Relatório da PF aponta que Daniel Vorcaro tentou acionar chefes da PF e da PGR antes de prisão

Na terça-feira, 16/06/2026, uma petição divulgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) revelou que a Polícia Federal (PF) identificou indícios de que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, tentou mobilizar interlocutores para acionar o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pouco antes de sua primeira prisão, em novembro de 2025, no contexto da Operação Compliance Zero, investigação que apura suspeitas de fraudes financeiras, vazamento de informações sigilosas e possível atuação de agentes públicos em favor de interesses privados ligados ao conglomerado financeiro.

PF aponta tentativa de influência antes da prisão

Segundo o relatório preliminar mencionado na petição, Vorcaro teria orientado um interlocutor não identificado a reforçar, junto às cúpulas da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República, a necessidade de evitar que subordinados das duas instituições praticassem o que ele classificou como “alguma sacanagem”. A expressão, atribuída ao ex-banqueiro no documento, teria sido acompanhada da advertência de que, caso isso ocorresse, “iria tudo para o saco”.

O conteúdo foi localizado, conforme a investigação, no bloco de notas do celular de Daniel Vorcaro. A PF afirma que o material indica preocupação do ex-controlador do Banco Master com a movimentação de autoridades federais antes da deflagração da Operação Compliance Zero, que teve sua primeira fase em novembro de 2025.

A investigação sustenta que Vorcaro já acompanhava, desde julho de 2025, possíveis procedimentos que pudessem alcançar o Banco Master e seus dirigentes. De acordo com a apuração, esse monitoramento teria permitido ao ex-banqueiro mapear autoridades, identificar procedimentos preliminares e buscar formas de influenciar agentes públicos ou obter informações sensíveis sobre a condução do caso.

Informações sigilosas teriam chegado ao ex-banqueiro por meio do Banco Central

A Polícia Federal afirma que Daniel Vorcaro recebeu informações confidenciais de pessoas ligadas ao Banco Central do Brasil (BCB). Segundo as anotações encontradas no celular do ex-banqueiro, esses contatos estariam preocupados com a pressão exercida pela PF e pelo Ministério Público Federal sobre o Banco Central antes da operação.

O relatório também aponta que Vorcaro teria tomado conhecimento de uma reunião sigilosa entre integrantes da Polícia Federal e representantes do Banco Central sobre as investigações envolvendo o Banco Master. Quatro dias depois, conforme a PF, ele teria registrado nomes de representantes da corporação que participaram da conversa e de procuradores da República que não estavam presentes no encontro.

Para os investigadores, esse conjunto de elementos reforça a hipótese de que havia vazamento de informações sensíveis relacionadas à apuração. A suspeita é considerada relevante porque a operação envolvia medidas cautelares, possíveis prisões e o levantamento de provas sobre supostas fraudes no sistema financeiro.

Viagem a Abu Dhabi é citada pela investigação

Ainda segundo a Polícia Federal, Daniel Vorcaro teria planejado uma viagem a Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, para se encontrar com um interlocutor que, de acordo com os investigadores, teria participado da reunião sigilosa e repassado informações sobre a apuração.

A referência à viagem aparece no relatório como parte da tentativa de reconstruir a rede de contatos acionada pelo ex-banqueiro antes da deflagração da operação. O documento não identifica publicamente o interlocutor que teria mantido contato com Vorcaro.

O ponto é sensível porque a investigação busca esclarecer se o ex-controlador do Banco Master teve acesso antecipado a dados restritos, incluindo a existência de procedimento do Ministério Público Federal, a vara responsável pelo caso e o juiz que analisava pedido de medidas cautelares.

Defesa nega acesso prévio e atribui dados à imprensa

Conforme a petição divulgada, a defesa de Daniel Vorcaro negou que o ex-banqueiro tenha tido acesso privilegiado ao conteúdo da investigação. A argumentação apresentada sustenta que as informações teriam sido obtidas por meio da imprensa.

A Polícia Federal, porém, contesta essa versão. Segundo a cronologia descrita no relatório, a hipótese de obtenção dos dados apenas pela imprensa não se sustentaria, pois Vorcaro já teria conhecimento de informações específicas antes da publicação jornalística apontada por sua defesa.

