Na terça-feira (01/09/2026), a investigação do Banco Master alcançou uma nova etapa institucional após o ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal, determinar à Polícia Federal a elaboração de um relatório sobre menções a Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, encaminhar o material à Procuradoria-Geral da República e retirar o sigilo dos autos relacionados às novas mensagens de Daniel Vorcaro. Mendonça avalia, segundo diferentes reportagens, se os elementos justificam incluir formalmente Moraes na investigação.
Relatório da PF foi pedido com prazo de 72 horas
O relator estabeleceu prazo de 72 horas para que a PF reunisse referências aos três nomes presentes no material apreendido com Vorcaro. A medida ocorreu depois que investigadores identificaram mensagens em que o banqueiro falava sobre a necessidade de atuação de “Andrei” e “Paulo”, identificados no relatório como o diretor-geral da PF e o procurador-geral da República.
Após as verificações, a PF concluiu preliminarmente que uma das mensagens havia sido destinada a Alexandre de Moraes. Mendonça encaminhou o documento à PGR e fixou prazo de cinco dias para manifestação.
A remessa é particularmente sensível porque a Procuradoria-Geral da República é o órgão responsável por avaliar elementos que possam envolver criminalmente ministros do Supremo. Até a conclusão dessa etapa, não existe decisão pública afirmando que Moraes tenha praticado crime ou que será denunciado.
Entrega de despacho em papel indica tensão procedimental
Reportagem de Daniela Lima, no UOL, informou que Mendonça chegou a entregar pessoalmente, em formato impresso, um despacho investigativo à Polícia Federal, evitando naquele momento o fluxo eletrônico convencional. A iniciativa foi interpretada nos bastidores como sinal de desconfiança e de deterioração das relações entre gabinete, PF e PGR.
O procedimento tornou-se parte da controvérsia porque uma investigação envolvendo autoridades de primeiro escalão exige simultaneamente confidencialidade, preservação da cadeia de custódia e observância rigorosa das competências constitucionais.
Reportagens também registram questionamentos internos sobre os limites dos poderes do relator para determinar diligências que possam atingir diretamente outro integrante do STF. A questão deverá ser resolvida segundo as regras de competência da própria Corte e a manifestação da PGR, sem que a existência da controvérsia procedimental substitua a análise do conteúdo das provas.
Mendonça retira sigilo
Nesta terça-feira, Mendonça determinou ainda o levantamento do sigilo dos autos. A medida permitiu que parte significativa dos elementos policiais passasse ao debate público, incluindo referências aos contatos de Vorcaro com Moraes e a documentação relativa à contratação do escritório Barci de Moraes.
A publicidade aumenta a capacidade de controle social sobre a investigação, mas também exige cautela para que documentos intermediários, hipóteses policiais e mensagens sem respostas recuperadas não sejam tratados como sentenças definitivas.
Em 06/03/2026, o próprio Mendonça havia determinado a abertura de investigação para apurar o vazamento de mensagens obtidas dos celulares de Vorcaro. A decisão mostra que a divulgação indevida das provas também constitui objeto autônomo de apuração.
Operação já apura obtenção indevida de informações sigilosas
A dimensão institucional do problema havia se ampliado antes das atuais revelações. Na 10ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 09/07/2026, a Polícia Federal afirmou oficialmente investigar possível organização criminosa relacionada, entre outras condutas, à obtenção indevida de informações sigilosas e a medidas destinadas a interferir em investigações criminais.
Esses objetivos tornam particularmente relevante esclarecer por que Vorcaro aparentemente demonstrava conhecimento antecipado de medidas policiais em novembro de 2025.
A investigação deverá reconstruir a circulação da informação: quem a produziu, quem teve acesso legítimo, quem eventualmente a transmitiu e se houve utilização com o propósito de evitar diligências.
Código de conduta volta ao debate no STF
No mesmo 01/09/2026, Mendonça defendeu publicamente a adoção de um código de conduta para os ministros do Supremo. Sem fazer uma imputação criminal ao colega, afirmou que a confiança da sociedade no Judiciário precisa ser preservada e que padrões preventivos de governança são necessários.
A proposta é conduzida pelo presidente do Supremo, Edson Fachin, e tem relatoria interna atribuída à ministra Cármen Lúcia. O debate ganhou maior peso em meio às controvérsias relacionadas ao Banco Master e às relações privadas de integrantes do Judiciário com personagens do caso.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 17 e 18/11/2025: prisão de Vorcaro e liquidação extrajudicial do Banco Master.
- 06/03/2026: Mendonça determina investigação sobre vazamento de mensagens dos celulares de Vorcaro.
- 09/07/2026: 10ª fase da Compliance Zero passa a apurar obtenção indevida de informação sigilosa e interferência em investigações.
- Final de agosto de 2026: Mendonça determina relatório policial sobre referências a Moraes, Gonet e Andrei.
- 31/08 e 01/09/2026: material é encaminhado à PGR, que recebe prazo de cinco dias para manifestação.
- 01/09/2026: Mendonça determina levantamento do sigilo dos autos.
O caso apresenta dois riscos institucionais simultâneos. O primeiro é a possibilidade de que um investigado de grande poder econômico tenha recebido informações protegidas ou buscado interferir em órgãos de investigação. O segundo é permitir que suspeitas dessa magnitude sejam tratadas sem estrito respeito às competências e garantias processuais.
A consulta à PGR é decisiva porque a presença do nome de um ministro do Supremo eleva o problema a um patamar constitucional específico. A Procuradoria precisará avaliar se as mensagens oferecem indícios mínimos de conduta praticada pelo destinatário ou se documentam apenas tentativas unilaterais de Vorcaro.
Também deverá ser esclarecida a posição de Andrei Rodrigues e Paulo Gonet. Ser citado por Vorcaro não significa ter participado de qualquer irregularidade. Para que haja implicação institucional ou criminal, é necessário demonstrar contato, conhecimento, resposta ou ato concreto.
O próximo marco será, portanto, a manifestação da PGR e a subsequente decisão de Mendonça sobre o alcance do inquérito. A legitimidade do desfecho dependerá tanto da investigação integral das evidências quanto do respeito ao devido processo e ao contraditório.








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