Escritório do senador Flávio Bolsonaro emitiu nota de R$ 500 mil para empresa ligada a consultoria que recebeu R$ 57,9 milhões do Banco Master

Na quarta-feira (22/07/2026), documentos fiscais e registros empresariais revelados pelo portal Metrópoles e confirmados pelo jornal O Globo mostraram que o escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) emitiu uma nota de R$ 500 mil para a Contábil Correa, empresa pertencente ao mesmo empresário que dirige a Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A., companhia que recebeu R$ 57,9 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025. O parlamentar, pré-candidato à Presidência da República, afirmou que prestou serviços jurídicos regulares à empresa de contabilidade e negou ter recebido recursos da Copenhagen ou participado de qualquer operação vinculada ao banco controlado por Daniel Vorcaro.

Nota fiscal registra serviço de assessoria jurídica

A nota fiscal de R$ 500 mil foi emitida pelo escritório de Flávio Bolsonaro em 9 de abril de 2025, tendo como tomadora do serviço a Contábil Correa Contabilidade e Auditoria, também identificada pelo nome fantasia BR Global. O documento descreve a atividade como prestação de “assessoria jurídica”.

Diferentemente de outros dois documentos emitidos na mesma semana, não há registro de cancelamento dessa nota fiscal. As informações disponíveis indicam a emissão do documento e a contratação dos serviços, mas não demonstram, isoladamente, que o valor utilizado pela Contábil Correa tenha se originado do Banco Master.

A Contábil Correa tem como único sócio o empresário e contador Rogério Lourenço Novo. Ele também aparece nos registros empresariais como diretor da Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A., vínculo societário e administrativo que estabeleceu a conexão entre as duas empresas analisadas nas reportagens.

Escritório emitiu outras duas notas para a Copenhagen

Dois dias antes, em 7 de abril de 2025, o escritório de advocacia havia emitido outras duas notas fiscais, cada uma no valor de R$ 500 mil, diretamente para a Copenhagen. Os documentos, que somavam R$ 1 milhão, também descreviam serviços jurídicos, mas foram cancelados na mesma ocasião.

Flávio Bolsonaro declarou que chegou a negociar uma possível prestação de serviços para a consultoria, mas decidiu não aceitar o trabalho. Segundo o senador, o cancelamento dos documentos comprovaria que o contrato não foi efetivado e que nenhum valor foi movimentado entre seu escritório e a Copenhagen.

“Em outra oportunidade, eu não aceitei trabalhar para essa empresa chamada Copenhagen, que supostamente foi usada por Vorcaro para fazer pagamentos para algumas pessoas. Não foi o meu caso. Eu não quis trabalhar para essa empresa. Cancelei duas notas fiscais.”

O parlamentar não detalhou publicamente por que as notas foram emitidas antes da conclusão da negociação. A emissão seguida de cancelamento, entretanto, não constitui, por si só, comprovação de pagamento ou de irregularidade, especialmente porque os documentos foram anulados e não há, no material divulgado, registro de transferência financeira correspondente.

Flávio Bolsonaro confirma serviço para empresa de contabilidade

Em vídeo publicado nas redes sociais, o senador reconheceu que o escritório prestou serviços jurídicos para a Contábil Correa. Ele classificou a relação profissional como privada, regular e desvinculada do Banco Master.

“Eu fiz um trabalho para uma empresa, fui contratado para isso e prestei serviços advocatícios. Relação completamente legal e privada.”

O senador afirmou ser alvo de uma tentativa de vinculação indevida ao banco e declarou que seu escritório nunca recebeu dinheiro diretamente da Copenhagen. Também sustentou que não tinha responsabilidade sobre as relações comerciais mantidas pelos clientes da Contábil Correa.

A defesa apresentada estabelece uma distinção entre os dois negócios: de um lado, o contrato efetivado com a empresa de contabilidade, que resultou na nota de R$ 500 mil; de outro, a negociação com a Copenhagen, que não teria avançado e cujas notas fiscais foram canceladas.

