ACM Neto lidera palanque bolsonarista na Bahia, apoia Caiado e finge preservar distância eleitoral de Flávio Bolsonaro

Nesta sexta-feira (24/07/2026), dois dias após ser homologado candidato ao Governo da Bahia, ACM Neto (União Brasil) encontra-se no centro de uma contradição política construída por sua própria coligação: declara apoio ao pré-candidato presidencial Ronaldo Caiado (PSD), mas lidera uma chapa majoritária integrada pelo PL e por apoiadores declarados de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), entre eles os candidatos ao Senado João Roma e Angelo Coronel, além do prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo, um dos principais articuladores da campanha estadual. Na análise fática e política desta reportagem, a alegada distância de Neto em relação ao bolsonarismo constitui fingimento eleitoral: o candidato procura apresentar-se como autônomo diante de Flávio, embora comande e se beneficie diretamente do principal palanque bolsonarista da oposição baiana. A estratégia ocorre em um estado onde Jair Bolsonaro permaneceu abaixo de 28% dos votos válidos nas duas últimas eleições presidenciais.

Convenção oficializa a chapa e expõe a duplicidade presidencial

A convenção realizada na quarta-feira, 22/07/2026, no Centro de Convenções de Salvador, homologou ACM Neto para o Governo da Bahia e confirmou o ex-prefeito de Jequié Zé Cocá (PP) como candidato a vice-governador. Para as duas vagas ao Senado, a coligação escolheu João Roma, presidente estadual do PL, e Angelo Coronel, do Republicanos.

A aliança reúne a Federação União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas, além de PL, Republicanos, Novo, Podemos, Federação PSDB-Cidadania e Federação Solidariedade-PRD. Trata-se de uma composição estadual ampla, construída para enfrentar o governador Jerônimo Rodrigues (PT), mas atravessada pela concorrência entre projetos presidenciais diferentes.

Questionado sobre a disputa nacional, ACM Neto afirmou que os partidos terão liberdade para apoiar os respectivos pré-candidatos. A declaração foi apresentada como respeito à autonomia das legendas, mas produz um efeito político concreto: permite que o PL participe integralmente da campanha estadual e faça, dentro da mesma estrutura, a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.

Neto anunciou que pessoalmente estará com Ronaldo Caiado. Segundo o candidato ao Governo da Bahia, a escolha decorre de uma relação política antiga e de uma amizade construída durante os anos em que ambos estiveram no União Brasil. Caiado deixou a legenda, filiou-se ao PSD e teve sua pré-candidatura presidencial apresentada pelo partido em 30/03/2026.

O argumento da amizade explica formalmente a escolha presidencial de ACM Neto. Não explica, entretanto, por que o candidato mantém no centro de sua chapa os principais operadores do projeto de Flávio Bolsonaro na Bahia. É nessa diferença entre o discurso individual e a construção coletiva da campanha que se estabelece a contradição política.

Quem lidera a majoritária responde pelo palanque

ACM Neto não é um integrante secundário da coligação nem um candidato proporcional submetido às decisões nacionais de seu partido. Como postulante ao Governo, é o cabeça da chapa majoritária, o principal beneficiário da aliança e a figura em torno da qual se organizam as candidaturas a vice-governador e ao Senado.

Essa posição confere a Neto responsabilidade política sobre a composição que apresenta ao eleitorado. A presença do PL e de dois candidatos ao Senado alinhados a Flávio Bolsonaro não constitui um fato externo à sua campanha. É parte da estrutura montada para elegê-lo governador.

Ao afirmar que cada aliado pode escolher livremente seu presidenciável, Neto tenta reduzir essa vinculação a uma soma de preferências pessoais. A realidade eleitoral é mais ampla: João Roma e Angelo Coronel não estarão em palanques estaduais separados. Ambos disputarão o Senado na chapa encabeçada por ACM Neto, utilizarão agendas comuns e pedirão votos para o mesmo candidato ao Governo.

O apoio a Caiado, portanto, não retira de Neto a condição de líder estadual de uma estrutura bolsonarista. Ele pode não declarar voto em Flávio Bolsonaro, mas comanda a candidatura que oferece ao filho do ex-presidente uma rede organizada de partidos, candidatos, prefeitos, parlamentares e lideranças regionais.

Na prática, ACM Neto ocupa duas posições simultâneas: é apoiador presidencial de Caiado e líder estadual do palanque de Flávio Bolsonaro. Uma condição não elimina a outra.

O fingimento está na tentativa de dissociar discurso e prática

O verbo “fingir”, utilizado nesta linha editorial, não se refere à inexistência do apoio de ACM Neto a Ronaldo Caiado. O apoio foi declarado publicamente e constitui um fato político. O fingimento está na tentativa de usar essa escolha individual como prova de que Neto se encontra afastado do bolsonarismo.

