Deputado Rosemberg classifica como racista fala de Caiado sobre “alforria” dos baianos e cobra posição de ACM Neto

Em manifestação que repercute nesta terça-feira (28/07/2026), o líder do governo na Assembleia Legislativa da Bahia — ALBA —, deputado estadual Rosemberg Pinto (PT), condenou a declaração do candidato à Presidência da República Ronaldo Caiado (PSD) de que, caso ele seja eleito para o Palácio do Planalto e ACM Neto (União Brasil) conquiste o Governo da Bahia, “o povo baiano vai se sentir alforriado”. O parlamentar classificou a expressão como racialmente ofensiva por remeter ao sistema escravista e cobrou uma posição pública do candidato oposicionista baiano, que declarou apoio pessoal ao presidenciável do PSD. A avaliação de que a fala foi racista corresponde ao posicionamento político de Rosemberg e não a uma decisão judicial ou administrativa sobre o episódio.

Declaração foi feita durante convenção do PSD em São Paulo

Ronaldo Caiado pronunciou a frase no domingo (26/07/2026), durante uma entrevista coletiva realizada antes da convenção nacional do PSD, em São Paulo. Questionado por um jornalista baiano sobre a composição eleitoral no estado, respondeu:

“Com Caiado e ACM eleitos, o povo baiano vai se sentir alforriado.”

Na mesma data, o PSD oficializou Caiado como candidato à Presidência da República e o presidente nacional da legenda, Gilberto Kassab, como candidato a vice-presidente. A ata partidária registra que a chapa foi aprovada por aclamação, inicialmente sem a formação de coligação nacional.

O político goiano havia deixado o União Brasil e anunciado sua filiação ao PSD em janeiro de 2026, formalizando a mudança partidária em março. A convenção de 26 de julho consolidou sua candidatura presidencial e a estratégia da legenda de apresentar uma alternativa própria na disputa pelo Palácio do Planalto.

A declaração sobre a Bahia ganhou repercussão nacional e estadual porque empregou uma palavra historicamente vinculada à relação entre pessoas escravizadas e seus proprietários. Reportagens sobre o episódio também registraram que Caiado já havia utilizado o verbo “alforriar” ao tratar de comunidades do Rio de Janeiro no início de julho, em discurso relacionado à segurança pública.

Rosemberg aponta referência direta ao sistema escravista

Na avaliação de Rosemberg Pinto, “alforria” não constitui uma expressão política neutra, especialmente quando utilizada para se referir à população baiana. O deputado sustentou que o vocábulo pressupõe uma relação de poder na qual alguém concede liberdade a uma pessoa anteriormente submetida à condição de propriedade.

Segundo o Arquivo Nacional, a alforria correspondia à liberdade concedida a uma pessoa escravizada por meio de carta, testamento ou circunstâncias específicas, podendo ser gratuita, comprada ou submetida a condições estabelecidas pelo proprietário. Em diferentes períodos, a concessão dependia da vontade do senhor e poderia impor obrigações que prolongavam relações de dependência.

A interpretação apresentada pelo líder governista é que, ao prometer que os baianos se sentiriam “alforriados” por sua eleição e pela vitória de ACM Neto, Caiado teria assumido simbolicamente a posição de quem concede liberdade a uma população. Rosemberg afirmou que esse enquadramento ganha maior gravidade em razão da formação demográfica e da história social da Bahia.

Censo mostra que 79,7% da população baiana é negra

O Censo Demográfico de 2022 registrou 11.268.655 pessoas pretas ou pardas na Bahia, equivalentes a 79,7% da população estadual. O estado também apresentou a maior proporção de pessoas autodeclaradas pretas do país, com 22,4%, segundo os dados sistematizados a partir do levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — IBGE.

Esse perfil demográfico explica a dimensão política assumida pelo episódio. A Bahia concentra comunidades negras, quilombolas e manifestações culturais diretamente ligadas à história da diáspora africana e da resistência à escravidão. O estado possui ainda a maior população quilombola do Brasil em números absolutos, com 397.059 pessoas, de acordo com o Censo de 2022.

A associação entre a palavra empregada por Caiado e a memória da escravidão, portanto, não decorre apenas de uma interpretação partidária. O termo possui significado histórico objetivo. A classificação da declaração como racista, contudo, permanece no campo da avaliação política formulada por Rosemberg e por outros críticos, enquanto não houver manifestação de autoridade competente ou análise jurídica específica.

Apoio de ACM Neto a Caiado está formalmente declarado

Rosemberg também cobrou explicações de ACM Neto porque o candidato do União Brasil ao Governo da Bahia declarou apoio pessoal à candidatura presidencial de Ronaldo Caiado. A posição foi reafirmada durante a convenção estadual realizada na quarta-feira (22/07/2026), no Centro de Convenções de Salvador.

Na ocasião, ACM Neto afirmou que mantém com Caiado uma relação “histórica”, “antiga” e de “amizade fraterna”, acrescentando que não teria como adotar outra posição na eleição presidencial. Ao mesmo tempo, assegurou liberdade aos partidos de sua coligação para apoiarem outros candidatos ao Palácio do Planalto.

A estratégia permite que integrantes da chapa estadual defendam projetos presidenciais diferentes. Enquanto Neto apoia Caiado, o candidato ao Senado João Roma (PL) declarou que seguirá ao lado do candidato presidencial de seu partido. A composição baiana, portanto, reúne forças que não possuem uma candidatura nacional única, mas compartilham o projeto eleitoral liderado pelo ex-prefeito de Salvador.

