Neste domingo (05/07/2026), em entrevista coletiva concedida antes do PGP em Ribeira do Pombal, o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), rebateu declarações do prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo (União Brasil), sobre a regulação estadual de saúde. O governador afirmou ter mantido diálogo institucional com o gestor municipal durante um ano e meio e cobrou da Prefeitura a construção de um hospital municipal na maior cidade do interior baiano.
O episódio aprofunda a tensão política entre o Governo do Estado e a Prefeitura de Feira de Santana em torno da assistência hospitalar, da responsabilidade federativa no Sistema Único de Saúde (SUS) e da oferta de serviços de média e alta complexidade no município.
Governador rebate críticas à regulação estadual
Jerônimo Rodrigues reagiu às críticas feitas por José Ronaldo ao sistema estadual de regulação. Segundo o governador, ao longo de aproximadamente um ano e meio, a relação com o prefeito foi direta, diplomática e respeitosa, marcada por conversas sobre demandas de Feira de Santana e por tentativas de cooperação administrativa.
O chefe do Executivo estadual afirmou que buscou preservar o diálogo institucional, apesar das divergências políticas. De acordo com ele, a possibilidade de aproximação chegou a ser discutida, mas a falta de alinhamento partidário não impediu a manutenção de uma relação administrativa entre Estado e Município.
“Eu me relacionei durante esse um ano e meio com ele, buscando atender as demandas de Feira de Santana. Falei diversas vezes que, se ele pudesse caminhar comigo, seria uma alegria, mas isso não impediu de forma nenhuma uma relação diplomática, educada e amadurecida, sempre de respeito a ele e à história dele”, declarou.
Uso da expressão “fila da morte” é criticado
A reação mais incisiva de Jerônimo ocorreu após José Ronaldo se referir à regulação como “fila da morte”, expressão usada para criticar o funcionamento do sistema estadual de encaminhamento de pacientes. O governador disse ter estranhado a mudança de tom, pois, segundo ele, o tema não havia sido tratado dessa maneira nas conversas mantidas anteriormente entre as duas gestões.
Para Jerônimo, a crítica pública do prefeito contrasta com o ambiente de diálogo institucional que teria prevalecido nos encontros entre Estado e Município. O governador sustentou que não é coerente manter uma postura reservada de cooperação e, posteriormente, adotar linguagem de confronto político sobre o mesmo assunto.
“Ele conversou comigo durante um ano e meio e nunca tratou dessa forma, nunca. Então, não dá para a gente ter duas motivações de relacionamento”, afirmou.
Falta de hospital municipal entra no centro da disputa
Ao responder ao prefeito, Jerônimo também direcionou o debate para a estrutura de saúde sob responsabilidade do Município. O governador cobrou que o grupo político que administra Feira de Santana faça o “dever de casa” antes de atribuir exclusivamente ao Estado os problemas enfrentados pela população no acesso a serviços hospitalares.
A principal cobrança foi a ausência de um hospital municipal em Feira de Santana. Jerônimo destacou que o município é a maior cidade do interior da Bahia e afirmou que essa condição exige uma rede própria mais robusta, capaz de articular atenção básica, urgência, média complexidade e assistência hospitalar.
“Feira de Santana é a maior cidade do interior da Bahia. E Feira de Santana não tem hospital municipal. Então, como é que uma pessoa, um grupo que nunca fez um hospital, abre a boca agora para dizer isso?”, questionou.
HGCA é citado como principal unidade estadual no município
Na resposta, o governador mencionou o papel do Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA), unidade estadual sediada em Feira de Santana e referência regional em atendimentos de média e alta complexidade. Segundo Jerônimo, o equipamento será ampliado para 500 leitos de alta complexidade, medida que, na avaliação do Governo do Estado, reforçaria a presença da rede estadual de saúde no município.
Proposta de cooperação envolveu terreno, recursos e equipamentos
Jerônimo relatou que perguntou a José Ronaldo se a Prefeitura dispunha de terreno para viabilizar um hospital municipal. Caso não houvesse área adequada, afirmou ter colocado à disposição a possibilidade de uso de terrenos estaduais ou de desapropriação de uma área para o projeto.
O governador também disse ter tratado de uma eventual participação financeira do Estado na construção da unidade. A cooperação, segundo ele, poderia incluir parte do investimento, equipamentos e contratualização de serviços, em um modelo destinado a ampliar a capacidade de atendimento do município e reduzir a pressão sobre a rede estadual.
“Eu perguntei: prefeito, o senhor tem terreno? Caso os terrenos do Governo do Estado tenham disponibilidade, podemos usar o terreno ou desapropriar um. Depois perguntei: o dinheiro o senhor tem todo? Posso ajudar de alguma forma, com um percentual do investimento para construir esse hospital municipal? E depois com equipamentos, depois contratualizar serviços. Então, a gente não fica jogando uma hora de uma forma e outra hora de outra”, afirmou.
Relação institucional sofre desgaste político
O episódio evidencia o desgaste na relação política entre o governador e o prefeito de Feira de Santana. Embora pertençam a campos distintos, Jerônimo sustentou que procurou manter o respeito institucional e a cooperação administrativa, sobretudo em temas de interesse público.
A crítica, porém, ultrapassou o campo técnico da regulação e alcançou a forma de relacionamento político entre as duas gestões. Ao usar a expressão “não pode ficar uma hora sentado na mesa e depois cuspir no prato”, Jerônimo acusou o prefeito de adotar, em público, postura incompatível com o diálogo mantido nos bastidores institucionais.
“É só a forma de relacionamento. Eu aprendi isso em casa: quando o negócio não dá, vamos fazer as coisas com a delicadeza que o tempo exige. Mas a gente não pode ficar uma hora sentado na mesa e depois cuspir no prato. Dessa forma eu não concordo, eu não aprendi e não vou fazer política dessa forma”, declarou.
*Nota: Feira de Santana conta com apenas uma unidade hospitalar municipal, com atuação concentrada na maternidade e nos serviços de saúde da mulher. O Hospital da Mulher de Feira de Santana também presta serviços à municípios conveniados.
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