Contador afirma que houve “quarteirização” de serviços

Rogério Lourenço Novo declarou ao Metrópoles que a contratação do escritório de Flávio Bolsonaro teria ocorrido para atender clientes da Contábil Correa. Ele definiu o modelo como uma espécie de “quarteirização”, pela qual a empresa de contabilidade recorreria a prestadores externos para oferecer assistência jurídica a terceiros.

Questionado sobre quais clientes teriam recebido os serviços, o empresário informou possuir mais de 200 contratantes e afirmou não se recordar, naquele momento, de quem teria sido atendido ou qual trabalho específico teria sido executado pelo escritório do senador.

O contador pediu prazo para consultar as informações, mas, segundo a reportagem, não apresentou posteriormente a identificação dos clientes beneficiados, os processos envolvidos, o período exato da prestação ou os produtos jurídicos entregues.

A ausência desses detalhes não comprova irregularidade, mas mantém sem resposta questões relevantes sobre o objeto concreto do contrato, a proporcionalidade da remuneração e a forma como os serviços de R$ 500 mil foram executados e comprovados.

Copenhagen recebeu R$ 57,9 milhões do Banco Master

Dados da Receita Federal analisados pela imprensa e obtidos no contexto das apurações da CPI do Crime Organizado indicam que o Banco Master repassou R$ 57,9 milhões à Copenhagen entre 2024 e 2025. As datas individualizadas e a natureza detalhada de todos os pagamentos não constavam no material divulgado.

A Copenhagen estava entre as dez empresas que mais receberam recursos da instituição financeira no período. Os pagamentos teriam sido contabilizados como contraprestação por serviços, embora a documentação tornada pública ainda não permita identificar integralmente quais atividades foram realizadas em favor do banco.

A empresa foi constituída em novembro de 2024, na forma de sociedade anônima fechada, com capital social inicial de apenas R$ 40. Seu cadastro empresarial informa atuação no segmento de consultoria em gestão empresarial e endereço em um edifício comercial de São Caetano do Sul, em São Paulo.

Os primeiros aportes do Master à consultoria, que teriam alcançado aproximadamente R$ 11,2 milhões, ocorreram pouco depois de sua constituição. A disparidade entre o capital social declarado e o volume recebido tornou a companhia objeto de interesse das investigações sobre a estrutura financeira associada ao banco.

Estrutura societária envolve fundo administrado pela Trustee

Formalmente, a Copenhagen pertence ao Estônia Fundo de Investimento Multiestratégia, administrado pela Trustee Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários. A gestora aparece em apurações da Polícia Federal relacionadas a fundos e empresas supostamente utilizados para aquisição, movimentação ou ocultação de patrimônio ligado ao grupo de Daniel Vorcaro.

A Trustee declarou que não possuía ingerência sobre as decisões comerciais da Copenhagen nem sobre pagamentos ou negociações firmadas entre a consultoria e o Banco Master. A empresa também negou participação em eventual ocultação patrimonial e afirmou que seus representantes atuaram conforme as regras de governança e compliance.

Antes da entrada de Rogério Lourenço Novo na administração, a Copenhagen era dirigida por Artur Martins de Figueiredo, vinculado à Trustee. Rogério assumiu a direção em setembro de 2025, poucos meses antes do avanço da Operação Compliance Zero sobre diferentes núcleos relacionados ao Master.

Os documentos disponíveis, portanto, demonstram uma cadeia empresarial: o Banco Master repassou recursos à Copenhagen; a consultoria e a Contábil Correa tinham Rogério Lourenço Novo como elo comum; e o escritório de Flávio Bolsonaro emitiu documentos fiscais para as duas companhias. Até o momento, porém, não foi apresentada prova pública de que os R$ 500 mil pagos ou faturados pela Contábil Correa tenham saído diretamente dos valores transferidos pelo banco à Copenhagen.

