Caso Master/Reag, Battre e PL ampliam pressão sobre ACM Neto e Bruno Reis na disputa pelo Governo da Bahia

Na sexta-feira (03/07/2026), a pré-campanha da oposição ao Governo da Bahia passou a conviver com um conjunto de fatores de desgaste envolvendo o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, o prefeito Bruno Reis, a Prefeitura da capital baiana, o Banco Master, a Reag, a concessionária Battre e a aproximação do grupo com o PL e lideranças ligadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Relatórios financeiros, decisões judiciais, reportagens nacionais e articulações eleitorais compõem um cenário em que a oposição tenta sustentar o discurso de gestão, eficiência e renovação, mas enfrenta questionamentos sobre consultorias privadas, contratos públicos, gastos administrativos e alianças políticas com potencial de impacto eleitoral.

Caso Master/Reag amplia desgaste pessoal de ACM Neto

O episódio de maior repercussão direta sobre ACM Neto envolve pagamentos feitos pelo Banco Master e pela Reag à empresa A&M Consultoria Ltda., ligada ao ex-prefeito de Salvador. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, com base em informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a empresa recebeu R$ 3,6 milhões entre março de 2023 e maio de 2024. A apuração informou que os repasses foram realizados pelo Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, e pela Reag, gestora citada em investigações relacionadas ao caso.

À Folha, ACM Neto confirmou a existência dos contratos, mas afirmou que os serviços prestados não envolveram irregularidade e que não guardam relação com as investigações envolvendo o Banco Master e a Reag. A defesa pública do ex-prefeito é um elemento essencial do caso, pois as informações disponíveis indicam questionamentos e apurações, não condenação ou decisão definitiva contra ele.

A controvérsia ganhou nova dimensão após reportagem da CNN Brasil informar que dados da Receita Federal enviados à CPI do Crime Organizado apontaram R$ 5,45 milhões em pagamentos do Banco Master à A&M Consultoria Ltda., valor superior ao mencionado inicialmente nos relatórios do Coaf. A diferença entre os números deve ser tratada como evolução da apuração jornalística e documental, exigindo acompanhamento sobre origem, natureza, período e eventual comprovação dos serviços contratados.

Liquidação do Banco Master e da Reag aumenta sensibilidade política

O caso se torna mais sensível porque Banco Master e Reag estão inseridos em um contexto de forte escrutínio regulatório, financeiro e político. A Agência Brasil registrou que o Banco Central decretou liquidações envolvendo Banco Master e Reag, enquanto a Comissão de Valores Mobiliários comunicou a existência de procedimentos administrativos relacionados ao Grupo Master, à Reag e a outras entidades conexas.

Esse ambiente amplia o custo político da associação entre consultorias privadas e agentes públicos ou lideranças partidárias. Ainda que a prestação de consultoria por ex-gestores não seja, por si só, irregular, a exposição de pagamentos milionários em meio a investigações financeiras cria terreno para cobrança pública sobre transparência, documentação contratual, objeto dos serviços e eventual risco de influência política.

Para uma candidatura ao Governo da Bahia, o ponto crítico não está apenas na legalidade formal dos contratos, mas na percepção pública. Em campanhas majoritárias, episódios envolvendo dinheiro, consultoria, bancos sob investigação e agentes políticos costumam ser explorados por adversários como sinal de vulnerabilidade ética e administrativa, sobretudo quando o candidato busca apresentar imagem de segurança gerencial.

Contrato bilionário da Battre atinge vitrine administrativa de Bruno Reis

Outro foco de pressão recai sobre a gestão de Bruno Reis em Salvador. A Justiça da Bahia suspendeu os efeitos financeiros da renovação de contrato de R$ 2,67 bilhões para operação do Aterro Sanitário Metropolitano Centro, em termo aditivo firmado sem licitação entre a Prefeitura de Salvador e a Battre, concessionária responsável pelo equipamento. Segundo a Folha de S.Paulo, o acordo prorrogava por mais 20 anos a concessão do aterro e da estação de transbordo.

