Na terça-feira (02/06/2026), em Feira de Santana, o empresário Juscelino Brito de Oliveira, presidente da CDL Feira e diretor da Rede de Farmácias Brito, concedeu entrevista a Carlos Augusto, editor do Jornal Grande Bahia, e defendeu a implantação da Zona Azul, a requalificação do Centro, a organização dos espaços públicos, a criação de soluções adequadas para comerciantes populares e a redução dos juros como medidas necessárias para melhorar o ambiente de negócios e preservar a competitividade do comércio feirense.
Zona Azul deve priorizar consumidor, afirma presidente da CDL
Carlos Augusto — Qual é a expectativa da CDL em relação à implantação da Zona Azul em Feira de Santana?
Juscelino Brito — A Zona Azul vai melhorar muito. A ideia é trazer o consumidor para o Centro. Mas só isso não resolve. O Centro está ficando empobrecido e precisa também de iniciativas.
Brito avaliou que o estacionamento rotativo pode favorecer o comércio ao ampliar a rotatividade de vagas e reduzir a ocupação prolongada de áreas estratégicas por trabalhadores, lojistas ou usuários que permanecem muitas horas no mesmo local. Para ele, a prioridade deve ser o consumidor.
O empresário afirmou que, em suas lojas, evita ocupar vagas destinadas aos clientes, pois compreende que o espaço próximo ao estabelecimento deve facilitar o acesso de quem vai comprar. A adaptação de trabalhadores e empresários ao novo modelo, segundo ele, será necessária.
Limite de tempo preocupa lojistas e consumidores
Apesar de defender a Zona Azul, Brito ponderou que o funcionamento do sistema precisa considerar o tempo real de permanência do consumidor no Centro. Ele citou a possibilidade de o prazo de duas horas ser insuficiente para quem precisa realizar compras, circular por diferentes lojas ou resolver demandas mais demoradas.
Segundo o presidente da CDL, o modelo ideal dependerá da forma como o equipamento será implementado. Ele mencionou a necessidade de entender se o sistema será digital, se permitirá renovação de tempo e como atenderá consumidores que precisem permanecer por períodos superiores ao limite inicial.
A preocupação indica que a Zona Azul deve ser compreendida como parte de uma política de mobilidade, e não como medida isolada. Sua eficácia dependerá de regras claras, fiscalização adequada, comunicação eficiente e integração com outras ações de ordenamento urbano.
Organização do Centro exige solução para comércio popular
Carlos Augusto — Como o senhor avalia a ocupação irregular de calçadas, praças e ruas no Centro de Feira de Santana?
Juscelino Brito — A ideia de um shopping popular para alocar feirantes é extremamente importante. Às vezes, essas pessoas estão à deriva da chuva e do sol. Há dificuldade até para ir ao banheiro, para guardar alimentos e manter condições adequadas.
O presidente da CDL afirmou que o debate sobre ocupação urbana não deve ser tratado como simples remoção de trabalhadores. Para ele, é necessário oferecer dignidade, estrutura e condições adequadas a quem busca sustento no comércio popular.
Brito defendeu que o poder público pense em equipamentos apropriados para acolher esses trabalhadores, com banheiros, proteção contra chuva e sol, organização, higiene, segurança e condições de armazenamento. A medida, segundo ele, beneficiaria tanto os comerciantes quanto consumidores e lojistas formais.
CDL afirma ter papel estratégico no debate sobre a cidade
Carlos Augusto — Qual deve ser o papel da CDL nas discussões sobre urbanismo, mobilidade e desenvolvimento de Feira de Santana?
Juscelino Brito — A CDL tem um papel fundamental. Todo prefeito inteligente deve andar de mãos dadas com a CDL, porque a entidade pensa em Feira como um todo. Ela não pensa apenas na rua ou no comércio, mas em uma cidade grande.
Brito afirmou que temas como organização do Centro, mobilidade, desenvolvimento econômico e infraestrutura fazem parte das reuniões e pautas da entidade. Segundo ele, a CDL não atua apenas em campanhas promocionais, mas também em agendas institucionais de longo prazo.
Como exemplo, o dirigente citou a Missão Brasília, iniciativa que levou cerca de 300 empresários à capital federal e apresentou 14 pautas relacionadas ao desenvolvimento de Feira de Santana. Entre os temas mencionados estão centro de convenções, Anel de Contorno e hospital de oncologia.
Centro Administrativo é visto como oportunidade urbana
Durante a entrevista, Carlos Augusto abordou a proposta de implantação de um Centro Administrativo em área central de Feira de Santana, no entorno do antigo complexo do Caroá, entre a Avenida Getúlio Vargas e a Rua Senhor dos Passos. O projeto foi apresentado como possibilidade de reconfiguração urbana mais ampla, com áreas verdes, ciclovias, praças, chafarizes e equipamentos de convivência.
