legislativa da Bahia concederá ao jornalista, escritor, professor e poeta Florisvaldo Mattos a Comenda Dois de Julho, em sessão marcada para a próxima quinta-feira, 11/06/2026, às 10h, no Plenário da ALBA, em Salvador. A honraria, uma das mais relevantes distinções do Legislativo baiano, foi proposta pelo deputado estadual Adolfo Menezes e aprovada por unanimidade pelos 63 parlamentares da Casa, em reconhecimento à trajetória intelectual, jornalística, literária e cultural de um dos nomes mais representativos da imprensa e da poesia baianas.
A cerimônia de outorga da Comenda Dois de Julho terá caráter duplo. Além da homenagem institucional, Florisvaldo Mattos lançará, pelo selo ALBA Cultural, a reedição ampliada de “Mares Anoitecidos”, obra poética ambientada no contexto da invasão holandesa à Bahia, entre 1624 e 1625. A nova edição conta com prefácio do escritor Alexei Bueno.
Ao justificar a concessão da honraria, o deputado Adolfo Menezes destacou a relevância histórica de Florisvaldo Mattos para a vida cultural da Bahia. Segundo o parlamentar, o homenageado, aos 94 anos, permanece em atividade intelectual e representa uma geração marcada por intensa produção literária, jornalística, artística e política.
Menezes classificou Florisvaldo como “último remanescente” de um período considerado especialmente fértil na cultura e no jornalismo baianos, ao lado de nomes como Jorge Amado, James Amado, Glauber Rocha, Adonias Filho, Zélia Gattai, Sante Scaldaferri, Paulo Gil Soares, Capinam, Ruy Espinheira Filho, Carybé, Myriam Fraga, Calasans Neto, Jeová de Carvalho, Fernando da Rocha Peres e Jorge Medauar.
De Uruçuca à Academia de Letras da Bahia
Florisvaldo Moreira de Mattos nasceu em 8 de abril de 1932, em Uruçuca, então chamada Água Preta, distrito de Ilhéus, na região cacaueira do sul da Bahia. É filho do comerciante e agricultor Oscar Moreira de Mattos e de Gertrudes Ferreira de Freitas.
Casado há 43 anos com Vera Pessoa de Mattos, Florisvaldo tem três filhos — Elzinha, Mauro e Joana — e seis netos: Guilherme, Beatriz, Anaís, Marina, Benjamin e Bernardo.
A origem no território cacaueiro baiano marcou parte expressiva de sua produção literária. A paisagem, a memória regional, as tensões sociais e o imaginário histórico da Bahia aparecem de forma recorrente em sua obra poética e ensaística.
Formação acadêmica, magistério e atuação na imprensa
Em 1958, Florisvaldo Mattos formou-se em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. No mesmo ano, ingressou no jornalismo, atividade que exerceu de forma ativa até 2011, consolidando uma trajetória de mais de cinco décadas nas redações baianas.
Ao longo da carreira, colaborou com o Jornal da Bahia e atuou no Diário de Notícias, veículo integrante dos Diários Associados, grupo fundado por Assis Chateaubriand. Nas redações, exerceu funções de repórter, redator e colunista, participando de uma etapa decisiva da imprensa baiana no século XX.
Também pela Universidade Federal da Bahia, concluiu Mestrado em Ciências Sociais. Em 1962, ingressou como professor na UFBA, onde permaneceu no magistério superior até 1994. Fez ainda especialização em Jornalismo e Documentação pela Escuela Superior de Periodismo, em Madri, na Espanha.
Professor de gerações do jornalismo baiano
A atuação de Florisvaldo Mattos como professor teve influência direta na formação de sucessivas gerações de jornalistas, escritores e intelectuais baianos. O reconhecimento como mestre ultrapassou os limites da universidade e alcançou as redações, os círculos literários e os espaços de debate público.
Entre os nomes citados como discípulos, colegas ou companheiros de jornada estão Emiliano José, Sérgio Emmanuel, Jorge Calmon, João Carlos Teixeira Gomes, Carlos Libório, Paolo Marconi, Fernando Vita, Tasso Franco, Bob Fernandes, Zé Cerqueira Filho, Elieser Cesar, Carlos Navarro, Adilson Borges, Paulo Bina, Nice Melo, Suzana Varjão, Alberto Freitas, Rogaciano Medeiros, Gilmar Medeiros, Socorro Araújo, Carla Copello, Adalberto Meireles, Washington Souza Filho, Anaiçara Póvoas, Eduardo Cruz, Rosane Santana, Chico Ribeiro Neto, Isabel Santos, Gorette Brandão, Carlos Ribas, Suely Temporal, Cris Barude, Paulo Renan, Casemiro Neto, José Américo, Ana Lúcia Xarutto, Doris Pinheiro, Anna Valéria, Solange Galvão, Patrícia França, Nádya Risocelly e Jeane Borges.