A decisão foi tomada em ação civil pública movida pela Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente (Anamma), que questiona a legalidade da renovação e apontou possível prejuízo de R$ 498 milhões aos cofres públicos. O juiz responsável pela liminar indicou dúvidas sobre as vantagens econômicas do acordo e mencionou indícios de problemas ambientais, como desmatamentos sem autorização, risco de contaminação por chorume e entraves para ampliação em áreas de Mata Atlântica e de preservação permanente.

A Prefeitura de Salvador, segundo a reportagem, afirmou que a prorrogação contratual observou a legislação vigente, foi acompanhada por órgãos competentes e teve suporte técnico, jurídico, ambiental e econômico. A gestão municipal também informou que adotaria medidas para demonstrar a regularidade do procedimento e destacou que a decisão judicial não suspendeu a continuidade dos serviços de recebimento, tratamento e destinação final dos resíduos sólidos da capital baiana.

Resíduos, meio ambiente e disputa sobre gestão urbana

O caso Battre extrapola a discussão contratual e alcança a política ambiental de Salvador. Reportagem da CNN Brasil informou que a renovação da concessão ocorreu sem licitação nem debate público e que o aterro acumulava suspeitas ambientais há décadas. O contrato, de acordo com a apuração, também reconhecia pendências legais e ambientais anteriores.

A própria Battre informa que opera a estação de transbordo de Canabrava e o Aterro Metropolitano Centro, responsável pela destinação de resíduos de Salvador, Simões Filho e Lauro de Freitas. A empresa declara atender uma população de milhões de habitantes e receber, no aterro, média mensal de 75 mil a 80 mil toneladas de resíduos, o que evidencia a dimensão estratégica do serviço para a Região Metropolitana de Salvador.

Por isso, o debate público não se limita à disputa partidária. A destinação de resíduos envolve saúde pública, contratos de longa duração, fiscalização ambiental, tarifa, planejamento urbano, controle de chorume, proteção de mananciais e preservação de áreas sensíveis. A suspensão dos efeitos financeiros do aditivo, ainda que liminar, impõe à Prefeitura o ônus de demonstrar a vantajosidade econômica e a regularidade jurídica da renovação.

Bolsas e cursos pagos com recursos públicos reforçam desgaste administrativo

A gestão Bruno Reis também enfrenta questionamentos sobre o custeio de cursos de alto valor para integrantes do alto escalão municipal. Em setembro de 2025, a Justiça suspendeu o pagamento, pela Prefeitura de Salvador, de um doutorado de R$ 183 mil para a secretária municipal da Fazenda, Giovanna Victer. Segundo o UOL, o juiz determinou a suspensão de pagamentos relativos ao contrato com a Fundação Getúlio Vargas e mencionou que a administração municipal mantinha pendências com servidores.

Outro episódio envolve a secretária municipal de Desenvolvimento Econômico, Mila Paes Scarton. Reportagem da Metro1 informou que a Prefeitura custeou curso de R$ 105 mil na Saint Paul Escola de Negócios, entre março de 2024 e abril de 2025, mediante contratação sem licitação. A apuração apontou que o nome da beneficiária não constava diretamente no resumo do contrato, tendo sido identificado por cruzamento com informações públicas.

Esses casos foram apelidados por adversários de “Bolsa Pistolão”, expressão de natureza política usada para caracterizar supostos privilégios no primeiro escalão. Do ponto de vista jornalístico, o núcleo factual está nos valores, nos atos administrativos, nas decisões judiciais, nas justificativas oficiais e na necessidade de avaliação pelos órgãos de controle. O impacto político, porém, é evidente: os episódios atingem o discurso de austeridade, eficiência e moralidade administrativa que a gestão municipal tenta sustentar.

Passivos antigos voltam ao debate eleitoral

Além dos episódios recentes, a trajetória de ACM Neto é frequentemente reexaminada por adversários no contexto pré-eleitoral. O conteúdo-base menciona delações da Odebrecht, questionamentos sobre obras municipais, Fundação Índigo, contratos de empresas com a Prefeitura de Salvador e episódios eleitorais anteriores. Esses temas, por envolverem acusações, reportagens e debates políticos acumulados ao longo dos anos, exigem tratamento cauteloso e distinção entre fatos comprovados, alegações de colaboradores, decisões judiciais e narrativas partidárias.