Caso amplia escrutínio sobre relação com Daniel Vorcaro

A divulgação das notas fiscais ocorre depois de revelações sobre negociações conduzidas por Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Em maio de 2026, o Intercept Brasil divulgou mensagens, áudios, planilhas e documentos segundo os quais teria sido negociado um financiamento de até US$ 24 milhões, valor equivalente a aproximadamente R$ 134 milhões na cotação do período.

A documentação indicaria que pelo menos US$ 10,6 milhões, correspondentes a cerca de R$ 61 milhões, foram transferidos entre fevereiro e maio de 2025 para estruturas relacionadas à produção cinematográfica. O Intercept afirmou que identificou seis operações, além de um cronograma de desembolsos e comprovante bancário.

Segundo a apuração, os recursos teriam sido encaminhados ao fundo Havengate, ligado à produção do filme nos Estados Unidos. Não foram apresentadas evidências de que todas as parcelas previstas no planejamento original tenham sido pagas.

Flávio Bolsonaro reconheceu que manteve tratativas com Vorcaro sobre o projeto, mas negou qualquer ilegalidade. O senador sustentou que a produção era privada, não utilizava recursos públicos e não envolvia contrapartidas políticas ou atuação parlamentar em benefício do Banco Master.

Financiamento do filme é analisado no STF

As possíveis irregularidades relacionadas ao financiamento de Dark Horse passaram a ser examinadas em diferentes procedimentos no Supremo Tribunal Federal. Uma notícia-crime envolvendo os repasses foi redistribuída ao ministro André Mendonça, relator de processos relacionados às investigações sobre o Banco Master.

O procedimento busca esclarecer, entre outros pontos, se valores inicialmente destinados à produção cinematográfica poderiam ter sido empregados em outras finalidades. A Procuradoria-Geral da República foi chamada a se manifestar antes de uma decisão sobre eventual abertura de inquérito ou arquivamento.

Em outra frente, a Polícia Federal abriu investigação sobre a possível destinação de emendas parlamentares a entidades relacionadas à produtora do filme. Esse procedimento está sob relatoria do ministro Flávio Dino e tramita com restrição de acesso.

A existência das apurações não representa conclusão sobre responsabilidade criminal. Os procedimentos ainda dependem da análise das provas, das manifestações da PGR e das decisões dos ministros responsáveis.

Operação Compliance Zero investiga estrutura do Banco Master

O Banco Master está no centro da Operação Compliance Zero, investigação que apura suspeitas de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, corrupção ativa e passiva, organização criminosa, lavagem de dinheiro, fraude processual, violação de sigilo e obstrução de Justiça.

Documentos judiciais descrevem uma estrutura baseada em captação de recursos por meio de Certificados de Depósito Bancário, aquisição de ativos de baixa liquidez, operações com fundos de investimento e possíveis mecanismos de transferência ou ocultação patrimonial.

As investigações foram ampliadas progressivamente para alcançar administradores, operadores financeiros, empresas prestadoras de serviços, fundos de investimento, servidores públicos e agentes políticos supostamente relacionados às operações do conglomerado.

A Copenhagen aparece nesse contexto devido ao volume recebido do banco, à rapidez com que passou a movimentar dezenas de milhões de reais após sua constituição e à ligação com estruturas societárias analisadas pela Polícia Federal.

Até a divulgação das notas fiscais, não havia informação pública de que o escritório de Flávio Bolsonaro tivesse emitido documentos diretamente para essa consultoria. O novo material acrescentou outra conexão comercial às relações anteriormente reveladas entre o senador e pessoas ou empresas associadas ao caso Master.

Atuação de Flávio Bolsonaro como advogado

Graduado em Direito pela Universidade Candido Mendes, no Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro exerce simultaneamente as funções de senador, advogado e empresário. Parte de sua atividade profissional está concentrada em processos no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Segundo o levantamento publicado pelo jornal O Globo, o parlamentar assinou petições em pelo menos dez processos no tribunal. Entre as causas identificadas está um pedido de habeas corpus destinado ao trancamento de ação penal contra dois ex-sócios de Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como “Faraó dos Bitcoins”.

