O deputado estadual Rosemberg Pinto (PT), líder do governo na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), reagiu nesta quarta-feira (03/06/2026) às críticas feitas pelo pré-candidato ao governo da Bahia ACM Neto sobre a qualidade da educação no estado. Em tom duro, o parlamentar afirmou que o ex-prefeito de Salvador “não tem moral” para dar lições sobre o tema e associou a gestão municipal anterior a déficits na educação infantil, à falta de creches e a questionamentos envolvendo o programa Pé na Escola, atualmente sob apuração de órgãos de controle.
Para Rosemberg Pinto, a tentativa de ACM Neto de transformar a educação estadual em alvo central do debate político ignora problemas acumulados na capital baiana durante os anos em que o grupo político do ex-prefeito comandou a Prefeitura de Salvador.
“Quem deixou Salvador com a pior taxa de alfabetização infantil entre as capitais brasileiras não tem o direito de apontar o dedo para ninguém”, afirmou o deputado, segundo texto divulgado à imprensa.
O parlamentar também cobrou explicações sobre promessas de ampliação de creches que, segundo ele, não teriam sido cumpridas na escala necessária durante a administração de ACM Neto. A crítica mira especialmente a política municipal de educação infantil, área em que a oferta de vagas públicas tem sido historicamente um dos principais desafios das grandes capitais brasileiras.
Programa Pé na Escola entra no centro da disputa política
Rosemberg citou o programa Pé na Escola, criado pela Prefeitura de Salvador para ampliar o atendimento na educação infantil por meio do custeio de vagas em instituições privadas conveniadas. O programa passou a ser investigado pelo Ministério Público Federal (MPF) na Bahia e também foi objeto de recomendação do Ministério Público da Bahia (MP-BA), diante de suspeitas de irregularidades, falhas de planejamento, uso excessivo de vagas privadas e possível desvio da função complementar da política pública.
De acordo com informações publicadas pelo Bahia Notícias, o MPF instaurou inquérito civil para apurar possíveis irregularidades na execução do programa em Salvador, incluindo suspeitas de transferência excessiva de recursos públicos para instituições privadas, o que poderia sugerir processo de privatização indireta da educação infantil em detrimento da rede municipal.
O MPBA também recomendou a revisão dos critérios do Pé na Escola, ressaltando que a utilização de vagas em instituições privadas deve ter caráter excepcional, temporário e subsidiário, apenas quando esgotadas as possibilidades de atendimento pela rede pública municipal.
Deputado ironiza proposta de alinhar educação ao mercado
Rosemberg também criticou a proposta de ACM Neto de aproximar a educação das demandas do mercado de trabalho. Para o líder governista, o discurso do ex-prefeito estaria dissociado dos problemas concretos da educação infantil em Salvador.
“O mercado que interessa a ele certamente não é o do trabalho. É o mercado que atende os negócios dos amigos”, afirmou Rosemberg, em referência às suspeitas envolvendo contratos e repasses no âmbito do programa Pé na Escola.
Bahia registra avanço no Ideb do ensino médio estadual
Na defesa da gestão estadual, Rosemberg citou o avanço da Bahia no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Segundo dados divulgados pelo Governo da Bahia com base em levantamento do Ministério da Educação, o Ideb do ensino médio estadual passou de 3,2 em 2019 para 3,5 em 2021 e 3,7 em 2023, configurando crescimento em três edições consecutivas.
O Ideb, indicador criado em 2007 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), combina dois fatores: o fluxo escolar, medido por dados de aprovação, e o desempenho dos estudantes no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb). O índice varia de 0 a 10 e é utilizado como referência nacional para monitorar a qualidade da educação básica.
Para o governo estadual, a melhora no indicador é apresentada como resultado de investimentos em infraestrutura escolar, ampliação do tempo integral e reorganização da rede de ensino.
Governo da Bahia cita expansão do tempo integral
Outro ponto destacado por Rosemberg é a expansão das escolas em tempo integral na rede estadual. O Governo da Bahia informou que, entre 2023 e 2025, destinou R$ 9,5 bilhões à infraestrutura escolar, incluindo modernização, ampliação de unidades e entrega de novas escolas em tempo integral.
Em abril de 2026, o governo estadual anunciou um pacote com 95 novas escolas de tempo integral, com previsão de contemplar diferentes territórios de identidade da Bahia. A medida integra a estratégia da gestão estadual de ampliar a permanência dos estudantes na escola e melhorar as condições de aprendizagem.
No plano nacional, o Inep informou que o Brasil atingiu em 2025 o maior percentual de matrículas em tempo integral dos últimos quatro anos, com avanço de 15,1% para 25,8% na rede pública entre 2021 e 2025. O órgão atribuiu parte desse crescimento ao Programa Escola em Tempo Integral, criado em 2023 pelo Ministério da Educação.
Bahia aparece entre os estados com maior volume de inscrições no Enem
A Bahia também figura entre os estados com maior participação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Em 2025, o Ministério da Educação informou que o estado teve 428.019 inscrições confirmadas, das quais 103.317 eram de estudantes concluintes do ensino médio público.
O dado é utilizado politicamente pelo governo estadual para sustentar a tese de ampliação do acesso dos jovens baianos ao ensino superior. Embora o número de inscrições não meça, isoladamente, qualidade educacional, ele indica capilaridade do exame no estado e relevância da Bahia no universo nacional de candidatos ao Enem.
Para Rosemberg, os indicadores de Ideb, Enem e expansão da rede física contradizem a narrativa de ACM Neto.
“Os números do Ideb, do Enem e das centenas de escolas entregues por todo o estado falam por si. Neto pode repetir a narrativa no palanque, mas a realidade das crianças de Salvador sem creche e sem alfabetização é o verdadeiro legado dele”, afirmou.
Debate sobre educação deve marcar disputa de 2026
A reação de Rosemberg Pinto ocorre em um contexto de antecipação do debate eleitoral de 2026. ACM Neto, que já disputou o governo da Bahia em 2022, tem intensificado críticas à gestão estadual, enquanto aliados do governador Jerônimo Rodrigues procuram associar o ex-prefeito a problemas administrativos herdados da capital.
No campo educacional, a disputa tende a se concentrar em dois eixos: de um lado, a oposição deve explorar os baixos indicadores históricos da Bahia em avaliações nacionais; de outro, o governo estadual buscará destacar investimentos recentes, avanços no Ideb e expansão do tempo integral.
Rosemberg concluiu afirmando que o debate sobre educação é legítimo, mas deve ser feito com responsabilidade.
“Quem não construiu o que prometeu não pode cobrar de quem está construindo”, declarou.








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