No campo eleitoral, há registros de decisões envolvendo propaganda e direito de resposta. O Jornal Grande Bahia publicou que decisão do TRE-BA determinou direito de resposta a Luiz Caetano no contexto de publicações relacionadas à eleição municipal de Camaçari de 2024. Em outro episódio, a Justiça Eleitoral de Camaçari concedeu direito de resposta a Luiz Caetano contra conteúdo divulgado por adversários locais.

Esse histórico reforça um ponto sensível para qualquer candidatura majoritária: a comunicação política agressiva pode produzir ganhos de mobilização, mas também aumenta o risco de judicialização, desgaste reputacional e associação com desinformação quando conteúdos são contestados pela Justiça Eleitoral.

Aliança com PL reorganiza a oposição e eleva risco em uma Bahia majoritariamente lulista

A aproximação entre ACM Neto e o PL adiciona outro eixo de tensão. Em 2024, a CNN Brasil informou que Bruno Reis conseguiu o apoio do PL de Jair Bolsonaro em Salvador, embora buscasse evitar associação direta com o bolsonarismo. A estratégia foi descrita como tentativa de unificar a direita baiana sem carregar integralmente a rejeição nacional do ex-presidente.

Em 2026, reportagem da Veja informou que ACM Neto disputaria o Governo da Bahia em uma chapa fechada com o Partido Liberal, com João Roma, ex-ministro da Cidadania de Jair Bolsonaro, em uma das vagas ao Senado, e possibilidade de palanque para Flávio Bolsonaro no estado. A composição sinaliza maior alinhamento da oposição baiana com a direita nacional.

O cálculo eleitoral é ambivalente. A aliança pode fortalecer a mobilização conservadora, organizar palanques, ampliar estrutura partidária e consolidar votos à direita. Ao mesmo tempo, pode dificultar a aproximação com eleitores de centro e lideranças municipais pragmáticas em um estado onde Lula venceu Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022 por 72,12% a 27,88% dos votos válidos, segundo dados de apuração divulgados pelo Poder360 com base nos resultados eleitorais.

José Ronaldo e a memória de 2018

O histórico da relação entre ACM Neto e aliados do próprio campo político também aparece como elemento de cautela. Em 2018, reportagens revelaram que ACM Neto se afastou da campanha de José Ronaldo ao Governo da Bahia após o então candidato declarar voto em Jair Bolsonaro durante debate na TV Bahia.

O episódio permanece politicamente simbólico porque envolve lealdade, disciplina partidária e cálculo nacional em uma disputa estadual. Para aliados regionais, campanhas majoritárias dependem não apenas de estrutura formal, mas de confiança recíproca entre lideranças, prefeitos, vereadores e candidatos proporcionais.

Na prática, o reposicionamento atual ao lado do PL tende a reabrir comparações com 2018 e 2022. Em 2022, ACM Neto assumiu neutralidade no segundo turno presidencial entre Lula e Jair Bolsonaro, enquanto disputava o Governo da Bahia contra Jerônimo Rodrigues.

Soma de casos pode deslocar oposição da ofensiva para a defesa

O risco central para ACM Neto e seus aliados está na acumulação de temas defensivos. O caso Master/Reag atinge a imagem pessoal do ex-prefeito; o contrato da Battre pressiona a vitrine administrativa de Bruno Reis; os cursos custeados com recursos públicos afetam o discurso de austeridade; as questões ambientais desafiam a propaganda urbana de sustentabilidade; e a aliança com o PL recoloca o bolsonarismo no centro da disputa estadual.

Em termos de campanha, a oposição pretendia concentrar a disputa em gestão pública, segurança, infraestrutura, saúde, desenvolvimento econômico e comparação administrativa com o governo estadual. A sucessão de controvérsias, porém, pode obrigar o grupo a responder a questionamentos sobre contratos, consultorias, licitações, decisões judiciais, gastos com o primeiro escalão e coerência política.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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