Para Rosemberg, a relação política declarada entre Caiado e ACM Neto impede que o candidato ao Governo da Bahia trate o episódio como uma manifestação isolada. O líder governista argumentou que a frase foi pronunciada justamente para apresentar a eventual eleição dos dois como um projeto político conjunto destinado ao eleitorado baiano.

Responsabilidade política não significa autoria da declaração

Embora tenha cobrado uma posição de ACM Neto, Rosemberg não atribuiu ao ex-prefeito a autoria da expressão. A declaração foi pronunciada exclusivamente por Caiado. A cobrança dirigida ao candidato baiano está fundamentada em sua condição de aliado político e apoiador da candidatura presidencial do PSD.

No plano institucional, um candidato não responde automaticamente pelas declarações de seus aliados. No campo político e eleitoral, porém, alianças, manifestações de apoio e participações conjuntas criam vínculos programáticos e simbólicos que podem levar adversários, eleitores e organizações sociais a exigir esclarecimentos.

Até o fechamento desta reportagem, as fontes consultadas sobre a repercussão do episódio não apresentavam resposta pública específica de Ronaldo Caiado à acusação formulada por Rosemberg, nem manifestação de ACM Neto sobre a cobrança do parlamentar. O espaço permanece aberto para a apresentação das respectivas posições.

Antecedente familiar citado exige precisão documental

Em sua manifestação, Rosemberg também relacionou a fala à trajetória histórica da família de Ronaldo Caiado. O deputado afirmou que Antônio José Caiado, antepassado do candidato, teria mantido aproximadamente 100 pessoas escravizadas e concedido liberdade a elas em 1887, pouco antes da abolição formal da escravidão no Brasil.

O número exato apresentado pelo parlamentar não foi confirmado nas fontes documentais consultadas para esta reportagem e, por essa razão, deve permanecer atribuído a Rosemberg até que sejam apresentados inventários, registros cartoriais ou pesquisas historiográficas capazes de comprová-lo.

O verbete biográfico do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas — CPDOC/FGV — confirma que Antônio José Caiado acumulou patrimônio por meio do comércio e da agropecuária, exerceu cargos políticos em Goiás e era antepassado direto de Ronaldo Caiado. A mesma fonte registra, porém, que ele participou da fundação do Centro Libertador de Goiás e do jornal abolicionista O Libertador, em 1885. O documento não informa quantas pessoas escravizadas estavam sob sua propriedade nem menciona uma libertação coletiva em 1887.

Esses registros demonstram que a trajetória do personagem histórico possui elementos que exigem tratamento documental cuidadoso. A existência de riqueza vinculada à agropecuária e a atuação posterior no movimento abolicionista não são informações mutuamente excludentes, mas impedem que conclusões categóricas sejam apresentadas sem acesso às fontes primárias correspondentes.

Chacina do Duro também foi mencionada pelo deputado

Rosemberg citou ainda a chamada Chacina do Duro, episódio ocorrido entre 1918 e 1919 na antiga Vila de São José do Duro, então pertencente a Goiás e atualmente denominada Dianópolis, no Tocantins. O conflito envolveu integrantes da família Wolney, autoridades estaduais, forças policiais e grupos políticos associados às oligarquias regionais.

Relatos históricos apontam que nove homens ligados ao grupo dos Wolney foram mortos enquanto estavam presos durante o confronto entre policiais e homens armados reunidos pelo coronel Abílio Wolney. O episódio também ficou conhecido como Chacina dos Nove e foi posteriormente retratado no romance O Tronco, de Bernardo Élis.

Uma dissertação de mestrado da Universidade Federal de Goiás — UFG — confirma os acontecimentos ocorridos entre 1918 e 1919, mas ressalta que historiadores, memorialistas e escritores produziram interpretações diferentes sobre o episódio, mesmo quando utilizaram fontes semelhantes. A pesquisa alerta, portanto, para a necessidade de distinguir a existência comprovada da chacina das interpretações sobre a responsabilidade política de cada grupo envolvido.

A vinculação direta da família Ramos Caiado ao comando ou à responsabilidade pela morte dos nove prisioneiros integra uma controvérsia historiográfica e política. O contexto de domínio oligárquico em Goiás está documentado, mas a individualização das responsabilidades não deve ser apresentada como consenso sem a análise dos processos, relatórios oficiais e pesquisas especializadas.

Linha do tempo

  • 1885: Antônio José Caiado participa da criação do Centro Libertador de Goiás e do jornal abolicionista O Libertador, segundo o CPDOC/FGV.
  • 1887: Rosemberg afirma que o antepassado de Caiado teria libertado pessoas escravizadas nesse ano; o número e as circunstâncias não foram confirmados nas fontes consultadas.
  • 1918–1919: ocorre o conflito político e armado conhecido como Chacina do Duro, que resulta na morte de nove homens ligados à família Wolney.
  • 27/01/2026: Caiado anuncia sua transferência do União Brasil para o PSD.
  • 13/03/2026: o político oficializa a filiação ao PSD durante evento em Goiás.
  • 22/07/2026: ACM Neto oficializa sua candidatura ao Governo da Bahia e reafirma apoio pessoal a Caiado na disputa presidencial.
  • 26/07/2026: o PSD oficializa Caiado para presidente e Gilberto Kassab para vice; antes da convenção, o candidato afirma que os baianos se sentiriam “alforriados” com sua eleição e a vitória de ACM Neto.
  • 27/07/2026: Rosemberg Pinto classifica a declaração como racista e cobra explicações de ACM Neto.
  • 28/07/2026: o episódio permanece no centro da disputa política baiana, sem resposta específica dos dois candidatos localizada nas fontes consultadas até o fechamento.

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