Florisvaldo Mattos recebe Comenda 2 de Julho da ALBA em homenagem à trajetória no jornalismo e na literatura da Bahia

A Assembleia Legislativa da Bahia — ALBA — concedeu nesta quinta-feira (11/06/2026) a Comenda 2 de Julho ao jornalista, escritor, professor e poeta Florisvaldo Moreira de Mattos, em sessão especial realizada no Plenário Orlando Spínola, em Salvador. Proposta pelo deputado estadual Adolfo Menezes (PSD), a homenagem reconheceu a trajetória de um dos nomes centrais do jornalismo cultural baiano, da literatura regional e da formação de gerações de jornalistas pela Universidade Federal da Bahia — UFBA. Aos 94 anos, o homenageado foi saudado por familiares, ex-alunos, colegas de redação, autoridades públicas, representantes de entidades jornalísticas e integrantes da vida cultural da Bahia.

ALBA reconhece legado de Florisvaldo Mattos no jornalismo, na literatura e na educação

A sessão solene reuniu representantes da política, da imprensa, da academia e das artes em torno da concessão de uma das mais importantes honrarias do Legislativo baiano. A cerimônia teve a presença de ex-alunos da Faculdade de Comunicação da UFBA, colegas de redações por onde Florisvaldo Mattos passou e membros da Academia de Letras da Bahia, instituição na qual o escritor ocupa a Cadeira nº 31.

A homenagem foi marcada por forte carga simbólica. Florisvaldo Mattos ingressou no plenário acompanhado por jornalistas formados sob sua influência acadêmica e profissional. A solenidade também contou com o cortejo do Afoxé Filhos de Gandhy, apresentações musicais e manifestações culturais que reforçaram a dimensão pública da homenagem.

Em seu discurso, Adolfo Menezes afirmou que a concessão da Comenda 2 de Julho deveria ter ocorrido antes, mas destacou o significado especial de presidir a cerimônia em momento de encerramento de sua própria trajetória parlamentar. “Nada foi escolhido, nada foi combinado com o destino”, declarou o deputado, ao associar a homenagem ao reconhecimento da Bahia à obra e à vida pública de Florisvaldo Mattos.

Adolfo Menezes exalta trajetória de “Mestre Flori”

Ao justificar a honraria, Adolfo Menezes descreveu Florisvaldo Mattos como um intelectual cuja obra ultrapassa o tempo imediato da notícia e se projeta como memória cultural da Bahia. O parlamentar afirmou que o homenageado, aos 94 anos, permanece como “o menino que andava sob os cacaueiros da Fazenda São Salvador” e que continua a alimentar “todos os sonhos do mundo”.

Menezes também ressaltou a presença de Florisvaldo Mattos em diferentes dimensões da vida intelectual baiana. A carreira do homenageado passou pelo jornalismo diário, pelo magistério superior, pela crítica cultural, pela poesia e pela gestão pública na área da cultura. Essa combinação explica o alcance da solenidade: não se tratou apenas de uma homenagem individual, mas do reconhecimento de uma geração que ajudou a formar a identidade moderna da imprensa e das letras na Bahia.

Em um dos trechos mais emocionados da cerimônia, Adolfo Menezes afirmou estar triste e, ao mesmo tempo, contente por prestar a homenagem. Segundo ele, a Comenda 2 de Julho simboliza o reconhecimento da Bahia à contribuição de Florisvaldo Mattos “à cultura, ao bom jornalismo” e à defesa da liberdade e da democracia.

Sessão também marcou despedida simbólica de Adolfo Menezes

A homenagem teve uma camada política adicional. Adolfo Menezes indicou que aquela provavelmente seria sua última sessão solene na Assembleia Legislativa da Bahia. O deputado afirmou que a cerimônia coincidia com “o quase fim” de sua atividade parlamentar, conferindo ao ato um tom de despedida institucional.

A deputada Olívia Santana participou da condução dos trabalhos e comandou uma salva de palmas, com o plenário de pé, em reverência ao ex-presidente da ALBA. A presença de parlamentares, autoridades e representantes culturais reforçou o caráter suprapartidário da homenagem.

