Na quarta-feira, 01/07/2026, em Salvador, o prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo de Carvalho (União Brasil), participou do encontro “Vereadores com Neto”, realizado no Hotel Fiesta, reafirmou apoio ao projeto estadual liderado por ACM Neto (União Brasil) e confirmou voto no senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para a Presidência da República, deslocando para o centro da disputa baiana de 2026 a tensão entre direita conservadora, bolsonarismo, União Brasil e PT. A declaração provocou reação do governador Jerônimo Rodrigues (PT), que defendeu investimentos estaduais e federais em Feira de Santana e afirmou que a população deve avaliar as escolhas políticas de seus dirigentes.
José Ronaldo assume papel estratégico no palanque de ACM Neto
O encontro no Hotel Fiesta foi organizado como etapa da mobilização estadual de ACM Neto junto a vereadores da Bahia. A agenda ocorreu na véspera das comemorações do 2 de Julho, data de forte simbolismo político no estado, e teve como objetivo ampliar a capilaridade da oposição no interior, segmento considerado decisivo para a disputa pelo Governo da Bahia em 2026.
Nesse ambiente, José Ronaldo ocupou posição de destaque. Prefeito do maior colégio eleitoral do interior baiano, ele atua como uma das principais lideranças municipais do União Brasil e como articulador relevante do campo oposicionista em Feira de Santana e no Portal do Sertão. Sua presença no ato reforçou a tentativa de ACM Neto de reorganizar a base estadual, sobretudo entre vereadores e lideranças locais.
O discurso de José Ronaldo combinou fidelidade partidária, memória política e afirmação ideológica. Em entrevista, o prefeito declarou que mantém sua posição política “até o último dia” de sua vida, afirmou que nunca subordinou suas convicções a interesses pessoais e sustentou que o projeto para a Bahia está no palanque de ACM Neto.
Alinhamento conservador diferencia José Ronaldo na oposição baiana
A declaração mais sensível ocorreu quando José Ronaldo tratou da eleição presidencial. O prefeito afirmou que nunca deixou dúvida sobre sua posição nacional, declarou que “não voto no PT” e citou três alternativas no campo oposicionista: Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Ao final, confirmou que pretende manter a escolha feita em 2022, quando votou em Jair Bolsonaro, e disse que votará em Flávio Bolsonaro.
Esse posicionamento explicita uma linha conservadora de direita mantida ao longo de sua trajetória recente. Diferentemente de ACM Neto, que tem buscado preservar margem de articulação entre setores de centro, direita tradicional e bolsonarismo, José Ronaldo adota postura mais direta: assume publicamente o campo nacional em que pretende atuar e procura enquadrar a disputa contra o PT como eixo de unidade da oposição.
A diferença entre os dois movimentos é politicamente relevante. Enquanto ACM Neto tenta evitar que sua pré-candidatura ao Governo da Bahia fique integralmente condicionada ao palanque presidencial de Flávio Bolsonaro, José Ronaldo sinaliza coerência ideológica diante do eleitorado conservador. Essa postura pode fortalecer a identificação com a direita, mas também amplia o risco de nacionalização da disputa estadual em um estado onde o PT governa desde 2007.
ACM Neto administra pressão do PL e busca preservar amplitude eleitoral
A cautela de ACM Neto não ocorre no vazio. Reportagem do Jornal Grande Bahia registrou que setores do PL baiano resistem a apoiar automaticamente sua candidatura caso o ex-prefeito de Salvador não declare apoio a Flávio Bolsonaro na corrida presidencial. A tensão envolve o equilíbrio entre o acordo estadual com o União Brasil e a exigência de reciprocidade por parte da militância e de lideranças bolsonaristas.
Essa disputa expõe um dilema clássico das eleições majoritárias: a necessidade de conciliar palanques nacionais, alianças regionais e expectativa de base ideológica. No caso baiano, ACM Neto depende da unidade da oposição para enfrentar Jerônimo Rodrigues, mas precisa evitar que a campanha estadual seja reduzida a uma extensão direta da disputa presidencial.
