Na terça-feira (02/06/2026), em Feira de Santana, o empresário Juscelino Brito de Oliveira, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Feira de Santana (CDL Feira) e diretor da Rede de Farmácias Brito, concedeu entrevista a Carlos Augusto, editor do Jornal Grande Bahia, na qual avaliou o desempenho do comércio no primeiro semestre de 2026, apontou desaceleração nas vendas, destacou o impacto do endividamento das famílias, criticou a concorrência considerada desigual dos marketplaces internacionais e defendeu campanhas promocionais como instrumento de fortalecimento do varejo local.
Perfil do entrevistado
Juscelino Brito de Oliveira tem 54 anos, é empresário, preside a CDL Feira e atua há 32 anos como diretor da Rede de Farmácias Brito. À frente da entidade lojista, representa um dos setores mais tradicionais da economia feirense, em uma cidade historicamente marcada pelo comércio de rua, pelo varejo regional, pelo setor de serviços, pelo Centro de Abastecimento e pela influência econômica sobre municípios do entorno.
Durante a entrevista, Brito afirmou que o primeiro semestre de 2026 apresentou desempenho inferior ao observado em 2025. Segundo ele, o comércio local sente os efeitos da perda de capacidade de consumo, da inadimplência elevada, do endividamento das famílias, da carga tributária e da concorrência digital.
O dirigente também defendeu que o setor produtivo precisa ser tratado com mais atenção pelas políticas públicas, pois comércio, indústria e varejo são segmentos diretamente responsáveis pela circulação de renda, geração de empregos e sustentação da atividade econômica.
Comércio tem primeiro semestre abaixo do esperado
Carlos Augusto — Como o senhor avalia o desempenho da atividade comercial de Feira de Santana no primeiro semestre de 2026?
Juscelino Brito — O primeiro semestre não está indo bem. Percebemos no Brasil uma situação que não está evoluindo. Há uma dificuldade principalmente do cliente na compra, além do endividamento. O primeiro semestre não está tendo o mesmo perfil de 2025.
Brito estimou que o desempenho comercial do período gira em torno de 4% a 5%, considerando que maio e junho tradicionalmente são meses importantes para o varejo. Maio concentra o impacto do Dia das Mães, enquanto junho reúne o Dia dos Namorados e o ciclo junino, período historicamente relevante para o comércio de Feira de Santana.
Mesmo com essas datas, o presidente da CDL afirmou que o setor não observa desempenho equivalente ao de anos anteriores. A avaliação indica um cenário de cautela entre lojistas, especialmente em segmentos mais sensíveis à renda disponível do consumidor.
Endividamento das famílias preocupa o varejo
Carlos Augusto — O Brasil registra um número elevado de pessoas endividadas. Como essa realidade afeta o comércio?
Juscelino Brito — Eu não acredito que medidas pontuais resolvam, porque temos vários fatores. O assistencialismo precisa ser mais trabalhado, porque ele não gera renda. Há dificuldade para encontrar mão de obra, e as empresas estão sofrendo com funcionários endividados.
Na avaliação do empresário, a inadimplência compromete diretamente o desempenho do varejo. Consumidores endividados reduzem compras, priorizam gastos essenciais e passam a depender mais de crédito, parcelamento e promoções. Esse ambiente limita a capacidade de expansão das empresas e afeta a previsibilidade das vendas.
Brito também citou as bets como um problema social e econômico. Segundo ele, as apostas digitais chegaram a um público ainda sem educação financeira adequada para lidar com esse tipo de oferta. Para o dirigente, a exposição nas redes sociais a influenciadores que associam jogos a ganhos elevados cria uma distorção de expectativa e agrava o endividamento de parte da população.
Marketplaces e importados ampliam pressão sobre lojistas
Carlos Augusto — A venda pela internet e os marketplaces têm afetado o comércio local?
Juscelino Brito — A internet tem impactado muito. Os marketplaces criam uma dificuldade grande, porque há uma competitividade desleal. Falamos da chamada taxa da blusinha. O governo retirou a taxa de produtos de até 50 dólares, e isso torna a concorrência muito difícil.
O presidente da CDL defendeu que a discussão sobre tributação de importados deve considerar a igualdade de condições entre empresas nacionais e vendedores estrangeiros. Para ele, se o produto importado recebe benefício tributário, empresas brasileiras também deveriam ter tratamento equivalente para preservar competitividade.
Brito afirmou que o problema não está apenas na tributação de compras internacionais, mas no conjunto de custos enfrentados por empresas brasileiras. Carga tributária, encargos, burocracia, logística e obrigações trabalhistas formam um ambiente que, na visão do empresário, reduz a margem de operação e desestimula investimentos.
Segmentos essenciais resistem melhor, mas também podem ser afetados
Carlos Augusto — Quais segmentos têm demonstrado maior capacidade de crescimento? Vestuário, calçados, supermercados, farmácias, serviços, alimentação ou tecnologia?
Juscelino Brito — Há segmentos que serão impactados mais tarde, mas serão. Supermercados cresceram com a chegada de grandes atacadões em Feira de Santana. Farmácia também é um segmento que cresce e sente menos, porque envolve necessidade, mas também será impactado.
A análise do empresário indica que os setores ligados a itens essenciais tendem a resistir melhor em momentos de renda comprimida. Supermercados, atacarejos e farmácias continuam registrando movimento por atenderem demandas permanentes da população.
No entanto, Brito ressalta que a desaceleração econômica não poupa completamente esses segmentos. Mesmo em áreas essenciais, o consumidor muda hábitos, pesquisa preços, reduz itens supérfluos e busca alternativas de menor custo, o que pressiona margens e exige maior eficiência operacional das empresas.