O relatório afirma ainda que o próprio ex-banqueiro teria repassado informações a um jornalista para publicação de conteúdo de seu interesse. A PF menciona prints anexados à petição e sustenta que o repórter teria recebido valores de Vorcaro para divulgar informações favoráveis à estratégia do empresário. O nome do jornalista não foi informado no material analisado.

Troca de mensagens com advogado também entrou no radar da PF

Outro ponto destacado pelos investigadores envolve o advogado Walfrido Warde, que atuava na defesa de Vorcaro. Segundo a PF, ele passou a trocar uma série de mensagens com o ex-banqueiro no dia da deflagração da operação, depois de um período superior a seis meses sem contato registrado.

De acordo com o relatório, as conversas indicariam alinhamento de uma petição antes mesmo da decisão judicial que determinou a prisão. Para os investigadores, a sequência de ligações, mensagens e preocupação com horários de deslocamento reforçaria a percepção de que Daniel Vorcaro tinha conhecimento de que medidas relevantes seriam adotadas naquele dia.

A Polícia Federal interpreta esse comportamento como compatível com uma possível preparação para fuga. A defesa, por sua vez, nega irregularidades e sustenta que as informações citadas no processo não comprovam acesso antecipado ilícito ou tentativa de interferência indevida.

Operação Compliance Zero investiga fraudes no Banco Master

A Operação Compliance Zero apura suspeitas relacionadas ao Banco Master, incluindo fraudes financeiras, lavagem de dinheiro, corrupção, atuação de intermediários e possível obtenção indevida de informações sigilosas. A apuração ganhou relevância nacional por envolver o sistema financeiro, autoridades públicas, agentes privados e decisões judiciais de grande impacto.

Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro de 2025. Posteriormente, voltou a ser detido em novas fases da investigação, que se expandiu para apurar a atuação de outros núcleos ligados ao caso. O inquérito também passou a alcançar suspeitas de interferência sobre órgãos de controle, além de movimentações políticas e empresariais em torno do Banco Master.

O caso tramita sob relatoria do ministro André Mendonça, no Supremo Tribunal Federal. As medidas judiciais autorizadas ao longo da investigação incluíram prisões, buscas e apreensões, bloqueio de bens e apuração sobre eventual participação de agentes públicos e privados no suposto esquema.

Banco Master e impacto institucional

A dimensão do caso ultrapassa a situação individual de Daniel Vorcaro. A investigação envolve a credibilidade do sistema financeiro, a atuação de órgãos de fiscalização e a integridade de instituições como Banco Central, Polícia Federal, Ministério Público Federal, Procuradoria-Geral da República e Supremo Tribunal Federal.

A suspeita de vazamento de informações sigilosas, se confirmada, pode indicar fragilidades nos mecanismos internos de proteção de dados sensíveis em investigações de alta complexidade. Em procedimentos dessa natureza, a preservação do sigilo é fundamental para evitar destruição de provas, fuga de investigados, interferência em testemunhas e manipulação de versões públicas.

Ao mesmo tempo, a apuração exige cautela jurídica. As informações divulgadas integram relatório investigativo e ainda precisam ser examinadas sob contraditório, ampla defesa e controle judicial. Até decisão definitiva, Daniel Vorcaro e demais citados devem ser tratados como investigados, sem presunção de culpa.

Delação e próximos passos da investigação

O avanço da Operação Compliance Zero ocorre em meio a discussões sobre eventuais propostas de colaboração premiada apresentadas por Daniel Vorcaro. A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República analisaram ou rejeitaram propostas anteriores, segundo informações públicas sobre o caso, sob o argumento de que os relatos não teriam apresentado elementos novos suficientes para justificar acordo.

A delação, caso venha a ser retomada e aceita, poderia ampliar o alcance da investigação sobre agentes privados e públicos mencionados no caso. Entretanto, a validade de uma colaboração depende da apresentação de provas, da utilidade concreta das informações e da homologação judicial.

Enquanto isso, o STF segue responsável por avaliar pedidos de prisão, medidas cautelares, manifestações da PGR e eventuais requerimentos da defesa. O desfecho institucional dependerá da consistência das provas, da confirmação ou rejeição das hipóteses levantadas pela PF e da capacidade do processo de separar fatos comprovados de suspeitas ainda em investigação.

*Com informações da CNN.

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