A presidente da ALBA, deputada Ivana Bastos, enviou mensagem de saudação a Florisvaldo Mattos. No texto, definiu o homenageado como integrante de uma linhagem de homens que “dão voz ao próprio tempo” e transformam em palavras os sonhos, as inquietações e a identidade de uma geração.

Florisvaldo Mattos agradece homenagem e revisita trajetória

Em discurso de tom confessional, Florisvaldo Mattos agradeceu a Adolfo Menezes e à Assembleia Legislativa pela concessão da Comenda 2 de Julho. O poeta afirmou que recebia a honraria como reconhecimento de uma vida dedicada à escrita, à imprensa e à cultura.

Começo pelo dever de agradecimento, merecido e sincero”, afirmou o homenageado, ao destacar a importância da cerimônia e da atuação do deputado na valorização de sua obra. Florisvaldo também associou a homenagem ao trabalho editorial da ALBA Cultural, responsável pela publicação e reedição de obras ligadas à memória cultural baiana.

O escritor relembrou a infância na região cacaueira, a passagem por Água Preta — atual município de Uruçuca —, a juventude em Itabuna e a chegada a Salvador. Em sua fala, a memória pessoal apareceu como matéria-prima literária. A paisagem rural, os trilhos, o cacau, os rios e a vida nas pequenas localidades do sul da Bahia foram apresentados como elementos formadores de sua sensibilidade poética.

Da região cacaueira às redações baianas

Nascido em 8 de abril de 1932, em Água Preta do Mocambo, atual Uruçuca, Florisvaldo Mattos formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia em 1958. No mesmo ano, ingressou no jornalismo, profissão que exerceria por quase 53 anos, passando por veículos como Jornal da Bahia, Diário de Notícias, Jornal do Brasil e A Tarde.

Na imprensa, atuou como repórter, redator, colunista, correspondente, chefe de sucursal, editor e editor-chefe. Sua trajetória expressa uma fase clássica do jornalismo brasileiro, marcada por redações intensas, formação artesanal do repórter, domínio da escrita e convivência direta entre literatura, política, cultura e imprensa.

Um dos episódios relembrados por Florisvaldo Mattos tratou de sua aprendizagem sobre técnica jornalística no Jornal da Bahia. Ao narrar a orientação recebida de Ariovaldo Matos, chefe de reportagem, o homenageado recordou a lição sobre a abertura objetiva da notícia: “É assim que se começa uma reportagem”. A passagem sintetiza a transição entre a prosa literária do antigo “nariz de cera” e a adoção da pirâmide invertida, técnica que marcou a modernização do jornalismo impresso.

Magistério na UFBA e formação de gerações

Além da atuação em jornais, Florisvaldo Mattos teve papel relevante na formação universitária de jornalistas. Ingressou como professor da UFBA em 1962 e exerceu o magistério superior até 1994, período em que contribuiu para a formação de profissionais que ocupariam posições de destaque em redações baianas e nacionais.

O diretor da Faculdade de Comunicação da UFBA, Washington de Souza Filho, lembrou sua convivência com o homenageado e afirmou que Florisvaldo escreveu seu nome na formação de centenas de jornalistas. A presença de ex-alunos na cerimônia reforçou a dimensão pedagógica de sua trajetória.

Florisvaldo Mattos também concluiu mestrado em Ciências Sociais pela UFBA e especialização em jornalismo e documentação pela Escuela Superior de Periodismo, em Madri. Essa formação, associada à experiência prática nas redações, ajudou a consolidar sua imagem como intelectual de fronteira entre jornalismo, literatura, história cultural e análise social.

Geração Mapa, Academia de Letras da Bahia e produção literária

Florisvaldo Mattos integrou a Geração Mapa, movimento cultural surgido no ambiente intelectual baiano da segunda metade do século XX. O grupo reuniu nomes como Glauber Rocha, Paulo Gil Soares, Calasans Neto, Fernando da Rocha Peres, João Carlos Teixeira Gomes, Sônia Coutinho e David Salles, influenciando campos como literatura, cinema, teatro, artes plásticas e jornalismo.