A composição de sua majoritária demonstra o contrário. Neto recebe o PL, entrega ao presidente estadual da legenda uma das vagas ao Senado, acolhe outro aliado de Flávio na segunda vaga e mantém José Ronaldo como um dos principais mobilizadores de sua campanha. Esses elementos formam um palanque bolsonarista objetivo, independentemente da preferência presidencial anunciada pelo candidato a governador.

O discurso de autonomia funciona como mecanismo de proteção eleitoral. Permite que Neto diga aos eleitores bolsonaristas que seu grupo inclui o PL, João Roma, Angelo Coronel e José Ronaldo. Ao mesmo tempo, autoriza-o a dizer aos eleitores que rejeitam a família Bolsonaro que seu candidato presidencial é Caiado.

A fórmula busca reunir dois públicos que mantêm relações diferentes com a direita nacional. Aos bolsonaristas, a campanha oferece representação partidária e candidaturas majoritárias. Aos conservadores não bolsonaristas, moderados e eleitores antipetistas, apresenta Caiado como alternativa.

A distância, desse modo, existe no discurso, mas desaparece na estrutura eleitoral. Neto procura não ser chamado de bolsonarista, embora lidere uma chapa que depende politicamente da mobilização bolsonarista.

João Roma levará Flávio Bolsonaro ao palanque estadual

Presidente do PL na Bahia, João Roma declarou durante a convenção que sua legenda participará “de corpo e alma” da campanha de ACM Neto. No mesmo pronunciamento, reafirmou que defenderá Flávio Bolsonaro e pretende participar de novas agendas ao lado do pré-candidato presidencial na Bahia.

Roma não ocupa uma posição periférica na aliança. É candidato ao Senado, integra a majoritária e representa formalmente o partido da família Bolsonaro no estado. Sua candidatura conecta diretamente a campanha de Neto ao projeto presidencial do PL.

A atuação do ex-ministro precede a convenção. Em março, durante a apresentação política da chapa oposicionista em Feira de Santana, Roma já havia defendido Flávio Bolsonaro e associado a disputa pelo Governo da Bahia ao cenário nacional. Em junho, acompanhou o senador durante a Bahia Farm Show, em Luís Eduardo Magalhães.

Portanto, a campanha de Flávio não estará apenas autorizada a existir ao lado da candidatura de Neto. Estará representada dentro da própria chapa pelo presidente estadual do PL.

Angelo Coronel reforça o caráter bolsonarista da majoritária

O senador Angelo Coronel também declarou apoio a Flávio Bolsonaro. Após romper com o grupo governista e filiar-se ao Republicanos, o parlamentar afirmou que votará no senador do PL em razão da relação construída entre os dois no Congresso Nacional.

Coronel chegou a afirmar que não deixaria de votar no amigo Flávio para escolher um candidato com quem não mantém a mesma relação. Também apresentou a multiplicidade de candidaturas presidenciais como uma vantagem eleitoral para a oposição baiana, ao permitir que parte do grupo marche com Caiado e outra parte com Flávio.

Com a homologação de sua candidatura à reeleição, os dois nomes escolhidos pela coligação para o Senado passaram a apoiar o pré-candidato presidencial do PL. Caiado possui o apoio pessoal de ACM Neto, mas Flávio reúne os dois candidatos senatoriais da majoritária.

Esse dado é politicamente decisivo. As campanhas ao Senado ocupam posição central na propaganda, nas agendas regionais e nos atos públicos. Ao escolher Roma e Coronel, Neto não apenas tolerou a presença bolsonarista: incorporou-a ao núcleo principal de sua candidatura.

José Ronaldo mobiliza o interior para Neto e vota em Flávio

O prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo, declarou em 01/07/2026 que votará em Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Ao justificar a decisão, afirmou que pretende manter a orientação adotada em 2022, quando escolheu Jair Bolsonaro.

José Ronaldo reconheceu que aliados apoiam Caiado e Romeu Zema, mas disse que a maioria de seus interlocutores se posiciona com Flávio. Também defendeu que as diferentes correntes permaneçam unidas em torno da oposição estadual.

Embora não integre formalmente a majoritária, o prefeito exerce papel relevante na articulação da campanha. Durante a convenção, foi apresentado como uma das lideranças responsáveis pela mobilização do grupo e pela expansão da candidatura no interior da Bahia.

A posição de José Ronaldo amplia a base de Flávio dentro do palanque de Neto. O pré-candidato do PL passa a contar com os dois candidatos ao Senado e com uma das principais lideranças municipais do União Brasil.