Feira de Santana mantém influência regional, mas internet reduz deslocamentos
Carlos Augusto — Feira de Santana mantém sua influência sobre consumidores de municípios da região?
Juscelino Brito — Feira sempre se mostrou um polo comercial muito forte. Ao longo dos anos, percebemos que essa influência diminuiu em função da internet, porque consumidores de outras cidades passaram a comprar pela internet.
Feira de Santana exerce influência econômica sobre dezenas de municípios baianos, especialmente pela força do comércio de rua, dos serviços, das clínicas, das instituições de ensino, dos centros de compras e da localização estratégica. Brito reconhece essa posição, mas observa mudanças no comportamento do consumidor regional.
Segundo ele, a CDL tem atuado com campanhas, cursos, treinamentos e eventos de atualização para ajudar o empresário a compreender as transformações do mercado. A entidade promove iniciativas como o Cenários e Tendências, que discute mudanças no varejo, consumo, tecnologia e comportamento empresarial.
Tecnologia é condição de sobrevivência para o varejo
O presidente da CDL citou a participação em eventos de referência, como a NRF, realizada em Nova Iorque, para acompanhar tendências internacionais do varejo. Segundo ele, a principal mensagem desses debates é que o comércio físico não deixará de existir, mas precisará incorporar tecnologia para continuar competitivo.
Para Brito, o empresário local precisa compreender que o consumidor mudou. Antes de entrar na loja, ele já pesquisou preço, produto, cor, tamanho, avaliação e disponibilidade. Essa nova dinâmica exige atendimento mais preparado, agilidade, informação e integração entre loja física e canais digitais.
A modernização, segundo o dirigente, deve ser aplicada à loja, à equipe, aos processos internos e ao relacionamento com o cliente. Sem competitividade, contudo, a inovação isolada não basta, pois o consumidor pode experimentar o produto presencialmente e concluir a compra em outro canal.
São João de Prêmios busca aquecer vendas no ciclo junino
Carlos Augusto — Qual é a importância da campanha São João de Prêmios para o comércio de Feira de Santana?
Juscelino Brito — É uma campanha de grande relevância. A ideia é reunir em média 1.000 empresas participantes. Há empresas de Feira de Santana e também de outras cidades interessadas em participar, como Santo Estêvão.
A campanha São João de Prêmios integra o calendário promocional da CDL e ocorre ao lado da campanha de Natal como uma das principais ações anuais de estímulo ao consumo. O objetivo é ampliar o fluxo nas lojas, envolver empresários e consumidores, ornamentar estabelecimentos e criar ambiente comercial mais atrativo durante o período junino.
Segundo Brito, em 2025 a campanha contribuiu para um crescimento de 8% nas vendas em relação ao período de referência. O dirigente afirmou que, para 2026, ainda não havia uma estimativa fechada de volume total, mas a expectativa da entidade é de crescimento, apesar das dificuldades econômicas.
Campanha envolve premiação, ornamentação e parcerias
Carlos Augusto — Qual é o investimento previsto na campanha de 2026?
Juscelino Brito — Posso garantir que, neste ano, a campanha gira em torno de mais de R$ 200 mil com registro e prêmios. Esse valor considera os prêmios, fora a veiculação e outras ações programadas.
Brito explicou que a campanha envolve carros, televisores, registro da promoção, peças de divulgação e ações no Centro da cidade. O orçamento total ainda depende da programação de mídia e de eventos complementares, mas apenas a premiação representa investimento expressivo para a entidade.
A participação do consumidor ocorre a partir de compras de R$ 100 nos estabelecimentos participantes. Além da premiação, a campanha oferece materiais de ornamentação, como bandeirolas e peças promocionais, para estimular uma ambiência festiva nas lojas.
Entidades empresariais e poder público apoiam mobilização
A campanha é liderada pela CDL Feira, mas conta com participação de entidades como ACEFS, Sicomércio e CIFS, além de apoio institucional da Prefeitura de Feira de Santana e do Governo do Estado. Segundo Brito, o poder público não entra como patrocinador direto, mas contribui com suporte às ações.
O presidente da CDL afirmou que a articulação entre entidades amplia a capacidade de divulgação e fortalece a adesão empresarial. Embora a maior parte dos participantes seja do varejo, a campanha também pode alcançar alguns estabelecimentos de serviços.
Brito destacou que municípios vizinhos demonstraram interesse em aderir ao modelo promocional, justamente porque campanhas desse porte exigem investimento elevado, estrutura jurídica, registro, premiação e capacidade de divulgação.
Juscelino Brito aponta juros altos, inadimplência e concorrência digital como desafios ao comércio de Feira de Santana
A primeira parte da entrevista com Juscelino Brito evidencia um comércio local pressionado por fatores simultâneos: perda de renda, inadimplência, juros altos, concorrência digital, carga tributária e mudança no comportamento do consumidor. A avaliação do presidente da CDL confirma que a força histórica de Feira de Santana como polo regional permanece relevante, mas já não opera com a mesma vantagem automática de décadas anteriores.
O ponto sensível está na dependência crescente de campanhas promocionais para aquecer vendas em períodos estratégicos. A São João de Prêmios cumpre papel importante ao mobilizar empresas, atrair consumidores e criar incentivo de compra, mas não substitui uma política de competitividade mais ampla, que envolva crédito, tributação, inovação, qualificação empresarial e melhoria do ambiente urbano.
A crítica à concorrência dos marketplaces e à tributação dos importados deve ser lida dentro de um debate nacional sobre isonomia competitiva. O desafio institucional é equilibrar defesa do consumidor, abertura de mercado, arrecadação pública e preservação das empresas locais que geram emprego, pagam tributos e sustentam parte expressiva da economia municipal.
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