Essa dimensão pedagógica reforça o alcance institucional da homenagem. A Comenda Dois de Julho não reconhece apenas uma carreira individual, mas uma contribuição prolongada à formação intelectual e profissional da imprensa baiana.
Geração Mapa, Cinema Novo e Tropicália
Florisvaldo Mattos integrou, ao lado de Glauber Rocha, a chamada Geração Mapa, movimento cultural iniciado no Colégio Central da Bahia. O grupo reuniu nomes como João Carlos Teixeira Gomes, Fernando Peres, Paulo Gil Soares, Calasans Neto, Sante Scaldaferri, João Ubaldo Ribeiro, Sônia Coutinho e David Salles.
A Geração Mapa teve papel relevante na vida cultural da Bahia e influenciou expressões decisivas da arte brasileira, como o Cinema Novo, associado à obra de Glauber Rocha, e a Tropicália, vinculada à renovação musical e estética promovida por artistas como Gilberto Gil e Caetano Veloso.
A participação de Florisvaldo nesse ambiente confirma sua posição como personagem de ligação entre literatura, jornalismo, cinema, artes plásticas, pensamento crítico e vida universitária. Sua trajetória atravessa diferentes campos da cultura, mantendo diálogo permanente com a memória histórica da Bahia.
Academia de Letras da Bahia e reconhecimento literário
Florisvaldo Mattos é membro da Academia de Letras da Bahia. Foi eleito em 28 de dezembro de 1994 e tomou posse em 26 de novembro de 1995, ocupando a Cadeira 31. Na cerimônia de posse, foi saudado pelo jornalista e escritor João Carlos Teixeira Gomes, conhecido como Joca, o “Pena de Aço”.
Em 1996, recebeu da União Brasileira de Escritores o Prêmio Ribeiro Couto de Poesia, concedido pelo livro “A Caligrafia do Soluço e Poesia Anterior”. A premiação consolidou o reconhecimento nacional de sua obra poética.
A produção de Florisvaldo Mattos combina lirismo, memória, historicidade e atenção à vida social. Em seus livros, a Bahia aparece não apenas como cenário, mas como estrutura simbólica de reflexão sobre o tempo, a linguagem, a cultura e a identidade regional.
Obras publicadas por Florisvaldo Mattos
Ao longo da carreira literária, Florisvaldo Mattos publicou obras de poesia, ensaio, crítica, prosa e estudos sobre comunicação. Entre os títulos mencionados estão:
- “Reverdor”, 1965;
- “Fábula Civil”, 1975;
- “Dois Poemas para Glauber Rocha”, 1985;
- “A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior”, 1996;
- “Estação de Prosa & Diversos”, 1997;
- “A Comunicação Social na Revolução dos Alfaiates”, 1998;
- “Mares Anoitecidos”, 2000;
- “Galope Amarelo & Outros Poemas”, 2001;
- “Travessia do Oásis – A Sensualidade na Poesia de Sosígenes Costa”, 2004;
- “Poesia Reunida & Inéditos”, 2011;
- “Sonetos Elementais – Uma Antologia”, 2012;
- “Estuário dos Dias & Outros Poemas”, 2016;
- “Antologia Poética & Inéditos”, 2017;
- “Tertúlia Democrática”, 2019;
- “Cacaueiros – Poesia. Conto. Teatro”, 2022;
- “Academia dos Rebeldes & Outros Exercícios Redacionais”, 2023;
- “Catorze janelas abertas: sonetos reunidos, com inéditos”.
A diversidade da bibliografia evidencia um autor que transitou entre a poesia, a crítica cultural, o memorialismo intelectual e a pesquisa em comunicação social. A reedição ampliada de “Mares Anoitecidos” pela ALBA Cultural recoloca em circulação uma obra que articula literatura e história, tomando como referência um episódio central da formação colonial baiana.








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