Caiado funciona como proteção eleitoral e discursiva

Ronaldo Caiado ocupa o campo conservador, faz oposição ao Governo Lula e procura apresentar-se como alternativa à polarização entre o PT e a família Bolsonaro. O PSD oficializou sua pré-candidatura em março e anunciou Gilberto Kassab como pré-candidato a vice-presidente em 01/07/2026.

A escolha oferece a ACM Neto uma saída conveniente. Caiado permite que o candidato baiano preserve um discurso de direita e de oposição ao PT sem aderir formalmente a Flávio Bolsonaro.

Contudo, não se trata de uma ruptura ideológica profunda com o bolsonarismo. No lançamento de sua pré-candidatura, Caiado defendeu anistia ampla aos envolvidos nos episódios de 8 de janeiro de 2023, inclusive com possibilidade de beneficiar Jair Bolsonaro. Sua proposta nacional procura diferenciar-se eleitoralmente da família Bolsonaro, mas preserva convergências com parte de sua agenda política.

Para Neto, o apoio a Caiado funciona como escudo. Permite afirmar que não está subordinado ao PL enquanto conserva uma chapa estruturada com o partido e seus aliados.

A diferença entre Caiado e Flávio interessa eleitoralmente ao candidato baiano. Caiado oferece uma imagem de direita tradicional e administrativa; Flávio oferece o eleitorado organizado e a militância vinculada ao ex-presidente. A campanha de Neto procura utilizar simultaneamente esses dois ativos.

Resultados eleitorais explicam por que Neto evita o rótulo

A cautela de ACM Neto possui fundamento nos resultados das urnas. No segundo turno presidencial de 2018, Jair Bolsonaro recebeu 27,31% dos votos válidos na Bahia, enquanto Fernando Haddad obteve 72,69%.

Em 2022, Bolsonaro disputou a reeleição como presidente da República e alcançou 27,88% dos votos válidos no estado. Luiz Inácio Lula da Silva recebeu 72,12%, correspondentes a mais de 6 milhões de votos.

Entre as duas eleições, o desempenho percentual de Bolsonaro na Bahia cresceu apenas 0,57 ponto percentual. O dado indica a existência de uma base consolidada e politicamente ativa, mas revela também a dificuldade do bolsonarismo para ultrapassar seu limite eleitoral no estado.

Esse eleitorado é indispensável para uma candidatura de oposição, mas insuficiente para garantir uma vitória ao Governo da Bahia. Neto precisa dos votos bolsonaristas, porém necessita igualmente alcançar conservadores não alinhados à família Bolsonaro, eleitores moderados e cidadãos que votam no PT para presidente, mas admitem escolher outra força na disputa estadual.

A eleição de 2022 demonstrou a existência desse voto dividido. No segundo turno para o Governo da Bahia, Jerônimo Rodrigues obteve 52,79%, contra 47,21% de ACM Neto. Na eleição presidencial, Lula alcançou 72,12%, enquanto Bolsonaro ficou com 27,88%. A diferença entre os dois resultados mostra que milhões de eleitores que votaram em Lula para presidente escolheram Neto para governador ou adotaram outras combinações no primeiro turno.

É esse segmento que o candidato do União Brasil precisa preservar. Uma adesão formal e exclusiva a Flávio Bolsonaro poderia facilitar a tentativa do PT de nacionalizar a campanha e identificar Neto com uma corrente rejeitada por mais de 70% do eleitorado baiano nas duas últimas disputas presidenciais.

Neto quer os votos bolsonaristas sem assumir o custo da aliança

A estratégia política torna-se nítida: ACM Neto pretende receber os votos, a militância, a capilaridade partidária e a estrutura do bolsonarismo sem assumir integralmente sua identidade pública.

O candidato não rejeita o apoio de Flávio Bolsonaro, não exclui o PL, não impõe neutralidade aos integrantes da majoritária e não impede que seus candidatos ao Senado façam campanha pelo filho do ex-presidente. Sua única diferenciação consiste em anunciar que votará em Caiado.

Essa declaração individual é utilizada como instrumento para preservar uma aparência de independência. Contudo, uma candidatura majoritária não pode ser analisada apenas pelo voto pessoal de seu cabeça de chapa. Deve ser examinada pelos partidos que a sustentam, pelos candidatos que a integram, pelas alianças que celebra e pelas forças que pretende levar ao poder.

Sob esse critério, Neto lidera um palanque bolsonarista. O fato de apoiar Caiado acrescenta uma segunda candidatura presidencial à estrutura, mas não dissolve a primeira.

A tentativa de separar sua imagem da composição que ele próprio montou constitui o fingimento político apontado nesta reportagem. Neto age como líder do grupo quando busca apoio, mobilização e votos; procura apresentar-se como figura distante quando a associação com Flávio pode produzir rejeição eleitoral.