Brito avaliou positivamente o debate sobre iniciativas capazes de requalificar o Centro. Na visão do empresário, o centro comercial da cidade precisa de projetos que ampliem fluxo, melhorem o ambiente urbano e tornem a região mais atrativa para consumidores, trabalhadores, moradores e investidores.
A concentração de serviços públicos municipais em área central pode ter impacto direto sobre o comércio tradicional, ao gerar circulação diária de pessoas e reforçar a centralidade histórica da região. Para o varejo, planejamento urbano e ambiente comercial são dimensões inseparáveis.
Juros altos são considerados insustentáveis
Carlos Augusto — Como o sistema empresarial avalia o impacto dos juros elevados sobre a economia?
Juscelino Brito — É insustentável. Você não pode gastar mais do que ganha. Com a taxa Selic nesse patamar, o que vemos são empresas que não conseguem crescer nem se desenvolver.
Brito afirmou que os juros elevados dificultam investimentos, expansão de lojas, contratação de crédito e crescimento empresarial. Segundo ele, empresas que desejam abrir novas unidades ou ampliar operações encontram obstáculos na relação entre custo financeiro e margem de resultado.
O empresário também associou a alta dos juros ao aumento de pedidos de recuperação judicial. Para ele, muitas empresas não suportam o custo do capital, a retração do consumo e a pressão sobre margens, o que restringe a capacidade de sobrevivência e expansão.
Custo da máquina pública entra na crítica empresarial
Na avaliação do presidente da CDL, a taxa de juros está relacionada ao desequilíbrio das contas públicas e ao custo de operação da máquina estatal. Brito defendeu que o governo enfrente esse problema para permitir redução dos juros e retomada do investimento produtivo.
Segundo ele, empresários ficam desestimulados a investir quando aplicações financeiras oferecem retorno elevado com menor risco. Esse ambiente favorece o rentismo e reduz o interesse por investimentos produtivos, que exigem contratação, estoque, estrutura, risco operacional e exposição ao mercado.
Para Brito, sem redução dos juros, o Brasil tende a permanecer em situação de baixo dinamismo, com empresas estáticas, consumidores endividados e empreendedores cautelosos diante da incerteza econômica.
Modernização do varejo exige atenção ao consumidor informado
Carlos Augusto — O que precisa ser preservado no comércio de Feira de Santana e o que deve ser modernizado com urgência?
Juscelino Brito — O empresário precisa estar atento às mudanças. Há empresas rápidas, à frente do seu tempo, mas também há empresas que pararam há 30 anos e continuam com pensamento de 30 anos atrás.
O dirigente afirmou que o varejo precisa incorporar ferramentas de inteligência artificial, melhorar processos internos, qualificar equipes e aumentar a velocidade de resposta ao consumidor. Para ele, a modernização passa pela loja, pela gestão, pelo atendimento e pela compreensão do novo comportamento de compra.
Brito ressaltou que o consumidor chega à loja mais informado. Ele já pesquisou preço, cor, tamanho, características e alternativas. Por isso, o lojista precisa oferecer atendimento qualificado, disponibilidade de produto, experiência de compra e competitividade.
Competitividade continua sendo condição central
Mesmo defendendo modernização, Brito afirmou que tecnologia não resolve tudo se o comércio local não tiver condições competitivas. Segundo ele, o cliente pode ver o produto na loja, experimentar, avaliar e depois comprar pela internet caso encontre preço muito inferior.
Essa preocupação reforça a defesa feita pelo presidente da CDL em relação à tributação de importados, ao custo Brasil e à necessidade de equilíbrio entre empresas brasileiras e plataformas digitais. Para ele, o varejo local precisa inovar, mas também necessita de ambiente econômico justo.
A visão apresentada pelo empresário combina tradição e mudança: preservar a força comercial de Feira de Santana, mas modernizar práticas, qualificar empresas, reorganizar o Centro e melhorar as condições econômicas para que o varejo continue competitivo.
A segunda parte da entrevista com Juscelino Brito amplia o debate para além das vendas e campanhas promocionais. O presidente da CDL relaciona a força do comércio de Feira de Santana a temas urbanos e macroeconômicos: estacionamento, ordenamento do Centro, infraestrutura, juros, competitividade, custo público e modernização empresarial.
A defesa da Zona Azul é relevante porque toca em um problema antigo do comércio central: a dificuldade de acesso do consumidor. No entanto, o próprio entrevistado reconhece que o estacionamento rotativo não resolve isoladamente o empobrecimento urbano do Centro. A cidade precisa enfrentar ocupações irregulares, qualificar espaços públicos, criar soluções dignas para comerciantes populares e promover projetos estruturantes.
O ponto mais contundente está na crítica aos juros elevados. Sem crédito viável, a expansão empresarial torna-se improvável, e o comércio tende a sobreviver em ritmo defensivo. A preservação da vocação comercial de Feira de Santana dependerá da capacidade de combinar tradição, planejamento urbano, inovação, competitividade tributária e ambiente macroeconômico menos hostil ao investimento produtivo.
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