Em seu discurso, o poeta relembrou o encontro com Glauber Rocha, que teria procurado o autor de “Composição de Ferrovia” para conhecer aquele que considerava uma das vozes modernistas da Bahia. O episódio evidencia a circulação de Florisvaldo Mattos em um ambiente de intensa experimentação estética e política.

Eleito para a Academia de Letras da Bahia em 28 de dezembro de 1994, Florisvaldo tomou posse em 26 de novembro de 1995, na Cadeira nº 31. A entrada na instituição consolidou seu reconhecimento como escritor e poeta, após décadas de produção literária e atuação no jornalismo cultural.

Obra reúne poesia, ensaio, memória e cultura baiana

Ao longo da carreira, Florisvaldo Mattos publicou obras de poesia e ensaio, entre elas Reverdor (1965), Fábula Civil (1975), A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior (1996), Mares Anoitecidos (2000), Poesia Reunida & Inéditos (2011), Tertúlia Democrática (2019), Academia dos Rebeldes & Outros Exercícios Redacionais (2023), Catorze janelas abertas: sonetos reunidos, com inéditos (2024) e Ponteio com tercetos sensoriais (2026).

Durante a solenidade, houve o lançamento da edição revista e ampliada de Mares Anoitecidos, pelo selo ALBA Cultural. A obra é ambientada no contexto da invasão holandesa à Bahia, entre 1624 e 1625, e recebeu prefácio do escritor Alexei Bueno na nova edição.

A reedição reforça a relação entre memória histórica e elaboração poética na obra de Florisvaldo Mattos. Seu percurso literário articula temas como infância, cacau, mundo rural, cidade, amor, solidão, liberdade, tempo e morte, sempre com forte enraizamento na experiência baiana.

Autoridades e entidades prestigiam sessão especial

A mesa da solenidade reuniu representantes do Legislativo, da cultura, da imprensa e de entidades profissionais. Entre os presentes estavam a deputada Olívia Santana, presidente da comissão ligada à área de educação e cultura; a prefeita de Uruçuca, Magnólia Barreto; o presidente da Academia de Letras da Bahia, Aleilton Fonseca; o vice-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, Moacy Neves; a presidente da Associação Bahiana de Imprensa, Suely Temporal; e a presidente do Sindicato dos Jornalistas da Bahia, Fernanda Gama.

Também participaram a deputada federal Lídice da Mata, o ex-presidente da OAB-BA Luiz Viana Queiroz, o escritor e poeta Ruy Espinheira Filho, representantes da Secretaria de Comunicação do Estado da Bahia e integrantes da estrutura de comunicação da ALBA.

A prefeita Magnólia Barreto destacou o orgulho de Uruçuca pela trajetória de Florisvaldo Mattos. A homenagem, segundo a gestora, reconhece tanto o escritor consagrado quanto o menino de Água Preta que transformou suas memórias em referência literária.

Cultura popular, música e memória marcaram a cerimônia

A solenidade foi marcada por manifestações artísticas que dialogaram com a biografia e os afetos do homenageado. Além dos Filhos de Gandhy, participaram a Banda do Centro de Formação da Polícia Militar, sob regência do maestro tenente Aristóteles, o músico e maestro Marcos Roriz, a jornalista e cantora Rita Tavarez e o repentista Jessé Machado.

As apresentações incluíram referências musicais e poéticas associadas ao universo cultural de Florisvaldo Mattos. Rita Tavarez interpretou canções de predileção do homenageado, enquanto Marcos Roriz apresentou composição baseada em poema de Sosígenes Costa, figura decisiva na formação literária de Florisvaldo.

Ao final da cerimônia, o poeta autografou exemplares de Mares Anoitecidos no Saguão Nestor Duarte, dando sequência ao caráter duplo do evento: homenagem institucional e celebração literária.


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