Em outro processo, o advogado atuou na defesa de quatro policiais militares acusados pelos homicídios de quatro homens em uma emboscada ocorrida na favela do Vidigal, na Zona Sul do Rio de Janeiro, em 2020.

A atividade advocatícia parlamentar é permitida dentro dos limites constitucionais e legais aplicáveis, mas contratos de alto valor firmados por agentes detentores de mandato público estão sujeitos a escrutínio sobre eventuais conflitos de interesse, incompatibilidades e utilização de influência política.

Linha do tempo das relações empresariais e financeiras

Novembro de 2024

A Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A. é constituída como sociedade anônima fechada, com capital social inicial de R$ 40 e atividade declarada de consultoria em gestão empresarial.

Entre 2024 e 2025

O Banco Master transfere R$ 57,9 milhões para a Copenhagen, segundo dados da Receita Federal. As datas exatas de todos os repasses e os serviços correspondentes não foram integralmente divulgados.

Janeiro a maio de 2025

Documentos divulgados pelo Intercept indicam pagamentos de aproximadamente US$ 10,6 milhões, equivalentes a cerca de R$ 61 milhões, relacionados ao projeto do filme Dark Horse. O planejamento completo previa até US$ 24 milhões.

7 de abril de 2025

O escritório de Flávio Bolsonaro emite duas notas fiscais de R$ 500 mil cada para a Copenhagen. Os documentos, no valor total de R$ 1 milhão, são cancelados.

9 de abril de 2025

A banca emite uma terceira nota fiscal, no valor de R$ 500 mil, para a Contábil Correa. Não há registro de cancelamento. O senador confirma a prestação dos serviços jurídicos.

Setembro de 2025

Rogério Lourenço Novo assume a direção da Copenhagen. Ele já figurava como único sócio da Contábil Correa, empresa que contratou o escritório do senador.

13 de maio de 2026

O Intercept Brasil divulga áudios e documentos sobre as negociações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro.

9 de junho de 2026

Nova reportagem apresenta planilha, cronograma e comprovante bancário relacionados aos pagamentos destinados ao projeto cinematográfico.

17 de julho de 2026

É divulgado que a Copenhagen recebeu R$ 57,9 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025, apesar de ter sido criada com capital social de apenas R$ 40.

22 de julho de 2026

Metrópoles e O Globo revelam as três notas fiscais emitidas pelo escritório de Flávio Bolsonaro. O senador confirma o contrato com a Contábil Correa, nega ter trabalhado para a Copenhagen e afirma que as operações foram legais e privadas.

A documentação amplia o conjunto de relações comerciais envolvendo o escritório de Flávio Bolsonaro e empresas conectadas, por seus administradores ou estruturas societárias, à rede financeira investigada no caso Banco Master. A existência de notas fiscais, porém, deve ser analisada com precisão: duas foram canceladas, enquanto a terceira registra um serviço reconhecido pelo senador. O material divulgado não comprova, até o momento, que os recursos pagos pela Contábil Correa tenham se originado diretamente do banco.

O ponto que permanece sem esclarecimento completo é o objeto efetivamente executado no contrato de R$ 500 mil. A identificação dos clientes atendidos, dos serviços realizados, dos documentos produzidos e da origem dos recursos utilizados pela empresa de contabilidade permitiria delimitar com maior segurança a natureza da operação. Também cabe às autoridades apurar se houve circulação de valores entre empresas relacionadas ou eventual conflito entre a atuação privada do advogado e sua posição pública.

O episódio importa porque acrescenta uma nova conexão documental às investigações sobre o Master, em um momento no qual Flávio Bolsonaro ocupa mandato no Senado e participa da disputa presidencial. Caberá à Polícia Federal, ao Ministério Público, à CPI do Crime Organizado e ao Supremo Tribunal Federal examinar os fluxos financeiros e distinguir relações comerciais legítimas de eventuais operações irregulares. O acompanhamento deverá concentrar-se na origem dos R$ 500 mil, na comprovação dos serviços jurídicos e nos resultados das investigações sobre a Copenhagen e o financiamento de Dark Horse.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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