José Ronaldo, por outro lado, não demonstra a mesma preocupação discursiva. Ao reafirmar voto em Flávio Bolsonaro, ele oferece à direita uma sinalização nítida. Para aliados, essa clareza pode ser interpretada como maturidade política e fidelidade a uma linha de pensamento. Para adversários, a fala fornece munição para associar o grupo de ACM Neto ao bolsonarismo, estratégia já adotada por lideranças petistas em manifestações recentes.
Episódio de 2022 volta ao centro da disputa
A presença de José Ronaldo no palanque de ACM Neto também reabre a memória da eleição de 2022, quando o ex-prefeito de Salvador disputou o Governo da Bahia e não escolheu o então aliado feirense para a vaga de vice. À época, a chapa foi formada com Ana Coelho, e ACM Neto acabou derrotado por Jerônimo Rodrigues no segundo turno.
Em maio de 2025, ACM Neto reconheceu publicamente que José Ronaldo era o nome que desejava ter como vice em 2022. Segundo ele, a articulação partidária impediu a escolha, mas o ex-prefeito admitiu que faria diferente e que não pretende repetir a definição tardia da chapa em futuras disputas.
Embora as fontes consultadas não registrem uma frase literal de ACM Neto admitindo “pouca maturidade política”, o conteúdo das declarações indica reconhecimento de erro estratégico, aprendizado e necessidade de antecipar decisões. Nesse ponto, a trajetória de José Ronaldo ganha peso simbólico: o prefeito aparece como liderança que permaneceu alinhada ao projeto oposicionista mesmo após ter sido preterida na composição majoritária de 2022.
Jerônimo reage e desloca debate para obras e investimentos em Feira de Santana
A reação do governador Jerônimo Rodrigues ocorreu durante as comemorações do 2 de Julho, em Salvador. Questionado sobre o apoio de José Ronaldo a Flávio Bolsonaro, o petista afirmou que a escolha faz parte da democracia, mas defendeu que o eleitorado de Feira de Santana avalie qual campo político teria realizado investimentos estruturantes no município.
Jerônimo citou ações associadas aos governos do PT, como saneamento, universalização do abastecimento de água, esgotamento sanitário, duplicação do Anel de Contorno, habitação, Lagoa Grande, Centro de Convenções, fortalecimento da UEFS e o projeto do Hospital do Câncer de Feira de Santana. O governador também afirmou aguardar a definição da contrapartida da prefeitura na unidade oncológica.
A resposta revela a estratégia governista: transformar a declaração ideológica de José Ronaldo em debate sobre entrega de obras, parceria institucional e presença do governo estadual em Feira de Santana. Ao deslocar o foco para investimentos, Jerônimo procura reduzir o impacto do discurso conservador e reforçar a narrativa de que o PT mantém capacidade administrativa no principal município do interior baiano.
Feira de Santana como eixo da disputa estadual
Feira de Santana ocupa posição decisiva no tabuleiro político da Bahia. Além de ser o maior município do interior, exerce influência regional sobre o Portal do Sertão, concentra serviços de saúde, educação, comércio e logística e funciona como vitrine para projetos estaduais e municipais.
Por isso, o alinhamento de José Ronaldo tem alcance que ultrapassa os limites da gestão municipal. Ao assumir voto em Flávio Bolsonaro e reafirmar apoio a ACM Neto, o prefeito conecta três dimensões da disputa: a eleição presidencial, a sucessão estadual e a articulação territorial da oposição.
A movimentação também pressiona o próprio ACM Neto. Se, de um lado, a clareza de José Ronaldo pode mobilizar o eleitorado conservador, de outro, aumenta a cobrança para que o pré-candidato ao Governo da Bahia defina com maior precisão sua posição no cenário nacional. Essa tensão tende a crescer à medida que a campanha de 2026 se aproximar do calendário oficial.







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