Dois candidatos presidenciais, uma única candidatura estadual

A coligação oposicionista procura apresentar os palanques de Caiado e Flávio como estruturas paralelas e independentes. Essa separação será difícil de sustentar na campanha.

Os candidatos ao Senado aparecerão em atos com ACM Neto, participarão da propaganda da majoritária e defenderão Flávio Bolsonaro. O PL utilizará sua estrutura para promover simultaneamente o candidato ao Governo e o presidenciável da legenda. João Roma já anunciou que pretende organizar novas agendas com Flávio no estado.

Ao mesmo tempo, Neto deverá participar de eventos com Caiado e pedir votos para o candidato do PSD. A campanha estadual passará a funcionar como ponto de encontro entre dois concorrentes nacionais que disputam parcelas semelhantes do eleitorado de direita.

A convivência poderá produzir conflitos sobre materiais de propaganda, agendas municipais, distribuição de recursos, discursos nacionais e presença dos presidenciáveis na Bahia. Também poderá obrigar Neto a se posicionar em controvérsias nas quais a neutralidade se torne politicamente impossível.

O modelo oferece flexibilidade no início da disputa, mas cobra um preço em coerência. Quanto mais intensa for a polarização presidencial, mais difícil será sustentar a ideia de que as alianças nacionais não interferem na candidatura estadual.

Linha do tempo da formação do palanque

Dezembro de 2025

Dezembro de 2025 — Flávio Bolsonaro passa a ser apresentado como sucessor político do ex-presidente Jair Bolsonaro na disputa presidencial de 2026, recebendo apoio de lideranças do PL e de governadores alinhados ao grupo.

Março de 2026

30/03/2026 — O PSD apresenta Ronaldo Caiado como pré-candidato à Presidência da República, após processo interno de escolha do nome nacional da legenda.

30/03/2026 — Em Feira de Santana, a oposição baiana apresenta politicamente a chapa liderada por ACM Neto. João Roma defende Flávio Bolsonaro e associa a disputa estadual ao projeto nacional do PL.

Abril de 2026

06/04/2026 — Angelo Coronel declara apoio a Flávio Bolsonaro e afirma que votará no senador em razão da relação pessoal construída no Congresso.

Junho de 2026

09/06/2026 — Flávio Bolsonaro participa da Bahia Farm Show, em Luís Eduardo Magalhães, acompanhado de João Roma, e defende a retirada do PT do Governo da Bahia.

Julho de 2026

01/07/2026 — Caiado anuncia Gilberto Kassab como pré-candidato a vice-presidente na chapa do PSD.

01/07/2026 — José Ronaldo confirma voto em Flávio Bolsonaro e defende a união das diferentes candidaturas de direita em eventual segundo turno.

20/07/2026 — Começa o período oficial para a realização das convenções partidárias das Eleições 2026.

22/07/2026 — A convenção em Salvador homologa ACM Neto para governador, Zé Cocá para vice-governador e João Roma e Angelo Coronel para o Senado. Neto declara apoio a Caiado, enquanto Roma reafirma que defenderá Flávio.

25/07/2026 — O PL prevê realizar em São Paulo sua convenção nacional para homologar a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência.

26/07/2026 — O PSD deverá realizar sua convenção nacional para oficializar a chapa formada por Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab.

Próximos prazos

As convenções poderão ocorrer até 05/08/2026. O prazo para registro das candidaturas termina em 15/08, e a propaganda eleitoral geral começa em 16/08. O primeiro turno será realizado em 04/10, com eventual segundo turno em 25/10/2026.

A análise da composição política, e não apenas das declarações individuais, demonstra que ACM Neto lidera o palanque bolsonarista na Bahia. O PL integra sua aliança; João Roma e Angelo Coronel, candidatos ao Senado em sua majoritária, apoiam Flávio Bolsonaro; José Ronaldo, liderança central da campanha, também declarou voto no senador. Neto não está ao lado dessa estrutura como observador: é seu cabeça, seu principal beneficiário e o candidato em torno do qual ela foi organizada.

O apoio a Ronaldo Caiado não representa afastamento efetivo de Flávio, mas uma estratégia para reduzir o custo eleitoral da associação com o bolsonarismo. Neto procura manter dentro da campanha a base que vota na família Bolsonaro e, simultaneamente, apresentar-se aos demais baianos como uma liderança autônoma. Na prática, quer os benefícios da aliança sem carregar integralmente sua rejeição. Por isso, a distância proclamada é fingida: existe no discurso, mas é negada pela composição da chapa e pela atuação de seus principais aliados.


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